Um dia de rei
1 Capítulo único
A voz do homem o irritava.
— Vossa graça, o povo da Mata do Rei está passando fome. Os homens dos Clãs da Montanha estão tomando nossas casas, esposas e animais desde a batalha da Água Negra!
Isso é tudo culpa do Duende Pensou o rei. Se ele não tivesse levado aqueles selvagens imundos até a floresta, eu não teria que lidar com esse camponês fedido. Apesar do homem parecer ter tomado todo cuidado com sua higiene para uma audiência real, seu odor chegava a alcançar até o topo do trono onde Joffrey estava repousado.
— Você sabe que é ilegal a vida na Mata do Rei, certo? — disse com repulsa ao homem lá em baixo. — Lá é um lugar para reis. Foi lá que um javali assassinou o meu pai. Não deveria estar cheio de ratos como você, seus amigos e os clãs da Montanha. Quer se livrar do problema? Saia de lá.
— Mas majestade... durante gerações vivemos por lá! Não teríamos para onde ir!
— Não me importo. A partir de agora é ilegal a vida humana na Mata do Rei. Como eu disse antes, é um lugar para reis, e não para ratos e vermes. Vou dar dois dias para que vocês todos saiam de lá e arranjem um local para viver, depois disso vou mandar os Mantos Dourados exterminar a vida humana que tem por lá.
Quando o homem pareceu querer questionar, o rei fez um gesto com a mão para que o levassem embora, e assim seus guardas o fizeram. Todos sempre querem me questionar. Ninguém questiona um rei, eles tem de me obedecer, eles tem que me amar.
— Quantos ainda faltam? — perguntou ao meistre Pycelle.
— Vinte e quatro, vossa graça. — O velho respondeu com sua voz gaga e mansa. — Alguns camponeses e lordes pequenos, com certeza para falar sobre os prejuízos da Águe Negra.
— Que seja... — Resmungou em seu trono, já estava cansado de atender ao povo naquele dia. — Tome conta do resto por mim, vou ir fazer algo melhor.
O rei se levantou e pousou a coroa em seu trono, sua bela coroa de ouro puro, mas que lhe pesava muito na cabeça. Não, a coroa não pesa. Joffrey tinha que se lembrar. Um rei tem que ser forte, seu pai lhe dizia; tem que suportar todos os pesos sobre suas costas. Tenho um reino inteiro pra cuidar, e não posso vacilar, não posso ser fraco.
Ao sair da sala do trono, o rei foi caminhar pelos corredores de seu castelo acompanhado de Loras Tyrell, já que o Cão tinha deserdado o campo de batalha e abandonado o rei. Joffrey sentia um pouco de falta dele, era uma boa distração, mas dá próxima vez que o encontrasse mandaria que cortassem sua barriga da garganta até a virilha. Bem, pelo menos Loras Tyrell era mais fácil de encarar. O irmão de sua noiva era quase tão belo quanto ela. Ele tem traços femininos... femininos demais. Joff não deixava de pensar um momento sequer, sempre tendo em mente sobre os boatos que eram sussurrados sobre o Cavaleiro das Flores e o seu falecido e traidor tio Renly.
— Sor Loras, você serviu meu tio Renly. Me diga, é verdade que ele se deitava com homens? — Perguntara apenas para provoca-lo, arranjaria uma forma de fazer com que ele admitisse ter dado a bunda pro seu tio.
— V-vossa graça... eu... — O Tyrell ficou corado e sua voz ficou fraca. Ele está incomodado. Ótimo. O cavaleiro estava vacilando para lhe responder.
— Sor, eu lhe fiz uma pergunta.
E então ele recuperou a postura.
— Creio que são boatos verdadeiros, vossa graça. Lorde Renly era, além de traidor, um degenerado que cometia tal crime abominável. Ele usava a desculpa que iria rezar com seus guardas, mas na verdade apenas fodia com eles.
Ele apenas disse o que eu queria ouvir. Joffrey pensou, reparando que Sor Loras falou tudo de forma automática, como se soubesse o que tinha que dizer.
— Era um desses guardas? — Até parou de andar, queria olhar a expressão do cavaleiro quando fosse dar sua resposta. Ficou frente a frente com ele, o olhando nos olhos. — Já foi "rezar" com o meu tio?
— Não. — Loras respondeu de forma amarga, dura e fria, depois do que pareceram estações de silêncio. O olhar que o cavaleiro manteve sobre o rei era tão inexpressivo quanto os olhares de seu avô Tywin. Joffrey vacilou um pouco, e se virou para voltar a andar.
— É claro que não. — Pensava e mais alguma coisa que poderia dizer, não podia terminar o assunto como se tivesse sido derrotado com a mentira do Tyrell. — Sabe, depois que me casar com sua irmã, tornarei a fornicação entre homens algo ilegal. Qualquer um que tenha esse hábito será empalado. — Loras soltou algum som, algo que parecia com uma risada. — Falei algo engraçado, sor?
