Um dia com os campistas
2 Dia doze, um natal mais cedo
Notas iniciais
Ainda estava cedo. A sequela do ultimo evento já havia deixado as costas do suposto ‘filho de Ares’, sendo que na realidade, se considerava um verdadeiro Caçador de sombras. Mas isso não vem em conta, certo? Lutava pelo chalé de Ares, e isso que importava.
Maria, a conselheira, vinha o aborrecendo a dias para que marca-se presença em algum evento do mês de dezembro, e depois de toda aquela insistência, dobrou o ex-legionário, que aceitou as insistências e começou os preparativos para seu retorno aos eventos.
Porém, com um mês de antecedência, muita coisa poderia ser feita... E por que não fazer uma surpresa para os membros do chalé, e para sua querida aluna, outra Caçadora de Sombras infiltrada entre os semi-deuses? Inspirado e com dinheiro sobrando, Martosael preparou presentes para todos do chalé, sendo claro, alguns exclusivos para os que eram mais especiais em seu coração. Muita pesquisa, muita procura e finalmente começou a forja.
Os dias haviam se passado, era véspera de evento. Dia 11 de dezembro, sexta-feira. Todas as expectativas em alta, mas como sempre, o mancebo se encontrava tranquilo em sua residência. As armas forjadas, preparadas e enroladas em um grande pedaço de TNT preto que lhe serviria como ‘trouxa’ para carregar as armas. Os coturnos engraxados e separados, a calça preta justa e ao mesmo tempo, leve e flexível para movimentos, separada em um banco no interior do quarto, com suspensórios decorativos de um cinto que acompanharia a calça. Uma camiseta preta, e o casaco de couro tradicional dele...
Além da barba falsa e do gorro de papai Noel, uma brincadeira que faria no dia seguinte, que gerou um sorriso enquanto observava as coisas preparadas.
– Espero que gostem. – Comentou sozinho em seu quarto.
O celular vibrando de maneira ininterrupta sinalizava a certeza do animo dos membros do C5 em relação ao reencontro com seus irmãos, amigos e oponentes(patinhos, hehehe.) Porém, mal humorado como sempre, Martosael se banhou apenas para espantar o sono, prendeu a franja em curto rabo de cavalo e se preparou por completo. Vestiu-se com as roupas separadas no dia anterior, pegou a mochila com seus itens tradicionais de evento ( Bolacha, água, roupas reserva, canivete e bandagens. ), e deixou para trás sua casa por meio das oito e meia, nove horas da manhã.
O caminho foi percorrido mergulhado em músicas, e em uma profunda leitura de seu até então, livro de bolso. A Mão Esquerda de Deus, de Paul Hoffman. Muito bom por sinal, está na lista de recomendações do Ex-Legionário.
Chegando finalmente na estação Ana Rosa, desceu tranquilo como sempre e conforme subia as escadas, começou seu mico antes mesmo de chegar ao Ibirapuera. Vestiu-se com a falsa barba de papai Noel, e colocou o gorro vermelho. Passou por membros de outros chalés que aguardavam seus irmãos na beirada da catraca, com uma carranca de dar medo até mesmo aos deuses, e seguiu seu rumo em direção ao parque, passo após passo pela grande brigadeiro.
Assim que alcançou o bosque, seu olhar se encheu pela breve nostalgia que sempre tinha quando chegava naquele local... Um local a qual sempre e sempre, foi o ponto de suas melhores memórias em uma vida amargurada e muito bem disfarçada em comportamentos alegres e baseados em personagens de seus livros favoritos.
Como não recordar de Lorenna? Ou da primeira vez que enfrentou os legionários, e de como foi seu batismo? O treinamento? Ou quando conheceu a primeira mulher a qual tocou em sua vida? Os calorosos combates? E por que tudo aquilo lhe cortava o coração? Lembranças de um tempo que não voltava mais...
Os eventos lotavam aquele bosque de maneira exemplar, e hoje em dia, não chegava nem aos pés dos antigos encontros de semideuses. Mas, mal pode curtir seu momento, até escutar uma voz aguda que de certa forma, lhe acalentava as profundezas do pulsante coração.
– MARTOOOOOOO!
Um baque, uma queda.
– Oi, Compétê.
– Olha aqui!
