Um breve romance

1 Um breve romance


O céu cinza mostrava-se carregado e o cimento coberto pelo musgo. O que antes era uma linda rua, tornara ruinas. Prédios caídos e ruas trincadas, a vegetação fora a única privilegiada, que ali cresceu e se firmou. Os carros abandonados serviram de aposento à poeira e ao limo, a ferrugem os possuíra e os vidros já não passavam de cacos quebrados. Poças inundavam depressões dos terrenos irregulares. De longe podia ver o horizonte, o qual iluminava-se com a vermelha luz do amanhecer, que por sua vez, vinha como anfitriã do dia ao despertar do sol. Logo abaixo do resto do céu noturno manchava-se uma nuvem rubra diluindo seu fulgor como uma gota de sangue pousando em uma poça de água. O dourado solar surgiu e ascendeu ao céu, majestoso e imperial. Havia o som raso e fraco das gotas que pingavam e destacavam o orvalho no concreto. O vento sibilava e uma orquestra soprava os assobios da brisa entre os defeitos.

Mas algo incomum se dera; eram passos, passos apressados. O som da água destacava passadas largas e profundas de um sujeito. Um homem que corria pelos restos mortais da cidade para fugir de um predador, o qual não era animal ou monstro, talvez os dois, contudo, criado pelas maléficas e gananciosas mãos humanas. O brilho metálico refletia a luz matutina e viajava veloz e agilmente. Possuía uma forma quadrupede, tal como um tigre, porém, apresentava suas entranhas motorizadas jazidas dentro do corpo. Era por uma espécie de robô que o homem em questão era perseguido.

Corria e corria, respirava sofridamente enquanto o arfar quase lhe transbordava o suportável. Deparado com um obstáculo, o rapaz pulou-o rapidamente, entretanto, torcera o tornozelo na queda. Levantou-se e prosseguiu com dificuldade e correu até uma esquina que trifurcava. Ele, já desesperado, não sabia qual caminho seguir, estava perdido. Seu coração palpitava tão rápido quanto um motor bem lubrificado. Decidiu então ir pela direita, talvez por ser o lado mais perto de atravessar. Seu pé ferido já não era suficientemente bom para continuar, mas tentou correr novamente, e mesmo com passos mancos, tentara sobrepor os obstáculos.

O predador se aproximava mais e mais em passadas largas e rápidas; já era audível seu mecanismo hidráulico e o cheiro da fumaça era perceptível. Quiçá, porém, sorte ou azar, o rapaz avistou um buraco. Sem pensar duas vezes, jogou-se dentro. Diria que por sorte ele escapou do seu predador, entretanto, seu infortúnio fora outro ferimento, uma barra de ferro perfurara sua perna já ferida. Necessitou de muita força para retirá-la dos escombros. Quando o fez, rasgou uma tira de pano de sua camiseta e improvisou um torniquete. Abriu a mochila e pegou os materiais de primeiros socorros. Estancou o sangue com algumas gazes e logo em seguida retirou de seus itens, um isqueiro e um alicate. Esquentou-o na pequena chama e quando constatou estar suficientemente quente, descansou o aço fervente sobre o ferimento, assim cauterizando-o. Conseguiu gemer com a boca fechada para não chamar a atenção, mas não suportou esconder as lágrimas. Amarrou barras de ferro e madeira ao redor de sua perna e usou um bastão para poder andar. O silencio tomou a cidade novamente. Lá se via sozinho e perdido, caminhando com dificuldade.

Não demorou e começou a chover. Ele precisava de algum lugar para se abrigar. Avistou um pequeno edifício de três andares onde ainda restavam janelas com vidro e madeira para que pudesse se esconder do frio. A faixada estava danificada, via-se apenas um nome "Laboratório Dr. Lon...", não era totalmente legível.

Entrou no prédio, escuro e sujo. Havia lama, barro e musgo em todos os lados. Caminhou mais ao fundo até as escadas. Com dificuldade subiu ao terceiro andar, entrou em uma sala e caminhou até a janela e admirou a paisagem cinza e opaca pela chuva, um tanto turva pelo vapor. Sentou-se em um sofá velho e relaxou o corpo. Enquanto olhava ao redor e vasculhava com os olhos algo útil, notou um estranho objeto metálico que, estranhamente, não estava enferrujado; pelo contrário, ainda se mostrava polido. Possuía dois metros de altura, um de largura e um de profundidade.

