Um ano de escolhas
3 Capítulo 3
Reinaldo não estava mais acostumado a acordar cedo. Enquanto estava no Canadá e na França, acordava cedo mesmo nas férias e fins de semana pois sempre tinha o dia cheio de compromissos. Os dois anos de intercâmbio para ele foram como viver uma outra vida — ele aproveita literalmente cada segundo. Passava o dia visitando museus e bibliotecas, estudando história, acampando, indo a festivais de música, circo, provando da culinária de diversos países em restaurantes, cafeterias e lanchonetes temáticas.
Mas desde que voltou no Brasil, nunca deixou de dizer “sim” para o melhor amigo Marcos e sempre que chegava em casa — geralmente de madrugada —, estava exausto e apenas deitava na cama, dormindo instantaneamente. Quando o Carnaval acabou, depois de um “lava-pratos” que levou Reinaldo e Marcos para uma festa na Região Metropolitana de São Luís, o ludovicense quase franco-canadense não conseguia acreditar que já era o primeiro dia de aula.
Então, na primeira quinta-feira após o Carnaval, Reinaldo acordou com olheiras e o peso de mil rinocerontes em cima de suas costas. O caminho até o banheiro de sua suíte nunca pareceu tão desafiador e a única coisa que pareceu aliviar a sua dor foi a água gelada caindo constantemente do chuveiro.
Enquanto tomava banho, pensou que precisava se distrair com outras coisas ao invés de festas que ele se obriga a fingir que gosta. Depois de visitar tantos países, Reinaldo não conseguia ver encanto algum na sua cidade natal e, apesar de ainda se sentir um pouco estranho em seu antigo-novo habitat, a sensação da companhia do seu melhor amigo ainda era a mesma: o alegrava.
Porém, para continuarem saindo juntos, Reinaldo intimou Marcos a não convidar seus colegas e foi acatado. E depois de semanas de farra, acordar cedo se mostrou uma tarefa difícil para rapaz, principalmente quando seu corpo e mente decidiram que precisam de um descanso.
Depois que foi despertado pelo chamar de Ingrid — a governanta que trabalha em sua casa —, Reinaldo resmungou que não iria para a escola pois estava cansado e continuou dormindo.
O rapaz só levantou por volta de meio-dia, quando tomou café sozinho na mesa dos fundos do apartamento — que geralmente é usada por Ingrid. Ele tomou seu café enquanto a governanta almoçava. Reinaldo contou mais algumas histórias do seu intercâmbio, confidenciou que estava um pouco tranquilo já que seu pai — que é deputado federal — estava em Brasília.
À tarde, Reinaldo foi almoçar no shopping junto com Marcos — que ao contrário dele, havia ido para a escola. Eles comeram em um fast-food na praça de alimentação: Reinaldo dando atenção exclusiva a seu hambúrguer enorme enquanto Marcos observa um grupo de três meninas conversando na mesa ao lado.
— Meu Deus, que gatinhas! — comentou. — Ficaria com as três — murmurou para o amigo.
— Como se alguma delas quisesse ficar com você, né? — Reinaldo comentou de boca cheia, rindo.
— Comigo eu não sei, mas com você todas querem, né? E você não dá bola pra nenhuma.
Reinaldo fingiu voltar sua atenção total ao hambúrguer porque sabia onde o assunto iria parar.
— Por que você não ficou com ninguém no Carnaval, cara?
Marcos insistiu mais uma vez nessa pergunta. Ele estava buscando uma resposta do amigo há tempos, mas apenas escutava um seco: “Porque eu não quis!”.
— Olha, Marcos, não sei o que você pensa, mas pra mim, beijar a boca de um bando de estranhos em público não é algo que me cresce os olhos. Sinceramente, gosto de encontros a moda antiga, algo mais discreto.
— Tenho quase certeza de que você voltou da França com uma namorada e não quer me contar — Marcos brincou, esperando o amigo dar qualquer pista de que não seja apenas mais um virginiano frívolo.
A espera foi em vão. Reinaldo de repente avistou Júlio César, vestindo o mesmo uniforme que Marcos estava usando, sentado em uma mesa não tão próxima, almoçando com uma mulher loira muito bonita.
