Um empolgante acidente

6 Um par que não se entende... ou talvez sim


Hum. Esquisito.

Neito estreita os olhos quando a Uraraka e o Shishida se afastam, rumando ao corredor que leva para as salas mais privativas de treino do Gym Ganma. Ela parece apressada.

O que é perfeitamente plausível considerando que o evento de combates já é amanhã, todas as equipes formadas estão trabalhando ao máximo que podem, encaixando sessões de treinamento em meio a suas rotinas atribuladas de aulas e estágios. Não é diferente para ele e para o Iida, não é diferente para a o Shishida e a Uraraka.

Mas ainda assim, a forma como ela reagiu quando o viu foi esquisita. Ele nem chegou a falar nada, assim que ela ouviu o Iida chamando-a, notando que eles também estavam chegando para o treino pós-fim de aula da tarde, deu um pulinho de susto e cumprimentou o representante da Turma A com sua amistosidade característica, seus olhos se encontraram rapidamente com os de Neito antes de ela voltar a focar sua atenção totalmente no Iida.

Ela nem ao menos o cumprimentou.

O mais estranho foi quando Neito fez uma breve provocação, nada demais, apenas questionou se ela e o Shishida tinham certeza que queriam treinar em um lugar fechado quando o colega pode destruir paredes com a maior das facilidades, seu colega de turma respondeu que estava tudo sob controle e, caso houvesse necessidade, a Uraraka já estava instruída a imobilizá-lo. Neito deu risada, imaginando a cena em sua cabeça, e comentou que não sabia que a Uraraka possuía inclinações para virar adestradora.

Ela não respondeu.

Ninguém respondeu, na verdade, mas isso já era esperado do Iida e do Shishida. O primeiro é claramente contrário à postura de Neito de provocar e zombar dos adversários na tentativa de desestabilizá-los, mas já não o repreende por isso, ele já deve ter entendido que o loiro não vai parar e prefere focar em ter certeza que ambos operarão de maneira eficiente como uma dupla, brigar somente atrapalharia seus objetivos. Já o Shishida está acostumado, não encara como uma afronta em nível pessoal mas, por mais lamentável que seja, Neito sente que às vezes ele o leva a sério demais, e até pede desculpas pelas vezes em que não cumpre seus objetivos. Não há necessidade, de verdade, o Shishida é alguém de postura admirável, o que lhe falta talvez seja uma certa “irresponsabilidade”. Não no mau sentido, apenas um certo desapego às opiniões alheias, Neito sabe perfeitamente como isso é difícil, mas acredita que seu maior inimigo é somente ele próprio, quem mais o limita e o impede de alcançar seu maior potencial, no fim, é ele mesmo, e o Shishida deveria entender isso para se livrar de seu complexo.

Quem parece compreender muito bem isso de ser seu maior obstáculo é a Uraraka. Se ele sabe das limitações que a individualidade dela possui, é porque ela mesma está sempre comentando com as garotas, segundo ela, sua resistência a enjoos causados pela falta de gravidade aumentou consideravelmente, mas ainda pode atrapalhá-la às vezes, e por que ela fica falando disso pra qualquer um que pergunte a qualquer momento? Fraquezas assim não precisam ser expostas, não que devam ser escondidas também, apenas ocultadas para que possam ser transformadas em blefe no futuro. Pelo menos é como ele age em relação às suas próprias limitações, é o mais inteligente a se fazer, e Uraraka parece inteligente o suficiente.

Ela é inteligente o suficiente também para não dar a mínima para esse comentário e rebater como normalmente faz, então porque ela nem o olha e apenas sorri para o Iida, desejando-lhe um bom treinamento e lembrando o Shishida que eles precisam ir é completamente inesperado!

Ela se ofendeu? Improvável! Ele já a viu se sentindo verdadeiramente insultada por ele, e a reação foi bem diferente. Neito está acostumado com reações inflamadas, até mesmo o Kirishima da Turma A, alguém aparentemente muito tranquilo que não se incomoda com nada em particular a ponto de suportar a presença do Bakugou, demonstra grande irritação com sua postura debochada. Mais que acostumado, é o que Neito prefere e está buscando com seus comentários, não há entretenimento em quem o ignora. O único que faz isso e se safa é o Shinsou, apenas porque ele meio que já é indiferente a praticamente tudo.

