Um caminho de Rosas

2 Capítulo 2 - Sirena


Notas iniciais
Seus olhos eram verdes como Esmeraldas, mas refletiam o medo e sofrimento. O cavaleiro de Peixes não sabia o que fazer para ganhar a confiança dela.

A noite havia sido longa para o Cavaleiro de Peixes que acabou por adormecer sentado na cadeira, velando o sono da menina que havia encontrado. Os primeiros raios de sol invadiam sem pedir licença o quarto que estava com as janelas abertas, por onde entrava uma suave brisa e fazia as cortinas brancas tremularem como ondas, abaixo da mesma estava a cama de madeira simples, com um lençol branco e perfume de rosas, ao fundo do quarto havia um pequeno armário que ele usava para guardar suas roupas e alguns pertences, ao lado da porta uma escrivaninha com alguns livros sobre ela, papel e outras coisas. Albafica abria seus olhos um pouco assustado, pois não esperava dormir, ele olhou em direção a cama, que estava vazia. Ele a procurou com seus olhos por todo o quarto e não achou a menina, saiu para o outro cômodo que era uma pequena copa, com uma mesa e um armário e nem sinal dela. Andou mais alguns metros e chegou onde era o quarto de seu mestre e a procurou, mas nada encontrou, apenas o quarto intacto.

Seu rosto ficou tenso, “onde ela poderia ter ido?” pensava ele preocupado, até que ouviu um choro baixo e sofrido, voltou até o quarto e quando olhou atrás da porta, lá estava ela, encolhida em um canto, abraçando os próprios joelhos, seu vestidinho estava sujo e meio rasgado, agora ele podia ver aqueles grandes olhos verdes, assustados e cheios de lágrimas, os seus cabelos dourados caíam pelo rosto o deixando meio escondido. Estava imóvel, parecia um bicho assustado, suas mãozinhas apertavam o vestido e ela encarava o jovem cavaleiro.

Albafica sentiu pena ao vê-la daquela forma, como uma criança podia ficar naquele estado? Ela tremia de medo, o jovem cavaleiro sentiu um aperto no coração e aquela cena o deixava com mais vontade de lutar por Atena e seus propósitos, precisava proteger os inocentes, para que crianças não sofressem assim. Ele se abaixou e a olhava, abriu um sorriso e disse muito sereno:

─ Não tenha medo, eu não vou te fazer mal. Eu me chamo Albafica, como você se chama?

A garotinha o olhou um tanto quanto hesitante, ficou alguns minutos o observando como se estivesse analisando o rapaz a sua frente. Então com a voz ainda chorosa, mas muito curiosa ela falou:

─ O senhor é um anjo? Eu morri e estou junto de um anjo?

O cavaleiro riu das inocentes palavras, a pobre nem sabia o que acontecia com ela, ele estendeu a mão a ela e falou:

─ Não... Não sou um anjo. Sou alguém que luta para proteger meninas como você. Por que não me diz o seu nome?

As lágrimas já não caiam mais de seus olhos, ela parecia curiosa com a figura do homem a sua frente, aos poucos ela tirava o rosto do meio dos joelhos e com uma mão tirava os cabelos que estavam ao rosto, com uma voz ainda amedrontada ela respondeu:

─ Me chamo Sirena. Aqueles homens já foram embora?

Albafica continuava com a mão estendida, não conseguia entender do que ela falava, pois quando a encontrou no jardim estava caída sozinha, então ele relacionou as palavras dela com os machucados e provavelmente os tais homens eram a fonte de seu medo, pelo jeito ganhar a confiança dela não seria fácil, então ele tentou mais uma vez.

─ Sirena… Um bonito nome. Bem, só estamos eu e você aqui e prometo que não vou deixar ninguém lhe machucar. Venha! Você deve estar com fome.

Muito desconfiada ela levou uma de suas mãos até a dele, eram pequenas e delicadas, ele podia ver as marcas das amarras em seus punhos, ele observava tentando descobrir o que poderia ter causado tal ferimento, quando a voz suave dela interrompeu seus pensamentos:

─ Eles me venderam para o senhor?

Albafica surpreso com a pergunta da menina respondeu de imediato:

─ Não pequena. Eu encontrei você caída do lado de fora da minha casa, no meio das rosas. Lembra-se do jardim de rosas?

