Um anjo e um Winchester
17 Capítulo 17 - Dean, Sam e Trina
Notas iniciais
Dean Winchester
Quando acordei lembrei-me do sonho mais estranho que já tive na vida, Sam tinha me acordado de modo irritante insistindo que papai estava com uma mulher no hotel onde estávamos hospedados, e com sua impertinência eu me levantei e vi que realmente aquilo estava acontecendo, era uma mulher extremamente bonita, cabelos vermelhos que pareciam brilhar mesmo no escuro e um corpo que era bem mais que satisfatório, muito mais, e por essa razão eu assumi que tudo não tinha passado de um sonho. O quarto/apartamento estava silencioso, Sam dormia tranquilo ao meu lado, isso informava que o despertador ainda não tinha tocado, levantei e cutuquei Sammy irritando-o, mas fazendo com que acordasse.
— Dia, Sammy! – Falei me enfurnando no banheiro.
— Dia...- Ele resmungou enquanto eu tomava banho e tentava esquecer do sonho.
Em cinco minutos eu já tinha saído do chuveiro e começado a escovar meus dentes, enquanto isso fui para o quarto e me enfiei em uma calça jeans qualquer, Sam ainda estava sentado na cama, parecia desconcentrado e confuso com alguma coisa.
— O que foi? – Questionei erguendo a sobrancelha.
— Tive um sonho estranho – Ele falou com o rosto franzido.
— Palhaços? – Perguntei num meio riso, recordando do seu medo.
— Não, mulheres – Ele respondeu me surpreendendo – Não comigo – Ele corrigiu observando minha expressão – Com o papai.
Na hora cuspi a pouca espuma que tinha na minha boca e tossi com o que tinha engasgado, Sam correu para me acudir batendo com força nas minhas costas e finalmente me ajudando a cessar a tosse.
— Com o papai? – Falei ofegante.
— É – Ele disse confuso – Uma mulher que parecia mais uma modelo, mas baixinha.
— Com o cabelo bem vermelho? – Perguntei e na hora ele captou a mensagem.
Corremos em direção a sala e nos ajoelhamos no sofá para olhar pela janela da sala, o Impala estava lá, nos entreolhamos um pouco desesperados, quando uma tosse baixa e seca, feita para chamar nossa atenção cumpriu o seu trabalho. Olhamos para trás e John estava lá.
— Pai...- Falei em meio de um sussurro.
— Sim, sou seu pai – Falou mais animado do que o normal, sua expressão era ilegível, parecia bravo e feliz ao mesmo tempo.
— Como foi a viagem? – Sammy perguntou, tentando não parecer nervoso.
— Muito bem obrigado – John respondeu com a sobrancelha arqueada, ele e Sam estavam há cinco segundos juntos sem uma discussão – O que estão aprontando?
— Nada! – Respondemos em uníssono, sabia que ambos olhávamos para trás do papai a procura da misteriosa mulher, sabia também que logo ele notaria nossa curiosidade.
Sua expressão se transformou em algo divertido, ele estava rindo internamente das nossa curiosidade.
— Então me viram chegando ontem? – Ele falou se sentando na nossa frente, o acompanhamos sentando corretamente no sofá.
— Você não estava sozinho – Sam respondeu olhando para as mãos.
— Não, não estava – Ele falou tranquilo – Eu vim acompanhado.
— Por uma mulher – Meu irmão falou um pouco tranquilo demais pra mim.
— Por uma mulher – John respondeu.
— Quem é? – Dessa vez eu perguntei, sem olhar diretamente para meu pai.
— Uma amiga.
— Você não beija amigas na boca – Sam o desafiou e eu fechei os olhos.
— Então, vocês são os filhos do John – Uma voz suave como seda surgiu, todos olhamos para direita em busca da dona da voz.
Observando-a de perto ela era ainda mais bonita, os cabelos chegavam a ser estranhos de tão vermelhos e brilhantes, a pele era branca, mas não tinha uma sarda ou pinta, chegava a ser sobrenatural, os olhos eram de um azul profundo que não deixava dúvidas da bondade que tinha por além deles, o corpo continuava impressionante ainda mais agora com uma camisa social do meu pai abotoada até a clavícula e com as mangas dobradas até o cotovelo e um short curto o suficiente para dar uma visão muito mais que agradável de suas longas pernas, fazendo meu queixo cair, queria não assumir, mas meu pai era muito mais sortudo do que eu esperava.