Caminhou cautelosamente em direção ao objeto e observou-o de perto. Olhou atentamente o prisma e, com o seu bastão, deu algumas batidas leves. Não houve resistência ou resposta. Levou a mão à superfície metálica. Logo ouviu um ruído baixo e fino levando o rapaz se afastou subitamente. De dentro saia fumaça, um tanto fria. E então fora possível identificar que algo mexia; tratava-se de uma tampa que vedava e lacrava o objeto. O rapaz correu o máximo que podia à outra extremidade da sala e pôs-se a olhar. Quando a poeira levantada pela fumaça e a própria dissipou, era possível avistar um corpo. Ao que parecia, de uma mulher. O jovem levanto, caminhou em direção à caixa e parou logo à frente.

Os olhos estavam fechados, seu cabelo era branco e refletia uma luz prateada que iluminara os olhos do seu observador. A pele era tão branca quanto mármore contrastavam com seus lábios vermelhos como sangue. A beleza que havia naquele caixão extasiou o rapaz que já aguara os olhos apenas em contemplar tal imagem. Levou sua áspera e calejada mão ao rosto da mulher. A pele era aveludada e macia como pêssego. Seus olhos abriram lentamente, olhos lilases, os quais fizeram o rapaz cair aos prantos. Nunca vira um ser com tanta beleza e dignidade em sua face, pois ele ignorava qualquer sobrevivência da arte no mundo onde vivera. Caminhou até o sofá e se sentou para admirá-la. Logo ela mexeu os dedos e depois os pés, saiu de dentro do caixão de ferro lustroso, olhou atentamente o ambiente até seus olhos se encontrarem com os do jovem sentado e perplexo.

Caminhou em sua direção e parou à frente, segurou o vestido branco de tecido fino e ergueu levemente, curvou os joelhos rosados e delicados.

— Muito prazer, senhor. Sou Ariel. — Disse sorrindo.

Não houve resposta por parte do jovem por alguns minutos.

— Muito prazer, senhor. Sou Ariel. — Disse novamente.

— Sou Rennier. Quem é você?

— Sou Ariel, senhor.

— O que é você?

— Vejo que está ferido. Sente-se. Ajudarei com os primeiros socorros.

— Não precisa. — Respondeu encolhendo-se.

— Não seja tímido. Apenas olharei. — Insistiu.

Rennier apoiou sua perna sobre a mesa que havia em frente ao sofá. Ariel desatou os nós e retirou as barras que serviam como talas para sustentar a perna do sujeito. Seus olhos lilases fitavam fixamente os ferimentos de Rennier.

— Desculpe. Tentei contatar o sistema do almoxarifado, mas ninguém atendeu.

— Não tem ninguém aqui.

— Como é, senhor?

— Por quanto tempo ficou dormindo?

— Deixe-me ver. — Pausou a fala por alguns segundos. — Pouco menos de cinquenta anos, senhor.

— Há muitas coisas que mudaram nesses cinquenta anos.

— Não compreendo, senhor. Não há nada sobre isso no banco de dados.

Rennier limpou o ferimento com gaze e fechou-o novamente. Avistou uma muleta caída no chão e pediu à Ariel que a buscasse. Assim ela fez, entregou-lhe a muleta. Ele levantou-se e foi à janela.

— Veja como está o mundo. – Disse ele.

Ariel caminhou perfeitamente até o seu lado de modo a jamais ser identificada como um robô. Seus movimentos e fala eram surpreendentemente prefeitos. Seus olhos refletiam o brilho idêntico ao tecido córneo humano. A pele apresentava suavidade delicada do pêssego recém colhido. Em seus lábios vermelhos haviam as rachaduras naturais; era simplesmente humana. Ao presenciar e estudar tais detalhes, Rennier não se conteve e perguntou.

— Você tem sentimentos?

Ela acuou-se e olhou a paisagem, encolheu os ombros levemente rosados e respondeu.

— Sou programada para sentir muitas coisas, senhor.

— Desculpe. No mundo que existe, nem mesmo humanos têm sentimentos. Talvez você possa tê-los por não ser humana.

Rennier sorriu olhando os olhos de Ariel, e ela lhe devolveu o sorriso.

— Lembra-se de como era o mundo antes do fim começar?

— Sim, senhor. Mas me lembro somente das coisas que foram armazenadas em meu sistema.

O jovem voltou ao sofá, sentou e ajeitou-se confortavelmente. Sua respiração estava levemente irregular, os suspiros eram pouco mais rápidos que o normal. Pegou a mochila e retirou algumas barras de ração, comeu-as rapidamente e dormiu por alguns minutos.

