Um empolgante acidente
5 Um único sonho
O dormitório está um verdadeiro caos, é o que Neito conclui antes mesmo de passar pela porta, ele apenas ouve o burburinho lá de dentro e já sabe o que vai encontrar: as duas turmas reunidas na sala de convivência.
Que ótimo.
— A Kendou-san me notificou de que teríamos uma pequena confraternização entre as turmas já que estamos todos trabalhando juntos nos últimos dias. — o Iida explica, e é, Neito também foi avisado da tal confraternização, ele só não sabia que seria tão cedo.
— O mais correto não seria fazermos isso depois dos exercícios de combate?
— Creio que sim, mas a Kendou-san apontou que não há porque não nos reunirmos antes, de toda forma.
— Ela disse isso, mas provavelmente a ideia foi um consenso entre as meninas das duas turmas. — ele suspira — Bom… não há necessidade de me fazer companhia, Iida-san, somos uma dupla apenas no torneio, pode ir se juntar a seus amigos, se achar mais conveniente.
— Claro, apenas queria ter certeza de que você compreende a importância de manter a cordialidade, mesmo que estejamos diante de potenciais adversários. Ainda não sabemos quem enfrentaremos, mas eu gostaria de evitar oponentes particularmente determinados a nos derrotarem por motivos pessoais que você pode ter criado.
— Ah, então é isso? — ele dá uma risada seca — Você é mais pragmático que eu imaginava, Iida-san.
— Eu também quero relaxar um pouco depois dessa longa e extenuante semana de treinos e preparações que tivemos.
— Claro, claro. Não se preocupe, não farei nada que colocará um alvo em nossas testas. Acredite você ou não, eu não estou muito no clima de criar confusão, foi mesmo uma semana muito longa.
— Bom… que bom. — ele responde, aparentemente sem saber o que responder.
— Sim, muito bom. Então… fique à vontade. — Neito abre seu sorriso mais cortês e aponta na direção de onde está a mesa com a comida servida.
— Vocês estão se dando surpreendentemente bem. — o Shinsou comenta assim que o Iida se afasta.
— Eu não diria isso, sinto que ele está apenas me usando pelos meus amplos conhecimentos, mas não tem nenhum interesse genuíno em minha amizade e pessoa. — ele leva a mão ao peito em um lamento fingido.
— Que é o jeito certo de lidar com você.
— Pois é, você optou por ser meu amigo, não foi uma estratégia tão inteligente assim.
— Eu posso sempre parar de ser seu amigo, então.
Os dois dão uma risada seca, quem olha de fora pode pensar que isso é uma discussão séria, talvez até uma briga, mas é a forma como Neito e Shinsou conduzem sua amizade há quase mais de um ano. O garoto de cabelos roxos pouco se importa com os comentários mais ácidos dele, sempre respondendo à altura ou tratando-o com indiferença, o que o faz acreditar que ele não se sente particularmente incomodado e, dessa forma, o encoraja a continuar. É divertido, e Neito tem certeza que o Shinsou também acha.
— Mas você não vai, tenho a impressão de que você adora minha companhia pois te faz sentir moralmente superior. Você não tem muitos amigos por aí a quem defender quando eles fazem uma grande besteira. — Neito abre um sorriso diante da cara de confusão de seu amigo — Eu sei que você foi falar com a Uraraka.
— Ah, aquilo… — quase chega a parecer que ele realmente se esqueceu, o loiro duvida muito — Eu nunca a vi tão brava, não estava tentando te defender, só queria tranquilizá-la um pouco.
— Mas você não pode negar que a fez me ver com outros olhos.
— É possível que ela tenha entendido assim, mas eu… enfim. — ele dá de ombros.
— Como vai seu trio? — Neito decide poupá-lo já que o Shinsou está claramente constrangido, os dois avançam pela sala.
— Minhas companheiras são a Komori e a Ashido, como você acha que vai?
— Caótico, para dizer o mínimo. — ele ri — Elas te deixam falar em algum momento?
— Em alguns, o suficiente para definirmos estratégias.
— Oh, sério? Mal consigo imaginar.
— O que não te impede de tentar, tenho certeza que você já tem planos específicos contra todas as equipes, o Iida quer muito ganhar, então deve estar te incentivando. Vocês são uma dupla problemática.
— Veja pelo lado bom, eu seria bem mais problemático com a Uraraka.
— Vocês passariam mais tempo tentando resolver essa tensão mais ou menos sexual, então não, acho que não.
