TRÊS ANOS DEPOIS:
Seattle, 7h30 a.m, 03/02.

Cá estava eu, me preparando para o primeiro dia de aula, na escola nova. Segundo ano do médio, deveria estar orgulhoso de mim. Se estou? Ah, claro que não.

–Tyler, vai acabar se atrasando pra aula! –grita meu pai, do andar de baixo.

–Já estou indo, pai.

Alguns minutos depois, chego à escola, no carro do meu pai. A escola era grande, e cheia de gente, não sei se vou me acostumar com isso.

–Fique tranquilo. –aconselhou-me, meu pai.

–Tudo bem.

–A partir de amanhã, você virá de ônibus. Seus amigos nunca mais vão me ver –brincou.

–Se eu conseguir algum...


Meu pai não se recuperou da morte da minha mãe, assim como eu, mas ele tenta, e pra mim isso já basta.
Entrei na sala de aula, sem o minimo de ânimo e sentei-me entre a terceira fila.
O professor logo entra, acalmando os ânimos dos alunos, e todos fazem silêncio.

–Bom dia, turma. Como foi as férias? –falou, caminhando dentro da sala –Temos um aluno novo aqui, vejamos... Venha aqui, se apresente.
Eu levantei da minha cadeira, e disse com o tom mais baixo impossível.

–Sou o Tyler. Tenho 16 anos, e vim pra cá porque meu pai arrumou um novo emprego, mais próximo daqui.

–Tudo bem, obrigada. E bem-vindo, Tyler.

Então ele começou a dar a sua aula de literatura. Me concentrei a tudo o que ele dizia porque os estudos foi o único passatempo que me sobrara.
Depois, o sinal tocou, e pronto, fomos liberados.

Após alguns minutos esperando pelo meu pai na calçada da escola, ele chega.

–Oi. Fez amigos? –perguntou, entusiasmado.

–Não, pai. Me desculpe. –falei, entrando no carro.

–Tá tudo bem, ainda tem um ano pela frente, você vai ver.

Ele tinha os olhos de esperança, ele tinha carregado isso consigo todo esse tempo, ele guardava essa fé que a minha mãe orou tanto pra que tivéssemos.
Antes de chegar em casa, meu pai passou numa lanchonete e compra Xburguers para nós.

–A Anna ficaria feliz em saber que já tem 16 anos, ela iria olhar pra o céu e pensar: "nossa, ele tem mesmo 16 anos, o tempo passou tão rápido" e ela sorriria.

–Sim, isso é exatamente o que ela diria, pai. –confirmei, finalizando o sanduíche.

Ele bagunça meu cabelo, prendendo o choro, e eu tento me manter forte.

–Está tudo bem, pai. Aonde quer que ela esteja, ela está feliz.

–Sim, ela está.

Então, ambas terminamos o sanduíche, e chegamos em casa.

CINCO ANOS ANTES:
Seattle, 18h p.m, 06/03.

Minha mãe estava fazendo biscoitos de avelã, na cozinha, era sábado e ela dançava "Can't buy me love" dos Beatles.
Meu pai tinha acabado de chegar do trabalho, e estava exausto, sentou-se na poltrona velha, e mamãe ficou fitando-o com os olhos, sorrindo e cantando junto a John Lennon no velho disco de vinil.

—Filho, vem aqui —chamou-me, minha mãe —você quer aprender a fazer os cookies de avelã mais gostoso do mundo?

—Quero! —eu gritava, levantando os braços.

—Foi a mãe do seu pai quem me ensinou, é segredo das mulheres da família, mas acho que posso abrir uma exceção para você. —disse, passando seu dedo indicador por cima do meu nariz.

E então, cantarolando para cozinha, foi ditando os ingredientes.


—Você não precisa exagerar na farinha... Pouco é o suficiente pra aqueles que sabem usar —falou ela, medindo a farinha de trigo numa xícara de chá.

—Está tomando forma! —comentei, alegre.

—Sim, está. E ficará delicioso.

—Não duvido disso —respondo, sorridente.


Minha mãe tinha um belo talento pra cozinha, e pra tudo que vierem ensina-la. Ela tinha prática, brilho nos olhos, se dava bem com todos e tudo, era bem raro ver a minha mãe de cara emburrada e coisas do tipo. Claro, uma vez ou outra, acabava acontecendo uma briga entre ela e meu pai, mas logo ela vencia seu orgulho, e ia até ele pedir desculpas.
Mamãe colocou os cookies no forno e me pegou pra dançar, colocou meus pés acima dos dela, e segurou minhas mãos, nós rodamos sorridentes, e ela não dava nem sinal de tristeza, e era assim que eu gostava de vê-la: sorrindo.