Um espinheiro em meio a tempestade
7 O Shin sabe
Notas iniciais
As sete horas Son já estava bem movimentada, a estrada que dava acesso as demais vilas e ao castelo tinha sido desbloqueada e antes que Mishiro ou Orochi pudessem partir, um mensageiro do rei já havia chegado com alguns soldados. Houve uma grande reunião próxima ao rio e quase todos do vilarejo estavam presentes.
— Antes de falar qual foi a decisão do conselho quero dizer que mutantes desse tipo já apareceram em outros lugares, para nós do palácio eles não são tão ameaçadores assim e sabemos muito bem como lidar com problemas do tipo. – Dizia um oficial. – A questão é que eles realmente são um problema maior que os outros mutantes e pelo que ficamos sabendo, esse em especial é bem perigoso, por isso todo o vilarejo deverá ser evacuado e uma represa deve ser construída no lado Leste para isolar uma parte do rio também.
Mishiro pareceu não gostar nem um pouco da ideia e se manifestou.
— Senhor, qual a necessidade de algo assim?
O oficial cruzou os braços a frente do peito.
— Logo alguns galhos chegarão a parte leste do rio e o veneno dos espinhos vai contaminar a água.
Um burburinho de conversas e vozes começou a soar, a constatação de que, de fato, os espinhos eram venenosos gerou comentários de medo e preocupação. O oficial continuou:
— De inicio os efeitos não são tão perigosos, costumam variar entre febre, sede, algumas dores e enjoos, mas aos poucos o veneno corróe os órgãos por dentro e leva a morte. – Yuri e Yuna se entre olharam, atônitas, preocupadas.
— Mas não podem evacuar todo o vilarejo! Há muitas famílias que não tem pra onde ir e nem– Alguém começou a falar mas logo foi interrompido, o oficial montava em seu cavalo.
— Apenas deem um jeito, é ordem do conselho real e quero todo esse lugar evacuado e a água do rio represada até amanhã!!
E ele se foi com seus soldados trotando nos cavalos de pelo escuro e brilhoso do palácio, exibidos!
Yuri e Yuna arrumavam suas coisas, o pai de Yuna era um dos selecionados para ajudar a construir a represa, ambas as famílias ficariam na casa de uma das tias de Yuna, Takane, irmã de Yuuto, que morava em um vila não muito longe dali. Ficaram ocupadas grande parte do tempo e quando Yuna conseguiu dar uma escapada não conseguiu ir ao espinheiro, os soldados reais haviam cercado tudo.
E ela ficou preocupada com ele. Por volta das 15hrs as duas amigas partiram com suas famílias em carroças rumo ao sul, chegariam em poucas horas e ao que tudo aparentava ficariam lá por três ou quatro dias...No meio do caminho o veneno começou a fazer efeito e Yuna começou a vomitar. Vomitava sangue. O desespero foi enorme.
Foi decidido que Yuuto seguiria viagem até a casa da irmã com Yuri e Zarina, Nanami levaria Yuna até o templo, eram os únicos lugares do vilarejo a não serem evacuados. Chegando lá, Nanami ficou esperando numa sala e Yuna foi levada para outro lugar do templo, como não haviam médicos no vilarejo eram os monges que cuidaram dos doentes e feridos.
Yuna parou de vomitar e embora sentisse uma dor horrível não chorou, os monges que estavam no quarto saíram ficando apenas um.
— Se sente melhor? – Ela apenas fez um gesto com a cabeça indicando que sim. – O que te fez ficar assim mocinha?
Ela hesitou, o monge de roupas alaranjadas sentou– se a sua frente.
— Eu sou Shin.
Mesmo com dor ela forçou um sorriso.
— Yuna, prazer.
E tossiu um pouco de sangue nas costas das mãos. O monge calmamente esperou em silêncio, e então, quando o medo de morrer se fez presente, finalmente ela deixou que as lágrimas rolassem.
— Eu fui ao espinheiro.
O monge respirou fundo e acendeu um incenso.
— Por que?
— Queria saber mais sobre os mutantes...E...Descobri que no fundo eles são como nós...
— Somos todos iguais diante de Buda! – Ele disse com a mão estendida na vertical à frente do rosto e os olhos fechados.
— N– Não foi isso que quis dizer Shin.
Ele abriu um dos olhos e deu um pequeno sorriso:
— Eu sei.
— Eu dei comida pra ele e tentei ser amigável, não entendo porque ele fez isso comigo! Eu só queria ajudar!
— O sofrimento é causado pelo desejo, logo isso que você está passando é uma consequência do seu desejo de conhecimento sobre esses seres.
— Eu não quero só aprender sobre ele...Eu quero ajudar ele! Quero ajudar os mutantes!
Mais uma vez ele abriu um dos olhos e sorriu:
— Eu sei. Continue.
Ela tossiu um pouco e respirou fundo demorando alguns minutos para prosseguir.
— Tá bom que eu fiquei meio assustada quando ele disse que tinha matado os próprios pais mas ele é tão enigmático, poderia ter sido um acidente! E eu não poderia condena– lo por isso e nem negar ajuda a um órfão só por ele ser diferente de mim!!
O monge acendeu mais um incenso e voltou a sentar perto dela.
— Devemos ver a realidade como ela é e não como parece ser.
— Mas pode ter sido mesmo um acidente! – Ela exclamou e ele abriu ambos os olhos com um sorriso de canto e respondeu:
— Eu sei.
Yuna revirou os olhos, aquilo estava ficando massante, ela não estava ali pra contar histórias! Estava morrendo de dor e tudo que o monge fazia era sorrir e dizer "Eu sei"...Quem ele achava que era por acaso? Buda? Não devia medica– la ou fazer alguma outra coisa além de cheirar fumaça perfumada? Aquele monte de incensos estavam sufocando– a! Respirou fundo e se acalmou...De certa forma aquilo era necessário.
— Eu não queria causar problema algum mas se eu contasse aos outros antes eles iriam me chamar de louca.
— Devemos viver de maneira não prejudicial.
— EU SEI!!!
Ele apagou os incensos e sorriu calmo.
— Um monge de um templo perto do castelo trouxe uma espécie de antídoto contra o veneno do espinheiro caso precisássemos, você não vai morrer, não se preocupe.
Ela respirou aliviada e ele saiu da sala voltando em poucos minutos com um potinho de barro. Depois de medicada, Yuna deitou– se em algumas almofadas no canto da sala.
— Mas pode ser algo bom eu ajuda– lo não é? Mesmo ele sendo um mutante...
O monge sorriu.
— Sim, tudo aquilo de bom que você faz volta pra você.
Ela sorriu e agradeceu...Minutos depois já estava dormindo e ele a observava.
— Por um lado, como monge eu não deveria apoia– la nessas ideias...Mas por outro, como monge eu também não devo apoiar a situação atual de execução de mutantes e pessoas por aí...Essa garota... Um dia ela trará paz as pessoas desse vilarejo...E aos tão peculiares mutantes também...Eu sei disso.
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