Um empolgante acidente

8 Um fim (ou um começo)


Existem poucas ocasiões em que Ochako sente que passou completamente dos limites. Ela pode ser meio impulsiva às vezes, dizer coisas que talvez não deveria dizer com tanta casualidade, mas é, em geral, alguém que se esforça para manter a sensatez. Quando optou por não dar vazão aos sentimentos que nutria pelo Deku num já longínquo primeiro ano, ela o fez por saber que nada de bom viria de sair expondo seu coração dessa forma. O Deku era e é seu melhor amigo, vai saber o quanto ela poderia ter estragado essa amizade caso tivesse se confessado, vai saber quantas amizades poderiam ter ruído no processo, pois as coisas com certeza ficariam esquisitas com o Iida, o Todoroki e a Tsu. Não, Ochako manteve a calma e, com o tempo, esses sentimentos se aquietaram. Deku foi seu primeiro amor, e não poderia ter sido ninguém melhor, porque hoje em dia só a faz valorizar ainda mais a amizade e a admiração mútua que eles sentem. Muito melhor do que um namorico que podia ou não ter dado certo e teria deixado-na arrasada caso não desse.

Mas chega uma hora que tanta contenção, tanta necessidade de manter a sensatez acaba por acumular, e Ochako pode não ser uma completa inconsequente que faz coisas sem pensar, mas também não é construída para ser alguém que se segura com tudo o tempo todo. Vai acumulando e acumulando, e uma hora tem que vazar.

Um buraquinho foi aberto aquele dia no banheiro masculino da Turma B. Um acidente que a expôs bem mais do que ela gostaria para uma pessoa completamente improvável. A postura do Monoma diante do ocorrido não foi das melhores, mas olhando agora em retrospecto, o que mais ela poderia esperar? Alguém que expressaria suas mais sinceras desculpas e garantiria nunca mais falar nisso, mas que talvez se lembrasse disso em momentos aleatórios e deixaria a vergonha crepitar sempre que a encontrasse pelos corredores da U.A.? Ou alguém que tiraria proveito do momento?

O Monoma acaba por ser um meio termo entre esses dois, a teimosia em assumir o quanto a situação foi constrangedora e a forma como ele foi se aproximando depois até que a encurralou — figurativamente — contra um dos corredores dos vestiários e a indagou sobre um possível fetiche em ser observada levaram-na à extrema ação de encurralá-lo — aí sim, literalmente contra a parede do corredor e beijá-lo até que respirar se tornasse um desafio para ambos. Uma atitude extremamente impulsiva e imprudente por parte dela, mas considerando tudo o que envolve o Monoma, será que é assim tão absurdo por parte dela?

Ele é bonito, ok. Não é exatamente quem ela teria em mente como modelo de beleza primária, mas sim, ele é bonito. Não só isso, por detrás das risadas maníacas e provocações empavonadas, há um certo charme nos cabelos cuidadosamente penteados, no sorriso de quem acha que sabe demais, e os olhos… Ochako não sabe o porquê, mas sente que as solas de seus pés poderiam se transformar em geleia quando olha pra ele bem nos olhos, ou melhor, quando ela a olha diretamente, quando ele só… fica quieto e a observa de verdade. O que ela vê nos olhos do Monoma é uma mistura de tanta coisa, frustração, confusão, talvez um pouco de raiva e desdém, mas também há curiosidade, fascinação… desejo. E o poder que vem de ser olhada assim é o tipo de coisa que faria pessoas com a mente mais fraca sucumbirem. Ela quer acreditar que não vai, mesmo que nem saiba a quê, exatamente.

Porque apesar de ter se agarrado ao garoto de uma maneira que a deixa escandalizada consigo mesma quando está sozinha e fora daquela nuvem de impulsos que a rodeia, mesmo que tenha feito isso com uma certa frequência nas últimas semanas, mesmo que às vezes, quando está tirando a roupa e de repente imagina que ele está ali lhe assistindo… mesmo que não pareça, Ochako acha que ainda está no controle e que não está fazendo nada que seja assim tããão errado e que uma hora ela vai se acalmar e simplesmente… parar.