A mente dela parecia muito confusa e o Cavaleiro de Peixes ficava cada vez mais curioso para saber o que houve com ela, seu olhar era triste, achou melhor não perguntar nada para ela ainda. Pegou pão, frutas, suco de uva, o pouco que ele tinha em casa e preparou para ela comer, Sirena olhava tudo com desconfiança, não entendia o porquê da bondade dele, seus olhinhos curiosos sempre o olhavam. Ele sorriu mais uma vez e disse:

─ Pode comer a vontade. Eu tenho que sair agora, mas volto logo. Não fique longe da casa tudo bem? Prometo que não vou demorar. Quando eu voltar conversamos.

Ele deixou a pequena Sirena sentada à mesa e foi para seu quarto, ele precisava falar com o Grande Mestre, pois como havia chegado tarde, não esteve com ele na noite anterior para informa-lo do ocorrido na missão. Albafica então colocou sua armadura de ouro, que o deixava ainda mais belo, o raios do sol que entravam pela janela do quarto refletiam nela dando um ar de divino a ele, sua capa era branca como uma nuvem e ela tremulava com a brisa da janela. Quando ele saiu do quarto a pequena Sirena o olhava espantada, nunca tinha visto nada parecido, Albafica a olhou e achou engraçado, pois a menina estava com a boca toda suja e já tinha comido boa parte do que ele havia lhe oferecido, pelo vista estava faminta, ela engoliu um pedaço de pão que tinha na boca e com outro na mão falou com uma voz de espanto:

─ O senhor tem certeza que não é um anjo? – perguntou ela curiosa.

Ela tinha dois belos olhos cor de esmeralda que combinavam com suas bochechas rosadas e pele branca. Seu nariz era pequeno e fino, sua boca rosada, com certeza era uma criança linda. Albafica riu das palavras dela novamente e respondeu com toda paciência e com um sorriso para a menina:

─ Eu não sou um anjo. Sou apenas um guerreiro de Athena. Bem... Tenho que ir. Lembre-se, fique aqui perto da casa.

Albafica apenas acenou para ela e saiu, a menina ficava o olhando com um olhar um tanto bobo, um tanto admirada, não sabia bem o que pensar, então ela voltou para o seu pedaço de pão, pois a fome que sentia era enorme, não se lembrava de quantos dias estava perdida, lembrava apenas que tinha andado muito.

O pisciano seguiu seu caminho até o templo do Grande Mestre, subiu as escadarias em silêncio apenas pensando no que fazer com Sirena. Talvez o Grande Mestre não achasse uma boa ideia ele cuidar dela. As palavras de Dégel a todo instante ecoavam em sua mente, o sol iluminava todo o lugar e Albafica já havia passado o caminho de rosas que existia entre a casa de peixes e o templo do Grande Mestre, apesar de mortal, o perfume daquelas rosas era delicioso.

Ele entrou na sala do Grande Mestre pensativo, seus olhos observavam cada detalhe daquele lugar, as majestosas colunas, o tapete vermelho ao chão, os afrescos que decoravam o local, parecia que sua mente estava tentando o manter preso no que tinha que fazer no momento, pois seus pensamentos estavam distantes, pacientemente ele caminhou até a frente do Grande Mestre e se ajoelhou em sinal de respeito, tão logo começou a falar:

─ Bom dia Grande Mestre. Desculpe meu atraso.

O Grande Mestre estava de pé, trajando sua branca veste e seu elmo, que escondia seu rosto, seu cosmo era forte, mas sereno e calmo como um lago, era reconfortante está na presença dele. Ele olhava o jovem cavaleiro e lhe respondia com uma voz serena:

─ Bom dia jovem Albafica, você não está atrasado, para falar a verdade ainda é bem cedo. Mas como foi sua missão?

Albafica permanecia na mesma posição e deixava sua voz ecoar pelo lugar;

─ Tudo correu como o esperando Grande Mestre. Apesar de numerosos consegui derrotar os espectros com facilidade. Entretanto, todos que tentei interrogar se mataram, preferiam a morte a contar algo. Eles tinham algo diferente, um fanatismo por assim dizer.

As palavras de Albafica deixaram o mestre do santuário curioso, algo deveria estar para acontecer, o número de ataques havia aumentado muito ultimamente e agora essa atitude. Sage deu dois passos a frente ficando mais próximo de Albafica e depois dizia:

–- Tire o dia para se recuperar do seus ferimento e descansar.

