Um amor inesperado
6 Visita de Amora à Casa Verde
No dia seguinte ao noivado de Amora, Giane, na companhia dos vizinhos, estava colhendo as flores na praça. Eles conversaram sobre a festa. Odila disse:
— Mas é engraçado, né? Se a festa era da Amora, quê que o Fabinho tava fazendo lá?
Giane estava sem entender o motivo de Fabinho ter aparecido em São Paulo, justamente no noivado de Amora, após tantos anos sem dar notícias. O retorno dele era estranho, já que ele e Amora nunca foram próximos. Ela tinha a certeza de que ele estava tramando algo, mas não fazia ideia do quê, pois era impossível adivinhar. A única coisa que Giane sabia era que não podia esperar nada de bom de Fabinho, que se achava superior e tratava mal os pobres. Para ela, ele havia mudado para pior, tornando-se esnobe, especialmente após ter tratado ela e Bento com desprezo.
Giane acreditava que Fabinho estava se aproximando de pessoas ricas e famosas por interesse. Ele fez de tudo para ser adotado por uma família rica no passado. Giane entendia o desejo de ser adotado e de ter uma vida melhor, desde que não fosse em detrimento de outras pessoas. Se Fabinho preferia a riqueza, ela até respeitava. Ele não precisava abrir mão da ambição. O que ela não conseguia aceitar era a vergonha que ele sentia do próprio passado e a falta de consideração pelas pessoas que o ajudaram.
— Boa coisa não era, né, tia? — disse Giane. — A senhora não sabe o playboyzinho cafajeste que ele virou. Um grosso.
— Ele já infernizava a vida de todo mundo quando era criança. — comentou Silvério.
Era de conhecimento geral entre os presentes que Fabinho era uma criança difícil. Era uma criança que causava problemas, dando trabalho a Gilson e Salma. Ele era um garoto que apresentava impulsos agressivos e sua busca por atenção, muitas vezes de maneira negativa, resultava na aversão das pessoas por ele.
— É, mas agora tá pior, pai. — disse Giane. — Porque ficou riquinho, metido à besta. Tratou lá de se enturmar com aquela galerinha de Bárbara Ellen, amiguinhos da Amora. Ainda... Ainda teve a cara de pau, pai, de tratar mal o Bento e eu, as únicas pessoas que brincavam com ele aqui.
Giane não conseguia entender por que Fabinho não demonstrava nenhum pingo de carinho ou afeto pelas duas pessoas, ela e Bento, que costumavam brincar com ele na infância. Ela e Bento eram, na verdade, as únicas crianças que brincavam com Fabinho, uma vez que as outras crianças da rua e do lar de adoção não gostavam dele. A molecada não considerava Fabinho uma criança agradável. Na verdade, ele não era o tipo de garoto que conseguia despertar simpatia de imediato. Não era uma criança fácil de lidar, e por isso as outras crianças o achavam antipático. As mentiras e intrigas que Fabinho fazia só afastavam as crianças dele. Fabinho possuía um temperamento difícil, enfrentava problemas de relacionamento e, por isso, conviver com ele podia ser um desafio. Ele era encrenqueiro e passava o tempo todo aprontando. Além do mais, Fabinho e Bento eram rivais desde pequenos, e a maioria das crianças acabava tomando partido de Bento. Bento era o líder adorado por todos.
Do ponto de vista de Giane, não havia justificativa alguma para a maneira como Fabinho os tratou, tanto a ela quanto a Bento. Durante a infância, Bento se esforçou várias vezes para ser gentil com Fabinho, apesar das diferenças entre eles. Ele sempre agia com bondade e paciência, convidando Fabinho para as brincadeiras e jamais o excluindo. Essa atitude de Bento era significativa, pois conviver com Fabinho era muito difícil para ele. A relação entre Bento e Fabinho era marcada por personalidades distintas, rivalidade e competição, mas, apesar de tudo, Bento nunca o tratou mal. Bento agia como conciliador, pois as outras crianças não gostavam da companhia de Fabinho e era apenas por causa de Bento que elas toleravam Fabinho nas brincadeiras. Bento tentara ter uma relação amigável com Fabinho, embora tivesse falhado. Várias vezes, Bento tentara se aproximar de Fabinho. Em troca de sua consideração, Bento recebeu apenas desprezo. Giane pensava que Fabinho insistia em ver Bento como rival.