— O que isso quer dizer? — ele o observa com mais atenção.
— Você não queria realmente desfazer a dupla com ela. — o Shinsou olha pro lado em busca de possíveis curiosos a ouvir a conversa deles, e então olha para a Uraraka, parada próximo à bancada da cozinha conversando com a Yaoyorozu e o Shishida animadamente — Tenho a impressão que ela também não queria.
— A impressão, hein? — é o que ele questiona com um tom levemente sarcástico, mas por dentro Neito está bastante surpreso. Ele não duvida nem um pouco do Shinsou, sabe que o amigo faz leituras bastante precisas sobre as pessoas, se ele diz isso, é porque a Uraraka realmente deve ter dado esse sinal de alguma forma, o que é bastante intrigante. A raiva toda dela sobre ele querer trocar de dupla não era pelo fato de ele se mostrar orgulhoso demais, mas sim porque era a dupla que ela queria? Isso não faz muito sentido, mas sendo a Uraraka, é perfeitamente plausível.
— E eu digo tensão “mais ou menos” sexual porque você a olha de um jeito muito desconfortável, que fique bem claro.
— Não olho.
— Tá olhando agora.
— Me poupe. De toda forma, não somos uma dupla, então quaisquer que sejam suas… opiniões, pode guardá-las para você.
— Foi você que perguntou, mas pode ficar tranquilo, não tenho porque ficar comentando com ninguém que você é meio aficionado nela. — ele dá de ombros — Se estiver com fome, melhor ir comer logo, antes que acabe.
Neito o encara, sabendo que o Shinsou está esperando que ele pergunte se os dois comentários estão relacionados, de alguma forma. O loiro não dará essa satisfação a ele, então apenas agradece, pedindo que o amigo guarde um lugar para ele se sentar depois que se servir.
— Monoma-kun, você demorou. — o Shishida comenta quando o vê se aproximar da mesa de comida.
— O Iida-san está bastante empenhado, não duvido que eles estejam treinando até muito tarde. — a Yaoyorozu aponta.
— Eu o segurei até um pouco mais tarde hoje, na verdade. — ele explica, não querendo deixar a impressão de que o “líder” da dupla é o Iida e quem decide os horários seria ele.
— Entendo… bom, que bom que vocês estão se entendendo. Eu confesso ter ficado um pouco preocupada quando o Iida-san se ofereceu para trocar as duplas naquelas circunstâncias. — não parece um comentário maldoso, então Neito segura a língua, também porque sente o olhar da Uraraka nele por um segundo — Mas se tudo está bem, então está bem.
— Claro, e como vão suas duplas? Yaoyorozu-san, você deve estar bem contente, não? A Kendou é o que há de melhor em nossa turma, vocês são a dupla mais temida.
— Ah, eu pessoalmente não acredito que criar expectativas assim seja benéfico para as outras equipes, quanto menos para nós duas, mas estamos nos preparando também e não queremos perder. — ela diz firmemente.
— Você tinha que falar “não vamos perder”, Yaomomo. — a Uraraka sugere — Passa ainda mais firmeza.
— Oh… é verdade. Mas me pareceu um tanto pretensioso.
— O ponto é esse. — Neito retruca — Humildade não intimida ninguém.
— É por isso que você é tão arrogante? — Uraraka pergunta e, ao olhar pra ela, ele percebe que a pergunta saiu mais rápido do que a capacidade dela de pensar se deveria ou não perguntar. Os olhos dela estão arregalados, como se ela tivesse sido pega em flagra, lembra vagamente a expressão que ela fez quando…
Não, não é algo a ficar se pensando.
— Precisamente. — ele responde, sorrindo — E vocês dois? Vão bancar os humildes ou sentem que têm algo interessante o suficiente para se gabarem por aí?
— Monoma-kun, isso é — — o Shishida tem um tom levemente paternal, como se estivesse prestes a lhe advertir.
— Até parece que a gente vai te contar. — mas Uraraka mais uma vez responde mais rápido.
Ora, ela é bem parecida com o Shinsou nesse aspecto de responder ás grosserias dele com a mesma acidez.
Ok, na verdade não, Uraraka é um pouco mais charmosa.
***
Ochako adoraria descobrir o que se passa consigo mesma quando o Monoma resolve abrir a boca perto dela. A necessidade que ela sente de responder a cada provocação dele, de nunca deixá-lo ter a última palavra parece algo quase compulsivo. Quando ela percebe, já está devolvendo na mesma tacada que ele.