Albafica então respondeu:

─ Obrigado Grande Mestre. Mas tem mais um assunto que gostaria de tratar com o senhor.

O Mestre logo percebeu a mudança na voz do Cavaleiro, estava inseguro em suas palavras, apenas aguardou que ele continuasse. Albafica por sua vez, não sabia como tratar o assunto, pensou por alguns segundos e então decidiu começar a falar:

─ Bem... Ontem quando cheguei, passei no jardim de Rosas Demoníacas e tive uma surpresa. Eu... Eu encontrei uma menina caída no meio das rosas. Mas ela não estava morta como eu pensava. Como estava machucada, a levei para minha casa para poder cuidar dos machucados. Pela aparência não deve ter mais que 10 anos.

O Grande Mestre se viu surpreso com a atitude do pisciano, ele esperaria tal atitude de outros cavaleiros, mas não de Albafica. Não que ele fosse indiferente à dor das pessoas, muito pelo contrario, mas seu medo de machucar as pessoas era tamanho que o levava a um isolamento quase que total. Porém a menina estava caída no jardim, assim como o próprio Albafica havia sido deixado lá, ele ponderou suas palavras por alguns instantes e depois falou de maneira calma:

─ Vai manda-la para o orfanato ou quer que ela se torne aprendiz de alguma das amazonas?

Albafica meio sem jeito respondeu:

─ Se possível Grande Mestre, gostaria de treina-la eu mesmo. Sei que faz pouco tempo que me tornei um Cavaleiro de Ouro, mas… Ela tem uma habilidade muito especial, não sei quanto tempo ela permaneceu no jardim, mas as rosas não a afetaram e… nem meu sangue.

As últimas palavras do jovem foram um tanto quanto tristes, mas o Grande Mestre logo percebeu as boas intenções do cavaleiro, ainda assim ele disse com um tom serio:

─ Ela é uma criança ainda. Além de treinar, você terá que cuidar dela. Está disposto a assumir esta responsabilidade?

Rapidamente ele respondeu:

─ Claro! Vou treina-la e cuidar dela. Não se preocupe grande mestre, ensinarei a ela tudo eu que sei e sobre o principio das amazonas. — Respondeu ele entusiasmado.

─ Pois bem… Tire uns dia então para adapta-la e ensinar o básico. Mas lembre-se tenha responsabilidade. Uma vida agora depende de você. — Sage disse com palavras doces e sérias.

Albafica então se levantou e fez uma reverência ao Grande Mestre e tomou à direção da saída, o mestre do santuário achou engraçado a empolgação do cavaleiro em ter uma pupila. Mas seria por ter uma pupila ou seria aquela menina em si? O mestre do santuário achou melhor não fazer muitas perguntas, pois sabia que nos últimos tempos Albafica havia se entregado em uma tristeza sem fim pela morte de seu mestre, ele apenas torcia para que a tal menina adoçasse um pouco o coração do jovem Cavaleiro de Peixes.

Com um sorriso no rosto e uma sensação boa dentro de si Albafica voltava para sua casa, foi rápido. Queria ver como a pequena estava, pois havia deixado ela sozinha e precisava ver se ela queria estar ali, afinal não podia obriga-la a viver com ele, se de tudo ela não quisesse estar com ele, o que podia fazer? E se os pais dela estivessem procurando por ela? Por um instante pensou que agiu de forma precipitada, pois não sabia se ela tinha família, amigos, simplesmente estava tomando ela pra ele. Continuou seu caminho perdido em seus pensamentos.

Ele passou por dentro da Casa de Peixes e logo tomou a direção do jardim para chegar à sua casa. A porta estava aberta e assim que foi entrando ele chamava pela menina:

─ Sirena! Eu voltei.

Mas ele não obteve resposta, sua expressão ficou tensa novamente, mas então se lembrou do episodio da manhã. Foi até o mesmo lugar e lá a encontrou encolhida em um canto, mas não estava chorando. Ele sorriu e abaixou de novo estendendo a mão para ela, falava com uma voz tranquila:

─ Escondida de novo? Venha Sirena, aqui ninguém vai te machucar.