No entanto, Giane era uma das poucas crianças que brincavam com ele, mais por compaixão e bondade do que por qualquer outra razão, pois ela via a solidão de Fabinho. Ela o fazia também por lealdade a Bento. Se Bento tentava incluir Fabinho, ela o apoiava. Se Bento tentava ser compreensivo e procurava não guardar rancor de Fabinho, apesar de Fabinho agredi-lo e fazer intrigas contra ele, ela seguia o exemplo de Bento. Ela nunca nutriu por Fabinho um carinho especial e profundo ou uma admiração como a que sentia por Bento. Longe disso. Mas ela não o tratava mal nem o excluía, sempre foi generosa e correta. Contudo, na festa de noivado de Amora, Fabinho deixou bem evidente seu desprezo por ela.
Para Giane era inaceitável a ingratidão e falta de reconhecimento de Fabinho, agindo como se nunca tivesse precisado da atenção, da bondade e da gentileza dela. Não que ela alguma vez tivesse sentido muita falta dele. Para ela, Fabinho era uma lembrança distante. Era uma criança entre tantas com quem ela jogava bola, mas que se destacava por ser um garoto difícil e problemático. Ela não esperava adoração, grande demonstração de afeto da parte de Fabinho, mas um mínimo de decência, de consideração por um passado que, para ela, merecia respeito.
— Ô, também nunca achei que esse Fabinho fosse coisa boa, viu? — disse Odila.
Odila nunca gostou do garoto, tendo uma verdadeira aversão por ele e o considerando um menino de má índole. O fato de Fabinho nunca ter dado notícias para Gilson e Salma depois que foi adotado, e de ter maltratado o Bento e a Giane, que o tratavam com bondade, tolerância, paciência e jamais o excluíram, só intensificava a visão negativa que Odila tinha dele.
— Ele e a Amora, viu? — disse Giane, carregando uma cesta cheia de flores. — Só subir um pouquinho na vida para acharem que são melhores que a gente.
Enquanto colocava as flores na cesta de sua bicicleta, Giane pensava que Amora e Fabinho haviam se tornado dois esnobes, metidos à besta e que se comportavam como filhinhos-de-papai mimados. Além disso, eles desprezavam os pobres e valorizavam mais o dinheiro e o status do que os laços afetivos. As pessoas que os criaram não tinham valor para eles. Diferentemente de Amora e Fabinho, os outros órfãos continuavam a manter contato com Gilson e Salma depois de serem adotados, ligando, enviando e-mails ou aparecendo em datas especiais, como o aniversário deles. Amora e Fabinho não escreviam, não ligavam nem haviam deixado telefone e endereço para contato. Para Giane, Amora e Fabinho eram ingratos e não tinham consideração por ninguém. Na opinião dela, Amora e Fabinho tinham obrigação moral de mandar notícias.
— Quem tem boa índole é boa pessoa. Rico ou pobre. — disse Silvério. Ele não desejava que sua filha pensasse que todas as pessoas ricas eram metidas ou más. Havia pessoas boas e de bom caráter entre os ricos, assim como também existia gente ruim entre os pobres. Conforme seu entendimento, não se podia julgar alguém com base em sua classe social.
— Precisava ver, pai, precisava ver. — disse Giane, ajeitando as flores.
— Chegou lá com papinho de que sentiu saudade da Amora. Ah... Porque do tio Gilson ele não sente saudade não, né? Bando de metido à besta! Mas eu aposto. Eu aposto como Amora e Fabinho nunca mais põem os pés nessa rua. Vamos ver.
— Gente, gente. — disse Nestor, aproximando-se. — Vocês não imaginam quem está lá na casa do Gilson.
— Quem, coisa? — perguntou Odila.
— A Amora. — disse Nestor.