— Não é isso, vossa graça. — Ele tirou uma mecha de cabelo que caia sobre seu olho e sorriu com seus dentes brancos. — Apenas imaginei a cena desses "degenerados" com um pedaço de tronco atravessando seu corpo.
Joffrey não conseguiu deixar de soltar uma risada, de fato a cena parece ser engraçada. E então continuou a andar sem rumo pela Fortaleza Vermelha, até chegar aos jardins.
— Aqui lhe lembra sua casa sor? O jardim, eu digo.
— Com todo o respeito, não, vossa graça. Os jardins de Jardim de Cima são um tanto... maiores, e mais diversificados também. Mas não desprezo esses daqui, são tão belos como um jardim deve ser.
— Que seja, detesto jardins de qualquer forma. É coisa pra garotas.
— Então por que nós estamos aqui?
— Tem que parar de me questionar. Um rei não deve explicações à ninguém. — Depois que terminou de falar, Loras revirou os olhos. Como ele ousa revirar os olhos para o rei? O Tyrell deve ter esquecido o senso em Jardim de Cima. Mas de alguma forma, Joffrey não conseguiu repreende-lo, algo fez com que o rei abaixasse o tom. — Eu só vim ver a sua irmã. Ela está sempre por aqui.
E de fato estava. Margaery Tyrell tagarelava com suas primas idiotas que Joffrey nem mesmo sabia o nome. O rei mandou que Loras afastasse as meninas, e quando elas saíram, o rei foi até a cabana que estava a garota Tyrell.
— Vossa graça! — Ela disse com o sorriso de sempre, e estava tão bela como sempre, apesar do decote de seu vestido, que Joffrey não achava certo que usasse no dia dia. Se ela continuar assim, todos terão visto seus seios antes de mim. Ele pensava, mas nunca deixava de apreciar a visão de seu busto. Margaery lembrava a Joffrey uma das bonecas de sua irmã Myrcella. Um dia, Margaery seria a sua boneca, e poderia fazer o que quisesse com ela. Como será que ficaria o rosto de Margaery com algumas palmadas? Ele se fazia essa pergunta quase sempre. Não era raro que se desse pensando nela. Uma vez, imaginou que a puxava para o quarto e lhe rasgava o vestido, e então a fodia com força até que ela sentisse dor.
— Senhora Margaery. — se forçou a sorrir de volta, e tentou manter o olhar nos olhos dela. — Está belíssima hoje.
— É muito gentil de sua parte dizer isso, meu rei. Loras, por que não nos deixa a sós? Garanto que nenhum mal acontecerá ao meu futuro esposo.
E então o cavaleiro das flores saiu, e Joffrey se sentou ao lado de Margaery num banco que tinha ali. Ela ficava insuportavelmente perto demais, e o dia estava quente. Conversaram um pouco, e os assuntos que ela tentava puxar eram entediantes. Sempre sobre Jardim de Cima ou bailes, ou qualquer outra coisa que garotas gostem. Quando Margaery pegou um morango de uma bandeja próxima, o jeito que ela o comeu fez com que o rei se excitasse. Ela notou pensou, percebendo que ela apenas continuou a fazer aquilo. Ela gosta de me provocar. Ela quer que eu a deseje mais do que tudo no mundo. Isso não vai acontecer. Um silêncio estrondo tomou conta do lugar.
— Olhe quem está ali! — Margaery disse de relance, apontando para um lugar afastado no jardim, onde uma figura feminina andava lentamente, e o vento fazia seus cabelos cor de fogo voarem. — É Sansa Stark. Podemos chama-la aqui? Adoro conversar com ela.
— Não chame. E também não deveria falar com ela. O pai dela era um traidor, a família dela está em guerra com a minha. Eu devia tê-la matado a muito tempo, mas minha mãe nunca permitiu.
Ele ainda se estranhava de não ter matado Sansa quando teve a chance. Sua mãe não mandava em mais nada agora, ele era o rei, por que não podia fazer o que quisesse? Parece que minha coroa não importa nada para ninguém. Ainda me impedem de fazer mil e uma coisas. Ele pensava, apenas nutrindo ódio pelas pessoas que o impunham limites. Eles não são ninguém, não podem decidir o que faço ou não. Porém, apesar de tudo, Joffrey não se sentia completamente bem com a ideia de matar a Stark. Ela é tão bonita, e era ainda mais quando tinha marcas no rosto. Joffrey oferecera tudo à ela uma vez, mas ela recusou, preferiu a família, preferiu os traidores. Deixou que o lobo da irmã mutilasse seu braço. Sansa disse que me amava uma vez, mas mentiu. Ela realmente ama seus irmãos traidores, sua mãe velha e seu pai morto. Joffrey jamais a perdoaria por isso, jamais a perdoaria por não ama-lo de verdade. De qualquer forma, isso já não importava mais. Ele teria em breve Margaery como seu novo brinquedo.
