Não sei dizer ao certo o que me fez recordar daquele dia tão estranho. Eu estava deitado na rede que fica na parte de traz da casa. Minha esposa e as crianças estavam arrumando a mesa para o jantar e então resolvi me deitar um pouco do lado de fora enquanto fumava.

Meu estomago ainda dá cambalhotas sempre que eu me lembro daquela cena.

Eu trabalho em uma fazenda até que pequena para os padrões da redondeza, meu patrão não tem muitos animais e por isso é bem fácil cuidar de tudo por lá. Sempre foi tranquilo trabalhar lá. Mas um dia aconteceu algo bem fora do comum.

Em certa ocasião um dos meus familiares adoeceu por essa razão pedi ao meu senhorio para me ausentar por alguns dias. Ele permitiu, mas antes me pediu para fazer a contagem dos animais que viviam lá. Trinta bois de corte, quinze vacas leiteiras e quase vinte galinhas. Informei esses números ao meu patrão e fui arrumar minhas coisas para sair de viagem.

A estação de ônibus não é tão longe quanto parece, mas cinquenta minutos de caminhada debaixo do sol quente conseguem dar uma bela canseira nas pessoas. Por isso acabei parando por alguns minutos debaixo de uma das arvores que tinha na beira da estrada para descansar um pouco. Enquanto recuperava o fôlego vi de canto de olho que não estava sozinho na estrada, do outro lado da estrada tinha uma pessoa parada me olhando (ou pelo menos parecia me olhar). Era uma mulher com um vestido longo, preto com um capuz cobrindo uma parte do seu rosto. Quando eu pisquei e virei à cabeça pra ver melhor não tinha mais nada lá. Conclui que eu estava era ficando doido e que o sol estava começando a cozinhar os meus miolos, levantei e segui meu caminho.

Regressei após quinze dias e encontrei o meu patrão bem aborrecido cuspindo veneno em um policial claramente frustrado com algo. Aproximei-me deles e perguntei o que estava acontecendo. E o policial me respondeu que alguns dos animais da fazenda tinham desaparecido em um dia e foram encontrados mortos fora dos limites da fazenda, outros moradores da região também deram queixa do mesmo problema. O policial me levou ate o local onde foram encontrados os corpos depois que eu me identifiquei como funcionário. Havia pelo menos quinze galinhas mortas, o que explicava a irritação do meu chefe.

Examinei rapidamente e notei algo estranho, os bichos tinham sido secos até os ossos. Estranhamente nenhum deles tinha uma gota de sangue no corpo, e era isso que estava deixando o policial irritado. Em todas as fazendas que ele investigou, todos os animais tinham sido mortos da mesma maneira, e seja lá quem estivesse fazendo isso não estava deixando nenhuma pista para ser seguida. Aquilo realmente não fazia sentido nenhum.

E de novo eu vi algo de canto de olho a minha direita, parecia à mesma figura que eu tinha visto na estrada. Virei totalmente à cabeça para ver direito e dessa vez ela não sumiu. A mulher de vestido preto com um capuz cobrindo parte do rosto que eu tinha visto antes, e desta vez ela estava sorrindo de maneira não muito amigável e então tive o reflexo de chamar à atenção do policial que estava na minha frente e do mesmo jeito que havia acontecido na estrada à mulher sumiu como se num passe de mágica.

Sinto os cabelos da minha nuca arrepiarem toda vez que me recordo daquele dia, nenhum animal morreu depois disso e também ninguém descobriu que os estava matando. Provavelmente o safado fugiu pra não apanhar dos fazendeiros (que com certeza encontrariam o pilantra antes da policia). Mas me intriga qual era a sua motivação? Como fazia isso? E como os cachorros não latiam alertando a presença do intruso? A vizinhança logo começou a arranjar todo tipo de explicação absurda, e esse incidente ainda dava o que falar, apesar dos vários meses passados.

Eu também nunca mais vi a mulher misteriosa. Às vezes me questiono se a aparição dela e a morte os animais tinha alguma relação ou foi pura coincidência.

Sou tirado do meu devaneio pelo meu filho avisando que o jantar esta na mesa.

Notas finais
A todos que leram até aqui, muito obrigada!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!