Giane ficou surpresa e não conseguia acreditar que Amora estava ali. Ela jamais imaginou que Amora, que se tornou uma pessoa ingrata, fosse querer visitar os pobres, já que nunca se importou com eles antes.
— O quê? — disse a garota, surpresa.
Giane se questionava o que Amora teria ido fazer ali. Será que era para esnobar o pessoal? Ou para fingir ser uma pessoa de bom coração para a mídia, mostrando ao Brasil que ela visitava os moradores humildes da Casa Verde? Naquele momento, Giane pensou que não seria surpresa se a jornalista Sueli Pedrosa aparecesse novamente, atrás de Amora. Giane acreditava que Amora adorava aparecer e fazia de tudo para continuar em evidência, então, se ela tivesse chamado a imprensa, não a surpreenderia. Giane achava estranho Amora visitar Gilson e Salma depois de tanto tempo sem dar as caras, pois, na sua opinião, Amora nunca dava ponto sem nó e vivia em função da mídia. Para Giane, a única coisa que importava para Amora era sua imagem, fama e dinheiro, nada mais.
No início, quando se tornou uma celebridade, Amora era vista com admiração e carinho na Casa Verde. Os moradores do bairro sentiam orgulho dela, pois era uma menina da comunidade que havia alcançado o estrelato. Muitos a admiravam por ter conquistado uma vida de fama e luxo. No entanto, o tempo passava e Amora nunca vinha visitar as pessoas que cuidaram dela. Ela não ligava nem escrevia. Amora se tornou cada vez mais fascinada pela vida de celebridade e começou a desprezar suas origens. Uma prova disso era a forma como ela mal olhava na cara de Renata quando se cruzavam. Essas atitudes de Amora acabaram gerando ressentimento e desconfiança entre o pessoal.
— Ah, não acredito nisso. Você tá cego. Você não enxerga direito. É isso. — disse Odila, seguindo Nestor ao lado de Silvério.
— Mas então vamos lá. Ô burra empacada! Vamos lá! — replicou Nestor.
— Burra empacada não, hein? — reclamou Odila.
— Vamos lá! — disse Nestor.
Giane desceu a rua, seguindo Odila, Nestor e Silvério. Ela mal podia acreditar que Amora realmente estava ali na rua. De repente, um motoqueiro subiu a rua em alta velocidade e parou na frente de Giane. A garota se assustou com a falta de cuidado dele, pensando que ele poderia acabar atropelando alguém. Giane considerava que esses motoqueiros eram imprudentes. Ela disse:
— Ei, cara! Tá maluco? É assim que você passa na rua? Pirou?
Só viu quem era quando o moço tirou o capacete. Era Fabinho.
— Cadê a Amora? — perguntou o rapaz. Nem a cumprimentou. Mal olhou para ela.
— Fabinho?! — surpreendeu-se a garota. Nunca lhe tinha ocorrido que Fabinho voltaria a pisar na Casa Verde, pois agora ele preferia estar apenas entre os ricos e sentia vergonha de suas origens.
— Vamos, moleque, fala, cadê a Amora? — perguntou Fabinho, impaciente.
Parecia que Fabinho fora até ali para encontrar Amora. Ele estava planejando algo, disso Giane tinha certeza. Ela sabia que Fabinho não tinha ido fazer uma simples visita a Gilson e Salma, nem estava interessado em falar com ela. Giane percebeu que Fabinho não a cumprimentou, nem quis saber como ela estava, pois só queria saber da Amora. Além de tudo, ele foi rude com ela.
— Eu sei lá onde está a Amora. — disse Giane, e deu de ombros. Não facilitaria as coisas para ele. — Quem disse que ela tá aqui?
— O carro dela ali. — disse ele, apontando para o carro do outro lado da rua.
Giane deu uma olhada atrás de si, e disse:
— Uia! Já sabe até o carro dela. Tá fazendo bem o serviço, hein?
— “Fazendo bem o serviço”. Cadê a Amora? — explodiu Fabinho.
Na visão de Giane, Fabinho era um cavalo mesmo. Até para pedir uma simples informação, ele era rude e não havia necessidade de ter sido tão estúpido com ela.