Mas a Uraraka não, ela não é indiferente, sempre reage a tudo com seus grandes olhos brilhantes e curiosos e seu par de bochechas rosadas, não tem uma expressão facial que ela não entregue de maneira clara. Se está feliz, está muito feliz. Se está brava, está muito brava. E quando está nervosa, está muito nervosa, era como ela estava quando o olhou por um milésimo de segundo antes de se afastar.

Ora, mas o que foi dessa vez?

Eles não conversaram mais desde aquela confraternização sem propósito nos dormitórios, Neito revisita essas memórias em busca de algo que ele poderia ter dito de tão ultrajante para deixá-la assim, mas não foi nada além do que ele costuma dizer, e ela respondeu à altura, de toda forma. Então qual seria o problema agora?

Ela é tão inconstante! O garoto acha estúpido quando o Tetsutetsu diz que não entende as meninas e que elas são complicadas, não tem nada de diferente nelas que as tornem mais difíceis de entender, isso é ridículo. É o que ele sempre pensou, mas agora talvez que tenha concordar de maneira torturosa, pois a Uraraka é completamente imprevisível, e é honestamente exaustivo ter que se preocupar em escolher suas palavras, já que não sabe quais exatamente a afetam, e principalmente, como a afetam. Garota complicada, ele não gosta de nada que é muito simples, mas também não há necessidade de dificultar toda mínima interação que eles têm. Ela não se cansa? Pois ele está bem cansado a ponto de não querer nem se dar ao trabalho de continuar pensando nisso. O melhor é ignorá-la e voltar a focar em seu treinamento. Logo esse evento vai terminar e as poucas conversas com ela ou com qualquer outra pessoa da turma A se tornarão ainda mais escassas, e isso não fará a menor diferença em seus objetivos e trajetória como futuro herói.

Sim, o melhor é esquecer isso.

Uma pena que não é tão simples quanto ele deseja. Neito segue encucado com isso durante todo o treino, e até o Iida comenta que ele parece distraído.

Distraído por algo que nem está ali, a falta de reação dela sendo alarmante. Neito odeia ser ignorado.

—-

— Porra, tô só o pó. — o Kaibara resmunga antes de se afundar na banheira, fazendo pequenas bolhinhas de ar na superfície.

— Não é muito animador você estar assim antes do confronto de amanhã, Kaibara-kun. — o Shishida observa.

— Ele só tá de drama. — o Tetsutetsu ressurge de dentro da água, balançando os cabelos e jogando gotas para todo lado como um cachorro — Mas a real é que eu tô feliz que esse negócio acaba amanhã! Não sei se ia aguentar mais uma semana treinando sem parar daquele jeito!

— Você e o Kirishima provavelmente se empolgaram no treinamento. — o Honenuki comenta.

— Aposto que você e o Midoriya também, do jeito que aquele lá é bitolado, e você é todo certinho! — o Tetsutetsu joga água na direção do Honenuki, algumas gotas pegam em Neito, que ergue a mão para se proteger — Monoma também, né? Você e o Iida são casca grossa!

— Nós treinamos o suficiente, o Iida-san que fez questão de que não nos extenuássemos para estarmos prontos para amanhã.

— Ele é bem sensato… — o Honenuki analisa.

— Não posso reclamar, embora não tenha nada de particularmente positivo para ressaltar em trabalhar com ele. — Neito dá de ombros — Estou animado para o evento de combates, mas também torço para que acabe logo.

— Nossa, vocês são tão desanimados, eu hein. — o Kosei comenta — Eu acho que vai ser daora! — e se levanta, erguendo o punho em empolgação.

— Você diz isso porque sua parceira é a Tsuyu. — o Tetsutetsu aponta o que Neito planejava comentar.

— Imagino que você não se opôs a nenhuma estratégia que envolvesse tê-la enrolando a língua em você novamente. — o loiro complementa, sorrindo quando o garoto volta a se sentar na água, as pontas das orelhas dele parecem estar pegando fogo de tão vermelhas — Ora, eu estou certo?

— C-cala boca, ô! Você só tá com inveja porque ferrou sua chance de trabalhar com a menina que você é a fim. — ele diz baixinho, quase dentro da água para que Neito não o ouça. É uma cilada, ele não vai cair nessa.

— Haha, então você admite que é “a fim” da Tsuyu?

— Isso daí é óbvio. — para surpresa dele, o Kosei responde bem sério — Eu tenho vergonha daquilo que… daquela história da língua, mas não tenho vergonha de assumir que gosto dela. Você podia fazer o mesmo, já que se acha tão esperto.

— Eu sou esperto. — Neito responde, notando como fecha o punho debaixo da água.