E o riso cheio de alegria deixou os lábios do rapaz, enquanto a pequena amiga saia de cima dele e o ajudava a se levantar. Trajada como sempre, com um de seus meigos vestidos que só a deixava com cara de ‘Roedor-Fofinho’ como dizia ele, mas que sempre lhe enchia os olhos com a graciosidade de sua... Exótica beleza simplória.
– VOCÊ! É, VOCÊ! NÃO COLOQUE ISSO AÍ, ISSO AÍ É AQUI, E AQUI É AQUILO ALI! VOCÊ NÃO ENTENDEU?! AAAAH!
Aqueles berros, a atitude agressiva que domava o ar ao redor daquela pequena mesa de pedra e seus assentos, que estavam sendo organizados com tanto esmero por seus irmãos de Chalé, estava a atual conselheira, aprendiz da lendária (e derrotada por Martosael, diga-se de passagem ) Lorenna Kogawa, Maria. Com sua beleza em cachos vivos e volumosos, e uma pele morena que, como dizem algumas músicas, ‘da cor do pecado’, estava com uma bermuda jeans e a camiseta do acampamento meio-sangue.
Um baque, uma queda.
– Oi, Mari.
– MARTOOOOO, VOCÊ VEIO!
– Eu vim sim, Mari.
– É, VOCÊ VEIO!
– É.
Os membros do chalé assistiam a cena, uns com sobrancelhas erguidas, outros indiferentes... Muafak com um olhar que poderia desmembrar o recém-chegado só com a força da mente. Ainda bem que a mente dele não era tão forte assim.
E perdido entre os cachos de Maria, Martosael pode ver uma bela e discreta Clara, sua tão querida aprendiz, com uma beleza que lhe tocava o coração toda vez que a via. Um sorriso belo, amistoso nos lábios por vê-lo ali e sem se importar de demonstrar isso, talvez a mais discreta e mais querida entre as três, para o ex-Legionário.
Após troca de afagos e sorrisos com sua querida conselheira, ela finalmente liberou Martosael para se levantar, e foi o que fez. Como de lei, avaliou sua aluna antes mesmo de se aproximar... Trajada com botas de salto curtas, lembrando muito o coturno do próprio Martosael, um jeans escuro levemente desbotado nas áreas a qual ela teve de se desdobrar sobre o solo para esquivar de algumas situações do passado, uma camiseta regata/rasgada cinza levemente desbotada, com um top preto por baixo lhe tampando suas honras, e os pulsos com tiras largas de couro que lhe serviam de pulseiras, dando uma bela elegância, além de seus em tons mais escuros, que infelizmente o ex-Legionário não sabia definir uma exata cor, ele tinha dificuldade com isso. Algo que se assemelhava muito ao azul índigo/púrpura/roxo, ah, vocês entenderam.
Discretos em suas aproximações, os dois se abraçaram por um breve instante, deixando disfarçados sorrisos surgirem antes de ambos se desvencilharem um do outro.
– Trouxe algo pra você.
– Sério? Cadê?
– Calma apressada – O tom de falsa surpresa pelo jeito da garota, fez ambos rirem por breves instantes.
Apesar de fantasiado de papai Noel, as garotas pareceram ter respeitado muito o garoto, que de papai Noel era só a barba e o gorro. E de lá de dentro, ele retirou uma espada longa, preta, com uma cruz branca desenhada em uma das faces do estoque(ponta) da lâmina, e a runa do poder Angelical na outra face do Estoque. Mais próximo do cabo, no inicio da lâmina, um elmo vermelho sinalizando que era um arma forjada pelo Chalé 5, e do outro lado, um símbolo do ‘artesão’. Um C, de Clara, com o mesmo tom da cor dos cabelos da menina, e ascendendo em matrizes de traços, como se fosse um desenho tribal que se espalhava por toda a longa lâmina negra. Era uma arma leve, porem um tanto rustica por ser uma das primeiras forjadas pelo rapaz.
Entretanto, feita com todo o carinho de seu coração.
O sorriso gentil brotou nos lábios de sua jovem aprendiz, que o abraçou em agradecimento e já saiu comentando com os colegas de chalé sobre seu presente de natal dado até então pelo Papai Noel de Preto.
Mas muito embora isso não tenha sido do agrado de todos, um deles ficou muito ofendido, a ponto de sussurrar ofensas disfarçadas : Muafak.