Ignorar as batidas frenéticas e desenfreados do coração foi uma tarefa impossível para Reinaldo naquele momento. O rapaz pensou em quantas vezes tinha stalkeado o perfil de Júlio César, onde as únicas fotos que ele publicava eram de comida e paisagens; as únicas postagens eram sobre um jogo chamado Legendary Warriors.
Reinaldo até havia baixado e tentando jogar, mas ele ruim demais.
— Aquele não é o Júlio? — perguntou ao seu amigo; mais para que Marcos entendesse que Reinaldo estava mais interessado no rapaz de sorriso bonito que ele viu só uma vez na vida do que em qualquer garota que conheceu enquanto estava dentro ou fora do país, mas algo assim jamais passaria na cabeça do amigo.
“Ainda mais com a família que eu tenho!”, pensou, triste.
— E a mãe gostosa dele! — O cérebro possante de Reinaldo o fez não revirar os olhos pro comentário idiota de Marcos. — Estamos na mesma sala! Você também!
— É sério?
O rubor involuntário e o sorriso tímido e reprimido estampado sutilmente no rosto de Reinaldo foi notado por Marcos. Ele achou a atitude do melhor amigo muito esquisita, mas não conseguiu pensar em algo plausível do aparente interesse de Reinaldo em Júlio César.
Quando chegou em casa no dia que foi para a Beira-Mar, Júlio César teve a sorte da mãe não desconfiar de nada. Como era o período carnavalesco mesmo, Helena havia deduzido que o “churrasco que o filho tinha ido” havia coisas de Carnaval como glitter e fantasia mesmo. Porém, depois disso, Júlio não se atreveu mais a sair e voltou a sua velha rotina de passar seus dias livres lendo, assistindo filmes e seriados ou jogando Legendary Warriors.
Até o início das aulas, conversou com Joana apenas uma vez por ligação, mas foi uma chamada curta. Os irmãos não tinham muito o que comentar já que Júlio sabia tudo que Joana fazia pelas postagens que ela publicava a todo momento em suas redes sociais — e sua irmã não parecia muito interessada da monótona vida de César.
Júlio também não quis comentar nada sobre intercâmbio, pois não estava seguro se poderia fazer aquilo. Sair da zona de conforto é algo desafiador demais para qualquer pessoa — e Júlio César sentia que, para ele, era um pouco mais difícil.
Depois do Carnaval finalmente acabar, Júlio César acordou cheio de dor nas costas — o corpo levemente rígido pela falta de atividades físicas e pelas poucas horas de sono. Foi apenas de um banho quente, três sanduíches de atum e dois copos de suco no estômago que o canceriano finalmente sentiu-se disposto a chamar um táxi e ir para a escola. Desde a separação de seus pais, era assim que Júlio ia para o seu colégio — que ficava no bairro Renascença.
Na escola que Júlio César estudava, as aulas das 7h30 às 16h. Assim que chegou, Júlio caminhou em direção as escadas e subiu até o primeiro andar, onde ficava as salas do terceiro ano. Para melhorar o aprendizado, cada turma não passava de vinte alunos — para que os professores possam dar uma atenção maior a cada estudante e diagnosticar possíveis dificuldades.
A sala da turma em que Júlio estava — 3º ano A — era no primeiro andar. Na sua turma do ano passado, haviam quarenta e seis alunos; na deste ano seriam apenas dezoito. Quando viu seu nome em uma lista de papel exposto na porta da sala, entrou de imediato, sem curiosidade de ver quem seriam seus colegas.
Minutos antes da primeira aula começar, Isabel surge: a quase melhor amiga de Júlio César.
Os dois não tinham muitas coisas em comum. Isabel é bolsista, pobre e morava em um bairro de classe média baixa com os pais e o irmão mais velho. É cristã protestante, conservadora e fundamentalista. Enquanto Júlio César é um progressista ateu, rico e que mora em um apartamento grande num enorme condomínio. As opiniões e ideais de ambos eram completamente opostos, mas havia algo que os unia, que os torna semelhantes.