E se isso não acontecer, o Monoma vai trazê-los de volta. Por mais passional que ele seja em muitos aspectos, — em muitos mesmo, principalmente em alguns que ela jamais poderia imaginar — a racionalidade e o apego ao que é lógico devem ser mais fortes. Em algum momento, ele vai simplesmente se dar conta de que está de amassos muito nervosos com uma garota da “desprezível” Turma A e vai enxotá-la. E é um conflito de sensações muito estranho, porque ela meio que espera por isso ao mesmo tempo em que não quer de jeito nenhum, mas também é algo com o qual está contando, já que se depender só dela, Ochako não tem a mínima intenção de parar com… o que quer que isso seja.

Não quando é tão… gostoso.

— …e isso conclui o exercício. — o Iida termina de explicar, o que é péssimo, porque ela não prestou a mínima atenção em nada do que ele disse — Entende melhor agora, Uraraka-kun?

— Hã… sim. — ela mente.

— Tem certeza? — ele a observa e ajusta os óculos — Não é o que parece.

Porque não é mesmo. Ela está tentando se concentrar na sessão de estudos que o Iida tão gentilmente fornece, mas é praticamente impossível, e isso se dá por conta do lugar que ele escolheu para a sessão de estudos: a biblioteca.

É o lugar mais apropriado mesmo, os dormitórios também são bons, mas às vezes o pessoal que costuma andar com o Bakugou aparece nesse mesmo horário para jogar videogame na sala, e como não há nenhuma regra que os impeça de fazer isso, a biblioteca acaba sendo o lugar mais certo para não haver quaisquer intervenções de barulho e coisa do tipo.

O único problema é que um pessoal da Turma B teve a mesma ideia e veio no mesmo horário, e Ochako está tendo que lidar com outro tipo de intervenção, que é a sensação do olhar escrutinador do Monoma a poucas mesas de onde ela está sentada.

É desconcertante só de imaginar e, sempre que ela olha um pouquinho por cima do ombro, nota que ele mantém sua atenção totalmente na Kendou explicando o que quer que eles estejam estudando, mas isso não é 100% real, porque as mensagens que ele vem mandando há alguns minutos indicam que o Monoma está bem ciente da presença dela.

Monoma-kun: já faz um tempo que não te vejo com esses shorts

Monoma-kun: se eu não soubesse que é pura coincidência, afinal você é ardilosa mas nem tanto, acreditaria que você colocou esses shorts porque saberia que eu estaria aqui também

Ochako o olha novamente, a cabeça dele segue baixa, atenta ao livro à sua frente.

Monoma-kun: quanta indisciplina

Monoma-kun: o Iida-kun está se esforçando tanto para te explicar, o mínimo que você deveria fazer é prestar atenção

O rosto dela pega fogo, ele por acaso copiou alguma individualidade que cria olhos ao seu redor? Que garoto impossível! Ele é tão irritante! E presunçoso! Simplesmente impossível!

Monoma-kun: acha que vai conseguir se concentrar melhor se nos encontrarmos um pouquinho lá fora?

— Desculpa, Iida-kun. Eu preciso ir ao banheiro, já volto. — ela se levanta com um sorriso desculposo.

—: te vejo daqui a 5 minutos

Ochako deixa o prédio da biblioteca e suspira, afastando as mechas de sua franja da testa. Toda essa situação lhe deixa tensa e culpada, como se ela estivesse fazendo algo de muito errado com seus amigos, mas também com ela mesma.

E só piora quando ela sente aquela pontada no peito ao ouvir um barulho vindo de trás dela.

— Eu disse cinco minu- — ela se corta quando vê que não é o Monoma. É alguém um pouquinho mais alto, que com certeza ganha uns centímetros a mais por conta de seus cabelos roxos e volumosos, ela se surpreende em vê-lo logo atrás dela porque acabou de deixá-lo na mesa junto de seus amigos que ainda estão estudando — Oh, Shinsou-kun! Desculpa, eu…

— Achou que fosse outra pessoa?

— Hã, eu… não, não. Eu só… saí pra tomar um ar e… tava conversando sozinha.

— Ok.

— E… e você? Achou que eu fosse… outra pessoa? — ela tenta usar a pergunta dele para disfarçar.

