Um bom menino
1 ÚNICO
Notas iniciais
No início eu não gostava muito dela. Eu não entendia por que Jon preferia passar tanto tempo ao seu lado ao invés de aproveitar minha companhia. Qual era a graça afinal de ficar lá, deitado e lambendo o focinho dela? Eu tenho certeza que podia pensar em mil coisas muito mais legais que aquela.
Tipo caçar! Nós não caçávamos juntos mais. Jon sempre saía com esse objetivo, mas ao invés de me levar para acompanha-lo, ele me deixava em casa com ela. Eu havia praticamente me tornado a babá daquela humana sem graça e de cabelo acobreado.
— Seja um bom menino, eu vou estar de volta em breve e você vai vigiar a porta de Sansa, ok?
Eu queria latir com Jon. Queria rosnar para seu dedo autoritário e dizer que eu pouco me importava com o que aconteceria com sua nova companheira. Que eu estava indo caçar e nada e nem ninguém me faria mudar de ideia.
Mas, contudo, todavia, entretanto eu sou um bom menino. Eu jamais faria qualquer coisa para desapontar Jon. Ele contava comigo para vigiar a porta dos aposentos de sua humana e era isso que eu faria.
Eu dormia nos pés de sua porta, rosnava para qualquer enxerido que passasse pelo corredor e a única pessoa que eu estava autorizado a deixar entrar era uma humana extremamente grande e de cabelo amarelo. Eu não gostava dela e ela não gostava de mim porque aparentemente eu era mais de confiança que ela.
Eu gostava de quando era um dia ou uma noite mais tranquila, eu estava autorizado a fechar meus olhos e entrar na cabeça de Jon para morrer de inveja das mil aventuras que ele estava vivendo sem mim!
Traíra. Galopando naquele pangaré sem graça, flechando veados e colhendo limões para sua humana. Pelo menos ele não se esqueceu de mim e havia me caçado um javali. Eu já estava lambendo meus beiços de ansiedade para a volta dele, mas eu sabia que seria demorada.
Foi então numa noite fria, que eu estava particularmente mais contrariado e aborrecido com minha tediosa existência, que a humana de Jon abriu a porta e me chamou para seus aposentos.
— Você sente falta dele não é?
Subi em sua cama, deitando-me perto dela.
Bem, será que estava tão óbvio que eu estava muito chateado com Jon e com o fato que eu não estripava um coelho há semanas?!
— Eu também sinto. Fico nervosa quando ele viaja. – ela estendeu a mão e deslizou pelo meu pelo. Era gostoso. – Ele disse que eu poderia contar com você. Disse que você e ele são quase que um só.
Eu não sabia se gostava daquele comentário e eu provavelmente teria uma conversa com Jon. Particularmente não sei se acho apropriado ser comparado a criaturas que andam em duas patas, gostam de banhos e passam tanto tempo lambendo o focinho alheio.
— Talvez devêssemos dormir, Ghost. Talvez Jon chegue em casa mais rápido.
Eu duvidava muito, mas eu nunca rejeitava um convite para uma soneca. Jon e eu gostávamos de longas sonecas de frente pra lareira.
E surpresa, mas ela se tornou uma companheira melhor de sonecas. Ela era quentinha, não roncava e nem me chutava a noite.
Foi depois desse dia que meu relacionamento com a humana de Jon mudou completamente. E ah, eu descobri que ela não é só a humana de Jon. O nome dela é Sansa.
Ela não era Jon. Eles eram muito diferentes de fato... ela não gostava que eu caçasse em sua presença, ela andava comigo numa droga de coleira e estava frequentemente escovando meu pelo, mas felizmente ela fazia algo que Jon deixava a desejar. Ela tirava todos os carrapatos e aquelas terríveis pulgas de mim! E também sempre coçava minha barriga e orelhas quando eu fazia algo que a agradava.
Havia uma coisa que ela fazia que eu também não gostava no início, mas eu tinha aprendido a conviver porque claramente a divertia e distraía. Ela estava sempre me enfeitando com flores e fitas. No início eu espirrava por causa do cheiro e coçava até tirar os laços de minhas orelhas, mas depois eu fui me acostumando e eu achava até bacana todo aquele cuidado que Sansa tinha comigo.
Certo dia Jon até tinha me chamado para dar uma volta, mas acabei me fazendo de difícil, porque eu não estava muito bom com ele, e fiquei lá no colinho de sua humana, recebendo coçadas gostosa na minha barriguinha e até permiti que ela espirrasse perfume, escovasse meu pelo e pendurasse fitas em mim.
