Notas iniciais
Por incrível que pareça, a Julieta está nesse capítulo. Paciência é uma virtude!

A promessa que Ernesto lhe fizera – a de que ‘tudo ficaria bem’ – perdurou por alguns meses. A chegada dos dias quentes e das tempestades de verão deram início a um período de calmaria na vida de Ema.

Apesar da saúde debilitada, Helena Cavalcante estava lúcida, bem-humorada e lia histórias de amor para a filha todas as noites após o jantar. Ema, por sua vez, retribuía as histórias cheias de paixão da mãe com lindas peças de piano clássico muito ovacionadas pelo pai e pelo avô.

O Barão de Ouro Verde também decidira passar mais tempo em casa com a família, cuidando dos negócios da fazenda em seu escritório e tomando chás da tarde com a neta, que o adorava imensamente.

Nos dias em que Helena não conseguia levantar da cama, Ema a ajudava a fazer as refeições no quarto, mantendo-se ao lado de uma mãe enferma e de um pai amoroso e dedicado. Helena fazia questão que Ema tivesse uma infância normal e a incentivava a passar as tardes mornas da estação com as amigas, mas a garota era relutante em deixar a mãe sozinha.

— Eu não estarei sozinha — Helena sorria carinhosamente ao argumentar com a filha — Eu terei sempre seu pai ao meu lado.

Todas as vezes que se deparava com aquele semblante brando na face de Aurélio em resposta às hesitações dela, Ema se sentia fortalecida para enfrentar os dias de sol ao lado de amigos alegres, entusiasmados com a vida e quase alheios aos problemas de sua mãe.

— Vá, minha filha — Aurélio dizia com um sorriso bondoso nos lábios — Você vai, eu fico.

Ema passava tardes ensolaradas protegida pela sombra das copas das árvores nos jardins, sempre na companhia de Elisabeta, Jane e Mariana. Às vezes, também na presença de Cecília e Fani, mas Cecília – ainda com 12 anos de idade – preferia ler sozinha na casa da árvore das irmãs Benedito enquanto Fani auxiliava dona Nicoletta nos serviços do lar.

Ao se reunirem, as meninas conversavam sobre festas, moda e rapazes e, junto às amigas, Ema sentia que era quase capaz de esquecer do infortúnio de sua família.

Quando os meninos decidiam variar um pouco e deixavam de ir à cachoeira, eles se uniam a elas na propriedade dos Cavalcante e Ema se conformava em apenas ouvir as conversas deles com Elisa e Mariana sobre livros de aventura pelos quais ela não tinha o menor interesse.

Até suas brigas com Ernesto diminuíram consideravelmente naquele verão. O garoto conseguira um trabalho de meio-período com o Barão na fazenda e passava menos tempo com o grupo de amigos. O avô de Ema havia se afeiçoado ao jovem Pricelli após um episódio – mortificante na opinião dela – em que Ernesto salvara o velho nobre de um acidente envolvendo uma charrete desgovernada. Rapidamente, o Barão percebeu que, além de muito esforçado e trabalhador, Ernesto era também uma companhia divertida com sua língua afiada e sua honestidade crua.

Ema sabia, é claro, que aquele não era o único motivo pelo qual as implicâncias dele se atenuaram. Ernesto, apesar de sempre fiel às próprias convicções, esforçava-se para ser um pouco mais gentil com a amiga. Desde o dia em que Ema pensou que a mãe fosse morrer, Ernesto mudou sua postura com a garota. Por um lado, ela detestava que ele sentisse pena dela, mas, ao mesmo tempo, sabia que não suportaria uma convivência de confrontos e aborrecimento naquele momento tão delicado para os Cavalcante. Ao menos para situações como aquela Ernesto tinha tato, ela precisava dar o braço a torcer.

— Elisa! — exclamou Ema de repente em um fim de tarde úmido à sombra de um jacarandá que, aos poucos, ia perdendo suas flores — Seu aniversário está se aproximando! O que vamos fazer?

Elisabeta refletiu por alguns segundos com uma expressão tranquila no rosto e deu de ombros sem se preocupar muito com a perspectiva de completar dezessete anos.

— Não precisamos fazer nada.

As duas estavam sentadas em cima de um lençol branco estendido sobre a grama seca, um pouco afastadas do resto dos amigos que riam de uma história mirabolante que Mariana lera em um livro e agora compartilhava com todos alegremente.

— Como assim não fazer nada? — Ema quase engasgou — É seu aniversário! E, diga-se de passagem, um ótimo pretexto para darmos uma festa.

— Eu sei, eu sei — Elisa suspirou — Mas meus pais não têm muito dinheiro como você bem sabe e festas geralmente são eventos muito caros e trabalhosos. Além disso, eu não me importo tanto assim com aniversários.

— Ora essa, Elisa! — Ema empertigou-se toda ao encarar a amiga — Dinheiro não é problema como você bem sabe. Podemos fazer a festa aqui mesmo na fazenda e convidar todos do Vale. Podemos convidar até mesmo quem não é morador daqui! Jorge, por exemplo...

