Um coração fervoroso
1 Capítulo Único
O silêncio sempre era característico nas redondezas da residência Kamisato, a leve brisa noturna sempre trazia uma paz da qual muitas pessoas que trabalhavam ali. Era algo que o senhor do clã, Ayato Kamisato, gostava de ter e apreciava por conta do tanto que trabalhava, das incontáveis horas que passava sentado em frente a uma mesa cheia de papeis e pergaminhos, o silêncio lhe era bem-vindo para manter a concentração e conseguir terminar boa parte de seu dever.
Deixando o pincel de lado, a mão destra dele doía pelo tempo que passou escrevendo, tremendo um pouco, tentando ser perfeito em cada palavra dita e em cada acordo que deveria ser analisado ao ser lido e redigido em seu nome, deveria ser perfeito, deveria ser.
— Lorde Kamisato?
O distraindo do afazer que tinha, ergueu o olhar para o guarda logo a entrada da sala, uma reverência de respeito, só então percebeu também que já estava escurecendo e que por ser de noite, Thoma deveria estar ali o chamando para o jantar e não um guarda. Cenho franzido e a dor em sua mão foi ignorada ao acenar para que o outro prosseguisse falando, estranhando o que fosse já que sempre deixavam um recado em papel para nunca ser incomodado.
— É o Thoma, meu senhor... Ele...
Um frio passou pela espinha de Ayato, o olhar se arregalando e nem mesmo deixando com que o outro terminasse de falar. Se levantou e quase derrubou algumas coisas em sua mesa, seguindo caminho para fora de sua sala e ignorando qualquer coisa que o guarda logo atrás de si falava. Todos que serviam ao clã Kamisato sabiam da importância que Thoma tinha para Ayato e Ayaka, de como era bom para todos e da influência que ele tinha, mas não sabiam o quão importante ele era para Ayato, o quanto era querido.
Pelo Arcontes, não sabia como ninguém descobriu até o momento do quanto desejava seu criado Thoma.
O barulho de seus passos ficava cada vez mais altos, sendo diferentes da figura calma que sempre era em alguma situação de risco, parando apenas ao chegar ao local onde alguns criados dormiam, podendo observar logo ali algumas mulheres na entrada, além de ouvir a voz dele. Thoma.
Um grito de dor.
Nem mesmo pediu “com licença”, passando por elas e abrindo a porta. Quase perdeu o folego ao ouvir mais um grito e ver do lugar onde Thoma costumava dormir um médico, fechando a porta e ignorando os cochichos dos outros criados, esses curiosos para saberem o que de errado aconteceu.
A passos lentos, se aproximou, sendo diferente de antes já que a ansiedade o fazia travar aos poucos, o nervosismo somado a carga de trabalho durante o dia inteiro pesando em sua cabeça e ele querendo que tudo acabasse logo, mas não acabaria, não até ver que seu Thoma estava ferido na barriga, sendo costurado por um outro homem enquanto outro passava o que se assemelhava a uma pomada no ferimento.
Corte de katana, reconhecia bem tal tipo de corte por já ter desferido em pessoas desagradáveis que duvidavam de sua capacidade de se defender sozinho.
— Irmão... — A voz de Ayaka, não percebeu ela ali e olhar para ela conseguiu o estabilizar, forçando um sorriso para a face de medo dela.
— Ayaka, por favor, poderia cuidar dos criados que estão a porta? Creio que os médicos já estão cuidando bem do Thoma — Pediu, deixando que uma mão ficasse repousada em seu ombro e sentindo o quão tensa ela também estava.
Claro que estava, os dois não viviam longe um do outro, Thoma sempre a protegeu e cuidou dela como uma irmã mais nova, sendo mais presente na vida de Ayaka do que o próprio Kamisato mais velho.
— Sim, irei... — Murmurou, mas se virando e parando antes — Ele vai ficar bem?
Ayato olhou de soslaio para Thoma, o sangue nos lençóis trouxe um aperto em seu peito, mas o sorriso gentil sendo forçado permaneceu ali.
— Sim, ele vai ficar bem — Respondeu com pesar — Agora vá, não irá fazer bem ficar diante dessa cena.
