Um conto de destino e morte

22 Capítulo 22 - Justiça seja feita


Capítulo 22 – Justiça seja feita

Como não havia púlpito, Hermione ficou em seu assento enquanto a Senhora Justiça esperava o início de seu testemunho, como pedido.

Severus viu o rosto de Hermione corado e percebeu que ela estava mesmo muito nervosa. Ele também notou como ela evitava olhar para o outro lado da mesa, uma façanha e tanto, considerando como estava perto.

Apesar de tudo isso, Severus viu Hermione inspirar fundo e começar:

— Eu estava no Vácuo, cumprindo os deveres específicos do meu cargo, quando eu vi aproximar-se o homem que acreditei ser meu namorado. Fiquei surpresa.

— E por quê? — indagou a juíza.

— Não é comum — respondeu ela. — Nós respeitamos os cargos de cada um e não nos visitamos quando no cumprimento de nossos deveres.

— Então você o questionou?

— Ele disse que queria tentar coisas novas. Sugeriu que fizéssemos amor ali mesmo.

— Vocês tinham por hábito fazer amor em lugares variados? Ou públicos?

— Claro que não. Na verdade, nós éramos um casal clandestino, devido ao assédio de Satã sobre mim.

— Isso é verdade? O acusado a assediava?

— Há rumores de que ele tenha assassinado meu marido só para me pegar.

Satã pôs-se de pé num pulo, gritando:

— Protesto, Senhora Juíza! É um rumor, denigre meu caráter e é irrelevante para o caso!

A juíza admitiu:

— Concordo que seja um rumor, mas a relevância ainda será determinada. Srta. Querelante, retire a acusação de assassinato. Dê-me apenas os fatos de seu assédio. Quanto ao senhor, Réu, fique sentado!

Satan bufou, mas obedeceu.

— Sim, senhora — disse Hermione. — Posso garantir que o acusado tem me assediado desde que assumi o cargo. Ele veio até mim, anteriormente, também no Vácuo, para me aterrorizar a respeito do meu trabalho, dizendo que ele incluía favores sexuais para todas as Encarnações masculinas, incluindo ele mesmo. Ele tentou me colocar contra minhas irmãs-aspecto e ofereceu refúgio seguro nos seus domínios.

— Presumo que tenha rejeitado a oferta. A situação continuou?

— Exatamente, senhora. A única Encarnação que o acusado parecia respeitar era Chronos. Portanto, bolamos uma estratégia para mantê-lo afastado de mim, e foi dizendo que meu namorado era Chronos, quando na verdade ele era namorado de Lachesis. Aquilo o manteve longe um tempo, mas ele logo ficou desconfiado de alguma mentira.

— Ainda não entendo a situação. Onde é que Thanatos entra nisso tudo?

Hermione enrubesceu um pouco e respondeu:

— Chronos percebeu que na verdade ele amava Lachesis, mas se o relacionamento deles fosse tornado público, eu estaria vulnerável para as investidas do acusado. Ele sentia como se tivesse direitos sobre mim, e ignorava todos os meus protestos.

— Entendido — disse Justitia. — E Thanatos?

— Ele estava interessado em mim — disse ela -, mas nunca dissera nada pois era muito amigo de Chronos. Felizmente, nós terminamos resolvendo tudo.

— Mas o relacionamento entre vocês precisava ser segredo, não?

— Isso é correto.

— E mesmo assim, apesar de todo este segredo, você achou que Thanatos estava se comportando de maneira esquisita?

— A princípio não, porque ele disse que queria tentar coisas novas. Mas logo eu notei que ele se portava de maneira estranha demais.

— E aí, o que você fez? Confrontou-o?

Severus viu Hermione ficar cada vez mais tensa.

— Não houve tempo. Ele saiu na primeira oportunidade e eu entrei em choque quando percebi o que tinha acontecido.

— E o que aconteceu em seguida?

— Não me lembro muito bem. Eu me recordo de me sentir totalmente sozinha, porque minhas irmãs-aspectos estavam adormecidas. Então a Mãe Natureza apareceu e disse que eu estava condenada.

— Você sabia por que sua alma estava condenada?

— Na verdade, não sabia. Eu só senti uma grande sensação de angústia.

— Então você não sabia sobre as restrições em relação à Fonte da Vida?

— Não sabia. Tudo que me disseram foi que nem todas as Encarnações podiam entrar no Vácuo.

— Você não suspeitou de nada?

— Achei que nós poderíamos incorrer em algum delito menor, como atentado ao pudor ou algo do tipo, mas jamais um pecado mortal.