— Ah! Jorge! — Elisabeta riu com aquele ar sabido que Ema detestava — Agora eu entendi tudo. A senhorita quer uma desculpa para ver Jorge.

Ema arregalou os olhos parecendo espantada e desconfortável como se a tivessem flagrado vestida apenas de combinação no meio da Casa de Chá de dona Agatha. Como Elisabeta podia ser tão despudorada e pensar justamente em um absurdo como aquele? Ver Jorge não era o único motivo pelo qual ela desejava promover uma festa em homenagem a sua melhor amiga. Bem, talvez esse fosse um dos motivos, mas definitivamente não o único.

— Eu ouvi direito? — a voz risonha de Edmundo ecoou pelos ouvidos dela, que nem ao menos teve tempo para notar a aproximação do amigo — Ema Cavalcante gosta de Jorge?

— Edmundo! — esbravejou Ema com a mais completa expressão de horror estampada no rosto — Fale baixo! E se te ouvem?

Edmundo não resistiu e caiu na gargalhada, muito mais pela reação indignada de Ema do que pelo fato de ela praticamente ter admitido gostar de Jorge. Mariana, Luccino e até mesmo Fani – que naquela tarde fora liberada por dona Nicoletta para se divertir com os amigos – logo se uniram a ele com risadas divertidas, mas que, no fundo, não carregavam maldade alguma. Jane – mais contida que os demais – apenas sorriu pela perplexidade no olhar de Ema.

Ernesto, porém, tinha um ponto de interrogação esculpido nas linhas de seu cenho franzido.

— A Baronesinha gosta de Jorge? O advogado? — o italiano soltou o questionamento sem sequer refletir sobre o tom de voz surpreso que escolhera usar — Mesmo ele sendo velho e tudo?

Ema lançou ao garoto um olhar cortante de reprovação.

— Ernesto, isso não é coisa que se diga — retalhou.

— Ora! — ele protestou — Mas é a verdade, não é? Jorge tem quase o dobro da sua idade.

— Ninguém manda no coração, meu caro carcamano — Edmundo pousou uma das mãos no ombro de Ernesto com um sorriso indulgente.

Elisabeta se aprumou no lugar onde estava e não conseguiu esconder uma olhadela curiosa que recaiu sobre o amigo Pricelli.

— De fato... — ela pigarreou, erguendo as sobrancelhas como se tivesse feito uma grande descoberta — De fato, italianinho. Ninguém consegue controlar por quem vai se apaixonar. Você não concorda?

— Chega! — queixou-se Ema antes que Ernesto pudesse responder Elisabeta.

A menina se levantou apressadamente de seu lugar sobre o lençol estendido na grama e começou a desamassar o vestido azul claro que usava. Estava farta daquela falação sobre seus sentimentos por Jorge. Aquilo não dizia respeito a mais ninguém e ela não queria Ernesto e Edmundo bisbilhotando sua vida amorosa.

— Vocês estão sendo intragáveis. Eu não fico aqui mais nenhum minuto sequer!

Todos sorriram para ela, pois a conheciam bem o suficiente para saber que Ema falava aquilo da boca para fora.

— Ema — Jane começou — não vá!

Ema fez uma careta tentando fingir indiferença e levantou a barra do vestido para poder caminhar para longe dali com maior tranquilidade.

— Ema! — riu-se Elisabeta.

— Não vá, Ema... — Mariana, Luccino e Edmundo fizeram coro.

Como de costume, Ema se afastou rumo à mansão, encenando uma irritação irremediável sem olhar para os amigos que ficavam para trás. Não tinha importância. Sabia que ­os veria no dia seguinte e que eles a receberiam de volta com aqueles mesmos sorrisos e ela os abraçaria e sorriria para eles também. Além disso, já estava quase na hora do chá com seu avô e a garota realmente precisava ir.

Ema apressou o passo, atravessando os jardins e os cômodos comuns da mansão até chegar à porta do escritório do Barão.

— Vovô? — ela chamou ao entrar na sala, mas ele não estava.

No lugar do avô, Ema encontrou o pai debruçado sobre a escrivaninha, absorto nos próprios pensamentos, uma caneta em punho e uma expressão séria no rosto.

— Papai? — a garota falou baixinho, tentando não o alarmar.

Aurélio ergueu a cabeça para fitar Ema e o semblante dele ficou mais leve após se deparar com a filha ali parada em meio às estantes de livros do escritório do Barão.

— Ema, é você — os ombros dele relaxaram e ele soltou a caneta que segurava em cima da mesa — Eu nem a ouvi entrar.

Ema sorriu timidamente para o pai.

— Perdoe-me. Eu deveria ter batido, mas achei que vovô estivesse aqui — ela aguardou por alguns segundos, mas Aurélio nada disse — O senhor está escrevendo uma carta?

— Sim — ele assentiu — Para sua tia Julieta.

Ema se espantou ao ouvir aquele nome quase nunca mencionado dentro da mansão Ouro Verde.