Não deveria ser assim, eles conversaram, ele não pediu desculpa diretamente, mas ela o perdoou, agora tudo deveria ter voltado ao normal, que é ela tendo pouco ou nenhum contato com ele e às vezes observando-o de longe como se não conseguisse acreditar que lá está ele com suas provocações bobas de novo. Sim, lá está ele, e aqui está ela se deixando levar por esse tipo de bobagem, talvez até se divertindo com o meio-sorriso que o loiro soltou depois da última resposta dele.
Mas vai passar, Ochako supõe. Depois de ter comido, agora ela está sentada com as meninas, conversando e rindo como se todas elas não fossem suas adversárias em potencial daqui a alguns dias. É bem diferente dos garotos, nenhuma delas diz com todas as letras que vai ganhar, nem mesmo a Mina, que sempre se porta com bastante confiança e entusiasmo. As garotas são mais cautelosas e não se gabam de nada, talvez seja para demonstrar modéstia mesmo, mas ao ver a Yaomomo sendo tão delicada em sua resposta antes, mesmo que ela com certeza saiba que sua dupla com a Kendou é uma das mais poderosas, Ochako não se questiona se as meninas evitam transpassar confiança por medo de não corresponderem às expectativas, tanto as que os outros têm delas, como as que têm delas mesmas. É provável que sim, a manipuladora de gravidade talvez não esteja plenamente certa de que pode vencer, mas acredita nas estratégias em que vem trabalhando com o Shishida, e precisa botar fé em si mesma, mas ainda tem sim uma parte dela lhe dizendo para baixar a bola e não sair prometendo coisas que talvez não possa cumprir.
Vai ver é isso que a fascina e incomoda no Monoma, ele não tá nem aí pra o que é verdade e o que não é sobre suas habilidades e chances de vencer, de toda forma, ele fará suas ameaças debochadas e desestabilizará um ou outro adversário apenas em exibir tamanha confiança, seja ela delirante ou não. É preciso muita coragem, e apesar de tê-lo achado covarde por fugir de pedir desculpas e confrontá-la depois do que aconteceu, Ochako não deixa de achar impressionante como ele se porta com tanta altivez independente das circunstâncias. Admirável e irritante, não é de se estranhar que ela sinta tanta necessidade em respondê-lo à altura, Ochako não tem a capacidade de emular essa confiança dele, mas gosta de quebrar expectativas, então se ele acha que vai conseguir intimidá-la ao tentar lê-la daquele jeito, bom… melhor ele pensar de novo, não é assim tão fácil.
— Você tá com uma cara, Ochako-chan. — a Kyouka observa de repente, olhando-a com curiosidade — Tá brava por quê?
— Hã? Não tô brava, não. — ela é trazida de volta, levando os dedos ao espaço entre suas sobrancelhas e percebendo que está franzindo a testa.
— Bom, a gente viu você conversando com o Monoma antes, não seria estranho se você tivesse brava. — a Setsuna comenta — Ele não tá sendo otário com você de novo não, tá?
— Ah… não, não. — ela balança a mão — Tá tudo bem agora.
— Melhor mesmo, já tava pensando em juntar com a Kendou pra ter uma conversa com ele. — a Setsuna não chega a fazer nenhum gesto, mas Ochako desconfia que ela não está falando de conversa em sentido literal.
— Ele se desculpou, eu imagino.
— Sim, de um jeito muito… “ele”, eu acho, mas de desculpou. — ela explica, meio sem graça.
— Fico contente. — a Kendou diz em seu tom mais complacente.
— Mas não imaginei que você voltaria a conversar com ele de boa, Ocha… — a Mina parece refletir — Tipo, ele te viu… como você veio ao mundo.
— Ele não chegou a ver… tudo. — Ochako desvia o olhar — Eu me cobri antes.
— Ain, mesmo assim… imagina você conversar com um garoto e ficar pensando se na cabeça dele, ele tá lembrando o que viu. Eu ia ficar encucada…
— Você, Mina? Jura? — a Tooru questiona.
— Ah sim, né? Uma coisa é eu querer que um cara pense desse jeito em mim, outra é eu não querer.
— Suponho que isso faça sentido, eu também não ficaria confortável. — a Yaoyorozu comenta.
— Sério? Eu não acho nada demais. — a Tooru diz em seu tom mais tranquilo.
