Um amor maior
67 Epilogo
Notas iniciais
Talvez esteja tudo mais fácil?!...
Fácil? Não. Está tudo mais simples.
Mais vivo, mais sereno, puro.
Mais bonito, colorido!...
Mais intenso e muito mais genuíno.
Com mais sorrisos
(POV. MAURA )
Cinco anos se passaram desde que fui operada, há poucas vezes em que falei disto durante estes anos, mas este distanciamento é apenas uma defesa, porque quando chego mais próximo as marcas vêm ao de cima, as lembranças dos dias de martírio dos tratamentos, a agonia que senti, a minha resistência aos vómitos, de vez em quando ainda tenho dias cinzentos, negros, em que parece que preciso de reviver tudo. Vou à Internet ver coisas horrorosas, isolo-me, fico deprimida, choro, convenço-me de que ainda não me livrei daquilo. Felizmente acontece-me cada vez menos. Consigo viver abstraída da ameaça que, no fundo, sei que nunca me largará.
Eu e a Jane continuamos eternamente apaixonadas, acredito que temos um amor de história encantada, nunca fui de acreditar nessa historia de “amor à primeira vista” ou “amores eternos” até conhecer a Jane, ela era uma mulher de coração partido e eu uma mulher a precisar de carinho e atenção, nunca gostamos das mesmas coisas, da mesma comida, da mesma bebida, do mesmo filme, das mesmas musicas, mas completávamo-nos de um jeito que ninguém duvidava que tínhamos tudo para dar certo.
Dizem que as mais bonitas historias de amor nascem de uma amizade verdadeira e foi exatamente o que aconteceu conosco, hoje não saberia viver sem ela e sinto ao olhar no fundo dos seus olhos que ela também não saberia viver sem mim. Hoje sei que temos um amor que não se mede, um amor que não se pede e que jamais se irá repetir.
A Brianna já tem cinco anos, como a Jane costuma dizer é uma Maura em pouco pequeno, adora vestidos, cor de rosa, sapatinhos, laços, bolsas pequeninas do seu tamanho e como a Jane falou quando ela nasceu, acredito que será uma futura médica, adora cuidar de todo mundo e gosta que lhe leiamos muitos livros, exatamente como eu na sua idade.
Desde que ela nasceu a minha vida mudou, já não me recordo de como era a sala arrumada, tomar um longo banho ou dormir algumas horas seguidas. Nem quero saber!
Não há nada melhor do que o caos provocado pelo amontoado de brinquedos que substituem os livros e DVDs que ocupavam as prateleiras baixas dos móveis da sala ou ouvir uma voz doce a dizer "mamã" quando estamos a tomar um revigorante duche.
É bom preocuparmo-nos menos com as quinhentas peças de roupa que queremos levar para as férias, as duzentas malas, maquilhagem, perfumes e de repente tornarmo-nos práticas, pois é preciso espaço no porta-bagagens para a tralha da pequena, aliás dos pequenos, o Fred será sempre pequeno para mim.
Às vezes tenho saudades da minha barriguinha, de acordar com os pontapés mais fofos do mundo, de ter resposta às minhas festinhas. Mas o que tenho agora depressa faz passar as saudades. O sorriso e a personalidade forte e doce da minha menina fazem-me gostar do presente, o curtir cada descoberta dela, cada traquinice e até as birrinhas. O meu bebé pequenino, deu lugar a uma menina linda, cheia de personalidade e vontade própria. Já sabe bem o que quer e se é contrariada não esconde como está irritada, é um misto de doçura com algum "mau feitio” e neste mau-humor puxou exatamente à Jane. A minha bebé Bri foi um presente que recebi. Tenho a certeza. Olho para ela, agora com cinco anos, e vejo que é diferente das outras crianças. É um furacão, a líder da família. Manobra tudo, faz o que quer. Cheia de vida, pespineta, desenvencilhada. Não precisa de ajuda para nada, nunca. Desde um ano e pouco de idade que sabe fazer tudo sozinha, vestir-se, comer, tomar banho, até faz as camas, a dela e do irmão, a das mamãs, só precisou de mim e da Jane para nascer.
A Brianna veio e eu ainda cá estou.
Houve uma altura em que tive medo de não poder ficar cá muito mais tempo, mas agora tenho a certeza que vou viver muitos mais anos. Os primeiros cinco anos depois da doença já os vivi.
O Fred completou agora treze anos, está um homenzinho, o homenzinho da casa, o meu homem, ele será eternamente o maior presente que a vida me deu, não nasceu de mim, do meu ventre, não foi um filho sonhado ou sequer planeado, mas a cada dia que passa faz-me sentir mais sua mãe, mais orgulho em ser sua mãe.