A cor da pele.
Júlio César sempre foi o único garoto negro das turmas que estudou — e da escola também — desde o Maternal. Ele já sofreu inúmeros episódios de injúria e racismo de seus colegas, professores e direção. Sua branca mãe sempre ignorou tudo pois a escola que Júlio estava era a melhor e mais cara da cidade. Ele devia estudar ali sua vida toda para que garantisse uma vaga no vestibular.
O pai não interviu. Apesar de ter o coração partido sempre que ele tentava desabafar consigo, ele repetia frases como “Seja homem e aguente, pois o mundo é muito pior!”. Ele queria que seu filho se tornasse um homem — para os seus padrões do que é “ser homem” — e aguentasse tudo de maneira firme, sem vacilar uma única vez.
Então por saber como o ambiente escolar pode ser hostil e intimidador, que Júlio fez o hercúleo esforço de, por conta própria, se aproximar de Isabel e oferecer um ombro amigo — embora as declarações de Isabel sobre vários assuntos façam Júlio César sentir vontade de vomitar — quando ela entrou no colégio que ele estuda por meio de uma bolsa de estudos integral.
— Ficamos juntos de novo! — ela comenta ao sentar-se na carteira em frente a de Júlio. — Como foram as férias?
— Nada demais — respondeu. — Passei a maioria dos dias treinando pra subir de elo no Legendary Warriors e consegui chegar no Mestre.
— Fiquei no retiro mesmo, adorando a Deus.
— Então nós dois ficamos fazendo coisas que nos fazem bem — Júlio comentou. — Isso é bom.
Isabel pensou por uns segundos na singela e profunda frase proferida pelo amigo e assentiu com a cabeça.
Os primeiros horários de aula eram de Matemática. Quando a professora Karla entrou na sala, ela deu um baixo “Bom dia, turma!”, colocou suas coisas em cima da mesa e começou a escrever no quadro uma revisão do conteúdo ministrado na segunda série do ensino médio. Durante o intervalo, Júlio checou a mensagem que havia recebido no Green Chat. Era a sua mãe dizendo para que ele ir ao shopping com ela para que eles pudessem almoçar e fazer compras.
Depois do fim das aulas da manhã, Júlio e Isabel se despediram e o rapaz foi de táxi para o shopping em que almoçaria com a mãe. Chegando lá, Júlio encontrou a mãe na praça de alimentação e eles decidiram almoçar em um restaurante italiano. Enquanto comiam, sua mãe revelou algo que Júlio não estava esperando — dando algumas voltas para chegar ao que interessava.
— Então quer dizer que você está namorando? — perguntou, não sabendo como processar essa informação.
— Sim, há um ano.
— E por que eu estou sabendo disso só agora?
— Porque eu sou uma mulher adulta e não precisa da permissão de homem nenhum para tomar minhas próprias decisões.
— Suas não, mãe! Nossas! — enfatizou Júlio César. — Nós moramos juntos; somos apenas eu e você. Você não pode sair por aí com caras sem eu saber.
— Até seu pai reagiu melhor que você — deixou escapar.
— Como assim o papai sabe? Eu estou sendo o último a saber.
— Júlio, meu filho, por favor, se acalme! Você não é de se exaltar.
— Não sou, mãe..., mas eu não sou idiota. Como você me fala que está namorando um arqueólogo desde o ano passado e não me diz nada? Você vai embora com ele, não vai? E eu vou ficar como?
— Você pode vir conosco, filho!
— Ah, mas nem fudendo!
— Júlio César! Que linguajar é esse? — o repreendeu sutilmente, sem falar alto no meio da praça de alimentação do shopping. Quando Helena pensou no que aquela pergunta representava, ela continuou em um murmuro: — Você vai ter que morar com o seu pai!
Júlio se calou, apenas. Resolveu que sua mãe não merecia sequer ter o olhar direcionado a ela. Terminou sua refeição em silêncio, sentindo o estômago embrulhar e segurando com muita determinação a vontade de chorar. Pela primeira vez em muito tempo, se sentiu sozinho e sem chão.
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