— Soube que você se desculpou com a Uraraka-san, isso somado ao fato de que vocês não continuaram como dupla com certeza foi o mais respeitoso a se fazer. — o Honenuki acena para ele como se estivesse deixando implícito que está orgulhoso dele.

— Pode crer! E pensar que eu quase vi ela aqui também, não sei se ia ter coragem de olhar na cara dela, imagina treinar pra fazer dupla! — o Tetsutetsu diz.

— Talvez ela não se importaria… — alguém diz bem baixinho, e eles olham ao redor pra descobrirem de onde vem a voz, até que o Kaibara dá um grito esganiçado.

— Porra, Kuroiro! Que susto!

— Desculpe… — um vulto negro com cabelos brancos se ergue na água, lembrando vagamente uma cena de um filme de terror.

— Tá, tá, esquece! O que foi que você tinha falado, cara? — o Tetsutetsu pergunta.

— Só disse que algumas das garotas não se importam em serem vistas em seu estado mais natural. Algumas delas até possuem fantasias obscuras nesse sentido… — ele dá um sorriso sinistro.

— Fantasias? — o Kosei questiona, de repente muito interessado.

— Sim, algumas delas gostam de imaginar que estão sendo observadas enquanto estão… sabem… completamente expostas.

— Ih, que papo doido! De onde você tirou isso? — o Tetsutetsu indaga, aparentemente ficando meio envergonhado.

— Eu ouvi elas falarem aquele dia na confraternização.

— Você tava espionando as meninas? Pô, cara, isso daí não é másculo!

— Não foi de propósito… eu estava tentando me aproximar para ver se elas tinham pegado a tigela com as balas de caramelo, me aproximei sorrateiramente e ia perguntar para a Kinoko para que só ela me ouvisse, mas então… escutei a Hagakure-san explicar sobre sua fantasia de ser vista… muitas das garotas pareceram mortificadas com as ideias, já outras…

— E a Uraraka era uma delas? — Neito deixa escapar antes que perceba, sentindo todos os olhares presentes se voltarem para ele.

— Por que quer saber? — o Kuroiro pergunta — Achei que você estivesse tentando dar a entender que não está “a fim” dela.

— Eu posso ter curiosidade sobre isso sem que meus sentimentos estejam relacionados. Eu a vi nua, e todos sabem a confusão que isso gerou, se ela é do tipo que não se importa tanto assim… talvez aquela confusão não teria sido necessária. — ele responde rapidamente.

— “Sentimentos”, hein? — mas o Kuroiro parece ter focado somente em uma coisa de tudo que ele disse — Bom… ela não emitiu a opinião dela a respeito disso… segue sendo um mistério…

— Saber que a Uraraka-san é umas dessas senhoritas que… enfim… — o Shishida se manifesta do nada — Mudaria alguma coisa para você, Monoma-kun?

É uma ótima pergunta. Uma para a qual ele não sabe se tem resposta.

E se ela for? Será que mudou alguma coisa para ela? É por isso que ela o evitou daquela maneira mais cedo?

Realmente um mistério… mas Neito não vai permitir que permaneça assim por muito tempo.

***

Ochako coloca o capacete e acena para si mesma no espelho do vestiário feminino. Ela está relativamente calma, treinou o suficiente e confia muito no Shishida como sua dupla, ele é brilhante e extremamente prestativo, eles podem ter trabalho dependendo de quem forem seus adversários e, mesmo que percam, será oferecendo uma luta à altura. Isso se eles perderem, pra começo de conversa.

Não dá pra escolher quem enfrentarão, mas se pudesse, Ochako gostaria de cair contra o Satou e o Fukidashi, o segundo é um pouco mais imprevisível, mas o Shishida saberia lidar com ele com tranquilidade, deixando-a para lutar contra o Satou. Alguém cuja especialidade é combate em curta distância da mesma maneira que ela e que se apoia inteiramente na força física é o rival ideal para ela, os muitos centímetros de altura que Ochako tem a menos também seriam uma grande vantagem, pessoas muito altas tendem a ser menos ágeis. Com todo respeito a ambos os colegas, mas ela consegue se imaginar vencendo-os sem maiores dificuldades, e tudo que a garota pode fazer é torcer para que a sorte esteja a seu favor e os coloque frente a frente no sorteio.

Há outras duplas que também seriam uma boa como adversárias da primeira rodada, as únicas que ela gostaria de evitar agora são, claro, a Yaomomo e a Kendou, e talvez o Deku e o Honenuki, oponentes duríssimos que estão cotados como finalistas. Mais alguns lhe parecem particularmente problemáticos, mas a verdade é que só há uma dupla a qual Ochako não quer enfrentar de jeito nenhum, e isso não tem nada a ver com as individualidades e capacidades dos membros dessa equipe.