— O nome Gilson Rabelo te diz alguma coisa? Ou você já esqueceu?
Fabinho foi até a casa de Gilson, e Giane foi logo atrás. Chegou quando Fabinho estava abraçando Gilson:
— .... Tá inteirão, tá jovem. — disse Fabinho, sorrindo.
Giane foi ao lado de Bento. Na sala estavam Amora, Gilson, Salma, Nestor e Odila.
— Opa! Hum! Tudo bem, Amora? — Giane cumprimentou, sarcástica.
— Oi, Giane! — disse Amora, mexendo em seu celular.
Amora não tolerava a presença de Giane, mas não podia demonstrar isso diante das outras pessoas, pois a julgariam como uma pessoa sem coração. O motivo era que Giane, assim como todos naquele lugar, a fazia se lembrar da sua infância nas ruas, descalça. E se ela revelasse a verdadeira razão pela qual ignorava Giane, pensariam que ela era louca.
Giane pensava que Amora era hipócrita, fingindo ser uma boa pessoa. Quando Bento estava por perto, Amora a cumprimentava, mas assim que ele se virava de costas, Amora a desdenhava, agindo como se não a conhecesse.
— Quê que foi, Fabinho, você também resolveu fazer uma surpresa pra gente? — perguntou Bento.
Bento também não entendia o que Fabinho tinha vindo fazer ali. Fabinho nunca se importou com as pessoas que o criaram; se ele se importasse, teria feito visitas ou mandado notícias. Por isso, Bento achou estranho Fabinho aparecer depois de tanto tempo, e justo quando Amora viera fazer uma visita. Ele se perguntava se Fabinho estava atrás de Amora. Como ele sabia que Amora estava ali? Será que a estava seguindo? Bento torcia para que Fabinho não voltasse a importuná-lo nem a Amora, como fazia quando eram crianças. Ele jamais imaginou que um dia Fabinho voltaria a pôr os pés na Casa Verde.
— Ué Bento, não te falei que eu queria matar a saudade do passado? Ontem na casa da Amora, e hoje no bairro do meu coração. — disse Fabinho. Dirigiu-se à Amora. — Aliás, Amora, estranho, eu senti que você ia estar aqui também.
Giane refletiu sobre a dissimulação de Fabinho e de Amora. Para ela era evidente que nenhum dos dois sentia nostalgia ou saudade do passado.
Amora também não entendia o que Fabinho estava fazendo ali. Ela já havia percebido que, desde que foi adotado, ele nunca mais tinha retornado àquela rua, o que não a surpreendia. Para ela era evidente que, após ser adotado por uma família rica, Fabinho faria de tudo para apagar a infância que teve, já que ele, assim como ela, sentia vergonha de suas origens humildes.
Amora não gostou de ver Fabinho ali e sentiu uma sensação desagradável com a sua presença. Primeiro ele apareceu, sem ser convidado, na sua festa de noivado. Agora, ele tinha resolvido aparecer na Casa Verde, justamente no mesmo dia e horário em que ela foi visitar Bento. Amora se perguntava o que ele pretendia, afinal. Ele não poderia ter ido fazer uma simples visita a Gilson e Salma, certo? Será que ele estava atrás dela? Como ele sabia que ela estava ali? O que Fabinho queria com ela? Amora sentia que estava sendo perseguida e esperava que ele não a incomodasse, nem a Bento.
— É! Que beleza! De repente, todo mundo resolveu ficar com saudade dos pobres, né não? — disse Giane, rindo, irônica. Deu um tapinha em Bento. — Deve ser por isso, né, que eles vivem mandando notícia.
Giane não aceitava que Amora e Fabinho não demonstrassem gratidão por Gilson e Salma, nem por mais ninguém daquela rua. Ela nutria uma grande afeição por Salma e Gilson, considerando-os quase como seus pais. Como o pai de Giane trabalhava fora, era comum que ela ficasse sob a vigilância dos vizinhos. Gilson e Salma participaram da criação dela, a viram nascer e crescer. Eles eram pessoas de bom caráter, dignas e honradas, sempre demonstrando grande carinho e afeto. Giane sabia que Gilson e Salma sempre cuidaram muito bem dos órfãos, com amor e dedicação, e faziam tudo o que estava ao seu alcance. Eles tratavam todas as crianças da mesma forma, como se fossem seus próprios filhos. A casa deles era um lugar acolhedor, e eles se sentiam responsáveis por cada criança que passava por lá, preocupando-se com o destino de cada uma.
