Tão apaixonada, ela pulou de cabeça nesse oceano chamado “amor”, e, após cinco anos, ela permanece submersa.

Poderia ter se afogado dois anos atrás, em uma noite de agosto, durante um período de maré alta, mas sua sorte é que em momentos de agonia como esse ela consegue ser mais forte que uma tempestade. Ela decidiu parar de encarar as ondas e voltou seus olhos para a orla, surpreendeu-se ao ver suas roupas ali jogadas, empapadas pela água e areia. As botas que usara naquela noite ainda estavam ali, porém a antiga cor, um roxo vívido, havia empalidecido.

A praia estava deserta há muitos anos, ela observou. A areia ia em direção à imensidão. Era pouco provável que alguém morasse nas redondezas, mas ela tinha a sensação de já ter estado ali acompanhada, dentro e fora dá água. A areia parecia estar a uns 19 ou 20 metros de distância, talvez menos, estava perto o suficiente. Ela se preparou, deu seu último mergulho, olhou decidida para seu objetivo e se convenceu a sair dali. Não aguentava mais a sensação do sal arranhando sua pele. Seus olhos de um castanho intenso brilhavam como joias refletindo o sol. Ela esticou o corpo e começou as braçadas. Um braço após o outro, um movimento frenético de pernas e ondas e a cabeça virando da esquerda pra direita, movimentos intercalados e sincronizados. Ela nunca sentira uma sensação de liberdade como aquela, seu corpo não conseguia mais parar, os movimentos tornavam-se naturais a cada metro percorrido. O frenesi da água deslizando sob seu corpo só foi interrompido quando fincou seu braço direito com toda força na areia e seu rosto arranhou nas pedrinhas e cacos de conchas. Uma pequena onda veio por cima de seu corpo e arrastou com força seu cabelo para frente e na volta o conduziu suavemente para trás.

Ela estava lá, jogada, paralisada pelo cansaço da bateção de membros superiores e inferiores, o único movimento que conseguiu realizar foi puxar o braço que estava enfiado na areia e se arrastar alguns metros à frente. Ela ficou imóvel pelo que pareceu uma eternidade, até que a areia ficasse quente o suficiente para expulsá-la. Levantou-se com dificuldade, primeiro ficou de joelhos, depois apoiou os braços e os usou para dar impulso. Logo se pôs de pé, trêmula. Não era como se nunca tivesse estado em terra firme, mas já passara tanto tempo desde a última vez em que estava seca e fora do oceano que seu corpo não reconhecia mais a sensação. Era estranho, e novo, apesar de já ser sabido. Ao menos uma coisa a estava confortando: o balançar do mar a acompanhava desde a hora em que pousou de seu voo aquático.

Ela pegou as roupas repletas de areia e as balançou, era um casaco preto e comprido, e um jeans desbotado, balançou-os na tentativa de tirar um pouco da areia, mas nada resolveu aquele estado precário de suas vestes. Ela não estava completamente nua, vestia apenas roupas íntimas. Largou as roupas onde as encontrou e olhou para os pés enrugados e pálidos, estavam começando a queimar sobre a areia. Então, ela andou. Foi caminhando pela praia em direção à imensidão, até seus pés se encontrarem com uma areia muito mais fofa que a anterior. Era fina e macia, branca e brilhante a luz do sol. Ela não resistiu e sentou-se de frente para o mar, abraçando as canelas e colocando o queixo entre os joelhos. Permitiu-se fechar os olhos por alguns minutos e sentir a brisa salgada penteando seus cabelos. Quando abriu os olhos, examinou o local. Algumas conchas estavam espalhadas por sua extensão e traziam tons coloridos de rosa, azul e roxo àquele imenso quadro em branco.

Era lindo, ela concluiu. Era mais lindo ainda quando o branco se encontrava com o intenso azul do mar. Um contraste de cores e texturas, que se completavam e pareciam se amar. O oceano brincava de pega-pega com a praia, ia e vinha numa dança inocente, e por fim, quando a onda se quebrava, era como se estivesse feliz, se agitando e se misturando a areia. Ela sentou-se para observar melhor a brincadeira, e deleitou-se em ver o amor entre os dois. Por um segundo sentiu que estava chorando, mas refutou a ideia, a água salgada marejava seus olhos há anos. Estava cansada, acho que já falei antes? Então, quando o sol se pôs, ela já havia adormecido sobre a areia sedosa.

Quando abriu os olhos, na manhã seguinte, se sentiu encharcada. Estava novamente boiando no mar. A sua volta não havia praia, nem conchinhas, nem um grão de areia sequer. Num giro de 360° tudo que pode avistar foi aquela mesma imensidão de um azul intenso. Mergulhou uns segundos e submergiu novamente. Seus olhos lacrimejavam, ela soluçava, dessa vez, tinha certeza de que estava chorando. Ela sonhava todas as noites o mesmo sonho, e todos os dias nadava desesperadamente em qualquer direção, esperando um dia chegar à praia, esperando um dia se libertar de sua prisão de água, e reencontrar aquele amor livre de seu sonho, onde ela poderia nadar quando seus músculos gritassem por movimento, e se esquentar na areia quentinha quando sentisse frio.

Notas finais
Sobre os personagens: 1)Ela: uma garota mergulhada dentro de sua própria mente. 2)O mar: a prisão da mente, lado obscuro que observado por outra perspectiva pode ser bonito ao fundir-se a liberdade. 3)A praia: esperança, de conseguir se libertar da prisão da mente que a impede de seguir em frente. 4)As roupas: o passado, aquilo que permanece mesmo que com o passar dos anos todo o resto se desintegre. 5)O deserto: a solidão da mente, dos pensamentos, do coração. Só há ela, sua prisão, seu passado, e sua esperança. 6)O estranho: o abandono, quem a levou até ali e a deixou para lutar sozinha dentro de si mesma.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.