Julieta era a irmã mais velha de sua mãe de quem Ema tinha poucas recordações. Lembrava de tê-la visto durante o funeral da avó materna, mas deveria ter cinco ou seis anos de idade na época. A imagem que carregava da tia em sua memória era apenas um borrão – nunca ao menos vira fotografias dela pela casa. Se alguém a perguntasse, não saberia descrever as feições de Julieta em detalhes.

— Tia Julieta? — Ema repetiu incerta — Nem ao menos sabia que mantínhamos contato com ela.

Aurélio suspirou, levantando-se da poltrona onde o Barão costumava gerenciar os negócios da família Cavalcante.

— E não mantemos. Por escolha dela, é claro.

Ele caminhou em direção à filha e pôs as mãos gentilmente sobre os ombros delicados dela. Pela primeira vez, Ema percebeu que o pai parecia envelhecido e exausto.

— É meu dever informar Julieta sobre o estado de saúde de Helena, mas infelizmente não tenho tido sorte. Julieta não responde minhas correspondências.

Ema sentiu uma onda de calor percorrendo seu corpo.

— O quê? — bradou enraivecida — Ela está ignorando a própria irmã? Está ignorando mamãe?

— Não podemos tirar conclusões precipitadas, minha filha — Aurélio argumentou — Sua tia é uma mulher muito ocupada, mora na Europa. Ela cuida dos negócios do falecido marido, é viúva e cria um filho sozinha. Eu mesmo só a vi em três ocasiões. Não posso imaginar como é carregar tanto peso nas costas.

Ema preferiu ficar em silêncio. Sentia um misto de emoções e muitos questionamentos sobrevoavam sua mente. Mal se recordava que tinha um primo – apenas um ou dois anos mais velho que ela. Além disso, concordava que, para uma mulher, uma posição como a de Julieta deveria ser muito difícil de manter. Contudo, Ema não compreendia por que a tia nunca entrara em contato para saber notícias da irmã e da sobrinha ou até mesmo por que Ema nunca recebera uma visita do primo Camilo.

— E vovô? — perguntou Ema, abruptamente mudando de assunto.

— Precisou viajar para a capital com urgência, mas prometeu que voltaria até a hora do chá de amanhã — Aurélio sorriu carinhosamente para a filha.

— Ótimo! — Ema o retribuiu com um grande sorriso.

Aurélio acenou para ela, afastando-se novamente em direção à escrivaninha do escritório e retomando a caneta que antes fora abandonada sobre a mesa.

Ema pressentiu que talvez houvesse algo de errado e fora do comum naquela situação toda. Ela se muniu de coragem para se intrometer nos assuntos do pai.

— Papai, o senhor tem certeza que está bem?

Aurélio sorriu mais uma vez para a filha e, embora ele ainda parecesse muito cansado, Ema se convenceu de que aquele era um sorriso sincero.

— Sim, minha querida. Eu estou bem.

XXX

A terceira carta de Aurélio Cavalcante para Julieta chegou à mansão dos Bittencourt em Paris exatamente um mês depois de ter sido redigida no Vale do Café. Assim como das outras duas vezes, Julieta a leu em seu escritório com uma expressão grave no rosto e uma grande inquietação dentro do peito.

Prezada Julieta,

Venho por meio desta carta trazer-lhe notícias sobre o estado de saúde de sua irmã. Os médicos, infelizmente, não podem nos oferecer boas novas e, a cada dia que passa, Helena fica mais frágil. Não sabemos quanto tempo ainda lhe resta, mas sabemos que, neste momento, o mais importante para ela é estar ao lado dos entes queridos.

Julieta, eu agora dispo-me de todo o meu orgulho e imploro, por favor, que não ignore mais os meus apelos. Sua irmã precisa de seu apoio mais do que nunca e, embora eu saiba do seu longo período de afastamento, eu recorro aos laços sanguíneos e afetivos entre vocês duas.

A senhora tem uma linda sobrinha que gostaria muito de conhecer o único primo e, em momentos tão difíceis como esse, é bom estarmos ao lado da família para que possamos nos ajudar e nos fortalecer.

Sei que é uma mulher ocupada dividindo-se entre a criação de seu filho e a boa gestão de seus negócios, mas eu lhe peço que encontre em seu coração uma forma de apoiar sua irmã nem que seja através de uma resposta às minhas correspondências.

Faço votos de que essas palavras cheguem até você.

Esperançosamente,

Aurélio Cavalcante.

— Mãe, está tudo bem com a senhora? — a voz de Camilo ecoou pelo cômodo — Dona Julieta?

A mulher austera que sempre se vestira de preto dos pés à cabeça – ao menos nas lembranças mais antigas de Camilo – parecia estar desnorteada. Ela piscou algumas vezes, distante, até finalmente focar o rosto do filho que a encarava parado à soleira da porta.

— Camilo, faça as suas malas imediatamente. Partiremos amanhã para o Brasil.

Notas finais
Que se iniciem as tretas! L.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.