Notando isso, Martosael não deixaria de passar... E aproveitou-se de todo o deleite e amizade que tinha com as três meninas, brincando igualmente com todas, e principalmente com as que Muafak mais demonstrava se incomodar : Maria e Clara.
Entre troca de abraços, beijinhos no rosto, risos, brincadeiras, cócegas e afins... O até então ofendido rapaz se aproximou pelas costas de Martosael, que, já alarmado e provocando de propósito, só esperava aquele momento.
Em um instante, tudo ocorreu. Um irritado e covarde, atacou o ex-Legionário pelas costas ,para empurra-lo para longe das garotas enquanto cuspia coisas como “ Pare de ser tão grudento, porr*, isso chega a ser chato! “ apesar do até então incomodado, ser apenas ele. E pela brutalidade e violência do movimento, teria jogado o contra a mesa de pedra, se Martosael não tivesse reagido.
Ligeiro na troca de pernas, deu um passinho ao lado e atrasou uma das pernas, permitindo o tropeço apressado de Muafak para o encontro com a mesa e um tropeço desagradável com um raiz de arvore.
– Opa! Tá caindo de maduro, Mohammed? Que pena, ainda bem que eu tenho onde me segurar.
E com um sorriso petulante e cheio de vitória egocêntrica, o até então treinador, saí aos risos com sua presenteada aprendiz para próximo de uma arvore a qual os dois costumam ficar sentados conversando. Irado e descontente, Muafak passou seco, trombando nas pessoas do Chalé, deixando claro que o assunto iria se resolver no caça.
– Acho que ele ficou estressadinho. – Comentou Martosael.
– Você acha que ele ficou estressadinho? – Questionou Clara, com uma certa retórica em seu tom, com um risinho preso e uma expressão de ‘ Jura? ‘.
– É, eu acho que ficou.
Os dois se olharam, e riram um pouco mais por toda a situação... Mas o fato, era o fato. Tudo iria ser entendido no caça.
O apito havia soado, C5 no time vermelho, e era só essa a informação que importava para o ex-legionário. Maria, organizando seus irmãos de chalé, Clara estruturando sua própria mente, coragem e ansiedade pela batalha em um mudo aperto no cabo de sua nova arma. Compte buscava ajudar da maneira que podia, distribuindo as armas feitas para membros do C5 que lutariam, mas não tinham armas próprias.
Mas, como sempre... Sem participar de estratégias ou organizações, Martosael se levantou, sorriu para Clara que até então estava sentada ao seu lado e disse o que sempre diz.
– Te vejo no campo de batalha.
Sem aguardar uma resposta de sua aprendiza, ele apenas saiu, passo a passo, e realmente o próximo encontro entre deles poderia ser entre as espadas dos oponentes.
Maria urrava comandos, para que mantivessem a linha, que fossem pelos flancos, enquanto enfrentava dois ou três oponentes com a bravura de uma conselheira e líder em Campo.
– VOCÊ!!!
O urro claro: Muafak.
Martosael estava posicionado em uma linha pequena com soldados inexperientes, campistas que estavam indo por seu primeiro evento, no flanco esquerdo que era mais entre as mesas e tinha menos risco de encontrar com oponentes de perigo. Por que o Ex-legionário estava ali então? Exatamente para evitar que oponentes de uma habilidade maior fossem aproveitar da batalha dos inexperientes, e infelizmente acabou servindo de pivô para que dois soldados extremamente fortes abandona-sem o centro da batalha, e fossem para o flanco esquerdo.
Se vendo sozinho contra Muafak, armado de espada e escudo, tal qual Todai, seu fiel companheiro também, Martosael se via cercado pela morte certa, e com o máximo que poderia fazer era evitar que os inexperientes fossem levados nessa brincadeira.
– Você, cheio de grudes e gracinhas, poderia até ter me machucado aquela hora e ainda acha que podia me zuar na frente delas?
– Até onde sei – Rebateu Martosael. – Você não tem nada com nenhuma delas, tá com ciúme do que?
Todai abriu risadas, enquanto uma Muafak furioso se lançou em um feroz ataque, que graças a fúria, se tornou previsível e permitiu as esquivas de Martosael.