Passaram mais algum tempo ali conversando, e depois deram algumas voltas pelo jardim e pelos corredores da Fortaleza Vermelha, quando a Tyrell disse que tinha que se encontrar com as primas nesse horário, já que dormiam juntas. Joffrey não pode deixar de imaginar ela e aquelas galinhas retardadas juntas numa cama, quis se imaginar no meio delas, transando com uma atrás da outra, mas não conseguiu. Apenas se viu usando sua besta para atirar uma a uma, e depois foder sua futura rainha em cima dos cadáveres de suas primas.
E então se viu sozinho vagando pelos corredores, sem guarda, mãe, ou noiva alguma para acompanha-lo. Ficar sozinho assim de certa forma era algo bom, era muito raro que conseguisse ter um minuto sequer de sossego, todos estavam sempre o enchendo de problemas com o reino, e até mesmo pessoais. O povo da sua própria cidade lhe traziam problemas, todos eles eram apenas bárbaros ingratos, tinham que se curvar para Joffrey, mas apenas lhe atiraram um monte de bosta em seu rosto. Devem tudo a mim. Suas casas, a comida que comem e as putas que fodem. Não teriam nada disso se eu não permitisse. Retribuem meus favores com revoltas e ataques. Um dia ele encontraria quem tacou um monte de bosta em sua cara, e faria a pessoa se afogar nas fezes de cavalos e cachorros. O trono é meu. O povo deve me amar, me agradecer e respeitar. Pensou enquanto andava sem rumo, sempre recebendo reverências de guardas ou pessoas que habitavam a Fortaleza Vermelha. Eram todos falsos, todos sentiam inveja dele, queriam estar em seu lugar, queriam ter Sansa Stark e Margaery Tyrell, queriam ter o poder nos sete reinos. Será que todos ao seu redor eram traidores? Até a própria mãe tinha lhe batido uma vez. Não seria ela a única pessoa a lhe dar amor? Espancar não é uma forma de amor. O rei faria com que ela pagasse por isso algum dia, ele não era do tipo que se esquece de algo, e Sansa foi a prova disso. Os Stark me humilharam em Winterfell, derrubaram Tommen no chão e seus lobos me atacaram. Paguei-os com a mesma moeda.
Caminhando e caminhando, acabou por chegar próximo ao campo de treino da guarda real. Estavam ali Loras Tyrell e Meryn Trant, praticando a esgrima. Trant era um bom lutador, mas ali pareceu que Loras era muito melhor, o Tyrell o derrubara meia dúzia de vezes. Já entediado de assistir, Joffrey gritou:
— Vocês dois, chega. Loras, você vem comigo.
— Vossa graça, não prefere que eu tome um banho antes? Estou suado por causa do treino...
— Ande rápido então, não quero ficar ao lado de um guarda fedido. — Não que Loras parecesse feder, mesmo quando estava suado, mas era melhor garantir que não cheirasse mal. — Encontre-me na Fortaleza de Maegor.
Quando chegou em seu quarto, a noite já pairava no céu, e o quarto de Joffrey estava escuro, exceto pela luz da lareira. Se sentou em sua poltrona cor de carmim, enquanto esperava pelo Cavaleiro das Flores, que chegou em numa fração de tempo que parecia uma eternidade.
— Por que demorou tanto?
— Perdão, vossa graça... É que tomo banhos longos mesmo.
— Na próxima vez tome um banho rápido, ou terá é um banho de água fervente.
— Sim, vossa graça.
Pelo menos o longo banho de Loras tivera resultado, já que o rapaz cheirava tão bem como a irmã.
— Vossa graça, por que me chamou aqui?
— Eu... — Não sei seria a resposta adequada, mas apenas disse: — Eu só quero conversar com alguém que não fale sobre coisas de meninas.
O Tyrell riu.
— Minha irmã o incomoda?
— Não é isso... é que... esquece. Vi você e Meryn treinando agora há pouco. Ele é bom, mas você é melhor usando a espada.
— Não melhor que você, meu rei.
— É, nisso tem razão. Sou o melhor espadachim aqui. Voltando ao assunto, já matou muitas pessoas não é? Nas batalhas ou torneios...
— Não mais que você, garanto.
— Nunca matei uma pessoa, Loras.
— Perdão, vossa graça, não sabia disso... mas por que a pergunta? Aliás, sim, acho que até perdi a conta de quantos soldados já atravessei o corpo usando a espada.
— Como é? Tipo, qual a sensação de matar?
