Um dia de medo, escuridão e desespero

1 Capítulo 1 - Capítulo Único


Notas iniciais
HEEEYBom, eu tive essa ideia observando a imagem da capa. Digamos que minha ideia principal estivesse longe de ser do gênero terror, mas eu, de qualquer forma, optei por ele. Fiquei sem luz por cause de uma tempestade assustadora e então... Essa coisinha nasceu. ncusbBoa leitura e espero que gostem ♥

Minhas roupas estavam sujas de lama, o vestido branco manchado parecia do tom de canela naquele momento.

Não tinha ideia de como tinha ido parar lá. Mas era capaz de ver a luz do sol atravessando as árvores e manchando-as com sua lividez, o pôr do sol era claro em meus pensamentos apesar de eu não ter levantado. O fiz, e me apoiei em uma das árvores, as pernas bambas. O vestido não cobria muito de meu corpo e o tecido era fino, eu estava molhada e tremia de frio. Não sabia onde estava. Mas sabia quem era. E eu era Hespéria, no meio do bosque escuro do qual nunca havia visto. O céu me era reconhecível, mas eu mesma sentia minhas pernas de forma diferente. Andava cambaleante apesar de estar lúcida — pelo menos em meus pensamentos. A lama causava conforto aos meus pés; estava descalça. Um passo, engoli em seco. Outro passo, minha vista nublou.

Respirei fundo, estava fraca e não sabia como voltar pra casa. Mais um passo, uma queda. Respiração entrecortada enquanto sentia agulhas perfurando meu coração. Levantei-me, ar escasso. Mais um passo enquanto eu me apoiava nos troncos.

"Seja forte, minha menina. As dores são fracas comparadas ao que podemos sentir."

Meus ossos rangiam, meus músculos reclamavam, minha respiração era pesada. Minha coluna estava dolorida e eu sabia que havia passado a noite naquela floresta, mesmo que não estivesse refletindo sobre isso em nenhum daqueles momentos. Já era um fato há muito tempo processado, e eu não me importava mais. Talvez eu realmente não me importasse mais com nada, porque, depois de ouvir aquela voz eu corri como se meus pulmões fossem ambos grandes balões voando no céu da Turquia, e como se tivesse pernas de atleta apesar de as sentir tão doloridas que parecia não ter ossos, e sim milhões de pedaços deles perfurando minha carne a cada passo.

Ofegava quando me apoiei novamente numa árvore ali perto, tentando manter equilíbrio física e psicologicamente. Preenchi o meus pulmões não com ar, mas com força de vontade e obriguei-me a ficar ereta. Enfrentar de frente minha atual situação, talvez. Eu só sentia a necessidade de algum modo, erguer novamente meus olhos de modo a ver o mundo novamente.

Mas o que vi não foi o mundo, foi o universo.

— Jaques. — e eu corri, envolvendo meus braços em seu corpo. Ele estava encharcado tanto quanto eu e tremia como se tivesse mergulhado em pleno ártico com roupas de banho. Eu tentei transmitir a ele o calor que não tinha quando ele se virou. Seus olhos estavam tão negros quanto ônix. Pálido, com o olhar assustado.

— Hespéria. — eu li alívio em seus olhos e em seus movimentos quando ele me abraçou como se quisesse grudar novamente duas partes de um diamante. E talvez fosse impossível, mas ele conseguia. Sempre conseguia. — Eles levaram William e Camille. — ele disse e parecia ofegar tanto quanto eu. As palavras eram sussurros ainda mais quebradiços por conta do frio. E de quebradiços pareciam perfurar cada um de meus sentimentos. — Eu vi Julian correr. Mas eu não sei... Se... — parecia fazer força para não chorar, não se entregar. Ele sabia que tinha a mim, eu não precisaria dizer. Minha mão direita encontrou sua mandíbula e eu ergui seu rosto, depositando o mais terno dos beijos em sua boca. Seus lábios eram pouco mais rosados que suas bochechas e a constelação de sardas em sua bochecha combinada com seus olhos escuros e seu cabelo castanho fazia meu coração palpitar.

