Quando eu inda era pititico, um sinhô me contava cada história... E eu adorava! Ele era um baita dum pescadô e vinha direto da cidade grande pressas terrinha aqui pra relaxar o cocuruto. Chegava de noitinha e a gente ficava falano sobre como era as mata quando ele era moleque. E como falava bunito! Mais tinha umas história que eu sempre pedia pra ele repetir, de uns causo duns bicho meio estranho. Depois eu aprendi na escola que o nome disso era forclore, que é umas lenda que eles contam pra mor de a gente não fazê coisa errada. Mais ele falava de um jeito que n um parecia mintira, não! Até que um dia, depois da aula, eu virei pra ele e falei:

— Nhô Claudio, esses causo é tudo verdade?

E aí me respondeu:

— Muito tempo atrás — ele falô e sua voz até viajava — essas histórias aconteciam. Sua professora fala que elas são lendas porque hoje em dia é isso que elas são.

— Mais, sinhô — criança, perguntei pra ele. — Como é que uma cousa é uma lenda hoje, mais antes num era?

— Você já ouviu falar de fadas, né? Que elas só são fortes quando alguém acredita nelas. Então, essas criaturas são mais ou menos assim.

— Ahhh, mais num dá pra acreditar num bicho perneta que fica saracoteano e dano nó em rabo de cavalo!

Ele se riu de mim.

— Calma. Essas criaturas também precisam de algo de fora pra ficarem fortes. Nesse caso, precisam das árvores, da mata e das florestas. E você já viu que cada vez mais elas estão fi cando fracas e menores? Tem muita gente que tá cortando tudo, não é?

— Aham. Isso é triste.

— Eu sei, tá tudo bem, porque todas elas já sabiam que isso iria acontecer, que as matas iriam ser cortadas. Mas sabe o que fizeram? Uma reunião. Todas as criaturas se reuniram em uma tarde para decidir o que fazer. Foram na margem do rio, sentaram na grama e começaram a conversar. Tinha muita gente naquele grupo e logo a Cuca começou a falar. Ela falou um monte de coisa sobre matar os humanos pra continuar sendo uma bruxa muito poderosa, que não era justo destruir tantas árvores assim pra fazer prédios ou pro que aquele povo chamava de civilização. Imagina alguém que foi aplaudida. Muito, mas muito mesmo. Do outro lado, o negrinho do pastoreio começou a falar que podemos perdoar os humanos e tentar impedir que continuem a matança das árvores. Mas, quando perguntaram como ele iria impedir o desmatamento, o garoto não soube o que falar. Então, o Curupira desceu do seu javali e disse que faria isso da melhor maneira possível, assustando todos que tentassem. O Caboclo d’Agua, o Mapinguari, a Caipora e vários outros concordaram com um sorriso no rosto.

— Nossinhora. Inté parece causo de terror — inda mais para uma criança.

— Pois é, mas temos que pensar também que o ser humano está errado em querer destruir toda a mata. Esse povo aí só queria se defender. A discussão começou a ficar mais forte e mais forte, até que o Saci quis falar alguma coisa. Ele se levantou e disse que isso ia acabar daqui a pouco, que ninguém precisava fazer nada, porque os seres humanos são preguiçosos e, do mesmo jeito que se empolgam, ficam entediados. Ele sabia que, de todas as criaturas, ele era a que mais ficava próxima dos humanos, fugindo de peneiras ou dando nós nos rabos de cavalos. Ele disse que podiam relaxar e continuar a vida, porque, mesmo que mais algumas árvores fossem derrubadas, já, já eles iriam parar.

— Ara, sinhô! Todo mundo concordô com o Saci?

— Aham. Eles acharam que era melhor confiar em alguém que passa muito tempo com os humanos, mas você sabe que nós não paramos. Cortamos muitas árvores, matamos vários animais e fizemos coisas horríveis. Todas as criaturas ficaram muito mais fracas e sumiram, por isso não as vemos hoje em dia e achamos que tudo isso é lenda que a vovó conta.

— Um dia eles vão voltá? Pra mor de tê essas árvore bunita tudo de volta?

— Vão sim. Depois disso, eles se juntaram uma outra vez. Todos foram, menos o Saci, que tava com medo de que alguém fosse bater nele. Vários deles nem estavam mais com os seus poderes, e muitos só queriam voltar ao que eram antes. Então, eles se dividiram em grupos, cada um achando que faria o que seria melhor. Alguns grupos se esconderam de novo, outros foram se vingar de nós e alguns tentam até hoje viver como humanos.

— Ahhhh, mais isso num faiz sentido! O sinhô tá dizeno que tá tudo vivo até hoje e quereno até acabá cá gente? E como a gente num ouve falá desses causo aí?

— Pensa comigo. Você acreditaria se alguém te dissesse que foi atacado pelo Curupira?

Dispois de um tempo, o Nhô Claudio parô de vir aqui pras minhas terrinha. Ficou lá na cidade grande com uns tar de espeta-céu e os predim bunito donde ele mora. Mais esses causos me deixô todo arrepiado, pensano se é verdade ou num é. Até hoje fico pensano se os bicho tá tudo vivo e quereno se vingá das mardade que a gente faiz co mundo. Num sei se é verdade, mais eu vô contá essas história pros meus fi

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