— Não, só saí pra pegar água no bebedouro ali perto do pátio. A água daqui de perto é muito gelada, não faz bem pra minha garganta.

— Entendi. — ela acena com a cabeça.

— Pode ficar tranquila, não tô aqui pra empatar nada.

— Empatar?

— É, não tem porque eu me meter nisso. Você é legal e parece se virar bem com ele, então sei lá. — ele dá de ombros — Só… toma cuidado, ele parece saber o que tá fazendo, mas não tem nenhuma noção.

Ochako poderia se fazer de sonsa, fingir que não tem a menor ideia do que ele está falando, ou melhor, de quem. Mas isso seria ofender a inteligência do Shinsou, alguém de quem ela pode não ser necessariamente melhor amiga, mas um garoto com quem Ochako gosta bastante de conversar e considera como um bom amigo, mentir pra ele só parece estúpido e desonesto.

— Isso soa como se você não quer que eu o magoe, Shinsou-kun.

— Digamos que sim. Ele pode ser ridículo e irritante, mas é meu amigo, alguém em quem eu confio, e consigo ver que ele não sabe lidar com o que quer que vocês estejam fazendo juntos. Então, por favor… — ele não conclui o pedido, apenas acena com a cabeça e põe as mãos nos bolsos da calça, afastando-se e deixando uma Ochako bastante perplexa.

Não porque o Shinsou percebeu, não porque isso pode significar que mais pessoas perceberam, não porque ela não sabe como explicar o que está acontecendo entre eles caso alguém pergunte. O que a deixa aturdida é a noção de que essa loucura toda afeta o Monoma tanto quanto à ela.

Ele não deixa transparecer, não fosse pelos beijos calorosos e carícias que trocam regularmente, ela diria que nada mudou na forma como o loiro lhe trata. Ele segue debochado, sempre fazendo comentários cuja intenção é única e exclusivamente gerar alguma reação mais acalorada dela, uma que penda mais para raiva. Assim que eles se desgrudam, ele limpa a garganta, ajeita os cabelos que ela desalinhou talvez por acidente, e confere o lugar em que estão para ver se é seguro voltarem aos dormitórios ao mesmo tempo. Tudo muito prático, tudo muito simples, e isso só a deixa ainda pior na sensação de que está enlouquecendo enquanto que, para ele, parece apenas rotina se esfregar nela de maneira que beira a indecência e voltar aos afazeres do dia logo depois.

Mas o Shinsou disse que o Monoma também está perdido e, mais uma vez, é impossível duvidar do que o garoto de cabelos roxos diz, ele não tem porque mentir e, mesmo se tivesse, Ochako imagina que ele não teria a mínima vontade de fazê-lo. Dizer a verdade é sempre menos trabalhoso para ele, então não é mentira. Tudo isso, o que quer que seja, é tão confuso pro Monoma quanto é pra ela.

Ele só é melhor em não demonstrar, tão bom em blefar como sempre foi.

Mas isso não lhe conforta nem lhe alivia, muito pelo contrário! Se isso também é maluco demais pra ele, por que não diz nada? Por que não usa toda a lógica e racionalidade das quais ele é tão fã e só… faz ela se soltar dele para que os dois parem por um segundo e pensem nisso direito? Ele gosta de deixá-la doida, é isso? É prazeroso vê-la se contorcer em vergonha e desespero sempre que sente o olhar dele pairando sobre ela?

É a cara dele, e Ochako não duvida disso. Por mais “perdido” que ele esteja, dá facilmente pra imaginar como o garoto se sente numa posição um pouco superior porque, diferente dela, ele está consciente que essa loucura vai parar eventualmente.

Bom, agora ela também está. Mas não é justo só chegar a essas conclusões dessa forma e não lhe dar a chance de conversar sobre isso. Essa sandice vai acabar um dia, mas não pode ser completamente do nada assim, ou até poderia, porém ela não sentiria que houve um fim propriamente dito.

O que não dá é continuar se esgueirando por aí com ele, essas escapadinhas, por mais insanamente empolgantes que sejam, são erradas e a fazem se sentir como se estivesse enganando seus amigos, não é certo, é algo em que ela realmente passou dos limites.