Quando despertou, notou Ariel sentada ao seu lado.

— Por que não vai embora?

— Por que essa é minha casa, senhor.

Ele levantou apoiando-se na muleta e dirigiu-se à porta.

O vento sibilou e uma brisa forte bagunçou mais o local. Ele abriu a porta e pôs-se a caminhar pelo corredor e subir as escadas que levavam ao terraço. Era um grande espaço de concreto cercado por uma mureta de um metro de altura. Sua superfície assemelhava-se com a das ruas, as lajotas estavam desniveladas e irregulares, algumas quebradas, mas confortadas por um pouco de grama. A tinta da mureta já não existia, o gesso fora completamente corroído e era visível apenas os tijolos e o cimento. Do terraço podia-se ter uma ampla visão da cidade aos pés do morro, era pacata e triste. O sol, que há algumas horas resplandecia seu fulgor, escondera-se atrás das nuvens e pusera-se a chorar.

Rennier encostou-se sobre a mureta, suspirou profundamente e relaxou a cabeça, cedendo à gravidade. Encolheu os ombros e devaneou por algum tempo.

— O senhor se sente melhor?

— Sim.

— Que bom, senhor. — Sorriu.

Ariel encostou-se sobre a mureta e ao lado de Rennier. Se antes seu cabelo refletia prata, ali cada fio brilhava e dançava com a brisa. Ela virou e ajeitou o cabelo com os dedos a fim de tirá-los de seu rosto.

— Você é humana! — Sussurrou Rennier admirado com o que vira.

— Desculpe, senhor. Pode repetir? — Fitou-o sem entender.

Rennier sabia que os sentimentos que ela sentia eram algo simples, a programação da época não conseguiu dar o amor ou a depressão aos robôs, porém, o físico era incontestavelmente perfeito, talvez ainda mais belo que os humanos vivos.

— Não disse nada importante. — Respondeu.

Sentindo-se cansado, o jovem procurou o caminho à porta, queria descansar mais um pouco até que suas feridas melhorassem. Quando chegou perto da porta, Ariel lhe disse.

— O senhor gostaria de conhecer nossas obras? — Suas aveludadas mãos seguravam umas às outras em frete ao corpo.

Rennier não negaria nada àquela mulher. Ele a seguiu até uma porta de ferro enferrujado. Ao abrir deparou-se com ao que parecia, um pequeno cinema. Não estava totalmente destruído, mas ainda havia lugares para sentar.

— Por favor. Sente-se, senhor.

Acomodou-se na primeira fileira e analisou o lugar, havia vinte cadeiras, e ao fundo da sala, o projetor. Ariel sentou ao seu lado e disse.

— Vou mostrar ao senhor como era antes.

Rennier ajeitou-se na cadeira. Ariel esperava as gravações surgirem. Passara um minuto, dois, três, dez, mas nada ocorreu.

— Por que não deu certo? — Indagou ela.

— Porque não há energia.

— Por quê?

— Sem energia não dá para ligar as luzes.

Ficou aérea por alguns segundos.

— Verifiquei o sistema. Creio poder suprir essa deficiência local, porém, consumirá metade de minha bateria.

Logo fitou a tela branca onde seria reproduzida a imagem. Pegou um cabo e conectou-o em sua nuca. Os roncos do projetor eram como motores elétricos, finos e agudos. Uma luz branca ascendeu vinda do fundo da sala e projetou-se na tela.

A primeira imagem fora o mar calmo e atônito, não havia nada além de água e o céu azul sem nuvens. A segunda imagem mostrava a neve de alguma montanha, e sobre ela, deslizavam lebres brancas fugindo de uma raposa; uma corrida de sobrevivência. Outra imagem mostrava uma alcateia de lobos cinzas andando calmamente em bando. Fora projetada inúmeras imagens: insetos, animais, paisagens e por fim fora a vez dos humanos. As ruas de Tóquio, Nova Iorque, Paris, Bangladesh, Londres, São Paulo, e outras. As obras de arte, a Monaliza, as estatuas de Michelangelo, imagens da capela sistina, o homem vitruviano. O retrato dos homens mais importantes da história. Logo vieram as guerras, a primeira e segunda guerra, os conflitos espalhados pelo mundo; bombas, pessoas mortas, crianças mortas ou aleijadas, até mesmo agonizando em seus sangramentos e mutilações.

Os olhos de Rennier brilharam ao presenciar tais imagens. Não só brilharam, como também, lagrimas surgiram.