***
Sam Winchester
— Meu pai te atropelou e você teve que segui-lo? – Perguntei depois de ouvir uma longa história da nova amiga do papai, Dean vinha babando por ela desde que ela apareceu na sala e começou a conversar.
— Basicamente – Ela respondeu colocando uma colher de cereal na boca, ocasionalmente ela olhava pra Dean e ria, assim como eu – E sobre eu estar aqui – Nessa hora ela sussurrou para mim – Ideia do seu pai.
— Você não queria vir? – Perguntei, me impressionando com a facilidade em conversar com ela.
— Imagina, você está com um cara que tem dois filhos e vem caçando o demônio que matou a sua esposa há anos e de repente ele te convida para conhecer esses filhos – Ela falou me fazendo dar toda a razão a ela – Não que eu não quisesse conhecê-los, mas é um pouco, estranho.
Sorri para ela enquanto ela ria da própria história, Dean tinha se sentado no sofá para conseguir assistir TV, ele disse, mas na verdade ele queria parar de fazer cara de idiota para a garota na minha frente, meu pai tinha saído do apartamento para atender um telefonema de um amigo do outro lado do país e ela tinha ficado conversando comigo. Percebi que ela estava mais desconfortável do que parecia e estava tentando apenas agradar meu pai, nunca me identifiquei tanto com alguém na vida.
John entrou no apartamento depois de quase meia hora, e se aproximou de Trina falando algo no seu ouvido, ela pediu licença pra mim e apenas assenti tentando me manter atento ao que eles fariam depois, meu pai a puxou para o quarto dele e fechou a porta. Sem pensar duas vezes corri atrás tentando pegar alguma parte da conversa colocando o ouvido na porta, senti os olhos de Dean sobre mim, mas contaria para ele depois.
— Não! – Trina exclamou – Não vai dar certo.
— Você estava conversando tranquilamente com Sam e Dean teve a mesma reação que eu quando te vi – Meu pai insistiu em algo.
— Você me apontou uma arma quando você me viu – Ela falou começando a ficar brava.
— É só por uns dias – Ouvi papai falar – Vai ficar tudo bem.
— Pergunte para eles, não pra mim – Trina finalizou e meu pai jogou as mãos para cima e começou a andar em direção a porta, corri o quanto pude para parecer que eu não estava ouvindo.
Quando eles saíram Trina sorriu e piscou para mim, ela sabia que eu estava lá, como eu não podia explicar mas ela sabia.
— Meninos, vou ter que viajar – John falou fazendo com que eu e Dean arqueássemos as sobrancelhas, quanto a Trina, foi se sentar no banco da cozinha – É sobre o demônio dos olhos amarelos e Trina não pode ir junto.
— Ela vai ficar aqui? – Dean perguntou com a voz falha, parecia um idiota.
— Sim, qual o problema? – Eu respondi surpreendendo a todos.
— Nenhum, mas...- Meu irmão recomeçou, mas nem terminou.
— Viu, disse que eles não se importariam – John se dirigiu a Trina e plantou um beijo na testa dela, que apenas sorriu – Eu volto logo.
Ele retornou para o quarto e nos deixou sozinhos.
— Essa semana vai ser longa – Dean falou ainda vendo os desenho da TV.
— Nem me diga – Trina comentou e eu apenas ri.
***
Katrina
John tinha partido em menos de vinte minutos, ele iria para Oregon, e eu tinha certeza que ele não voltaria antes de duas ou três semanas, nunca agradeci tanto a Bobby por ter me ensinado a dirigir, qualquer emergência, eu pelo menos poderia fugir. Fiquei do lado de fora enquanto ele ligava o carro e partia para o outro lado do país, não sabia se eu estava furiosa ou coisa pior com ele, não fazia nem um dia que eu conhecia os meninos e ele quis me deixar aqui, alegando que se Azazel me visse contaria para os demônios onde eu estava. O que era verdade.
Enquanto retornava para o apartamento olhei a janela que estava acessa na noite anterior e senti meu estômago se revirar, a sombra de um homem estava ali e ele parecia observar-me a cada movimento. Eu sentia algo estranho vindo dali, mas não pude definir o que então acelerei o passo para o quarto. Quando entrei no cômodo senti os olhos dos meninos em mim, mas não me demorei em olhar pela janela em direção ao quarto, agora não havia ninguém .
— Perdeu alguma coisa lá fora? – Dean perguntou.