Então, quando ele aparece atrás dela, Ochako não se joga nele sem dar-lhe qualquer chance de abrir a boca, — pelo menos não para falar — ela o encara firmemente e se mantém onde está, a uma distância respeitável dele.

— O que foi? Não gostou das mensagens? — ele questiona, os olhos com aquele brilho petulante de sempre.

— A gente precisa… não sei. A gente precisa dar um jeito nisso.

— Nisso o quê?

— Nisso. — ela aponta vagamente para ele e para si mesma — Eu não… eu não acho que dá pra continuar assim.

— Hum. — ele a considera, medindo-a de cima a baixo — Está se sentindo culpada?

— Um pouco… — ela admite — M-mas não porque… não porque é você! Q-quer dizer, um pouco porque é você, mas-

— É vergonhoso demais, não é? Ficar se agarrando pelos cantos a alguém que você publicamente rechaçou por ter se recusado a pedir desculpas em ter te visto nua.

— N-não…? Não é por causa disso, eu não… — ela franze o cenho — Eu não tenho vergonha de você, se é o que você tá querendo dizer.

— Não foi a palavra que eu usei, mas se você disse isso, acho que confirma o meu ponto. — ele sorri — Sem problemas, Uraraka, vamos encerrar… isso. — e gesticula da mesma maneira que ela fez.

— Monoma-kun, não é-

— O Iida vai se preocupar, volte logo. — a voz dele soa atipicamente baixa, não há nada daquela provocação. Na verdade, não há nenhuma emoção.

Ochako não sabe o que dizer, ela estava aqui dando seu melhor para não ir tirando conclusões precipitadas em relação a ele, em não achar que tudo isso é uma grande piada interna dele com ele mesmo, e nem sequer cogitou que ele estaria tirando suas próprias conclusões precipitadas também, acreditando que todo o pânico que ela sente em relação à essa situação é porque não suporta a ideia de estar atraída por ele.

Isso é tão… ok, é de se esperar que ele seja tão inseguro, as pessoas mais barulhentas costumam ser mesmo, mas daí pra achar que ela só está… usando-o para uns amassos porque é gostoso desde que seja escondido? Ele claramente não sabe absolutamente nada sobre ela!

Ela passa por ele sem olhá-lo nos olhos, constrangimento e irritação por esse garoto que se acha muito esperto, que pensa que consegue lê-la como se ela fosse um livro infantil, mas não entende de nada sobre ela e sobre seus sentimentos.

E é só depois de muito tempo, depois que a sessão de estudos acaba e ela já está de volta ao seu quarto, preparando-se pra dormir, que ela percebe que o problema não é só ele.

Ochako também não conhece o Monoma de verdade, nem ao menos se esforçou pra isso.

No fim, dá pra ver qual fio de lógica ele seguiu pra chegar a essa conclusão.

***

— Algum incidente com monstro de gosma de novo? — a Setsuna se apoia contra a porta de entrada do dormitório da turma e sorri.

— Haha, não dessa vez. — Ochako dá uma risada sem-graça — Hã… o Monoma-kun tá por aí?

— Hum… — ela parece pensativa — Eu não lembro de ter visto ele de manhã… mas por quê, hein? O que ele andou aprontando?

— Oh, nada! Eu só… precisava falar com ele. — já que o garoto anda ignorando suas mensagens e a única alternativa que lhe restou foi tentar encontrá-lo no dormitório no fim de semana.

— Falar com quem? — outra voz feminina surge de dentro da sala, Ochako reconhece como sendo a da Kendou.

— Você viu o Monoma por aí? — a Setusuna pergunta.

— Hum… ele ia acompanhar a Eri no dentista hoje, se eu não me engano.

— A… Eri-chan? Ele? — Ochako não consegue conter a surpresa.

— É, às vezes o Aizawa-sensei tem algum compromisso, então ele pede pra ele ou pro Midoriya-kun.

— Ah, o Deku-kun teve que voltar pra casa esse fim de semana… — ela reflete — Bom, então… ele tá ocupado.