— Eu gostaria de levar essas imagens a todos. Gostaria que pudessem ver como era o mundo. – Disse ele

Levantou-se e caminhou até a sala no terceiro andar.

Já era final da tarde. As nuvens chuvosas se dissiparam e deram lugar ao sol poente, com o vermelho da manhã o sol descia de seu trono acompanhado da rosa e do laranja que manchavam o céu, talvez o sol poente sempre apresentasse esse poema, mas Rennier só agora fora capaz de ver através da imensidão plúmbea que há. As estrelas tornaram a surgir e a lua tomar o céu negro.

Rennier decidiu sair do edifício a fim de vasculhar as proximidades. A noite era escura, os escombros e restos da cidade não permitiam a luz da lua e das estrelas iluminarem o solo, a cidade cedia apenas às sombras. Ao descer sob a pena do ferimento, avistou o breu sobre o concreto negro. Era possível ouvir os assovios que o vento produzia entre os prédios, uma melodia silenciosa e exilada. Estava frio, felizmente, o agasalho de Rennier supria suas necessidades. Caminhava cautelosamente pela rua.

— Onde vai, senhor?

— Procurar coisas úteis.

— O senhor deve descansar, ao menos, até se recuperar dos ferimentos.

— Não tenho muita comida, devo procurar objetos úteis para trocá-los por comida.

De repente Rennier caiu de joelhos e então lagrimas caíram de seus olhos.

— Por que estou chorando? Não devo me dar ao luxo de tal comportamento. – Pensou.

Ariel se ajoelhou ao seu lado e abraçou-o, desabotoou a capa de Rennier e adentrou em seus domínios, cobrindo-se com a capa. Ariel não tinha cheiro, porém, aquecia Rennier e o abraçava carinhosamente. Ele acariciava o rosto de Ariel com seu próprio rosto. Retribuiu o abraço dando-lhe um mais apertado. Ele sentia um apreço por ela que jamais despertou por alguém, tentou ao máximo não lembrar que ela não era humana, contudo, acabava lembrando; mesmo assim, sua admiração aumentava mais e mais. Talvez por não ter amado nada ou ninguém, provavelmente a própria Ariel fora seu primeiro amor. Por alguns minutos ficaram apreciando um ao outro, mas logo ouviram um ruído suspeito, algo como um motor. Decidiram retornar ao edifício.

Ariel encontrava-se sentada no sofá. O jovem deitou com a cabeça em seu colo e pôs-se a admirá-la. A feérica beleza atraíra os olhos de Rennier.

— Parece estar cansado, senhor.

— Estou.

Afagou-o bagunçando seu cabelo. Não demorou até ele dormir.

Ariel continuou a acariciá-lo e fitar seu rosto sereno e quieto enquanto dormia. Acariciou com seus dedos as rugas e a pele de Rennier. Ela não entendia o que acontecera, nem mesmo o que se passara em seu mundo. Perguntou-se sobre o que o Rennier sonhava enquanto dormia sobre seu colo. Talvez ela fosse programada para amar ou criara afeto por ele por ser programada para isso.

Ela levantou e pôs-se a vascular o quarto, que há cinquenta anos fora brutalmente abandonado. Estava bagunçado, porém, lembrou de um objeto sobre a bancada encostada na parede.

Caminhou em direção ao pequeno porta-retratos. O vidro empoeirado voltou a apresentar uma imagem quando ela o limpou com um pano. Na foto havia um grupo de pessoas vestidas com jalecos e luvas e no centro estava Ariel, que sorria com intimidade. Os que a rodeavam eram seus criadores. Ela retirou com cautela a foto de dentro do objeto e virou-a, havia uma dedicatória. “Para que nunca se esqueça esse momento." Guardou a foto e lembrou-se de quando ainda havia vida. Talvez ver Rennier fora confortante.

Na manhã seguinte Rennier abriu os olhos, entretanto, sem a fugacidade do dia anterior. Sorriu ao ver que sua primeira imagem do dia fora a Ariel; então sorriu levemente e acariciou seu rosto.

— Não estou me sentindo bem. — Afirmou ele.

— Parece estar com febre, senhor.

— Descansarei um pouco.

O dia passou lentamente. Embora não havendo chuva, o dia não era claro. O vento entrava tranquilamente pela janela e bordejava a poeira. Estava silencioso, quieto e sereno, era um dia calmo e lindo, talvez fosse troca da estação, pois, sobre janela um pássaro pousara.

