Aqui começa a jornada,

O conto de ambição

De um rei que veio do nada,

Então prestem atenção.

O que seria a vida senão uma grande e interminável peça de teatro? As pessoas riem e choram, comemoram e sofrem. Ás vezes, a arte imita a vida e vice-versa. Mas é na vida que as maiores tramas acontecem. Ainda assim, muitos não enxergam que são os personagens principais de sua própria vida, numa cortina que só se fecha uma vez — única, mas infalível vez. Enquanto deveriam ser protagonistas, assumem papel de vítimas de seu próprio destino. E são pessoas como eu, Heimirich, que são responsáveis por guiá-las e reuni-las. Pode-se dizer que além de protagonista da minha própria obra, busco ser o diretor e roteirista dos que tem dúvidas, dos que são coadjuvantes de suas próprias histórias. Assumo que é uma pretensão enorme. E apesar de não crer em um deus, tenho respeito por todos, porém digo: Ser um rei é o que estou destinado a ser. Ser uma divindade, talvez, seja uma ambição mais estimulante. Apesar de dizer que quero ser um deus para essas pessoas, não é sensato presumir que sou uma alma iluminada. Nasci pra ser um rei e ser adorado, e é por isso que preciso deles. Não haveria reis se não houvesse súditos, tampouco deuses seriam adorados se não houvesse fiéis. Mas enfim, exatamente pelo fato de aceitarem seus destinos miseráveis, eles não percebem a importância que tem para aqueles que o governam e para aqueles que louvam. Dessa forma, são passíveis de serem manipulados, tornando-se apenas, como já mencionei, coadjuvantes nas peças de poder daqueles que os dominam.

Dito isso, sou um dos que pretendem dominá-los. E não apenas "um dos", mas quero ser o maior governante que já existiu. Que me julguem como mau ou bom por isso, mas sou apenas consciente das ambições que tenho e do ego, característica inerente a todos os seres racionais. O que me difere da maioria é que as emoções não regem meu comportamento. Bondade e maldade, felicidade e tristeza. Uma coisa que aprendi encenando é que sentimentos podem ser interpretados com facilidade e que suas principais funções são: transmitir uma mensagem, emocionar e garantir com que estejam entretidos. E isso não deixa de ser uma manipulação, consentida pelos espectadores. Na vida, aqueles que sabem o que querem e transmitem isso aos outros com a mesma proeza que os atores fazem acabam por conseguir seus objetivos. Mas esses, ao contrário dos atores, são socialmente considerados "vilões maquiavélicos". Pura bobagem. Todos somos manipuladores pelo fato de que somos todos egoístas. Ainda que a alma mais puritana venha e proteste “Mas eu faço caridade”, “Fiz voto de pobreza”, etc e etc. Digam-me então esses que protestam: ainda que nobre suas atitudes, nos fins as ações não tem o objetivo de satisfazerem suas próprias crenças e seus próprios desejos? Nenhum humano daria a vida daquele que ama em troca de alguém que não conhece, tampouco um miserável tiraria da boca do seu próprio filho o alimento para dar a outra criança que não fosse sua. E mesmo em situações comuns, em que as pessoas têm condições, não seria a caridade uma forma de fazer o bem ao outro, mas no fim de se sentir bem consigo mesmo? Ajudamos pra nos sentirmos importantes e felizes, e jamais o faríamos se de alguma forma soubéssemos que futuramente isso iria nos prejudicar.

O que quero dizer é: precisamos fazer nossas escolhas, priorizar a nós e aos nossos, então não me envergonho de ser ganancioso. Nasci pobre, num vilarejo em que a maioria das crianças morriam antes de completar 5 anos. Sobreviver era uma luta diária. Muitos morreram esperando milagres. E ainda que alguns acontecessem, eram raros. Sempre pensei se os deuses ouviam aqueles que mais os louvavam ou decidiam aleatoriamente aqueles que iam viver. Ainda não cheguei a uma conclusão. Fosse a primeira, questiono a razão de termos nascido e implorar para aqueles que nos trouxe para não morrermos. Não seria uma característica humana tanto ego? Tudo bem aqueles que acreditam e o fazem por amor. Mas aqueles que não creem serem punidos soa tão ganancioso quanto outros líderes humanos, que matam e punem os dissidentes do seu projeto de poder. Já na segunda hipótese, pareceria ainda mais cruel ao pensar que os nãos fiéis sobrevivem e os que creem morrem. Afinal se os que creem são punidos para depois serem salvos e os que não creem são salvos pra depois serem punidos, não há como evitar o sofrimento. Pensando bem, ser uma divindade agora me soa semelhante a ser rei.

Antes que termine o começo da minha jornada, venho-me apresentar a vocês. Sou Heimirich Eriksen, um dos cortesãos da Rainha Anelise Von Meyer do Reino de Eitenburgo, conhecida como Anelise III. Como disse, nasci pobre, mas devido a minha ambição cheguei a corte real. Nascido na miserável Vila de Darlig, fugi de casa aos 7 anos e vivi nas ruas desde então. Não aguentava mais viver com fome e apanhar por não trabalhar o suficiente. Muitos diriam que sobrevivi por benção dos deuses, e não descarto tal hipótese. Mas foram homens com caráter questionável, que não adoravam a nenhuma divindade, que me proporcionaram uma vida melhor. Longe de ser uma vida perfeita, me ensinaram a fingir pra conquistar meus objetivos, desde implorar misericórdia por comida (e roubar quando não funcionasse), a nos passarmos por o que não éramos para termos acesso a coisas que jamais conseguiríamos se fossemos honestos. Deuses nos puniriam por mentir pra ter um livro para sermos mais inteligentes, ou roubar para não morrermos de fome? A ira dos deuses talvez nos esteja destinada para além da vida, pode-se dizer. Mas digo que enquanto vivo, fiz o que foi necessário pra ter uma vida melhor para mim e por aqueles que um dia me ajudaram. Aprendi muito bem a arte de atuar e mentir, além de conhecer ótimos atores e dissimuladores, todos conscientes de sua capacidade de convencerem. Li muitos livros, roubados ou conquistados com muita encenação, e hoje tenho acesso a uma coletânea inigualável de obras. Nos livros e ao conhecer a história da humanidade, vi que homens considerados bons ou maus morrem um dia, mas que aqueles que mudam a vida dos outros ao seu redor ficam para a história. Júlio César de Roma, um ditador em meio à República, que engrandeceu seu nome e transformou a vida dos romanos. Morreu por ser “perigoso”: sua vontade por poder o matou, sendo morto por aqueles que não queriam perder o próprio poder. Poderia deixar outros exemplos de outros nomes na história até aqui, no ano 1700, mas garanto a vocês: a vida de todos que ficam marcados na história começa e termina por questões de egoísmo e ambição. Não serei eu que fugirei à regra. Aguardem e verão.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.