— Essa é sua defesa? — indagou a magistrada. — Você não sabia?

— Não. Minha defesa é que eu fui atraída e enganada para cometer um pecado sobre o qual eu não tinha qualquer conhecimento. É diferente de alegar que eu não sabia.

O público estava claramente dividido sobre o assunto e formou-se ruído nas galerias. A Senhora Justiça bateu o martelo, ordenando:

— Silêncio!

O ruído cessou, e a juíza voltou-se novamente para Hermione:

— Você alega ter sido atraída. Isso significa que você não considera ter sido coagida a fazer algo que não queria?

— Não, senhora.

Outra comoção percorreu as galerias, desta vez acompanhada pelos sorrisos e deboches dos sete demônios do lado oposto da mesa. Justitia bateu o martelo ainda mais forte, e o barulho encerrou imediatamente.

Em seguida ela se voltou para Hermione de novo e franziu o cenho:

— Você é bem nova nisso, não é? Ser uma Encarnação?

— Isso é verdade, Meritíssima.

— E você não sabia que conspurcar a Fonte da Vida é um pecado mortal?

— Não.

— Como ninguém falou para você?

— Não sei responder a isso, senhora. Minhas irmãs-aspecto não sabiam disso, pois não podem entrar no Vácuo. Elas não tinham como me avisar.

— Você sabe quem deveria lhe dar esta informação?

— Não, Meritíssima.

— Então irei contra meus instintos e farei uma pergunta hipotética. Se você soubesse que era um pecado, teria recusado ceder aos desejos de seu namorado?

Severus pôde sentir a tensão no ar. Hermione tremia ao mexer a cabeça e responder enfaticamente:

— Ele nunca, jamais teria sequer-

Gentilmente mas firme, a juíza a interrompeu:

— Só responda, por favor. Simplesmente sim ou não será o bastante.

Severus ouviu a voz de Hermione falhar quando ela respondeu:

— Acredito que eu teria feito o que ele me pediu.

Neste momento, um grito irrompeu do demônio da luxúria, Asmodeus:

— Issaê, galere! Eu sou bom demais em ser do mal, é ou naum é?

Os demônios soltaram gargalhadas e apupos, enquanto davam tapas nas costas do colega e gritavam como se estivessem torcendo.

— Eô, eô, Asmodeus é o terror!

— Ele é o cara, mermão!

— A princesinha perdeu!

— Ela vai para a galera, moçada!

— Vai ficar como o capeta gosta!

— E os capetinhas também!

Severus se perguntou, não pela primeira vez, porque os habitantes do Inferno gostavam tanto de falar em gírias. Mas a Senhora Justiça não estava de brincadeira. Ela bateu o martelo com força e berrou:

— Este é meu último aviso! Se o acusado e seu grupo não conseguirem se manter calados, eles serão retirados do recinto! Vocês foram avisados!

A balbúrdia diminuiu rapidamente e a juíza continuou os trabalhos, inquirindo:

— Srta. Querelante, se não estou enganada, parte de suas obrigações consiste em coletar o material bruto da própria vida e fiar o fio que se torna a linha da vida da alma dos mortais. Diga-me, os fios obtidos após seu interlúdio sexual resultaram defeituosos de alguma maneira?

O aspecto mais jovem do Destino assumiu um expressão confusa em seu rosto e repetiu:

— Defeituoso? Em que sentido?

— Em qualquer sentido: crianças deficientes, inabilidades físicas ou moralidade defeituosas, talvez?

— Nada além do comum, senhora.

— E onde ficou a roca com o material em questão?

— Eu a coloquei em um local seguro.

— Então não ficou corrompido?

— Não, Meritíssima.

— Agora, se não se importar, eu gostaria de falar com Gaia. — A Encarnação da Natureza se inclinou para frente para ter contato visual com a juíza. — Você foi imediatamente ao local, se me lembro corretamente. — Ela assentiu e a juíza prosseguiu. — Por que fez isso?

— É parte de meu trabalho — explicou Gaia. — Sempre que existe uma ameaça aos recursos naturais, sou levada até o local.

— Por favor, descreva o que você encontrou no local.

Os lindos olhos de Gaia estavam tristes.

— Quando lá cheguei, Clotho estava confusa e desorientada. Pude sentir a corrupção no ar. Mas Clotho não conseguia formular uma frase coerente, então eu a levei para minha casa.

— E o que aconteceu?

— Ela conversou com as irmãs e então, quando ela percebeu a extensão de tudo que se passara e as consequências, ficou desesperada. Ela não sabia que era um pecado mortal.