Rennier admirava sem levantar de seu confortável sofá, não por preguiça, mas por não ter forças para tal. O pássaro tinha as penas negras, exceto as do peito, as quais eram azuis quase metálicas. Seu bico era branco e seus olhos negros, as patas eram pretas e mesclavam-se com as sombras. Orquestrava um canto era singelo e leve. Rennier nunca escutara algo como quando as notas soaram, seus olhos se iluminaram. A vida humana, acreditava ele, era a única que sobrevivera dentre os animais.

— O que tanto olha, senhor?

— O pássaro na janela. Ele está cantando.

Ela não respondeu, fora programada para agradar os outros. Apenas olhou-o e sorriu com semblante delineado triste, já que não possuía lagrimas como os humanos, talvez isso a entristecesse.

Havia o som da janela batendo na parede ao lado de fora. Uma flor florescera em um canto da sala. Era branca, pétalas pequenas, uma flor de camomila talvez.

Logo Rennier adormeceu novamente.

Ariel olhou a janela e esboçou uma expressão cabisbaixa, não havia pássaro algum ali, nunca houve. Ela levantou e apoiou a cabeça de Rennier cuidadosamente sobre onde estava sentada. Caminhou em direção à flor e admirou-a. Arrancou-a e colocou em seu cabelo.

Olhou a paisagem e lembrou de quando a cidade possuía vida. Mesmo seus sentimentos não tão complexos como de um humano, ela encolheu os ombros, ajoelhou-se sobre o tapete sujo que havia em frente ao sofá e olhou o rosto de Rennier, que não se mostrava mais sereno.

Retornou ao sofá e apoiou novamente a cabeça do rapaz em seu colo.

Ela admirava seu rosto, entretanto, preocupada. Ele não estava mais corado sutilmente, estava vermelho e húmido de suor.

Ariel resfriou a temperatura de sua mão e descansou-a sobre o rosto quente dele. Todo o resto do dia ele passara dormindo. Acordou durante à noite, e mais uma vez encantou-se com o brilho prateado dela.

— Ariel, Ariel. — Disse segurando sua mão. — Vamos sair dessa cidade e mostrar a todo o mundo que havia antes?

— Irei a qualquer lugar contigo. — Sorriu estremecendo os lábios.

A temperatura de Rennier aumentou. Ele começou a tossir. Conforme as horas passaram suas tosses pioraram.

Tentou levantar, contou com a ajuda de Ariel para fazê-lo. Escorou-se na muleta e conseguiu passar cuidadosamente pelos obstáculos. Caminhou até a porta, passou-a e fora à escada. Desceu ao segundo andar a fim de procurar algo que ajudasse com a infecção. Encontrou uma velha porta de madeira que estava quebrada, sem dificuldade pode entrar na sala. Havia apenas armários de arquivos. Não pode investigar, estava muito franco para isso, decidiu então retornar.

Conforme os dias passaram ele ficava mais fraco. Seus olhos eram fortes, mas ele, que antes era corajoso o suficiente para fazer-se uma cauterização e ainda conseguir caminhar, agora mostrava-se acariciado por olheiras fundas e negras. Sua respiração estava fraca e algumas vezes aparecia sangue com o catarro em suas tosses. Seu corpo estava magro, não era mais como um corpo forte e rígido que outrora ele triunfara.

Ainda descansava a cabeça sobre o colo de Ariel, a admirando, tentava guardar seu encantador rosto para que nunca esquecesse, para que pudesse lembrar nos piores momentos, e, em seu rosto encontrar a luz.

Ariel afagou-o por horas e lamentou não poder chorar.

— Vamos embora Ariel, vamos embora. — Pediu ele. — Espere eu despertar para que possamos caminhar juntos.

— Esperarei você abrir os olhos. Esperarei o tempo que for preciso para que, quando os abrir, possamos ver o mundo que você ama.

Rennier delineava um curto sorriso acolhedor e quente, tal oposto ao seu corpo frio e gélido. Após alguns minutos sua musculatura fraquejou, respirou profundamente, fechou os olhos e sucumbiu em meio as caricias de um anjo.

Ariel sabia o que havia acontecido, porém, não se levantou, ela jurou esperar, então esperou fervorosamente o abrir dos olhos do Rennier.

Esperou dias até quando fora sua vez. Admirou Rennier pela última vez enquanto fechava os olhos. Sessou seus sentidos. Podendo assim acompanhar Rennier em seu aconchegante sono.

Notas finais
Obrigado por ler ♥ Dê uma critica ai, se gostaram ou não e tal. :3
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!