De inicio, o furioso Muafak lançou um ataque na vertical, a qual Martosael reagiu no último instante com dois passos para a esquerda, permitindo que o golpe passa-se ao vácuo, apenas para que a mesma lâmina volta-se em um corte aberto e horizontal, perigoso na linha de cintura. Com um salto para trás, o ex-Legionário escapou do alcance da lâmina de Muafak, e os dois brandiram lâminas três ou quatro vezes, em trocas de golpes violentos com estalos altos, que chamaram a atenção de uma pessoa: Clara.
Todai cercava lentamente Martosael que focado em combater o furioso parceiro, não notava estar sendo cercado. O coração da aprendiz, ardeu de preocupação com seu tutor, e deixou a linha central da batalha para uma rápida e ligeira eliminação de Todai, com um golpe estalado e alto em suas costas.
– Ok, ok, você me pegou, só vai mais devagar nessa força aí .
Clara sussurrou um breve ‘ tá bom ‘, e se apressou em ajudar Martosael contra o furioso Muafak, mas parou quando notou em como estava a tensa linha de guerreiros iniciantes sendo subjulgadas, e ela, já uma veterana... Teve que traçar uma prioridade. Ajudar seu amigo e tutor, largando iniciantes a sua sorte e inexperiência, ou ajuda-los e confiar em Martosael?
– Fica bem! – Gritou Clara, e se virou para enfrentar a linha inimiga que avançava.
Na tensão clara entre Muafak e Martosael, o grito de Clara foi o momento de um olhar decisivo entre ambos. Era 1 contra 1, sem Todai para matar o Ex-Legionário em seu primeiro descuido. A agressividade se fez presente, quando o escudo de Muafak avançou na direção do rosto de Martosael, o atingindo em cheio e forçando a uma cambalhota para trás com uma dor esmagadora em seu nariz.
Confiante demais por seu acerto, Muafak, um guerreiro treinado, mas cego por sua arrogância e fúria pelo golpe atingido, avançou de peito aberto, e o reflexo junto da agilidade de Martosael, um dual oficial que nunca usa duas espadas, falou mais alto naquele instante.
Martosael vibrou sua longa espada, desviando a estocada da espada curta de Muafak para o lado direito, uma vez que o oponente era destro, abrindo totalmente sua guarda e, feito assim, Martosael se ergueu de leve do solo, firmando um dos joelhos no solo enquanto deslizava sua lâmina pelo peito aberto de um Muafak desacreditado da agilidade do rapaz, que quando terminou o golpe, havia concluído um arco perfeito após girar com um corte horizontal por baixo do braço direito, e concluindo com um terceiro corte vertical nas costas do mesmo.
E sob uma pose vitoriosa, um Ex-Legionário, todo de preto, sujo de terra pela cambalhota e o nariz dolorido, estava com sua espada apoiada no ombro e disse em alto e bom tom.
– PRÓXIMO.
A linha inimiga, levemente abismada pela morte de até então um de seus guerreiros mais fortes, que voltava para trás da bandeira transtornado de fúria e aos xingos, deu a brecha para Clara liderar com bravura os iniciantes.
– A BANDEIRA É NOSSA!
Gritou uma Maria, vitoriosa e com a bandeira azul presa embaixo de sua espada, frente a bandeira vermelha que tremulava atrás de si. Clara e Martosael estavam um pouco mais a frente, contendo o contra-ataque desesperado do time azul juntos dos fortes guerreiros do time vermelho, quando tocaram o apito assumindo a vitória gritada até então pela líder do C5.
Uma troca de olhares alegres e aliviados, ambos suados e sujos por pancadas de lâminas sujas por sangue de ralados e até mesmo de breves ferimentos que acontecem em todo caça, Tutor e aprendiz trocaram sorrisos e se abraçaram em comemoração, mas se largaram rápido pois calor humano era o último calor que queriam sentir naquele exato momento. Mas antes disso, houve aquele pequeno agradecimento.
– Valeu, Clarinha. Se não tivesse sido você, Muafak tinha me moído .
Levemente constrangida, mas graças ao calor, serviu de desculpa para o rosto avermelhado, ela apenas comentou aquele famoso ‘ Que nada ‘ que sempre usa para tudo, enquanto seu tutor ia para algum ponto da grama quente, possivelmente, tirar seu cochilo até Maria ir fazer uma massagem.
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