Um conto e um café, por favor
2 O Final da Morte é a Própria Morte
Notas iniciais
– Rich, era a minha vez! – Claire resmungou, tentando alcançar seu pequeno celular nas mãos de Richard, que estava com as mãos erguidas.
– Só vai jogar se conseguir pegar! – Ele a desafiou, tentando sair correndo dessa vez. Claire era rápida, mas por mais que não fosse tão mais baixa que o amigo, não obteve sucesso no que estava pensando fazer.
– Bobo! – Ela xingou e cruzou os braços, fazendo bico.
– Chata! – Ele sorriu, prosseguindo com seu jogo no celular dela.
Claire e Richard eram melhores amigos. Não se conheciam há muito tempo, fazia mais ou menos três anos que trocaram seus olhares pela primeira vez, na sala de aula. Desde então, não se desgrudavam. Sentavam perto, ela na frente, o que era motivo para o garoto acariciar os cabelos da amiga durante a aula inteira. Sempre faziam as atividades e trabalhos juntos, compartilhavam segredos, saíam todos os dias depois da aula, ás vezes para estudar, ás vezes para se distrair. Muitos diziam que eles eram namorados, mas não eram. Porém, o que Richard não sabia era que Claire era extremamente apaixonada por ele.
– Eu não sei, Lily. – Em certa ocasião, Richard disse para uma amiga de Claire, sem ela estar por perto. Lily gostava de Richard, e sempre teve um pouco de ciúmes da amizade dos dois. – Tem garotas que eu tenho certeza de que eu nunca ficaria, mas a Claire eu não sei. Não sei ao certo o que sinto por ela.
Aos poucos ele descobriu que esse sentimento era a paixão. Claire despertava a paixão nele. Mas era algo que nunca poderia acontecer. Claire era sua melhor amiga e teria que permanecer assim.
Ela nunca havia contado de seus sentimentos para ninguém, mas imaginava toda noite os dois juntos, como um casal de namorados. Mal esperava pelo primeiro beijo deles, que nunca aconteceu.
– Good morning for all ! – O professor da aula seguinte, inglês, havia acabado de entrar na sala. Richard foi obrigado a devolver o celular para Claire, mesmo porque queria trocar mensagens no WhatsApp discretamente com ela, enquanto o professor escrevia na lousa.
Hey, para onde vamos depois da aula hoje? – Ele digitou rapidamente.
Claire sentiu seu celular vibrar. Ela deu um sorrisinho de alegria quando percebeu de quem era a mensagem que havia recebido. Leu e respondeu rapidamente:
Que tal o lago? – Rapidamente veio a resposta.
Combinado! – Ambos sorriram, guardaram os celulares e começaram a prestar atenção no professor.
As aulas finalmente haviam acabado. Os dois amigos estavam muito ansiosos para passar a tarde juntos, no lago. Se levantaram de suas carteiras com suas mochilas e saíram juntos da sala. Ouviram algumas fofoquinhas quando estavam passando pela porta, dizendo que os dois eram namorados. Era o que Claire mais gostaria. Mesmo que Richard gostasse muito da garota, não era o que ele achava certo.
– Você ouviu o que eles disseram, Rich? – Claire perguntou, tentando dar alguma pista sobre a sua paixão secreta.
– Ouvi, mas nem ligo. – Ele respondeu. – Você é a minha irmãzinha chata e boba! – Richard bateu com o dedo na ponta do nariz de Claire. Ela sorriu, mas por mais que Claire tentasse parecer feliz, Richard percebeu que havia tristeza em seu olhar. Ele sabia dos sentimentos da amiga. Tentou então, durante o caminho até o lago, falar de coisas aleatórias e engraçadas, para ver Claire sorrir. O seu sorriso era a coisa mais bonita que o garoto já vira.
***
O lago era um lugar calmo, bom para conversar. Claire estava disposta a mostrar seus sentimentos para Richard. Eles sentaram perto da água, um do lado do outro, e a garota encostou sua cabeça do ombro do amigo, coisa que constantemente ela fazia. Em troca, ele acariciava seus cabelos. Após longos minutos de silêncio, Claire teve a coragem de dizer:
– Rich, você já se apaixonou antes? – Ela sentiu o garoto engolir em seco.
