Um bom garoto
2 Capítulo 2 Senta
Notas iniciais
Capítulo 2. Senta
Havia retornado do recesso de final de ano bastante disposta a fazer de suas visitas a Hogsmeade algo menos hedonista. Marlene espanou a manchinha de lama seca acima do seu joelho esquerdo, bem onde a bota não podia proteger suas pernas, enquanto terminava de subir o aclive.
— Hedonista... Que palavra chique, Wulv! O que acha? — Perguntou para o cachorro ao seu lado, muito mais familiarizado com sua presença agora, passado o estranhamento de seu encontro no final de semana retrasado. – Já sei, não devia encurtar o nome que eu tão carinhosamente te dei: você se chama Wulver, com todas as letras, pompa e circunstância... Ai, acho que aqui já está bom, né? Vamos parar um pouco.
Tirou a pequena manta que havia enfiado de qualquer jeito na bolsa e estendeu para que ambos — cachorro e garota — pudessem sentar em um lugar que não estivesse molhado com o constante gela e degela da neve.
Olhou de soslaio para o cachorro negro que se estendia bem comportado por sobre suas patas e Wulver a olhou de volta com atenção, como se estivesse pronto para ouvi-la falar de coisas profundas e cheias de significado. Sorriu para esse absurdo.
— Sabe, Wulver... Às vezes é bom tirar um tempo só para ficar assim, apreciando as belezas da vida sem muito estresse, sem muita besteira... — Marlene olhou para o horizonte, colocando as botas sujas para fora da manta, as deixando brincar na terra ainda árida esperando pela primavera. – Gosto dessa vista daqui... Eu tenho sorte, sabe? Eu sou escocesa e Hogwarts é na Escócia e... Eu sei lá, só é bom saber que estou perto de casa, se é que me entende.
Riu de leve, sozinha, ainda sob o escrutínio atento do cachorro. Ele virou para frente e admirou a Escócia rural com um olhar contemplativo, depois voltou a ajeitar a cabeça entre as patas dianteiras, sereno.
— Você também é escocês, não é, Wulver? Acho que não se dá conta do tanto de sorte que a gente tem por ter nascido aqui... — O cão negro não levantou a cabeça, mas a inclinou o suficiente para ver a expressão que acompanhava esse tom de voz estranho, melancólico. – As coisas estão ficando feias lá fora, moço... Estão ficando feias rápido.
O cão agora balançou o rabo inquieto, então Marlene resolveu afagar de leve os pelos atrás do pescoço dele, aqueles mais rebeldes que o faziam parecer um pouco selvagem e perigoso. Ele parou de balançar o rabo, mas as orelhas continuaram em pé, atentas.
— Eu sei que é tolice achar que eu posso fazer alguma... As garotas estão falando sem parar em entrar para um... — Respirou fundo e riu da sua tolice. – Que assunto mais estranho para se falar com um cachorro, não é? Eu sei... Que tal falarmos de... Esportes? Sabe, Wulver, eu acho que os cães teriam sido excelentes apanhadores de pomo se alguém tivesse lhes dado a chance...Loucura, né? Mas, pensa bem, já seria fantástico se ao menos tivessem lhes ensinado a montar numa vassoura, quero dizer, seria...
Continuou tagarelando sozinha tarde a dentro, mas ao menos suas divagações foram acompanhadas de uns quantos latidos de apoio do cachorro.
Marlene lhe coçou entre as orelhas e continuou falando e falando sobre como border collies poderiam fazer um ótimo trabalho na contenção do avanço de artilheiros, como fazem com as ovelhas nos pastos e os beagles seriam excelentes caçadores de pomos, propriamente ditos...
Passou a tarde pulando de um assunto para o outro, terminando o dia contando como seu irmão Mark havia tentado derrubar uma vaca no pasto porque tinha ouvido falar que os americanos trouxas faziam isso para se divertir e acabou fazendo todos os irmãos e primos McKinnon terem que correr por suas vidas nas férias, já que as vacas não tinham ficado nada contentes com a ideia.
Enxugou as lágrimas de riso dos olhos e pediu desculpas a Wulver por ser tão idiota a ponto de se deixar levar por lembranças tão bobas. Marlene se levantou, se espreguiçou e espanou as vestes, mesmo que não houvesse muito o que tirar delas, fez apenas por força do hábito.
— Prometo que trago algo para lancharmos da próxima vez, Wulver, algo bom... E tópicos menos idiotas, você não parece o tipo de cão que perde tempo com essas banalidades. — Falou com um sorriso irônico no rosto e aceitou de bom grado quando o cachorro se espreguiçou usando seu corpo de apoio, em busca de uns afagos. – Qualquer dia desses deixo você conduzir a nossa conversa, isso é uma promessa.
Assim que a garota desceu a colina, ainda guardando distraidamente a manta de volta na sua bolsa escolar, o cachorro voltou a se sentar no lugar onde estavam, dessa vez em sua forma humana, sem se importar se sujaria seus jeans na terra batida sob os últimos raios do pôr do Sol de inverno.
Iria comprovar se realmente a senhorita McKinnon estaria disposta mesmo a deixá-lo conduzir a conversa daqui para frente.
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