Foi ele quem nos escolheu para sermos suas mães e ele não sabe como isso nos deixa honradas, é o filho que toda a mãe sonha ter, é responsável, meigo, generoso, carinhoso, leal, justo, e como ele disse em pequenino, quer ser igual a Jane, detetive, quer poder ajudar as pessoas, lutar pela justiça e pela segurança de cada um de nós.
A vida o fez forte, destemido, guerreiro e eu não duvido que ele será o melhor em qualquer coisa que faça.
É o homem da minha vida!
Ser mãe muda tudo, mudou a minha vida por completo, a noção de tempo, a nossa existência. Ontem à noite, quando cheguei do departamento dei por mim a pensar como era a minha existência antes do Fred e da Brianna entrarem na nossa vida, minha e da Jane e conclui que já quase não me lembro, assim como não tenho saudades, sinto-me tão feliz, amada, realizada.
Há mudanças boas e caos que são muito, muito melhores do que o sossego, a minha vida transformou-se no caos mais perfeito que poderia querer.
A minha mama continuava mutilada. Não posso usar nada justo, porque se nota o côncavo, que ainda é pronunciado, nem camisas com decotes, que podiam revelar a cicatriz pelo decote ou por entre os botões, nem bikinis. Ainda me faz muita impressão no banho, na minha intimidade mas incomodava-me ainda mais voltar a tocar ali.
Mas mesmo assim estou muito renitente em relação a outra cirurgia.
A Jane sempre dizia: — Agora não faças mais nada... Estás linda e eu amo-te do jeito que és! Somos perfeitas uma para a outra!
Mas começou a mudar de opinião, ao perceber que o médico persistia no conselho que devia fazer a operação de reconstrução mamária, porque me iria sentir melhor comigo mesma, mais feminina e menos insegura em relação a tudo.
— Vai gostar de ver, vai sentir-se melhor — insistia ele — Vai ser importante para deixar de se lembrar tanto disso. – falava o médico.
Como se pudesse haver algum dia em que não me lembrasse ou que pudesse esquecer. No fundo sei que ele tem razão sou demasiado jovem para ficar com esta marca para sempre e como médica sei e tenho garantias suficientes que é uma cirurgia simples e que tudo correrá bem.
— Vai ficar toda satisfeita e ainda agradece eu ter andado aqui a chateá-la tanto tempo.— insistia o médico.
E com um pouco mais de discurso convenceu-me.
Ao fim de cinco anos, aqui estou eu novamente num bloco cirúrgico gelado, deitada na mesa de operações, despida por baixo de um lençol hospitalar, completamente a sentir uma vulnerabilidade aterradora.
E enquanto o frio da sala tomava conta do meu corpo, voltou-me tudo à cabeça, todos aqueles meses.
Antes de a anestesia fazer efeito olhei para cima e fixei mais uma vez aquelas luzes arrepiantes. Só que desta vez pensei, com um alívio reconfortante, que o que me levava ali não era uma luta da vida contra a morte, mas livrar-me dos últimos despojos dessa guerra, que eu havia ganho, com luta, perseverança e amor. O que seriamos nós sem amor?
Então fechei os olhos. E adormeci.
Um amor maior || Because You Loved Me – Celine Dion
For all those times you stood by me
For all the truth that you made me see
For all the joy you brought to my life
For all the wrong that you made right
For every dream you made come true
For all the love I found in you
I'll be forever thankful baby
You're the one who held me up
Never let me fall
You're the one who saw me through, through it all
You were my strength when I was weak
You were my voice when I couldn't speak
You were my eyes when I couldn't see
You saw the best there was in me
Lifted me up when I couldn't reach
You gave me faith 'cause you believed
I'm everything I am
Because you loved me
You gave me wings and made me fly
You touched my hand I could touch the sky
I lost my faith, you gave it back to me
You said no star was out of reach
You stood by me and I stood tall
I had your love I had it all
I'm grateful for each day you gave me
Maybe I don't know that much
But I know this much is true
I was blessed because I was loved by you
You were my strength when I was weak
You were my voice when I couldn't speak
You were my eyes when I couldn't see
You saw the best there was in me
Lifted me up when I couldn't reach
You gave me faith cause you believed
I'm everything I am
Because you loved me
You were always there for me
The tender wind that carried me
A light in the dark shining your love into my life
You've been my inspiration
Through the lies you were the truth
My world is a better place because of you
You were my strength when I was weak
You were my voice when I couldn't speak
You were my eyes when I couldn't see
You saw the best there was in me
Lifted me up when I couldn't reach
You gave me faith 'cause you believed
I'm everything I am
Because you loved me
“Os momentos fáceis ou difíceis não são o fim, são apenas o início”
Confia na vida
Fim
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