Aos poucos eu entendia qual era a da humana do meu dono... Acho que ela sentia falta de minha irmã... lembrei-me de Lady com um aperto no peito. Tudo bem, ela sempre me dava patadas quando eu chegava perto dela sujo de lama, mas ainda assim, ela era da matilha e minha irmã sempre amou Sansa tanto quanto eu amo Jon, e ela sempre teve muito orgulho de andar perfumada e limpa, muito diferente de mim e meus irmãos que sempre fomos criados no meio do pátio, espreitando pelas florestas e caçando.
E depois de um tempo, conforme ela ia ficando muito irritada e cada vez mais cuidadosa comigo, eu também comecei a achar que Sansa queria um filhote. Ela estava inquieta e sentimental daquele jeito que as fêmeas ficavam quando estavam no cio, mas não cruzavam e não conseguiam criar.
— Eu quero uma família, Jon. – escutei-a dizer um dia.
Família para os humanos é tipo como uma matilha.
Eu achava que humanos tinham certos tabus a respeito de acasalamentos. Quero dizer, até onde sei Sansa e Jon são tecnicamente irmãos, embora eles se comportem em torno de si como fêmea e macho.
Nós lobos não ligamos pra isso. E aparentemente meus humanos também não.
E não deu outra, depois daquilo percebi que Sansa estava diferente. Ela estava mais feliz e ela estava cada dia mais imensa! E para minha alegria, Jon também estava de volta e nós havíamos voltado a explorar esse mundão juntos.
Ok, não o mundão, mas a floresta da propriedade era um começo. Ah eu finalmente poderia estraçalhar um coelho sem ter minha humana Sansa gritando comigo, repreendendo-me e dizendo que eu iria me sujar.
Foi durante uma madrugada que minha vida mudou mais uma vez. Eu estava dormindo aos pés dos meus humanos, quando Sansa acordou gritando.
— Está nascendo!
Eu lati em desespero. Nascer é o termo que humanos utilizam para quando a fêmea dá cria!
Eu corri envolta de mim mesmo, caçando meu rabo, apenas pelo puro nervosismo. Eu não sabia o que fazer!
Ela estava com muita dor e não havia nada que eu pudesse fazer. E eu vi que Jon parecia estar tão perdido quanto eu.
— Vou buscar ajuda. – ele disse enquanto a colocava de volta na cama. – Você fique aqui. Vou chamar uma parteira. Ghost, fique aqui e cuide de Sansa!
É claro que eu ficaria. Pulei sobre a cama mais uma vez e me postei de vigia. Ninguém me tiraria dali, não enquanto a cria de meus humanos não saísse. Na verdade, eu só saí quando Jon chegou.
Nós dois tivemos que ficar do lado de fora e assim como Jon, eu estava inquieto. Eu a escutava gritar do lado de dentro e eu me perguntava o que estávamos fazendo ali. Ela parecia estar com dor.
— Nós não podemos entrar parceiro... – Jon me disse quando eu comecei a arranhar a porta. – Não enquanto o bebê não nascer.
Diante daquela desanimadora realidade, eu me deitei com o focinho voltado para a porta. Eu não sairia dali até que pudesse ver minha humana. E os humanos dela.
Já havia amanhecido quando a porta finalmente se abriu e Jon e eu pudemos entrar para ver Sansa, mas para minha decepção só havia um humano.
Tanto tempo para parir um humano?
— Cuidado Ghost... – Jon me alertou quando eu apoiei minhas duas patas dianteiras sobre a cama para dar uma olhada no meu novo protegido.
Porque afinal, vocês têm a menor dúvida que esse minúsculo problema vai sobrar pra mim também?
— Está tudo bem. Ele é um bom menino, não é Ghost?
Olhei para Jon com o peito inchado de orgulho. Ouviu só né? Sua humana gosta mais de mim que de você!
Cutuquei a coisa no colo dela com meu focinho. Eu mal podia me conter de ansiedade para ver o novo membro da matilha dos meus donos.
Sansa sorriu pra mim e tirou o lenço do rosto de seu humano e eu pude ver.
— Ghost, conheça Lyra. Ela vai ser sua nova protegida.
Ah, então era fêmea! Abanei o rabo feliz. Certamente fêmeas davam muito menos trabalho que machos e eu tinha certeza que ela iria adorar me enfeitar com fitas e flores. E escovar meu pelo. E tiras minhas pulgas!
Cheirei a humana. Ela tinha cheiro de aventura, de florestas, cavernas e espadas. Eu estava certo que nem tudo seria apenas sobre fitas e flores! Incapaz de conter minha empolgação, eu sacudi meu rabo mais ainda e a fiz uma promessa.
Nós vamos nos divertir muito, Lyra, eu tenho certeza.
Fale com o autor