Um anjo e um Winchester
14 Capítulo 14 - Asas de demônio
Notas iniciais

– Crowley? – Chamei-o antes de ir até a porta.
– Sim? – Ele falou com o tom de deboche natural de sua voz.
– Por que eu tenho essa marca nas costas? – Perguntei, queria fazer essa pergunta, mesmo antes de partir.
– Só a sua mãe sabe – Ele respondeu com um sorriso insuportável – Vai perguntar a ela...
Olhei para ela e lhe mostrei um gesto obsceno com os dedos, ele apenas riu e em poucos instantes tinha sumido. Olhei em volta, agora tudo estava claro, aquele era meu espaço no inferno. Um quarto composto apenas para esconder esse mal que eu era, na verdade, meu lado demoníaco nunca tinha sequer demonstrado existir, mas por ser filha de quem eu era, os anjos temeram que eu fosse perigosa o suficiente para, sozinha, tirar a paz do mundo, no entanto, o lado angelical, transpassado pelo meu pai, também não esteve exatamente abrangente em mim, eu era mais como uma humana trancada nas grades de um espaço maldito no inferno a qual eu fui simplesmente obrigada a ficar. Tudo isso não impediu o clero angelical de me manter presa por milênios no quarto do inferno, que era como eu chamava aquele lugar.
Crowley, apesar de ser um gigantesco filho da puta, tinha se afeiçoado a mim, isso porque ele tinha um estúpido acordo com Lúcifer e ele quem acabara por tomar conta de mim, por alguma razão desconhecida ele acreditava que eu tomaria conta do inferno e deixaria que ele reinasse, enquanto eu me mantivesse no seu lugar, como Rainha das encruzilhadas ou algo assim. Sempre que ele surgia com essa ideia eu gargalhava e ele enfurecido deixava o recinto, tardiamente voltava para recomeçar suas teorias.
Fui em direção a um gigantesco guarda-roupa que tinha ali, na verdade dentro dele, a minoria eram roupas, o resto eram objetos, inúteis, que eu pegava quando escapulia para o mundo humano, ou mundo dos vivos, e roubava, como uma certeza que eu poderia sair do inferno um dia, eram de épocas diferentes, todos. Um tinha mais de 2000 anos e fora exatamente esse, um diadema de pedras raras, que eu peguei e coloquei em uma sacola qualquer que havia no armário. Junto com o diadema, peguei uma faca dos curdos e uma adaga angelical que eu roubei de Castiel há muito tempo, joguei na bolsa e a fechei. Tranquei o armário e sem hesitar fui para a porta.
Agora sem medo a abri e vi novamente o vazio, aquilo era um corredor, como um portal que me levava do céu para o inferno e me possibilitava de andar pelo inferno livremente, sem ter que passar pelas zonas de tortura. No momento, a jaula de Lúcifer era meu foco. Dei um passo em direção a escuridão e cai em um corredor de tijolos, o lugar era quente – Eu poderia dizer que era quente como o inferno, mas era na verdade o quente do inferno – e úmido, de suas paredes escorriam tipos de líquidos diferentes, desde água, á sangue e até vinho. Tudo ilusório.
Aquele era um hangar do inferno, a jaula de lúcifer, a mais profunda e protegida de todo o universo, feitiços de todos os tipo eram encravados nas pedras e dois anjos serafins ficavam de guarda na porta, eles me olharam assustadoramente e para mostrar quem eu era virei de costas e puxei levemente as costas da blusa para baixo, mostrando as asas. Eles deram passagem e me marcaram no pulso com um símbolo dourado, por medida de segurança.
Subi alguns lances de escada e em alguns andares podia ouvir gritos que gelavam a alma. Quando cheguei no último andar, meu pai sentiu minha presença e antes mesmo de eu me pronunciar ele falou comigo. Eu não podia vê-lo, apenas ouvi-lo e isso, em minha mente.
– Há quanto tempo, Katrina...- Disse Lúcifer – Como está, filha?
Respirei fundo e me aproximei da parede que nos separava, era aquilo que o mantinha sob controle, praticamente adormecido, e a única pessoa que podia se contatar normalmente com ele, era eu, seu sangue corria em minhas veias e por isso tínhamos uma ligação em comum, essa só usamos, no máximo, três vezes. Incluindo esta.
– Eu vou embora – Falei de uma vez.
Fora por causa de Lúcifer que eu ficara presa, ele insistiu aos anjos que eu era parte do reino dele, e devida a minha história, eles acreditaram e por causa desse acordo eu tinha que ficar presa ali, e o único modo de eu sair dali, era fugindo. Considerando que eu estava sem a minha benção, ou seja, sem meus poderes de anjo. Eu podia sair sem a autorização dele.
– Não te deixo partir – Ele respondeu furioso, e por ele se mover, pude ouvir o som de correntes.
– Não preciso mais de sua permissão – Respondi fria e objetivamente – Minha benção foi perdida. Não tenho mais o acordo, estou livre daqui.
– Como pode? – Ele diz ainda com a fúria em sua voz – Deixar seu próprio pai, apodrecer aqui?
– Não poderia fazer nada, mesmo se eu quisesse – Respondi – Seu castigo não cabe a mim e sim a quem o lhe castigou, eu só estou deixando de lado o injusto castigo que me deu.