— Por que você acha que ela não sabia?

— Eu tenho minhas teorias. Mas eu tenho quase certeza de que a informação foi propositalmente escondida dela, com a intenção de fazê-la cair na armadilha.

— E quem fez isso?

— Não sei quem. E eu não desejo falar sem provas.

— Diga-me suas suspeitas.

— Se insiste, Meritíssima, eu só posso dizer isso: não tenho ideia de quem fez isso, mas eu tenho fortes suspeitas que tenha sido para beneficiar o Cramunhão.

— Protesto! — espumou Satã. — É especulação! E calúnia!

Justitia voltou-se para ele e disse calmamente:

— A testemunha só respondeu por insistência da minha parte, Sr. Réu, portanto, vou ignorar seu protesto.

Desta vez Satã bufou e resmungou, mas não reclamou em voz alta. A juíza voltou-se novamente para a Encarnação da Natureza e prosseguiu:

— Depois que a Querelante percebeu o que se passara, o que aconteceu?

— Nós fizemos uma pequena reunião para discutir a situação.

— Nós? A quem, exatamente, está se referindo quando menciona "nós"?

— Nesse caso específico, refiro-me a mim mesma, bem como Clotho, Thanatos e Chronos. Marte também estava presente.

— Entendo. — Justitia pareceu ponderar sobre isso por um segundo. — Quais foram as suas conclusões?

— Embora estivéssemos divididos a respeito dos próximos passos, concordamos que isso era obra de Satã.

— E quais foram as suas conclusões pessoais?

Gaia pressionou os lábios fortemente antes de responder:

— Mais uma vez, Meritíssima, prefiro não responder a esta pergunta.

— Poderia me dizer o motivo?

— Primeiro, considero Clotho uma filha querida e uma criança adorável. Mas principalmente porque não acredito que minha opinião seja relevante para o caso.

— Devidamente registrado — assentiu a Senhora Justiça. — Agora eu gostaria de ter uma palavra com o acusado. Incomoda-se se eu o chamar por senhor?

Satã armou seu melhor sorriso e respondeu:

— De maneira alguma, minha senhora.

— Neste caso, senhor— disse a Senhora Justiça determinadamente -, admite ter enganado a querelante para cometer um pecado mortal?

— Mas é claro que sim — disse ele, orgulhoso. — Foi um trabalho soberbo.

— Então por que diz ser a vítima neste caso?

— Senhora, eu estava apenas cumprindo o meu dever. É obrigação do meu cargo obter almas, por todos os meios necessários. Trapaça e logro são minhas especialidades e as ferramentas do meu ofício. Eu as usei, como a senhora usa a toga e o martelo. Como falei, apenas o meu dever.

— Poderia falar mais sobre essa parte do "por todos os meios necessários"?

O rosto simpático foi substituído por uma expressão irada.

— O que está insinuando? Não forcei ninguém a fazer coisa nenhuma! Ganhei a alma dela de maneira justa e limpa!

Severus sentiu uma onda de raiva emergir dentro dele. Hermione percebeu na hora e, embora abalada pelas palavras do demônio, ela pôs a mão no braço do namorado para acalmá-lo. A Encarnação da Morte imediatamente sentiu suas emoções borbulhantes se acalmando. Ele suspirou, aliviado.

Alheia à troca, a juíza perguntou a Satã:

— O senhor premeditou as ações que culminaram com a conspurcação da Fonte da Vida?

O sorriso voltou.

— Pode acreditar que sim.

— Esperava este resultado?

O sorriso tornou-se predatório. — A princípio, não. Ela é uma garota esperta, e eu esperava que ela me descobrisse logo de cara. Mas ela também mostrou ser bem safadinha. — Ele lançou um olhar libidinoso para Hermione. — Aposto como no fundo ela adorou.

Diante da insinuações, Severus ergueu-se, disposto a avançar contra o demônio, mãos fechadas para socá-lo no meio da cara nojenta, literalmente rosnando para o ser abjeto. Assustado (ou fingindo-se assim) Satã encolheu-se, gritando:

— Agressão! Agressão!

Os demais demônios lançaram apupos para a Encarnação da Morte. A confusão parecia completa, um autêntico furdunço.

A Senhora Justiça bateu o martelo.

— Ordem!

Hermione puxou Severus de volta para sua cadeira, enquanto Satanás continuava a gritar impropérios para a outra Encarnação. A juíza estava mais do que furiosa.

— Se os membros da plateia não puderem se controlar, eu esvaziarei o recinto! Falo sério! Já fui mais do que tolerante!