– Ora, Claire! – Ele respondeu. – Mas que besteira! Se apaixonar não está nos meus planos. – Ele sabia que aquilo havia machucado o seu coraçãozinho, também machucou o dele. Richard se odiava por fazer sua pequena sofrer. Mas era o melhor a ser feito, eles nunca poderiam namorar.
Claire se segurou para não chorar ali mesmo, no ombro do seu amigo, seu amor.
– Mas Rich, você não escolhe se apaixonar!
– Eu escolho, e nunca vou me apaixonar. – Ele se sentiu um completo babaca por dizer isso, e pôde jurar que viu uma pequena lágrima escorrer do rosto de Claire.
A tarde no lago estava estragada. Os dois tentaram disfarçar, fizeram de conta que estavam felizes. Mas ao voltar para casa, desabaram em lágrimas. Richard estava decidido a fazer Claire esquecê-lo. Por mais que ele a amasse, isso não era certo. Ele não queria perder a tão amizade que cultivaram. Ele já sabia o que fazer.
***
No dia seguinte, Richard procurou Lily pela escola inteira antes da aula, a garota que era apaixonada por ele. A encontrou perto da biblioteca, organizando alguns livros em sua mochila.
– Lily, eu posso falar com você? – Ele perguntou, com vontade de chorar.
A garota arregalou os olhos quando ouviu Richard falando com ela. Começou a ficar nervosa, como toda vez que ele estava por perto.
– Cl-claro. – Gaguejou, arrumando o cabelo.
– Você ainda gosta de mim, certo? – Ele não esperou a resposta da garota para continuar. – Eu quero que seja a minha namorada.
Parece que Lily demorou alguns segundos para processar aquela informação, porque ela demorou para dizer que aceita e correr nos braços de Richard, para beijá-lo. Ele não havia gostado do beijo, não sentia atração nenhuma por ela.
– Estou atrapalhando? – Uma voz feminina disse. Richard reconheceu ser de Claire. Ele se afastou dos braços de Lily, olhando para o rosto da amiga, que estava cheio de lágrimas.
Claire não acreditava no que havia acabado de ver. O seu melhor amigo, seu amor, beijando sua outra amiga. Dessa vez ela não havia conseguido segurar o choro.
– Claire, — Richard começou a dizer. – a Lily e eu estamos namorando.
Uma dor imensa se manifestou no coração da garota.
– Desde quando? – Ela perguntou, desabando em lágrimas.
– Desde agora, querida. – Lily respondeu sarcasticamente. Claire não aguentou e saiu correndo, em direção a sala de aula. Richard percebeu que havia feito a maior merda de toda a sua vida.
***
Quando chegou na sala com Lily, todos ficaram olhando os dois. Ouviram alguns bochichos, a garota ao seu lado sorria muito, mas Richard não conseguia sorrir. Olhou para o seu lugar, e cadeira da frente estava vazia. Ele varreu a sala com seu olhar, procurando Claire, e a encontrou no fundo da sala, mexendo no celular e com os fones de ouvido.
– Olhe só, amor! – Lily disse. Sua voz era irritante. – Vou poder sentar na sua frente!
Richard não respondeu. Ele apenas sentou em seu lugar e começou a digitar uma mensagem para Claire:
Pq vc ñ sentou perto de mim?
Em poucos segundos, a resposta:
Pq vc ñ me contou que iria pedir a Lily em namoro? Pq ñ me contou que gosta dela? Achei q fôssemos melhores amigos!
Mas nós somos! Claire, vc ainda é a minha prioridade!
Estou vendo, Richard. Agora me deixa em PAZ!
Richard olhou para onde a sua amiga estava sentada, ela havia começado a chorar. Olhou também para a garota na sua frente. Chorou também. Sua amizade havia acabado e ele estava namorando uma garota que ele não amava e nunca amaria. E pior: se terminasse, feriria os sentimentos dela também. Ele não sabia o que fazer.
***
Os dias se passaram e Claire não havia mais falado com Richard. Sentava agora no fundo da sala, não tinha amigos, estava com o coração quebrado e sempre o observava de longe. Ele não parecia feliz. Mas porque estava fazendo isso? Porque esconder dela o seu sentimento por Lily? Se ele tivesse contado antes, talvez Claire não tivesse se iludido tanto e eles ainda seriam amigos. Ela se lembrou de um dia no lago, que Richard havia dito que nunca amaria ninguém. Porque mudou de ideia tão rápido?