– Acha que sua mãe concordará – Ele falou em tom de deboche – Ela a fará ficar aqui.
– Ela não me importa – Respondi virando as costas – Eu só vim para pedir que não tente mais se comunicar comigo, eu não voltarei.
– Vai se arrepender disso – Ele falou, e um vento gelado percorreu minha espinha, fazendo todo o meu corpo se arrepiar.
Nesse momento eu apenas segui meu caminho de volta, e quando cheguei novamente a porta, pensei na saída pelo purgatório, que era a mais simples. Logo eu me vi saindo pela árvore oca da qual a passagem tomara conta, tentando não ser vista por nenhum monstro, o que dificilmente ocorreria, e realmente eu encontrei um.
– Olha – Ele falou, era um homem com os olhos azuis e uma barba não muito escura, cabelo ralo e presas, um vampiro – Forasteiros...Carne nova.
– Só quero passar – Respondi rapidamente.
– Você tem cheiro de humano, mas não me parece muito com um.
– Sabe onde é a saída? – Insisti.
– Sei, e posso te ajudar, em troca de uma das facas que você tem – Ele falou olhando para minha bolsa.
Peguei uma adaga simples que acrescentei a minha bolsa junto a angelical e joguei para perto dele.
– Me chamo Benny – Ele se apresentou.
– Katrina – Respondi.
– Siga reto Katrina, em direção a uma árvore diferente, nela vai ter um vão negro que te levará para Chicago.
– Obrigada, Benny – Respondi – Te devo uma.
– Quando eu precisar aviso, Katrina – Ele sorriu.
***
Levei pouco tempo para chegar na árvore, ali nem precisei me mover, apenas senti-me sendo puxada pelo estranho portal a qual eu fui guiada e ainda mais rápido, pude ouvir o som de buzinas e carros pelas ruas, demorei mais para sentir as gotas das chuvas e poder observar corretamente as luzes da cidade a minha volta.
Estava frio e a chuva era mais forte do que eu pensava, completamente diferente do clima ao qual eu havia deixado Dakota do Sul, em pouco tempo senti minha roupa encharcada e por isso corri para o ponto de ônibus mais próximo dali. Um deles ia diretamente para a rodoviária, subi nesse.
– Senhor? – Chamei o motorista – Que horas são, desculpa?
– Meia-noite, moça – Ele respondeu prestando atenção no meu estado – Ande logo.
Adentrei no ônibus, quando chegou a hora de pagar procurei no bolso do meu casaco o dinheiro que tinha pego para o mercado e logo corri para o fundo em busca de um lugar. Em mais ou menos uma hora estávamos na rodoviária e o ônibus mais rápido para cidade de Bobby sairia em meia-hora, então não demorei para correr para fila, não tinha praticamente ninguém então fui atendida rapidamente.
– Uma passagem para Sioux Falls – Falei tentando ter certeza se era essa a cidade certa.
– Tem certeza? – A moça perguntou irônica, vendo minha confusão.
Respirei fundo e assenti.
– São 130 dólares – Ela falou.
Peguei todo o dinheiro do meu bolso, dava uns 145 dólares, entreguei a ela pedindo que fosse o mais rápida possível, ela entregou a passagem e o troco e eu fui em direção ao terminal, o ônibus já estava lá e parecia bem vazio.
– Passagem? – O motorista pediu. Entreguei rapidamente e observei o ônibus, quase vazio — Pode entrar – Ele falou entregando o bilhete sem um pedacinho, que ele retirara.
Adentrei no ônibus e sentei bem no fundo, ao lado da janela, sem nem perceber cai no sono, e nem senti a viagem acontecendo.
***
– Moça – Acordei sentindo alguém me balançar – Chegamos a Sioux Falls, precisa descer.
Levantei rapidamente e sorri para o rapaz em agradecimento, peguei as minhas coisas e corri para fora, eu cheguei a ver a rodoviária quando fui a cidade com Bobby, mas nem se eu quisesse eu lembraria do endereço ou do caminho. Esperando pensar melhor fui ao banheiro, lavei o rosto, meu cabelo estava completamente bagunçado em decorrência da chuva, prendi ele sem muito capricho e saí dali. Do lado de fora havia um telefone público.
–1$ ligação local, meia hora – Li nas instruções do telefone – Que crime.
Coloquei algumas moedas no telefone e disquei o número de Bobby, o que eu conhecia, o do FBI, ele atenderia como Alexander Singer. Enquanto eu esperava que ele atendesse observei a rodoviária, em uma placa onde os horários dos ônibus ficavam, estava demarcada a data.
24 de abril de 1997
10h22
– Fiquei uma semana fora – Falei colocando a mão na boca, John estaria furioso, com certeza.
– Jack Herington – Alguém falou no outro lado da linha – FBI.
A voz não era de Bobby, mas era bem reconhecível. Respirei fundo antes de falar.
– John...- A voz saiu mais frágil do que eu imaginei.
Houve um silêncio do outro lado e depois ouvi meu nome, falado tão fragilmente quanto o dele.
– Trina...
– Pode vir me buscar? – Perguntei querendo terminar aquilo logo – Estou na rodoviária na Mapple Street.
– Espere ai – E então ele desligou.
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