Um, dois, três
1 Capítulo 1
Um, dois, três.
Foi o sussurro rápido que ouvi em meus ouvidos. Talvez tenha sido o tom, ou talvez o ar gelado que tocou em minha nuca. Não tinha certeza do motivo, mas me despertou. Abri os olhos subitamente, meu braço esquerdo doía, tudo estava escuro, para ajudar não conseguia lembrar de nada. Minha respiração começava a acelerar, meu coração parecia que ia explodir de tão forte que batia, precisava me acalmar, sentia minha consciência vibrar. Respirava fundo, pânico não iria ajudar. Estava acalmando, do que me lembrava?
“Meu nome é Lyan, tenho 26 anos. Eu estava com alguém quando...”
Uma forte dor de cabeça me acometia, junto de uma vertigem que me fazia ter que sentar no chão. Escutei uma risada de deboche, longe e baixa. Aquilo me irritou, levantei e comecei a andar, cada passo uma pisada forte no chão com ódio.
— Isso é engraçado para você seu desgraçado? – Gritei desafiadoramente. — Vamos ver se você vai rir quando eu quebrar sua cara, filho da puta!
Continuei a andar no meio da escuridão, mas agora minha visão já começava a se acostumar, e com isso conseguia definir algumas silhuetas, não que ajudasse muito, sabia que tinha algo lá, só não sabia o que. Tropecei, um barulho de vidro se batendo.
— Mas que droga?!
Me abaixei e comecei a tatear o chão, encontrei uma caixa, dentro dela tinha alguns potes de vidro, algo que parecia ser papéis, e um...
— Um celular! Não acredito!
Toquei na tela, ele ligou com uma luz fraca, no papel de parede tinha uma foto minha com uma mulher.
— Sarah! Minha namorada, estava com ela, agora me lembro!
Tentei usar o aparelho, mas ele estava bloqueado com senha. Entretanto, agora eu tinha uma luz. Peguei um dos potes de vidro e no mesmo segundo que os levei para a luz, derrubei no chão. Aquilo não poderia ser de verdade, era impossível. Comecei a hiperventilar, minhas mãos tremiam, meu coração pulava em minha mente. Meu instinto gritava para não fazer aquilo, mas a curiosidade era maior, eu precisava saber! Apontei o celular em direção a caixa e os vidros, então os vi, e eles olhavam de volta para mim.
Dois pares de olhos, ou melhor, os glóbulos oculares, estavam dentro dos potes. Bile subiu em minha boca e vomitei. Depois de alguns segundos, limpei o canto dos lábios com as costas da mão. Fortaleci a mente, e voltava a olhar para aquela caixa bizarra, ignorei os olhos por hora, peguei os papeis. Eram fotos polaroides, haviam três delas, a primeira tinha uma mulher ruiva com um X vermelho marcado em seu rosto e atrás da foto o número 1 também vermelho, na segunda foto era uma mulher de cabelos pretos, outro X vermelho e o número 2 atrás. A terceira foto me congelou, era Sarah. Não havia um X, mas quando virei a foto o número 3 estava lá, porém borrado, como se estivesse fresco, meus dedos estavam molhados. Um pensamento perturbador passou em minha mente. Levei a mão até o nariz, o cheiro era de ferro.
— Sangue...Não, não, não! Sarah, você está aí?!
Enquanto gritava, um clique aconteceu em minha cabeça, e mergulhei no chão pegando os vidrinhos com os olhos e as fotos. A ruiva tinha olhos verdes iguais aos do pote de vidro, e a morena olhos azuis que também estavam em um pote. Revirei a caixa. Um suspiro e uma leve calma. Graças a Deus os olhos de Sarah não estavam lá. Eu não tinha tempo a perder. Com a luz do celular comecei a me movimentar com mais segurança, procurando algo que me ajudasse. A luz da tela apagou.
Um, dois, três.
Algo sussurrou velozmente ao lado da minha orelha, os pelos da nuca se arrepiaram, virei velozmente para trás golpeando, mas não tinha nada nem ninguém lá. Meu coração voltava a martelar no peito, girava para todos os lados enquanto procurava alguém. Apertei o botão do celular desesperadamente, o que fez a tela ficar piscando. Andando de costas, tropecei num degrau e caí sentado. Olhava freneticamente a minha volta apontando o celular, minha respiração parecia ecoar por todo o ambiente. Além de mim tudo estava quieto. Então escutei passos de alguém, correndo com toda a força vindo em minha direção de dentro do escuro, cada passa ecoava. E se aproximava, se aproximava, estava cada vez mais perto. Congelei. Quando seja lá o que fosse estava prestes a entrar na luz do celular, a tela apagou. O barulho parou.
Minha respiração.
Nenhum barulho.
Minha respiração.
Silêncio.
Duas respirações.
Corri desesperadamente, subi os degraus da escada aos trancos e barrancos. Liguei a tela do celular e apontei escada a baixo, fiquei parado ali, observando, ouvindo, me acalmando. Olhei para o aparelho, 7% de bateria. Respirei fundo e continuei. Parecia estar numa espécie de corredor, as paredes eram feitas de madeira numa cor branca, e em todo lugar, todo maldito lugar, tinha na parede feito com sangue, 1,2,3.
— Um, dois, três. Um, dois, três. UM, DOIS, TRÊS! O que diabos significa isso?!
Cheguei no final do corredor, tinha uma porta. Abri ela lentamente, o barulho da madeira parecia gritar. Escutei alguém se movimentando dentro do quarto. A tela do celular apagou. Algo se arrastava, algo se batia.
Toc, toc, toc.
Tentei ligar o celular. Ele não ligava mais a bateria tinha acabado.
Toc, toc, toc.
O barulho ficava mais rápido. Estava prestes a sair dali quando vi. No meio do quarto um criado mudo com um espelho iluminado por uma lamparina fraca.
Toc, toc, toc.
Mas que inferno de barulho! Já estava ficando incomodado. Caminhei até a luz com passos lentos. Algo me chamava até ela, ressoava dentro do meu ser, até o mesmo o barulho irritante parecia distante. Quando alcancei o criado o mudo, nele tinha uma seringa vazia e um bisturi. Passei as pontas dos dedos lentamente na seringa, e peguei o pequeno instrumento de corte com cuidado. Então me olhei no espelho, esse que também estava sujo de sangue escrito, 1, 2, 3.
Meu reflexo me encarou, e então me lembrei.
O encontro com Sarah no restaurante. Nós dentro do carro indo para minha casa. Ela indo no banheiro. E a picada da agulha no meu braço, a viagem profunda da droga. Tudo ficou escuro.
Agora, olhava mais uma vez para meu reflexo, o medo já não estava mais lá. Segurando o bisturi com firmeza, apontei a luz da lamparina para frente. Lá estava Sarah, amordaçada e amarrada numa cadeira de madeira. Ela se balançava para os lados tentando se soltar.
Toc, toc, toc.
Então Sarah me encarou com seus olhos, seus lindos e belos olhos cor de mel. Eu dei um pequeno sorriso enquanto caminhava até ela, ergui o bisturi na altura de seu rosto.
— Um, dois, três.
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