O silêncio era tamanho que a voz dela ecoou pelo salão. A Senhora Justiça avisou Satã:

— O acusado deverá evitar especulações a respeito da querelante. Ficou claro?

Sem nem ficar envergonhado, Satã respondeu:

— Sim, senhora. Feito cristal.

— Então vamos fazer o que viemos fazer — disse ela. — Você forçou a querelante numa relação não consentida?

— De maneira alguma! — Satã parecia insultado. — Eu não opero deste jeito!

— Como pode provar?

— Eu perguntei a ela se ela queria que eu parasse. E eu estava disposto a obedecer se ela não quisesse fazer. Pode perguntar a ela.

A juíza franziu o rosto e virou-se para Hermione:

— Isso é verdade? Ele perguntou a você?

— Não, não é verdade — respondeu Hermione. — Ele nunca me fez esta pergunta.

Severus estava surpreso, mas escondeu a reação com cuidado. Estava claro que Hermione deveria ter algum plano. Qualquer que fosse, Severus esperava que ele incluísse tirar vantagem da ira de Satã.

A Encarnação do Mal virou uma fera.

— MENTIROSA! Jezebel! Sua cobra traiçoeira! Isso é uma mentira cabeluda! Ela está tentando enganá-la, Meritíssima!

Hermione manteve a calma — e sua afirmação:

— Não é mentira.

— Concordo — disse a juíza. — Temos salvaguardas contra mentiras nesta sala. É impossível mentir. Ainda assim, você insiste que Satanás está mentindo.

— Ele não está dizendo a verdade — Hermione deu de ombros. — É o que ele faz no seu ofício, não é? É por isso que estamos todos aqui. Ele mente e engana para amaldiçoar almas para o Inferno.

Satã estava literalmente soltando fumaça, e o odor fétido se espalhava mais ainda à medida que ele se enfurecia:

— Eu não estou mentindo, sua vadia imortal!

Embora Hermione continuasse impassível, Severus gritou:

— Cale a boca! Cale essa sua boca imunda!

Satã deu um risinho:

— Oh, o namoradinho ainda defende a garota que o chifrou! Você gosta mesmo de ficar entalado em portas, né?

Os demônios ao redor de Satã provocaram uma desordem pela segunda vez, e a plateia se agitou mais do que na primeira vez. Foi o suficiente para esgotar o pouco da paciência que ainda restava na juíza. Ela gritou:

— Agora chega! Vocês todos foram avisados! Oficial, esvazie as galerias!

A balbúrdia foi ensurdecedora, mas a sala da audiência judicial foi preservada dos sons durante o esvaziamento. De repente, não havia ruídos à volta deles, e as galerias desapareceram da visão. Tão ensurdecedor quanto a desordem também era o silêncio.

— Bem — disse a juíza, suspirando -, talvez agora possamos ouvir a resposta da querelante. Diga-nos como o acusado foi capaz de mentir para esta corte.

Severus viu Hermione mal conter um sorriso de satisfação ao responder:

— Ele disse que me pediu consentimento e isso não é exatamente verdade. Eis o que aconteceu: eu perguntei se fazer sexo tão perto da Fonte da Vida era errado. Ele me disse que a Encarnação da Morte não saberia a resposta. Eu hesitei. Então ele disse que podíamos cancelar tudo se eu tivesse ficado ofendida pela sugestão. Foi então que eu aceitei fazer o que ele me pediu.

A Encarnação da Justiça ergueu uma sobrancelha e observou:

— As palavras foram usadas de maneira muito inteligente.

Satã sorriu:

— Poxa, obrigado, Meritíssima.

O rosto dela imediatamente se fechou.

— Eu não estava falando com você. Mas agora que estou falando com você, diga-me por que você acredita que esta alma foi conseguida, como disse, de forma justa e limpa.

Satã explicou:

— A condenação de uma alma é definida pelo cometimento de um pecado pelo livre arbítrio, sem coerção ou intimidação de qualquer tipo. Esta piranha sabia que era pervertido e escolheu fazer mesmo assim. É por isso que este tribunal é um desperdício de tempo. A alma dela é minha!

Só por cima do meu cadáver, rosnou Severus para si mesmo, mas ficou quieto. Para sua surpresa, porém, Justitia voltou-se para ele e afirmou:

— Thanatos, seu nome e sua imagem foram usados durante este incidente. Você tem alguma coisa a dizer sobre tudo isso?

— Muito, Senhora Meritíssima.

Agora, pensou ele, está mais do que na hora de virar este jogo.