Foi impossível voltar a dormir naquela noite, mesmo que ela estivesse completamente exausta. Ochako sentia o sono tomar conta de seu corpo, mas só de pensar na possibilidade de voltar ao mesmo sonho que estava tendo a fazia arregalar os olhos e se revirar na cama, seus pensamentos retornando ao sonho em questão.

Foi turvo e confuso como a maioria dos sonhos são, e mesmo que não tenha visto nada de muito definido em relação à silhueta observando-a na janela, Ochako apenas sabe quem estava representado ali, só poderia ser a mesma pessoa que chegou a vê-la num estado muito parecido na vida real alguns dias atrás. Deparar-se com ele olhando-a naquele banheiro foi constrangedor, humilhante, errado em diversos níveis, e ambos sabiam disso no momento em que aconteceu. Em seu sonho, porém, ter o mesmo par de olhos observando-a se despir lhe causou um tipo estranho de satisfação, até uma certa… excitação.

Claro que o sonho foi incitado pela conversa que estava tendo com as meninas mais cedo naquela noite, a Tooru expôs um fetiche que provavelmente nenhuma delas havia pensado sobre antes, as reações foram mistas, algumas das garotas ficaram julgando a amiga invisível abertamente, outras se mostraram mais compreensivas, e Ochako… não pensou muito a respeito, levemente envergonhada por ter sido a causadora do assunto, o qual ela só queria que acabasse logo. Bom, acabou, apenas para continuar como um fragmento em seu subconsciente.

Quer dizer que ela está secretamente fantasiando com o Monoma e que tem o mesmo fetiche da Tooru? Não necessariamente. Isso muda o fato de que ela não consegue encarar o garoto quando a primeira coisa que lhe vem à cabeça são os olhos dele fitando-a de uma maneira bastante específica? Não muda.

Por conta dos treinamentos para esses combates conjuntos com a Turma B, ela meio que não estava conseguindo ver muitos de seus amigos, que dirá ver pessoas com quem não tem a mínima intimidade (ou, no caso do Monoma, com quem tem uma intimidade bem grande, embora forçada em ambos pelo acaso?), então estava aparentemente tudo bem, o sonho já esquecido. Foi o que ela pensou até ouvir o Iida chamando-a perto das salas de treinamentos, e não demorou para ela se lembrar com quem seu amigo está fazendo dupla.

Ochako se sentiu gelar ao ver o Monoma com seu típico risinho debochado e olhos caídos, mesmo que fosse impossível já que ela não contou pra absolutamente ninguém, é como se ele soubesse do sonho, e isso a deixou apavorada, incapaz de encará-lo.

Ela não sabe quanto tempo vai levar pra esquecer isso, mas a sensação é de que não dá pra confiar em si mesma em relação a essa história, então, pelo bem dela, do Shishida e do desempenho deles, é melhor que eles não cruzem o caminho do Iida e do Monoma de jeito nenhum.

Um tanto deprimentemente irônico, então, que Ochako cruze com o loiro de olhos liláses no momento em que vira o corredor para se encaminhar ao Ground Beta. Ochako dá um passo para trás, como daria com qualquer pessoa que de repente aparecesse perto demais em seu campo de visão, mas leva um segundo para processar que é ele, e ela só pode torcer que a forma como comprime os lábios brevemente antes de tentar assumir uma expressão neutra não a traia completamente e deixe-o saber o quão nervosa ela está.

— Te assustei? Não era a intenção. — ele balança a cabeça levemente.

— Tem certeza? Parece que sua intenção era assustar quem quer que passasse por aqui.

— Poderia ser, mas minha intenção era falar com você mesmo, então não.

Ele quer falar com ela? Sobre o quê? Será que é sobre o…

— Eu preciso encontrar o Shishida-san, não pode ser depois dos combates?

— Acredite em mim, eu também pensei que seria o mais sensato, não quero atrapalhar a sua ou a minha concentração com isso, mas… percebi que é justamente isso que atrapalha a concentração, então é melhor conversarmos antes.

Ele sabe. Como ele sabe? Ninguém das duas salas possui uma individualidade de leitura de mentes a qual ele poderia copiar, ou… vai ver não foi um sonho? Não, claro que foi! Ela não pode estar pirando tanto a ponto de não saber mais distinguir o que é sonho e o que é realidade!

