Notas iniciais
Este capítulo se passa logo após os acontecimentos em Cape Cod, durante a viagem até Los Angeles. Desculpa, as one shots não seguem uma ordem cronológica hahahaha Chega de enrolar, boa leitura:

— Vocês fizeram o que? — Eiji gritou, indignado com Ash e Shorter

— Eu e o Shorter roubamos a bateria de uma caminhonete que estava em um estacionamento. O que isso tem de mais? — resmungou Ash de volta.

...

O grupo tinha acabado de sair de Cape Cod para começarem sua viagem em direção à Los Angeles. Max e Ibe estavam na parte da frente do caminhão enquanto os três garotos, Ash, Shorter e Eiji, encontravam-se espalhados pela caçamba, sobre colchonetes e panos que haviam sido arrumados ali para diminuir um pouco o desconforto. Eiji e Ash estavam sentados lado a lado, os ombros não se tocando por alguns poucos centímetros. Já Shorter estava deitado de lado em frente aos dois, a cabeça apoiada em uma das mãos.

Estavam na estrada a pouco mais de um dia e meio e o calor os havia mantido acordados durante boa parte do tempo. Do lado de fora, as plantações de milho se estendiam até o horizonte de ambos os lados, o céu começava a se avermelhar com a proximidade do crepúsculo, as poucas nuvens tingidas de rosa, laranja e roxo.

No caminhão, Eiji tentava manter uma conversa com os outros dois, usando a oportunidade para tentar se aproximar dos americanos e conhecê-los melhor.

Quando estava começando a ficar sem assunto, pois Ash se recusava a dar qualquer detalhe sobre sua vida, seja de seu passado distante, de sua infância ou mesmo dos dias recentes como líder de gangue, Eiji teve a brilhante ideia de fazer um comentário despretensioso sobre a viagem em si:

— Ainda bem que conseguiram consertar o carro logo, né? Onde será que o Max conseguiu a bateria?

Ash e Shorter se entreolharam, lembrando de algo que fizeram juntos, então o loiro deu de ombros enquanto comentava casualmente.

— Nós roubamos uma.

— Vocês fizeram o que? — Eiji gritou, indignado com Ash e Shorter

— Eu e o Shorter roubamos a bateria de uma caminhonete que estava em um estacionamento. O que isso tem de mais? — resmungou Ash de volta.

— Então aquela notícia no jornal… Eram vocês! Isso é errado, eu não acredito que vocês fizeram isso.

— Eiji. — retrucou Ash, a voz calma com apenas um leve toque de divertimento e incredulidade. — Você já me viu matar pessoas, não só uma vez. E você fica indignado com o fato de termos roubado uma bateria de carro?

— Mas isso é diferente… — Eiji estava vermelho, gaguejando e claramente envergonhado. Ash e Shorter começaram a rir e o loiro, ainda rindo, comentou:

— Por favor, me explique como matar uma pessoa é uma ação justificável, mas roubar um carro é uma atitude horrível e imperdoável. Eu estou louco para entender a lógica dos japoneses.

Eiji bufou, a irritação substituindo o embaraçamento anterior:

— Aquelas pessoas eram do mal.

— Não existe isso de pessoas do bem e do mal, Eiji. — Ash respondeu, subitamente sério. Shorter abaixou o rosto e também parou de rir. Seus olhos não estavam visíveis através das lentes dos óculos escuros. — Eu matei pessoas que poderiam ter famílias e amigos, por mais erradas que suas ações fossem. Você acha que para essas pessoas eu sou um cara do bem? O mocinho? Você é muito ingênuo se pensa isso, Eiji.

— Mas mesmo assim, elas estavam do lado do Dino…

— E só por causa disso mereciam morrer? — Ash retrucou irritadiço. — Eu também já estive do lado dele.

— Mas você não teve escolha, não é como se você quisesse estar com ele, certo?

— O que você sabe sobre isso? Sobre qualquer uma das coisas pela qual eu passei?

Não importava o que Eiji dissesse, ele parecia apenas piorar as coisas, deixando Ash com mais raiva e suas respostas eram cada vez mais ácidas. Shorter apenas o olhava com solidariedade, porém sem oferecer seu apoio ou opinião no assunto.

O japonês abraçou as pernas e abaixou o olhar, envergonhado e arrependido por ter dito tudo aquilo. Ash estava certo, mas Eiji não conseguia deixar de ver o garoto como alguém bom, alguém em quem ele poderia confiar e a quem ele queria proteger. Mesmo soando bobo, ingênuo ou infantil.