Era incrível sua semelhança física com o John.
— Não, só estava curiosa – Respondi me sentando no sofá.
Ele grunhiu qualquer coisa e saiu dali, como se me odiasse, sem entender nada olhei para Sam o questionando sobre o comportamento do irmão.
— Ele é assim – Sam respondeu – Acho que ele não quer que o papai arrume mais alguém.
— Entendo – Respondi cabisbaixa.
— Não se preocupe tanto com Dean – Ele tentou me consolar – Ele é difícil igual o papai, ainda mais quando estão se conhecendo.
Sorri para ele que continuou fazendo alguma coisa aleatória na cozinha, enquanto eu me lembrei da reação de John quando eu o conheci, ele me apontou uma arma, sem piedade ou misericórdia, ele estaria disposto a atirar na minha testa se eu fizesse qualquer movimento brusco, apesar de tudo ele acreditou em mim, e agora eu estava sentada no mesmo apartamento que os filhos dele. Nunca passou pela minha cabeça que eles imaginariam, sequer por um segundo, que eu poderia estar tentando ser uma substituta para a mãe deles, mas aquilo era real para Dean.
Ficamos alguns instantes separados pelo apartamento, quando Dean saiu apressado, pegando a carteira no balcão da cozinha e acelerando para a porta, segui-o com os olhos e depois que a porta de fechou atrás dele corri o olhar para Sam que deu de ombros. Levantei um pouco apressada querendo resolver aquilo, peguei o primeiro casaco que achei e fui em direção a porta.
— Volto já – Gritei para Sam que não pareceu se importar.
Seguindo os passos de Dean fui pela porta e consegui avistá-lo de longe atravessando a rua e indo em direção a sabe-se lá onde. Fui seguindo de longe, para que ele não percebe-se minha presença e tentasse mudar de caminho,cada vez mais longe do hotel comecei a me preocupar se o perderia e como faria para voltar se acontecesse, mesmo assim continuei meu caminho. Ele andava cabisbaixo e me peguei pensando se John era assim na idade dele, reguardado e tímido, talvez enfurecido, como era até hoje. Logo o vi adentrando em um parque, apertei o passo e consegui ler em um relance, Scenic Park. Consegui vê-lo atravessando os trailers do camping e finalmente parei quando o vi andando e sentando calmo em uma ponte acima do rio que cruzava a cidade.
Fiquei parada alguns instantes analisando a situação e o quanto ela parecia estranha, ainda mais agora que minha memória estava perfeita, como um anjo, ou quase, poderia se meter em algo tão estranho e comum como conversar com os filhos de um tipo de namorado ou seja lá o que eu era de John. Revirei os olhos com o pensamento e andei em sua direção, quando me aproximei escutei uma música tocar, reconheci algo que tinha ouvido do carro de John, mas não identifiquei a música.
— Hey – Chamei-o calma.
Ele ergueu o rosto para mim e sorriu com um lado da boca, sem dizer uma palavra. Sem pedir autorização ou o que fosse me sentei ao seu lado, não muito próxima, mas o suficiente para ele conseguir me ouvir mesmo com a música. Percebi que ele me observava com o canto dos olhos, tentando não deixar isso claro.
— Então...- Comecei – Qual o seu problema comigo?
— Nenhum – Ele respondeu brusco.
— Olha, eu não entendo mesmo o que você acha que eu quero, mas antes de que você me ache uma intrusa ou sei lá o que você pensa, quero que saiba que eu gosto mesmo do seu pai e que ele nunca vai deixar a memória da sua mãe por minha causa, agora pode deixar de ser uma garotinha na TPM e conversar comigo como um homem que é o que você deveria tentar ser? – Ele pareceu impressionado, sempre tento ser o mais sincera possível e considerando que era a família de John, delicadeza não mudaria nada, nem adiantaria tentar.
Ele ficou parado pensando por alguns instantes, me encarando, e eu devolvi o olhar por algum tempo, mas devagar meu foco mudou para algo atrás dele, bem atrás. Do outro lado da ponte, um vulto estava parado ali, fiquei olhando para lá um longo tempo, mesmo quando Dean finalmente respondeu alguma coisa.
— Tá, você tá certa, estou sendo um garoto mimado – Ele falou, mesmo eu ouvindo, estava atenta ao vulto, que parecia mais próximo, por isso me levantei devagar e Dean me seguiu, desligando rádio que vinha com ele e continuando o que dizia – Acho que coisas novas me assustam, agora me diz, você é humana ou meu pai se meteu com gente do sobrenatural de novo? Vampira? Lobisomem, é possível?