— Vamos encontrá-los.

— E se não... E se nós não conseguirmos?

— Teremos tentado. Mas acho que seria uma resposta precoce tanto quanto a resposta de minhas perguntas. Como viemos parar aqui?

— Não sei. — ele carregava um olhar assustado no rosto, perturbado por medos e manchado por sombras. Suspirei e peguei sua mão.

— Mas agora não importa mais. Temos que achá-los, não importa se não temos respostas para nossas perguntas ou se não sabemos tudo sobre o que nos levou até aqui. A única coisa da qual temos certeza é a de que eles correm perigo. E quando quem amamos corre perigo devemos enfrentar todos os riscos em busca de salvá-los e não deixá-los ruir. Porque sabemos que a perdê-los nos faria perder a nós mesmos. Não se trata de egoísmo, se trata de amar a ponto de não deixá-los ir. — eu sussurrava e meus pensamentos aos poucos voltavam a ser o que eram antes.

Eu me separei dele, e sabia que ele me analisava percebendo a dor que sentia a cada passo.

Foi então que algo passou zumbindo por meus ouvidos, mas não um mosquito, uma abelha ou qualquer inseto. Era um grito inumano, sobrenatural. Tapei meus ouvidos de forma involuntária e corria como se a dor em meu corpo não fosse nada mais, nada menos, que um único arranhão cujo nem sangue saía; mesmo sentindo que era o contrário, que meus órgão pareciam querer me matar ao invés de me fazer viver e meu corpo não me obedecia devidamente. Jaques corria de forma tão difícil quanto a minha, mas pude perceber que sua perna esquerda doía pelo modo como mancava.

Estávamos no meio de uma floresta deserta, no centro de algo inexplicável que me causava horror. Meu ouvido zunia com tamanho volume de tal grito, e minhas cordas vocais pareciam ter sido arrancadas pois nada falava, nada gritei enquanto as sobras do medo me devoraram internamente queimando minha sanidade. Jaques estava na minha frente e eu seguia seus rastros num ritmo incansável, quase na mesma velocidade que ele. Uma casa surgiu no meio da floresta, no centro de nosso terror. De madeira, velha. Rangia a cada passo como se reclamasse de nossa presença. Mas entramos mesmo assim, e o interior não era quente e agradável, e sim malcheiroso e desconfortável. Tinha cheiro de carne apodrecida, carniça há muito tempo jogada aos vermes. Contive a vontade de vomitar enquanto continuávamos andando dentro da minúscula casa que caía aos pedaços em sua idade avançada.

Tudo era de madeira e havia um único sofá ao lado da entrada, puído, antigo, consumido por cupins e coberto de manchas negras. Na parede um painel com cabeça de veado, com seus longos chifres frondosos que quase encostavam no teto triangular chamavam a atenção. Ele carregava um olhar de prisioneiro no rosto, o ar de assassinato. Me encolhi, a tristeza de seus olhos queimava a pureza que transmitia. Ao lado um vaso sanitário coberto até a boca com algum líquido preto, solto, sem tampa e maltrapilho. A pia não tinha torneira e era feita de madeira, sustentada por parafusos e adornada de metais. Também tinha o líquido negro dentro dela. Mas eu sabia que ali não havia encanação.

Foi rápido, tão rápido que não pude perceber quando aconteceu.

A porta se fechou num estrondo, quase sendo quebrada por se tratar de uma frágil peça de carvalho puído. O chão tremeu sob nossos pés, e eu tentei falar, mas nenhuma palavra cortou o silêncio de meu ser. Jaques parecia na mesma situação que eu, e abria a boca na tentativa de dizer alguma palavra. Mas com isso, nossas bocas se fecharam sem nossos comandos e em questão de segundos eu percebi a boca dele sendo costurada. E eu pude sentir a linha ligando meus lábios, mas não via agulha diante de mim.