Loras o encarou com um olhar confuso, mas logo respondeu:
— Não vou mentir. É excitante. Quando você enfia a espada no peito de alguém e tira sua vida, vai notar que a pessoa não é nada. Apenas carne, sangue e ossos. Quando você mata, se sente como se fosse a pessoa mais poderosa do mundo, e gosta disso. Golpear e ver algo morrendo em sua frente... nem mesmo estar na cama com a pessoa que ama é tão bom.
Enquanto Loras falava tudo aquilo, uma tempestade se iniciou dentro das calças de Joffrey. Pensar em tudo aquilo... e em Loras, fez com que seu pau ficasse duro feito pedra.
— Vossa graça está bem?
— E-estou sim. Só fiquei um pouco enjoado. — Que droga estava falando? Agora Loras pensaria que o rei tem estômago fraco. — Quero dizer, estou...
— ... animado.
— Sim! Isso. Animado. Estou. É. Animado.
— Posso ir agora, vossa graça?
— Sim, pode ir.
— Sabe... — Loras pousou a mão ousadamente na coxa de Joffrey. — Posso ficar se quiser, vossa graça.
Uma parte de Joffrey queria que ele ficasse, mas a outra... a outra também queria.
— Loras, vá. — Foi tudo o que conseguiu dizer, contrariando o próprio desejo.
O Tyrell então se levantou, e estava indo em direção a porta, quando, antes de abri-la, se virou e encarou o rei.
— Me deitei com Renly Baratheon. Mais de uma vez. — Joffrey sabia que conseguiria a verdade uma forma ou outra, e conseguiu mesmo. — Vai mandar que eu seja empalado por causa disso?
— Não.
Loras saiu, e Joffrey ficou mais uma vez sozinho. Dentro de suas calças, seu pau latejava, queria bater uma punheta, mas quando colocava seu membro pra fora, algum guarda qualquer foi lhe avisar que sua mãe o esperava na sala de jantar. Foi um jantar quieto e entediante, com sua mãe dando atenção apenas para o irmão mais novo de Joffrey. Joff detestava Tommen com todo o corpo. Myrcella gostava de mim antes dele nascer. Brincávamos juntos, mas veio esse moleque e estragou tudo. A irmã era outra traidora. Irritado, comeu rápido e voltou pro seus aposentos, mas enquanto seguia para o mesmo um guarda lhe disse que lá dentro tinha um presente de Lorde Baelish. Curioso, Joffrey andou mais rápido, e ao entrar lá se deparou com uma figura feminina em sua cama. Tinha um corpo escultural, tapado apenas por uma fina seda cor de rosa. Seus cabelos ruivos caíam sobre seus ombros.
— O que faz aqui?
— Lorde Baelish me mandou aqui, vossa graça. Vim te fazer companhia nesta noite.
É uma puta Quem Mindinho pensa que é pra mandar uma dessas até o aposento do rei? Um rei não fode com putas, um rei fode com rainhas.
— Veio é? Então vai fazer tudo o que eu disser?
— Fala como se todos não fizessem o que diz, meu rei.
Não, sua puta. Ninguém faz nada que eu digo. A mulher falava de forma provocante, e Joff soltou um sorriso sádico. Andou até uma cômoda próxima, e de uma gaveta ali tirou uma longa corrente de prata.
— Gosta de sadismo, não é meu rei? — Ela dizia enquanto ele se aproximava, mas quando ele bateu com a corrente em sua coxa ela gritou de dor.
— Se erga. Vai fazer o que eu disser não é?
Ela lutava para controlar suas lágrimas, mas conseguiu concordar com ele. Ela ficou de pé em cima da cama, e Joffrey fez o mesmo. Segurou suas mãos, e as prendeu com a corrente. Em seguida, prendeu a corrente no topo da cama de madeira.
— Trate de dizer a Mindinho o que fiz com o seu presente ridículo.
O Duende tinha lhe dado algo parecido uma vez, e Joffrey ensinara-o a lição. E agora teria de ensinar a Petyr o que acontecia quando tentava sujar os aposentos de um rei... ou não. Joffrey acabou por decidir que iria aproveitar seu presente, afinal, Lorde Petyr não fizera aquilo com intenção de humilha-lo. Mas vou aproveitar da minha própria forma.
Ele então saiu da cama, e foi até a parede, onde sua besta estava pendurada. Olhar a besta fazia-o sorrir, era uma arma tão linda, e tão mortal. A puta deve ter adivinhado o que ele iria fazer, pois começou a se contorcer ali e tentar se libertar da corrente, enquanto implorava como qualquer outro fazia antes da morte. Joffrey se deitou confortavelmente em sua poltrona, e por alguns instantes gostou de ver ela lutando pela liberdade ali. Quando se cansou de assistir ela agonizando, mirou com a besta e atirou. Agora a puta era só carne, sangue e ossos.
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