— Eles saíram de manhãzinha, logo já devem estar de volta, ele disse que era só uma consulta de rotina, mas ela fica nervosa de ir sozinha, deve trazer… sabe, lembranças, por ser num consultório e tal.

— Sim, eu… eu imagino. — Ochako lamenta — Enfim… desculpe incomodar, meninas, eu vou- — e assim que ela dá meia volta para se retirar, encontra o garoto em questão de mãos dadas com a Eri, ambos olhando-a curiosamente.

— Oh, olha ele aí. — a Setsuna vocaliza o que é óbvio — Ela tava te procurando, Monoma.

— Hum… — ele a analisa, e depois volta sua atenção para a Eri. Mesmo se quisesse conversar com Ochako, e ela imagina que ele não quer, seria impossível com a garotinha aqui.

— Ah… oi, Eri-chan!

— Uraraka-san, tudo bem? — ela cumprimenta educadamente — Ela também é minha amiga. — e informa ao Monoma.

— Ah é, você é muito popular, hein? Assim eu fico com inveja. — ele dá um sorriso zombeteiro, mas não é nada como ele costuma fazer. O garoto está brincando com a Eri, e é qualquer coisa de adorável como ela ri pra ele.

— Como foi no dentista, Eri-chan?

— Tudo bem! Ele disse que eu só preciso comer menos maçã do amor.

— Não deve ser assim um problema tão grande se você escovar os dentes três vezes por dia, né?

— E passar o fio dental. — o Monoma complementa para Ochako, nem ao menos olhando pra ela.

— Uhum. — ela acena com a cabeça, olhando para ambos atentamente.

— Hã… Monoma-kun, você já terminou com ela? — a Kendou intervém.

— Sim, só estou levando-a de volta ao prédio principal, mas passei aqui para vocês falarem oi pra ela.

— Maravilha! Eu tava doida pra brincar com você, Eri-chan! — a ruiva diz animadamente e se aproxima, estendendo a mão — Entra aqui que eu quero te mostrar uma coisa bem legal!

— Kendou, eu não-

— Eu levo ela de volta, se você… ainda não tiver acabado. — a maneira como ela olha pra Ochako faz suas bochechas arderem em vergonha — Só vai logo.

E antes que ele possa fazer qualquer objeção, a Eri aceita a mão da Kendou e dá tchauzinho pra eles, a manipuladora de gravidade não poderia estar mais grata por essa ajuda, até onde ela imagina, acidental.

— Com todas as mensagens que eu não respondi, achei que você teria entendido. Imagine se fosse o contrário. — é a abertura nem um pouco positiva dele.

— Bom, se fosse o contrário, eu teria pelo menos te dado uma chance de se explicar. Eu fiz isso da outra vez. — ela balança a cabeça levemente antes que ele aponte algo — Pode não ter sido de primeira, mas… ainda assim.

— Muito bem. — ele parece considerar — Explique-se então.

— Eu… não sei o que eu tô sentindo. Pensei muito, mas ainda não sei. O que eu sei é que não, não tem nada a ver com essa idiotice de Turma A contra Turma B, isso é bobeira só sua.

— Ei, isso-

— O que eu também sei é que você me irrita na maior parte do tempo, mas… tem algo em você… que desperta um lado meu… que… — ela respira fundo — Um lado meu que eu não conheço direito. Mas… isso não é só sobre mim, e… a verdade é que eu não te conheço direito também, e esse foi um grande erro meu, eu nem tentei, só… me deixei levar pelo… não sei. Então… me perdoe, Monoma-kun, eu sei que eu não tava te usando, mas não dei nenhum sinal pra você pensar diferente, e por isso eu sinto muito mesmo. — ela se curva diante dele com as mãos apoiadas nos joelhos, erguendo a cabeça levemente depois de alguns segundos de chocante silêncio dele — Por favor, fala alguma coisa.

Mais chocante ainda é a expressão de completa surpresa dele.

— Eu… — ele olha para os lados, como se estivesse procurando reforços para lidar com isso — Você está se desculpando?

— Diferente de você, eu deixo bem claro quando tô me desculpando, então sim.

— Então você não…? Não sente vergonha de nada que nós…?