Olhei novamente para o painel com a cabeça do veado e no mesmo instante em que o fiz, como se um machado tivesse caído sobre seu pescoço, sua cabeça caiu ao chão e a fatia do começo de seu pescoço que ainda estava na parede jorrava sangue assim como a parte dele que jazia sobre a madeira fraca e escura. Eu gritava, mas o grito morria em meu subconsciente. Eu via o líquido espesso transbordando das paredes e de repente sangue pingava do teto como chuva, e estávamos perto de sermos atingidos pelo líquido negro aos nossos pés.

Mas antes de qualquer toque que o líquido grotesco pudesse fazer, Jaques me empurrou de encontro à parede que mais parecia falsa do pequeno casebre. E assim que caímos ao chão, as mãos dele em minha cintura tentando me proteger, um grito enfurecido cortou a calmaria da floresta mais uma vez. Levantamos e corremos como se nossas dores fossem penas de tão leves, e assim que olhei para trás, me arrependi.

Porque a casa não mais existia. Havia um véu negro de uma fumaça cor de morte no ar daquele lugar, e o chão do pequeno casebre era uma piscina onde contornos negros gemiam e se lamentavam, em busca de liberdade. O som do inferno, lamúrias em tom embargado. Em seu brilho plasmático o líquido envolvia almas como se fosse a prisão viva, que ao invés de grades prendia-os com sua força inabalável. Imbatível, impossível de se rasgar. Corvos negros dançavam nos céus pingando o líquido que me assustava, e mesmo correndo eu pude perceber os vultos sombrios nos perseguindo.

Jaques segurava minha mão com força, puxando-me e fazendo com que eu olhasse para frente. E eu o fiz, e continuamos a correr como se as penas negras que pulsavam daquela casa e eram jogadas aos ventos pelo casebre não voassem a nosso lado.

A cada passo mais desespero, a cada respiração medo.

Corremos e contornamos cada obstáculo. Eu caí, ele me levantou novamente, as mãos nos joelhos enquanto ouvia gritos e gemidos inumanos. Corri mais e mais, e via vultos negros correndo junto conosco.

Até que tudo se resumiu a escuridão.

E quando eu acordei, sob mim eu sentia o asfalto de minha rua, a tinta amarela que a cortava se fazendo visível. Eu estava de mãos dadas com Jaques, como num pedido de morte que demonstrasse que nosso amor era eterno. Mórbido, suicídio.

Mas nenhum carro passava, e eu subi com meus dedos contornando sua mandíbula até perceber que sua boca não estava mais costurada. E de forma automática pus as mãos na minha. Não havia mais nada, mas eu sentia minha garganta seca de tanto silêncio, de palavras pensadas e nunca ditas.

Jaques olhou-me nos olhos e se sentou como eu. Nos levantamos, e seguimos até nossa casa com passos hesitantes. Como se tivéssemos medo de sermos interceptados a qualquer momento por coisas além de nossa compreensão. De frente para a porta algo negro caiu sobre nós, e ao olhar para o chão percebi um emaranhado de penas negras e foscas que desapareceu em segundos.

Trocamos um olhar confuso e ele abriu a porta.

Onde percebemos que William, o viúvo e bom pai de Jaques estava no sofá na companhia de seus dois filhos. Camille olhou para mim, acenando de forma infantil e encantadora, mas quando a pequena de quatro anos olhou para minhas roupas notei seu olhar de confusão. Julian nos olhava confuso com seus cabelos cacheados e castanhos, os olhos verde-musgo como os da irmã de cabelos pouco mais claros. William pausou um filme na televisão e nos olhou de forma fraterna, um olhar recheado de confusão e alívio.

— Por onde andaram, crianças?

Nunca soubemos como fomos parar na floresta. Ou mesmo, como saímos de lá.

Notas finais
E aí, o que acharam? ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!