O casal sempre esperava receber notícias das crianças após a adoção, pois queriam saber se elas estavam sendo bem cuidadas e tratadas por suas novas famílias. Ao longo dos anos, Gilson e Salma ficaram esperando por notícias de Fabinho. Seria complicado para eles visitarem todos os órfãos que passaram por seu lar, já que eram muitas crianças e muitas acabavam se mudando para longe. Eles esperavam que, pelo menos, os órfãos dessem notícias de tempos em tempos, sem que fosse necessário visitá-los. Muitos dos órfãos mantinham contato com eles. No entanto, Fabinho se mudou para o interior e nunca mais deu notícias, não telefonou, não escreveu, e agiu como se Gilson e Salma nunca tivessem existido.
Se Fabinho tivesse passado sua infância em vários abrigos diferentes, ficando pouco tempo em cada um, Giane até entenderia, mas esse não era o caso. Fabinho viveu na casa de Gilson a infância inteira, desde recém-nascido, até ser adotado. Para Giane era incompreensível como Fabinho poderia não ter consideração por aqueles que o criaram, educaram, alimentaram e abrigaram por tantos anos. Na visão de Giane, a ingratidão era uma falha de caráter gravíssima, e ela não via nada mais abominável do que esquecer ou desvalorizar quem havia ajudado. Ela acreditava que Fabinho havia sido muito bem cuidado e tratado, e que o que Salma e Gilson fizeram por ele não era pouca coisa. Lidar com Fabinho era um desafio, mas eles foram pacientes, agiram com bondade, tolerância e afeto. Giane pensava que outras pessoas, no lugar deles, já teriam mandado Fabinho para outro lugar. Se não fosse por eles, nem vivo Fabinho estaria.
Na opinião de Giane, Gilson e Salma não tratavam Fabinho diferente dos outros. Para ela, o casal jamais trataria mal uma criança ou seria injusto. Se Fabinho recebia broncas ou críticas, era por ter feito por merecer. As reprimendas que ele recebia era uma consequência natural do comportamento problemático dele. Os adultos apenas faziam o papel deles, que era o de educar, de corrigir sempre que necessário.
Ela podia até entender que a relação de Fabinho com o casal era distante, e que Fabinho era rejeitado pela maioria das crianças do lar e da vizinhança. Mas ainda assim, para Giane, não justificava Fabinho querer apagar o passado. Ela não entendia como Fabinho podia não querer visitar o lugar onde foi criado, onde passou a infância toda.
No ponto de vista de Giane, Amora também não demonstrava gratidão por Gilson e Salma, que a acolheram em um dos momentos mais difíceis de sua vida, tirando-a das ruas. Além disso, Giane achava curioso que Amora não quisesse visitar o lugar onde conheceu Bento, que ela tanto dizia amar, e onde as pessoas a tratavam tão bem. Ao contrário de Fabinho, Amora não era rejeitada por ninguém. A visão que as pessoas tinham de Amora na infância, em geral, era positiva e ela era querida por todos.
Giane conseguia compreender que a vida em um lar não era um conto de fadas e que, sem dúvida, devia ser muito difícil não ter uma família. Mesmo assim, ela acreditava que Amora e Fabinho deveriam ter demonstrado mais consideração pelas pessoas que cuidaram deles e que sempre os trataram com bondade.
— Mas é muito bom ver vocês de novo reunidos nessa casa. — disse Salma, contente, referindo-se a Amora e Fabinho. — Não é Gilson?
— Tá decidido. — disse Gilson, abraçado a Fabinho, contente. — Fabinho vai almoçar com a gente também, a gente vai botar a vida em dia. Quero saber de você.
— É, tá tudo certo. Família que me adotou é ótima. Gente fina, educada. Tudo certo. — disse Fabinho.