— Monoma-kun, o que quer que seja, eu- — Ochako balança a cabeça e se prepara para bater em retirada.

— Você gosta de ser observada? — mas ele questiona antes que ela possa.

— O — o quê?

— Me parece uma versão meio distorcida de paranoia, imaginar que tem alguém te observando, mas meio que gostar da ideia. Entende?

— Hã… por que você… o que você quer dizer, Monoma-kun?

— Eu não tenho dúvida de que você ficou realmente horrorizada com a situação do banheiro, então sei que não é esse o caso, mas talvez você tenha pensado no que aconteceu sob outro prisma recentemente, e foi isso que a fez me ignorar ontem. Estou certo?

Ela engole saliva, chocada com a precisão dele. Não dá pra subestimá-lo em nenhuma hipótese quando o assunto é ler linguagem corporal e fazer deduções.

— P- Isso… É… — tem tanta coisa correndo por sua cabeça que Ochako nem sabe o que quer falar — Por que… por que isso importa?

— O quê?

— Que diferença faz pra você… se eu te ignorei ontem? Não tô dizendo que foi isso, mas… por que isso importa pra você?

— Ora, o que você está tentando dizer? — para surpresa dela, agora ele também parece meio acuado — Não importa, claro que não importa, eu só não quero mais uma enorme confusão e todos me olhando como se eu fosse um pervertido caso você voltasse a ficar desconfortável quando está perto de mim! Não é culpa minha se vocês garotas não sabem lidar com suas tendências exibicionistas! — ele dispara, as pontas das orelhas levemente rosadas — Então, Uraraka Ochako, não ouse me ignorar de novo! Ou eu… ou eu vou…

Os dois ficam se encarando, atônitos e até meio arfantes. Apesar de ter sido ele quem a encurralou, o Monoma parece tão desconcertado quanto ela, e de certa forma é reconfortante, ela está acostumado a vê-lo sempre tão confiante, seja sorrindo ou gritando suas provocações de sempre, mas agora, com o garoto calado e com uma expressão que entrega todo tipo de frustração, Ochako descobre que acha esse lado dele um tanto… bonitinho. Ok, muito bonitinho.

E antes que possa raciocinar direito ou sequer entender porque está fazendo isso, ela avança, apertando os olhos com força e colando seus lábios aos dele. É impulsivo, desastrado, os lábios deles não chegam a se encaixar perfeitamente de primeira, o que quase a faz recuar e correr dali, mas o Monoma não deixa, a segura pelos ombros e a mantém ali, inclinando um pouco a cabeça e pressionando sua boca contra a dela com mais firmeza e precisão. Não demora até que ela relaxe os músculos dos braços e retribua o beijo, chegando a dar um breve e baixo suspiro dentro da boca dele, um segundo depois, ele faz o mesmo, e Ochako sente que poderia derreter diante desse som. A sensação de ser desejada e de conseguir perceber esse desejo pela forma como ele desliza as mãos dos braços dela para a cintura a fim de trazê-la mais pra perto é poderosa, toma-lhe como uma onda de adrenalina, e a faz prensá-lo contra a parede e envolvê-lo pelos ombros, amassando o terno perfeitamente alinhado que ele usa como uniforme de herói. Uma parte muito distante em seu cérebro tentando desesperadamente alertar-lhe de que qualquer um pode virar o corredor e pegá-los nessa situação comprometedora (mais uma envolvendo eles dois, quem imaginaria?), mas outra parte dela, mais inconsequente e tomada pelo que quer que esteja apossando-se de seu bom senso, decide que isso não importa.

— Então isso não tem nada a ver com o sonho? — ela pergunta sem ar quando finalmente o solta, segurando-se pra não rir com a expressão de transe abobado em que ele se encontra.

— Que sonho? — ela também não está muito melhor se achou que seria uma boa trazer o sonho à tona justamente para a pessoa que estava no sonho.

— Deixa pra lá. — Ochako decide, beijando-o de novo.

E assim eles ficam até que um alarme que funciona como último aviso ecoe pelo corredor. Tá na hora de lutar, e Ochako nunca se sentiu tão forte e tão fraca ao mesmo tempo.

Notas finais
Pai amado, o tempo que fazia que eu não escrevia uma cena de amassos nervosos hjhdfjhjsjj, que bom que esse poco calou a boca um pouco, né não? HJSHJKS Espero que esteka curtindo! Obrigada por ler! Próximo capítulo (que deve ser o último, acredito) sai em duas ou três semanas!