— Podemos continuar isso no hotel – Perguntei o empurrando para longe da ponte, o vulto tinha deixado de ser um vulto e se aproximava me deixando ainda mais assustada.
— Ah, claro – Ele falou finalmente andando.
Saímos em direção ao lado da ponte que nos levaria de volta ao caminho do hotel, coloquei minhas mãos no bolso do casaco, e Dean continuou tentando falar comigo, mas agora eu já não estava mais atenta, virei devagar tentando identificar o homem que estava nos seguindo, agora eu já sabia que ele vinha atrás de nós. O rosto não me era conhecido, mas era apenas a casca, havia um demônio ali. Demorou para reconhecê-lo, estávamos andando em uma das trilhas do parque quando consegui e não foi algo bom.
— Alaric – Sussurrei, ele era um dos serventes de Alastair.
— O que? – Dean falou olhando para trás – Quem é este? – Percebendo finalmente que estávamos sendo seguidos.
— Um demônio, só continue andando – Falei, mas ele não pareceu satisfeito, segurei em seu braço e sussurrei – Não temos armas, não temos proteção, não temos como lutar, então continue.
— Acho que é tarde demais – Uma voz masculina, alta e grave nos informou, meu lábios se contraíram em uma linha fina e meus olhos se fecharam por um instante – Katrina, há quanto tempo...
— Alaric... – Falei colocando Dean atrás de mim, ele não pareceu gostar, mas não questionou, estava mais curioso do que com vontade de brigar – Como me achou?
— Alastair ainda tinha isso – Ele respondeu jogando uma faixa vermelha na minha frente, era parte da minha roupa – Não foi difícil para os cães chegarem até aqui.
— Cães? – Na mesma hora que me pronunciei um rosnado imergiu do nada, senti Dean se sobressaltando atrás de mim e falei a coisa mais óbvia que pude – Corre...
— O que? – Dean falou, mas ele tinha focado nos olhos vermelhos de Alaric.
— DEAN CORRE! – Gritei enquanto o segurava e corria no meio das árvores, tentando não perder o rumo para a saída.
Corremos o máximo que pudemos, mas os rosnados ainda eram frequentes, quando chegamos ao acampamento de trailers, ele parecia vazio.
— Como sabemos onde eles estão agora?! – Dean perguntou apreensivo, ele tinha retirado um canivete do bolso e parecia pronto para matá-los.
— Dê o canivete – Falei e ele ficou confuso, mas passou para mim.
Segurei a lâmina com força, e senti o sangue saindo e banhando a faca, como tinha planejado. Com isso ele poderia retardar os cães, mas não vê-los. Coloquei a mão em cima do olho direito e quando retirei senti a mudança clara na visão, estavam em volta de nós, quase seis cães do inferno, mas Alaric estava distante. Um problema a menos.
— Seu olho! – Dean exclamou – Você é o que?
— Eles estão aqui....- Falei ignorando a pergunta inoportuna.
— Os cães?! – Dean retornou o olhar para frente.
Olhei em volta, para todos os lados, a procura de uma distração.
— Me passa o cano de ferro...- Falei para Dean, os cães estavam se aproximando, a espera para o ataque.
Dean se abaixou devagar e pegou o cano a qual eu me referia, que estava ao seu lado, sem se movimentar bruscamente ele me entregou.
— Hoc simplici facta meo potentissimo telo, occidendi adjuvet omnes adversantes – Hesitei ao dizer o resto do latim, não queria jurar nada a meu pai, mas nunca me perdoaria se algo acontecesse a aquele garoto — mihi nomine Lucifer ...
— KATRINA! – Ouvi Aladric gritar, os cães vieram no mesmo instante e assim joguei o cano.
A luz forte que esperei do feitiço veio, vi Dean tapar os olhos e os cães se queimando, Aladric largado no chão, então ainda no meio da cegueira, segurei Dean e o guiei de volta para o hotel. Corremos a rua toda até o apartamento, chegando lá Sam levou um susto, Dean finalmente voltou a enxergar e eu comecei a jogar sal e água benta em tudo.
— O que é isso?! – Sam e Dean perguntaram juntos.
— A merda que eu poderia ter evitado – Falei colocando sal na porta, teria que lhe explicar tudo.
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