Um artista que pintou estrelas - Livro I
8 Capítulo 7 - Os olhos gravam coisas importantes
Notas iniciais
Quando me permiti abrir os olhos, estava em um lugar totalmente diferente, e percebi que não me lembrava de nada. Levantei-me, e percebi que me encontrava novamente, no mesmo lugar que estava quando havia viajado para outro universo paralelo, as pessoas eram as mesmas, tudo estava igual a aquele dia. Porém, a memória me voltou completamente, e me lembrei o que estaria fazendo aqui.
Eu estava procurando meu pai, estava com completa certeza disso, mas, apenas uma peça não estava encaixada. Nada se movia, exceto por mim. As pessoas permaneciam paradas, todas. O céu, tudo, isso estava me apavorando. Não estava entendendo o que estava acontecendo. Nada, tudo parecia tão sólido, estava tudo congelado... Nada se dissolvia.
Fechei os olhos e me concentrei em meus sonhos... Sonhei apenas com a fada dessa vez, sonhei com ela aparecendo através de suas estrelas e me dando explicações. Isso aconteceu. Em um breve momento, em meio ao meu abrir de olhos, em minha frente ela pairava, boiando sobre suas estrelas, então perguntei-a:
– O que está acontecendo? — Perguntei olhando para as estrelas em seus pés, e lembrei, que ontem uma delas havia deixado o céu, havia derretido, e virado poeira, isso me deixou muito abalado, nunca repetiria aquele ato. Ou eu pensava que não repetiria?
– Ah... — Falou a fada meio desapontada. — Será mesmo que eu vou ter que explicar? — Ela olhou nos meus olhos, só então percebi que seus olhos eram feitos de estrelas, e fora justo uma estrela de seus olhos que havia morrido ontem.
– Acho que vai... Pois eu não estou entendendo nada do que está acontecendo sabe? — Havia falado tão rápido, que tive que recuperar o fôlego. — As pessoas paradas, assim como no dia que vim para cá...
– Bom. — A fada sorriu, e percebi que ela não havia dentes, apenas uma Lua, no lugar deles, e seus lábios eram apenas um contorno, e... Nossa! Como seus dentes brilhavam. — Essa cena parada aqui, é uma gravação feita através dos seus olhos, é uma memória sua... Sabe porque estamos nela? — Ela voou nos céus, sem asas, e boiou sobre ele. — Porque o responsável pelo sumiço de seu pai está aqui.
Isso foi o bastante para fazer-me tremer. Estava tão ansioso procurando pelo meu pai, mas não imaginava que alguém tinha-o sequestrado por algum motivo, e o trazido para esse Universo... Será por que ele era criativo?
– E o que eu devo fazer? — Perguntei a fada, que me olhava boquiaberta, como se eu nem tivesse ideia do que havia dito.
–Você deve fazer o mais óbvio... — Ela sorriu novamente, e voltou a superfície e começou a boiar novamente em suas estrelas. — Tente reconhecê-lo, aquele que pareceu mais desesperado ao vê-lo, ou que tem uma expressão como se escondesse algo, não sei Henry... Mas você irá reconhecê-lo, saiba disso, e quando isso acontecer, se acontecer, você deverá segui-lo discretamente, e descobrirá tudo aquilo que sempre quis saber. — As estrelas a sugaram para baixo, e ela desapareceu.
Comecei a olhar o rosto dessas pessoas. Todas me olhavam espantadas, na verdade a maioria, como se eu fosse algum tipo de aberração, mas outros, na verdade apenas um, me olhava sorrindo. Um sorriso maléfico. Andei em direção a ele. Notei que segurava uma pasta. O que ele guardaria nela?
Tentei tirar a pasta com cuidado de sua mão, com medo de que a gravação importante que meus olhos haviam capturado saísse do pause, e foi exatamente o que aconteceu. O homem não conseguia me ver, olhou novamente para o lugar onde eu estava naquele dia e percebeu que eu havia sumido, e abriu outro sorriso, só que dessa vez, de felicidade.
O segui ao seu lado, mas ele nem percebeu minha presença, ou fingia não perceber, ele entrou em um prédio verde bem antigo e detonado pelo que parece, numerado 31, que se localizava, de acordo com a placa: "Avenida das esperanças perdidas e das datas de mortes marcadas". Quem em sã consciência daria um nome desses para uma rua?
Me lembrei que essa era o mundo dos pesadelos, por isso não era visível, eu não pertencia mais a esse mundo. Ele girou a chave, e abriu a porta do antigo prédio. O segui enquanto ele entrava antes de ele fechar a porta, pois eu não sei atravessar paredes. Ele trancou a porta, e tirou um capuz verde, que cobria seu rosto na rua, por isso apenas havia percebido o seu sorriso maléfico e mais nada.
Haviam três portas, sem ser a que nós havíamos entrado, uma do meu lado direito, uma do meu lado esquerdo, uma na minha frente. Eu esperava que ele fosse entrar por uma dessas três. Ele fez uma coisa que eu nunca havia imaginado, ele deu batidinhas com a chave no chão, até bater com a chave em um piso de madeira, que pelo que percebi, era o que ele procurava. Ele retirou o piso de madeira falso, que imitava os outros, e desceu por uma escada que havia ali dentro.
O prédio guardava um porão escondido, e o que ele escondia ali, mesmo eu não sabendo o que era, me causava arrepios...
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