A garotinha então colocou sua mãozinha na dele e ele se levantou, assim que ela ficou em pé na frente dele, Albafica a levantou e depois a pegou no colo, a menina fez uma careta, pois a armadura estava fria, ele apenas achou aquilo engraçado, ele a levou até a cama e a sentou, ele sentou na cadeira que ainda estava em frente à cama e começou a falar:

─ Bom Sirena, precisamos achar seus pais.

Ele dizia aquilo com medo da resposta dela e continuou

─ Onde seus pais estão?

Porém aquelas palavras foram em cheio no coração da pobre Sirena que começou a chorar desesperadamente, um choro tão sofrido que Albafica quase podia sentir a dor da menina, algo de muito ruim havia acontecido com ela. Ele então a puxou para seu colo e disse limpando as lágrimas do rosto dela.

─ Ei... Não precisa chorar assim? O que houve? Estou aqui e vou te proteger. Confia em mim?

Ela então levantou seus olhos que foram de encontro com os azuis dele, parecia que ambos podiam ver a alma um do outro. Ainda entre soluços ela dizia:

─ Meu papai... Minha mamãe… Aqueles homens machucaram eles, até sair muito sangue e eles não se mexerem mais.

As palavras da menina assustaram Albafica e antes que ele falasse alguma coisa ela continuou:

─ Era tarde da noite. Eu já estava dormindo quando ouvi minha mamãe gritar. Quando abri a porta vi aquele homem muito grande. Ele me puxou e me segurou. Eles eram três. Um deles batia no meu papai sem parar pedindo dinheiro. Mas nós não tínhamos. Então eles ficaram muito irritados e… e… um deles jogou minha mamãe no chão. Rasgou a roupa dela e ficou em cima dela, ela gritava muito e eu também… Mas ninguém nos ajudou. Eles então falaram que iam me levar por que meus pais não tinham dinheiro. Meu papai ainda tentou me tirar deles, mas…

Ela novamente começou a chorar, Albafica encostou a cabeça dela em seu ombro querendo conforta-la, se é que isso era possível. Sirena não entendia direito o que tinha acontecido, mas mesmo com suas palavras infantis Albafica entendeu. A menina presenciou momentos de horror, viu sua mãe ser estuprada e depois viu os pais serem mortos. Ele passava a mão em seu cabelo e algo tenebroso veio na mente dele e muito preocupado ele perguntou:

─ Sirena, eles fizeram algo com você? Da mesma forma que fizeram com sua mãe?

─ Não… Eles diziam que iam me vender… Mais uma noite eu fugi. Corri, corri, corri. Eu me escondi, ate que uma noite eu senti o cheiro das rosas, eu fui seguindo, até chegar no jardim, mas depois eu dormi.

Agora tudo fazia sentido para ele, os machucados, o sono profundo, a pobre devia estar exausta e faminta. Para uma criança passar por isso tudo devia ser muito difícil. Ele sentiu muita pena dela, mas, no entanto um alívio, pois poderia cuidar dela então sem se preocupar. Ele colocou a ponta do dedo no queixo pequeno e delicado de Sirena, levantou o rostinho dela para que ele pudesse olhar e falou olhando no fundo dos olhos dela:

─ Se você quiser, pode ficar comigo. Eu cuido de você. Eu também moro sozinho, assim nem eu e nem você vamos mais ficar sozinhos.

A menina o olhou com certa dúvida, sentia medo de tudo, mas algo dentro do seu pobre coração sofrido dizia que podia confiar nele, Sirena abaixou a cabeça e perguntou entre as lágrimas:

─ Nunca mais eu vou ficar sozinha? O Senhor promete que nunca vai me abandonar?

Albafica levantou o rosto dela e falou mantendo seu olhar ao dela:

─ Sempre estarei com você. Sempre.

A menina passou seus braços pelo pescoço dele, dando lhe um forte abraço, Albafica por sua vez a abraçou forte para que ela se sentisse protegida e deixava-a ali daquele jeito. Era a melhor coisa que ele já havia sentindo, ele sentiu algo por dentro de si aquecer e seu coração bater mais forte. Sirena por vez sentiu-se protegida nos braços dele como nunca antes, ela queria ficar ali para sempre onde nada de ruim poderia acontecer a ela. E ambos se entregaram aos braços um do outro e ao sentimento que nascia naquele momento.

Notas finais
Espero que gostem. Comente e deixem a sua opinião, se não nunca vou melhorar.