Mas naquele dia, algo diferente aconteceu. Richard não foi para a escola. E nem no outro dia. E no outro, e no outro. Claire estava ficando preocupada, mas ele havia uma namorada. Ela que cuidasse dele.
Faziam dias que ela e Lily não se falavam, mas no quinto dia que Rich não aparecia na aula, ela parou ao lado da mesa de Claire, que foi obrigada a tirar os fones para escutá-la.
– O que você quer? – Perguntou, um pouco grossa.
– Você sabe do Richard? – Ela disse rápido demais.
– Ué, você é a namorada dele. – Claire respondeu, virando os olhos. – Se tem alguém que tem que saber de algo aqui, esse alguém é você!
– Mas eu não sei! – Lily havia começado a chorar. – Claire, ele não atende minhas ligações, não vê o WhatsApp, ninguém atende a porta da casa dele, eu não sei o que fazer! – Ela se ajoelhou do lado da carteira, com lágrimas grossas caindo de seus olhos. – Por favor, Claire! Me ajuda!
– Vou ver o que posso fazer. – Ela disse, recolocando seus fones.
Assim que chegou em casa, Claire mandou uma mensagem para o amigo:
Rich, vc está bem?
A mensagem não foi entregue e ele não olhava o aplicativo em alguns dias. Ela então decidiu ligar, e no quinto toque, a mãe do garoto atendeu:
– Oh minha querida, que bom que você ligou! – Ela disse, do outro lado da linha, com uma voz meio chorosa. – O Richard quer ver você.
– Oi, dona Helena! – Respondeu calmamente. – O que aconteceu com o Rich? Porque ele está faltando na escola?
– Querida... O nosso Rich está muito doente. Faz alguns meses que ele anda vomitando muito, e descobriram que ele está com um tumor nas proximidades do estômago. Ele está morrendo, Claire! Venha vê-lo aqui no hospital municipal, ele quer muito isso!
Ela desligou sem nem falar nada para dona Helena. Como assim Richard estava vomitando faz tempo? Porque ele também escondeu isso de Claire? Agora não importava mais, ela foi correndo até o hospital e encontrou um Richard abatido, á beira da morte. Ela se aproximou da maca, e o garoto a olhava com tristeza.
– Eu sabia que você viria, sua chatinha! – Ele disse, com a voz fraca. Uma lágrima rolou do rosto de Claire.
– Rich, não diga nada! Você precisa descansar!
– Não, eu preciso te dizer! – Ele tossiu. – Me perdoe, primeiramente, por não ter te contado dos enjoos. Eu não queria te preocupar, Clairezinha!
– Rich! – A garota chorou mais ainda. – Eu te amo!
– Eu também te amo! Te amo muito, Claire! E eu fui um idiota. Não queria estragar nossa amizade, achei que se namorássemos, isso aconteceria. Por isso namorei a Lily, mas eu nunca a amei. Acabei estragando a nossa amizade de qualquer forma, e agora eu estou morrendo. Mas quero que você saiba que eu te amo.
– Você não vai morrer, pare de dizer isso! – Claire estava praticamente gritando. – Vamos ser muito felizes juntos, eu amo você! Muito!
– Eu amo você mais que tudo nesse mundo! – Foram as últimas palavras de Rich, antes dele falecer, bem na frente de Claire.
A garota não suportou. Começou a gritar e abraçou o amigo, não queria soltar nem quando os médicos chegaram, e teve que ser tratada a base de calmantes. Seu melhor amigo se fora para sempre.
Passaram-se alguns dias desde a morte de Rich, e Claire já não era mais a mesma. A garota não comia mais, já não queria ir para a escola e ficava o tempo todo deitada em sua cama, chorando. O amigo lhe fazia muita falta e ela se arrependeu de cada minuto que ficou longe dele por causa de Lily. Aquela vadia não havia ido nem no enterro do “namorado” e Claire esteve sempre ao lado dele. Alguns meses se passaram, e a menina entrou em depressão profunda. Não demorou muito para que falecesse também. A falta do melhor amigo causou toda essa angústia e tristeza em Claire, que também estava partindo ao encontro de Richard, seu grande amor, para um local onde os dois poderiam ser muito felizes, por toda a eternidade.
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