O clima ficou tenso por um tempo, Eiji queria se dar um tapa por ser tão idiota, porém Ash quebrou o silêncio ao suspirar e comentar em um tom contraditoriamente descontraído.

—Pare de se culpar por algo que não tem a ver com você.

—Quem disse que eu… — Ash ergueu uma sobrancelha. — está bem, está bem… eu só não queria deixar o clima desconfortável, desculpa.

Ash soltou um suspiro cansado e se ajeitou melhor no lugar, apoiando a cabeça no ombro de Eiji e cruzando os braços em frente ao corpo.

— Eu estou cansado. Vamos parar de pensar nisso e tentar dormir, que tal? — Ash fechou os olhos, ignorando a tensão do japonês, causada pelo susto em resposta às ações repentinas do loiro. — Então pare de se preocupar com coisas inúteis e fique em silêncio um pouco, pra variar.

Shorter sorriu para a cena e virou de barriga para cima, desviando o olhar respeitosamente. Eiji, se recuperando do susto, relaxou os ombros e virou a cabeça levemente para olhar para Ash, tentando não perturbá-lo. Não era a primeira vez que o garoto iniciava contato físico com ele, porém o gesto de dormir em seu ombro era estranhamente mais íntimo do que o beijo que haviam trocado. Ele confiava em Eiji o suficiente para se colocar de forma tão vulnerável perto dele. O gesto parecia ter a finalidade de tranquilizá-lo e assegurá-lo de que estava tudo bem sem que o americano precisasse verbalizar qualquer coisa.

Ash parecia tão relaxado, de olhos fechados e lábios levemente partidos que o peito de Eiji ficou apertado. A respiração suave e rítmica indicava que ele já havia se entregado ao sono. Como ele consegue dormir tão rápido nessas circunstâncias? Eiji perguntou-se mentalmente, sorrindo ternamente para Ash.

Uma risada abafada vinda de Shorter, lembrou o japonês de que o outro garoto ainda estava ali. Isso fê-lo sentir o sangue subindo para seu rosto, inspirando um rubor a invadir suas bochechas. Para tentar disfarçar, Eiji olhou para fora do caminhão, contemplando as plantações de milho intermináveis pelas quais passavam. Shorter riu um pouco mais, porém não fez nenhum comentário, ao que Eiji ficou extremamente grato.

Quando Ash resmungou em seu sono, Eiji voltou novamente sua atenção para o americano. Em um impulso, o mais velho ergueu a mão para ajeitar os cabelos do loiro. O toque pareceu acalmá-lo pois Ash suspirou e se virou levemente, apoiando ainda mais em Eiji.

Sorrindo, o japonês teve uma ideia. Ele apoiou o rosto e ombros de Ash com as mãos e guiou-o cuidadosamente para que ficasse deitado, a cabeça em seu colo e o corpo esticado pelo piso do caminhão. Por sorte, o sono de Ash era pesado e o garoto não acordou.

Por estar quente, Eiji decidiu não cobri-lo.

—Vocês são uma graça juntos. — Shorter comentou de forma entretida. — Você é a única pessoa que consegue ser imune ao mau humor do Ash. — ele se virou e deu um sorriso largo em direção ao japonês. — Você precisa me ensinar os segredos para domar o lince algum dia.

Eiji deu risada e a vibração resultante do riso fez Ash resmungar enquanto se virava no colo de Eiji, erguendo um braço para envolvê-lo pelo quadril em uma espécie de abraço possessivo. Shorter riu ainda mais, antes de comentar:

—Pensando bem, acho que não quero aprender a fazer isso aí, não. Eu deixo o Ash todo pra você.

Eiji sentiu -se ruborizar novamente, porém não conseguiu fazer com que o sorriso bobo deixasse seus lábios. Levou a mão até os cabelos do loiro, passando os dedos pelos fios claros antes de descer o toque para os ombros e costas do garoto, que cerrou o aperto ao redor de seu quadril e murmurou alegremente em meio aos seus sonhos.

Sem perceber, Eiji adormeceu também, ainda com as mãos repousando carinhosamente em Ash. No dia seguinte, quando acordaram, os dois tiveram que aturar as piadas e provocações de Shorter, que havia tirado várias fotos deles dormindo juntos.

Notas finais
Ao contrário do que eu tinha dito no capítulo anterior, esse também focou em Asheiji pois eu queria revisar mais a outra one shot antes de postar, ainda não estou satisfeita com ela. Mas algum dia eu posto, a tia promete kkkkkk Fiquem a vontade para comentar, criticar ou sugerir alguma ideia de oneshot Bjss e até a próxima ;) ps: o título do capítulo faz alusão ao livro, homônimo, de Mia Couto (Terra sonâmbula)