— Eu sinto, mas não do jeito que você tá pensando. Eu não disse nada que explicasse o que a gente vinha fazendo, não te perguntei nada, não chequei se tava tudo bem, fui muito irresponsável, e acho isso bem vergonhoso. Não é como eu costumo agir, e… não quero me justificar, mas… tem algo na nossa… situação de antes e… no jeito que você me trata que me faz… não sei. Não sei mesmo, mas sinto muito, não é sua culpa. — ela ergue a coluna — Enfim… só queria que você soubesse disso, desculpe pela confusão que eu criei e obrigada por me ouvir.

Ela sorri, sentindo como se tivesse acabado de usar sua individualidade em seus ombros, se isso fosse possível. Ochako ainda não tem certeza de seus sentimentos em relação a esse garoto, não é algo tão bem definido quanto era pelo Deku, envolve outras coisas que ela não é capaz de definir, mas… o que importa é que o deixou ciente de que não estava tentando magoá-lo de propósito. Ele acreditar nisso é a única coisa que Ochako não poderia aceitar de forma nenhuma.

— Uraraka, espere. — ele a detém antes que ela possa se retirar — Eu… também não sei.

— Não sabe?

— O que eu sinto por você? Não tenho a mais remota ideia. — ele ergue as mãos levemente, como se estivesse se rendendo — Você me deixa louco, e pode entender isso como uma reclamação ou como uma… constatação admirada. Eu não confio em mim mesmo com você por perto.

— Oh… é, isso eu entendo bem. — ela responde, satisfeita com a maneira dele de definir um sentimento que ela partilha, só não sabe como explicar.

— Sim, então… o mais lógico seria pararmos com o que estávamos fazendo, não era… a maneira mais saudável de lidar com nossas… hã… com o que estamos sentindo.

— Sim. É melhor pararmos.

— Isso. É melhor.

— Uhum.

— Sim.

Os dois ficam se observando, a leve brisa de verão batendo em seus cabelos e roupas, Ochako tem mais coisa pra fazer, mas segue aqui parada, sabe-se lá o porquê.

— E talvez… nós possamos começar algo diferente? — ele sugere.

— Diferente?

— É, algo que siga o que é mais convencional. Nós… meio que fizemos tudo ao contrário.

— Você tá tentando me… chamar num encontro?

— Ora, isso não é- — ele cora — Sim. Vamos tentar isso.

— M-

— Se você quiser. — ele suspira — Ugh, o Shinsou estaria rindo de mim se ele me visse agindo de maneira tão patética, mas enfim, é sua decisão, de toda forma.

— Eu não acho patético. Ele não acharia também.

— E então?

— Oh, o encontro? — ela acena com a cabeça — Sim, vamos tentar.

— Tem certeza? Não quero ouvir reclamações depois.

— Bom, aí eu não sei. — ela diz de maneira dramática, fazendo-o dar uma risada seca — Vamos começar de novo, Monoma-kun.

— Sim, vamos. — ele sorri, o sorriso mais genuíno que ela já viu no rosto dele.

Não lembra em absolutamente nada a expressão que ele tinha no dia do acidente no banheiro. Ele parece mais confiante agora, mas há uma certa cautela e uma doçura cálida que são inéditas, nada a ver com o que ela tá acostumada. Mas assim como o viu interagindo com a Eri, assim como notou as muitas nuances que ele pode possuir, Ochako sente que há mais para descobrir, um tipo de nudez que não está embaixo das roupas, vai além.

E ela não vê a hora de despi-lo nesse sentido.

Notas finais
Whew... acabou! Huhuhjsajk Muito que bem, eu amo o Monoma e isso não deve ser novidade pra ninguém que acompanha minhas fics, monochako é meu rarepair favorito, e é basicamente isso que me motivou a escrever essa história. É uma grande fanfic com coesão e coerência suficientes? Provavelmente não. Mas não há muitas fics monochako por aí e eu tenho a esperança de que a minha vai inspirar mais e mais escritores a fazerem obras melhores sobre eles... então é isso djhjsdkjsdj Espero que tenha curtido! Obrigada por ler, por comentar e por sempre me apoiar tanto, significa muito pra mim!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!