Um espinheiro em meio a tempestade
13 The Past is in the past
Notas iniciais
Com calma, paciência e a ajuda dela, Atsu começou a treinar, todos os dias fazia exercícios físicos e de concentração. Embora não soubessem ao certo o que fazer, o que estavam fazendo aos poucos surtia efeito.
Como os galhos recuavam ou atacavam dependendo do toque dela Atsu só precisava se concentrar e em alguns dias já conseguia sozinho mexer um ou outro galho e inclusive coloca–los para dentro das costas ou expandi–los para fora, e por mais que perdesse o controle ou falhasse era ótimo estarem obtendo resultado.
Todos esse treinamento também servia para aproximar os dois...Conversavam, as vezes se frustavam e quando algo cômico acontecia, riam juntos.
— Ei Atsu...
— Hum?
— Porque você nunca fala do seu passado?
— Meu passado é um ponto fraco meu que não deveria existir, não se preocupe com isso.
Ela fez um muxoxo.
— Mas o seu passado faz parte do que você é e eu queria te conhecer melhor...
Ele ficou em silêncio, ela insistiu, mais silêncio.
— Vamos lá...Por favor...Eu prometo não contar pra ninguém! Nunca!
Ela dizia olhando nos olhos dele e estendendo o dedo mindinho como sinal de promessa. Ele revirou os olhos.
— Tá.
Ela riu e pegou a mão dele dando um jeito de cruzar os mindinhos.
— Eu prometo!
— Então...O que quer saber?
— O que puder me contar...
Atsu suspirou e sentou–se no chão perto de uma árvore.
— Hum...Meus poderes apareceram quando eu tinha 16 anos...
— Como foi? Te assustou muito?
— Sim! Eu sempre pensei que fosse um garoto normal...O primeiro acidente foi em casa...Eu destruí a sala.
Ela sentou–se ao lado dele.
— Sua mãe deve ter enlouquecido.
Ele riu.
— Digamos que sim...Meu pai também, depois do choque eles continuaram normais, o que foi surpreendente, pensei que fossem me odiar. – Ela fez uma careta.
— Nenhuma mãe pode odiar o filho. – Atsu deu de ombros. – Qual o nome dela?
— Midoriku.
— E seu pai?
— Gin.
Ela sorriu e ele ficou em silêncio, parecia pensativo.
— Os meus são Yuuto e Nanami. – Ele a olhou de maneira estranha. – Achei que devia saber...
Ambos ficaram em silêncio por mais alguns segundos.
— C-Como foi quando eles morreram?
Ele abaixou o olhar e mordeu o lábio inferior.
— Meu pai se feriu três vezes nos espinhos, ele acabou vomitando os órgãos...E a minha mãe ela...
Flashback
O garoto de cabelos brancos estava ajoelhado no chão, junto ao corpo de um homem de meia idade em meio a uma poça de sangue, ele chorava sobre o corpo desfalecido do pai.
O corpo do menino tremia e ele respirava com certa dificuldade devido ao aperto imenso no peito, os galhos espinhosos cresciam rápida e violentamente pela casa sem controle. A porta se abriu e uma mulher de cabelos longos e negros entrou, os olhos dela se arregalaram ao ver o estado do esposo ali no chão, lágrimas rolaram, a respiração falhou.
— Gin! – Clamou perplexa, o garoto se alterou tentando explicar o que havia acontecido, ele se levantou bruscamente. – Meu filho...
E ela correu até ele para abraça–lo...Numa reação de defesa os galhos espinhosos se agitaram, um deles perfurou o corpo da frágil mulher atravessando–lhe o tórax.
Sangue, lágrimas, dor...O garoto gritou com todas as forças chamando por sua mãe. Cheios de fúria, descontrolados, os galhos subiram e atravessaram paredes, levantaram o teto, estouraram janelas, destruíram todo o local. A população, assustada, ateou fogo na casa, todos os membros da família foram dados como mortos.
Flashback
Ao terminar de contar ele tinha a cabeça baixa de forma que a franja de cabelos platinados escondia seus olhos e lágrimas rolaram pelo rosto, ela se aproximou também triste e o abraçou por trás passando os braços ao redor do pescoço dele.
— Ela só queria me ajudar, eles eram...Tudo...Porque fiz isso? Porque tenho que ser um monstro?
Ela ficou em silêncio e apertou o abraço, depois de um tempo disse:
— Eu tenho certeza que eles te perdoam...
Atsu respirou fundo tentando se recompor mas era difícil, desde o acontecido ele não havia contado isso a ninguém...Aliás não havia falado com mais ninguém.
— E antes disso, todos os meus amigos, todos em que eu confiei me abandonaram quando viram no que eu me tornei...Se pudesse voltam no tempo não teria confiado em nenhum deles! – Ele disse um pouco nervoso ainda chorando, ela pensou por uns segundos e disse:
— Se a escuridão for te separar das pessoas que você ama...Se a luz do dia parece estar muito longe...Se o seu coração de vidro for quebrar...E se por acaso quiser voltar atrás...Seja forte Atsu! Isso é o que seus pais iriam querer que você fizesse, apesar de tudo, você tem que viver...E você não está mais sozinho agora.
Ele abriu a boca, talvez pra discordar, mas ela estava certa, aquilo o fez chorar ainda mais, tinha sido um fraco até agora, um covarde fugindo com medo, o que seu pai diria se o visse daquele jeito? Ela estava certa, ele tinha que viver e não apenas sobreviver.
Atsu por minutos pareceu uma criança, ele chorou, soluçou, chamou pelos pais e pediu desculpas ao vento por ter sido tão covarde. Yuna não desgrudou dele nem por um segundo, mesmo as vezes sentido uma agitação nas costas dele, como se os galhos espinhosos quisessem sair, ela sabia que ele precisava daquilo e ficou quieta até que ele parasse de chorar.
— Yuna...Se afaste por favor...Vai me machucar.
— Como posse te machucar se estou te abraçando?
Ele virou parcialmente o rosto na direção dela.
— Se eu perder o controle agora...Os galhos vão te matar.
— Tudo bem, eu não tenho medo, você não vai...
— Não quero tirar a vida de mais ninguém, eu nunca quis ser...Um monstro.
— E nunca foi...Nem vai tirar mais vidas...Você não teve culpa do que aconteceu e...Eu posso não ser muita coisa mas, estou aqui.
Passados alguns breves minutos de silêncio, e dessa vez um silêncio confortável, eles se levantaram, o vento gelado soprou forte balançando o vestido dela e bagunçando os cabelos dele.
— Acho que vai chover...
— Sim.
— Então...Estou indo.
— Até, Yuna.
Aquela chuva trouxe belos pensamentos a ela e uma chance de recomeço a ele, é o bom das tempestades, elas lavam toda magoa que possa existir em um coração.
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