Outro aceno em concordância, a caçula se retirou e logo Ayato não ouvia mais os cochichos que atravessavam a porta, restando apenas o lamurio de alguém ferido. Precisava ser forte, precisava ser o homem e líder do clã Kamisato, não se afetar por alguém ferido que trabalhasse para si, mas tudo caia por terra ao olhar novamente para Thoma.
Ficando de pé ao lado da cabeceira da cama, os dois que cuidavam dele logo terminaram e deixaram remédios, instruíram brevemente o que deveria ser feito e que iriam passar as instruções para os empregados. Ayato quase deu a ordem para que ninguém além de sua irmã entrasse caso fosse necessário, não queria ninguém ali apenas para presenciar o mais leal criado dos Kamisato ferido, como atração de circo.
A respiração tremula, finalmente sozinho com Thoma, mas não da maneira que queria. Sentando-se a beirada da cama, ele o observou bem além dos ferimentos, da coberta que agora escondia parte do ferimento e estava enfaixada, mas com o pouco de sangue já sobrepondo tudo. Sem o ornamento de pequenos chifres e o cabelo longo agora solto, espalhados pelo travesseiro, era belo e seria um bom momento para suspirar apaixonado se não fosse trágico.
Arregaçando as mangas e puxando um banquinho para se sentar, pegou o que estava disposto ali para não parecer inútil, um pano molhado e torcido, as mãos de Ayato tremeram com a água gélida e mesmo assim continuaram para o que faria, com o tecido úmido passando a testa de seu adorado, limpando a sujeira já que não fizeram e percebendo que a pele dele se avermelhava, causando um pequeno pânico em si, mas não transparecendo. Nunca cuidou de alguém ferido que não fosse a si mesmo, nunca cuidou de alguém doente que não fosse sua irmã, se sentia um inútil.
Não percebeu quanto tempo passou ali, seus braços doíam um pouco e suas mãos não paravam mais de tremer, apenas parando quando cedeu ao cansaço e a exaustão, a escuridão tomou conta e adormecendo ali mesmo.
Acordou apenas um afago em seu cabelo, lento e que lhe causava arrepios, para erguer a cabeça e perceber um doce sorriso no rosto de quem sempre amava, um sorriso fraco e sem dor, que lhe dominou e o dominava cada vez mais até mesmo em um momento de fragilidade.
— Meu senhor, não deveria estar... Aqui... — Sussurrou, sendo perceptível sua voz rouca.
Ayato não pensou duas vezes antes de se levantar e buscar um copo d’água, ignorando os protestos de Thoma e o servindo, o ajudando a beber e a repousar a cabeça novamente no travesseiro, sentando-se em seguida
— Waka, eu...
— Como ousa me deixar preocupado assim, Thoma? — Falou, o claro tom de repreensão e sentindo-se tremer por inteiro, o copo tremia em suas mãos.
Tremia de raiva? Não, uma frustração e tristeza que se afloraram a tal ponto que nem mesmo a face sempre séria, nunca conseguiu admitir ter tristeza, não sabia o que fazer com esse sentimento porque nunca soube demonstrar de maneira correta, se entupia de trabalho, se isolava com as atividades nas sombras de coisas inconvenientes ou treinava, não precisou mostrar.
O tremo ficou menor ao sentir a mão dele na sua, apertando com a força que tinha, o calor da sua pele o tranquilizando e aos poucos, pareceu se acalmar.
— Me descul—.
— Não peça desculpas, apenas melhore, Thoma — O interrompeu de maneira ríspida e pronto para falar mais, até sentir o calor da mão dele em seu rosto e notar que voltou a tremer.
— Para você, sempre — Sussurrou.
Com um dos dedos passando em um de seus olhos, limpou o molhado que nunca escorreu e Ayato não conseguiu segurar mais a si mesmo, abandonando o copo ali na cama e avançando ao corpo de Thoma, entregue para que ele não o deixasse sozinho do jeito que estava, ansioso demais para ficar em seus próprios pensamentos e não querendo o abandonar em meio ao enorme ferimento.
O calor do abraço de Thoma era agora seu remédio para seu coração.
Notas finais
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