— Bom, é de se esperar, Tooru-chan, você já está acostumada a dicar exposta, ribbit.
— Sim, mas nem é por isso, eu só… — ela balança as pernas como se estivesse envergonhada — Eu meio que… gosto.
— Gosta do quê? — a Setsuna pergunta.
— De imaginar se… sabe, se tem algum deles pensando em como eu me pareço quando tô… desse jeito na frente deles. — todas ficam em silêncio, talvez tentando processar o que a garota invisível acaba de dizer — Aargh, que vergonha! Eu não deveria ter falado isso, agora todas vocês acham que eu sou uma pervertida! — ela balança os braços e pernas agitadamente
— Ninguém está pensando isso, Hagakure-san, acalme-se. — a Yaomomo tenta apaziguá-la.
— Eu tô. — a Yanagi se manifesta.
— Eu também. — a Kyouka acompanha.
— Eu acho que não é nada demais. — a Kodai dá de ombros.
— Sério? Eu achei que você nem tava prestando atenção na conversa. — a Setsuna se vira para a garota de cabelos pretos.
— Nós, garotas, estamos sempre sendo olhadas desse jeito, acho que pode ser interessante pensarmos quando e como queremos ser vistas assim. — a Kodai explica em seu tom frio e calmo.
— Você fala de tipo… se exibir de propósito? — a Kyouka pergunta.
— Há quem curta assistir, então por que não? — a resposta dela é enigmática e esclarecedora em iguais proporções.
— Fetiches estão sempre acompanhados de tabus, a possibilidade de dançar com o profano torna tudo mais etéreo e sagrado. — a Shiozaki professa.
— É, pode-se dizer que sim. — a Kodai encerra.
— Nossa, como a gente chegou nesse assunto e foi parar em filosofia? — a Mina pergunta.
— Estávamos falando do Monoma-kun ter visto a Ochako-chan, ribbit.
— Ah é, verdade.
— Eu não me importaria de mudar de assunto. — Ochako diz com um sorriso sem-graça.
— Sim, acredito ser de bom tom. Não é uma conversa a se ter aqui com os senhores podendo nos ouvir.— e a Yaomomo endossa.
Todas as garotas concordam, e logo a Setsuna emenda uma conversa sobre uma série nova a qual ela está assistindo. Ochako ainda não viu, mas está com vontade.
Ela também sente uma estranha necessidade de olhar para trás, talvez esperando encontrar um par de olhos observando-a.
O Monoma está de costas para ela.
***
Tirar o sutiã é um alívio. Ochako gira os ombros e apoia as mãos nos quadris para alongar levemente as costas. Mesmo com a janela já fechada, ela sente um leve arrepio, é uma noite fresquinha de verão, mas a previsão disse que poderia esfriar, só aconteceu um pouco mais cedo do que o esperado.
Ou então… só está frio porque a janela de sua sacada não está fechada como ela pensou. Ao se virar, ela toma um susto quando vê o vento bater nas cortinas e erguê-las um pouco, revelando uma silhueta conspícua ali parada.
Seu primeiro instinto é cobrir seus seios, pegando o sutiã que ela jogou na cama. Quando ela se aproxima, Ochako consegue ver mais detalhes da silhueta, como os cabelos loiros e um par de olhos liláses brilhando tenazmente com a luz azulada do luar.
A silhueta não se move e, por algum motivo, ela também não. Os dois ficam ali parados, olhando-se, estudando um ao outro com precaução, curiosidade, qualquer coisa menos medo ou constrangimento. Depois do que parecem ser muitos minutos, ela se move, erguendo-se e afastando-se da cama. Ochako vai na direção da janela e, olhando-o firmemente, tira as mãos que cobrem seus seios. A silhueta ainda não se move.
Então ela lhe dá as costas, tirando os shorts e deixando-os cair a seus pés. A silhueta segue sem se mover. Olhando por cima do ombro, ela desliza a calcinha e a tira também.
A silhueta empurra a janela para abri-la.
Ochako acorda com o coração quase saindo pela garganta, tão suada que sua franja está grudando na testa, ela afasta os fios e se senta na cama, tentando recuperar o ar.
Ela olha para a janela devidamente fechada, exatamente como deixou depois de colocar o pijama e antes de se deitar. Ainda meio confusa, ela olha ao redor do quarto, não sabendo pelo que está procurando, e muito inquieta por não encontrar.
Que… diabos aconteceu aqui?
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