— E ô Salma, olha como ele tá bonitão, tá elegante. — Odila elogiou Fabinho. — E essa jaqueta nos trinques, hein?
— Gostou? Essa jaqueta aqui é de Milão, comprei em Milão, sapato também, bonito, né? — disse Fabinho, exibindo a jaqueta e os sapatos que usava.
— Milão? — disse Salma, impressionada.
— Tinha que ir pra Milão. Milão. — disse Fabinho. Dirigiu-se a Bento. — Você gosta de flor, Bento? Milão, o que não falta é flor.
Um pouco mais tarde, quando o almoço ficou pronto, quase todos se serviram, exceto Amora e Giane. Socorro também estava presente na sala, ao lado de Amora. Socorro e Amora, no entanto, apenas bebiam um suco.
— Hummm. Eu adoro picadinho! — gritou Nestor.
— Receita do caderninho da Salma. — disse Gilson.
Fabinho estava sentado no sofá, ao lado de Odila e Nestor.
— Tem que vender essa receita. — disse Fabinho. — Isso aqui é uma maravilha. Vai ficar rica, tia!
— Posso perguntar uma coisa? Quem é que vai servir a nossa cocotinha? — perguntou Nestor.
Nestor, Odila e Fabinho riram. Giane pegou uma tigela de linguiça calabresa com cebola e ofereceu à Amora:
— Vai uma linguicinha aí, Amora?
— Oi, desculpa, eu não como embutidos. — disse Amora, empurrando a tigela.
Amora não desejava comer a comida de Salma. Considerava-a uma refeição que engordava. Acostumada a pratos mais sofisticados, não apreciava picadinho e se recusava terminantemente a comer linguiça. Ela se orgulhava de sua silhueta esguia e não suportava a ideia de adquirir estrias ou celulite. Além disso, necessitava manter o controle sobre o seu peso, pois, caso engordasse, perderia trabalhos. Para justificar a recusa, inventou uma desculpa, afirmando que estava seguindo a dieta da luz.
Giane tinha certeza de que Amora recusaria. Ela jamais comeria o que considerava “comida de pobre". É certo que ela não desejava engordar, dada a sua vaidade e o orgulho que tinha de seu corpo esguio.
— Ah! Você não vai fazer essa desfeita, né? — insistiu Giane.
Socorro não podia deixar de defender o ídolo dela:
— Ô Giane, você não sabe que a Amora tá fazendo a dieta da luz não? Não insiste. Eu, hein! — disse Socorro, tomando a tigela de linguiça da mão de Giane e afastando-se.
— Há! — disse Giane, afastando-se de Amora.
Nesse instante, Fabinho conduziu Amora para fora. Eles permaneceram lá por alguns minutos, conversando. Pouco tempo depois, Amora já estava indo embora. Gilson, Salma, Odila, Nestor, Silvério, Socorro, Giane, Bento, Fabinho, todos a acompanharam até o carro.
— Ah, jura que você tem que ir, filha? — lamentava-se Salma. — Agora o almoço já está servido.
Amora estava com fome, mas não comeria a comida de Salma de jeito nenhum. A comida de Salma, inclusive, trazia à tona as lembranças da pior fase de sua vida. Além disso, ela estava realmente atrasada e precisava ir para o estúdio. Comeria algo leve mais tarde.
— Ai, eu adoraria, tia, mas eu estou muito atrasada para um trabalho e tem várias pessoas me esperando, mas eu adorei rever vocês. — disse Amora. — Eu vou ser eternamente grata por tudo que vocês fizeram por mim.
Exceto pelo fato de as pessoas daquele lugar pertencerem a um passado que ela lutava dia e noite para esquecer, e pelo fato de serem, em sua visão, de nível inferior, Amora não tinha nada contra os moradores da Casa Verde. Mas também não tinha nada a favor. Ela até reconhecia que aquelas pessoas a tinham acolhido no momento mais difícil de sua vida. A Casa Verde havia sido o primeiro lugar onde ela teve momentos felizes. Ao chegar ali na rua, ela se emocionou ao relembrar tudo o que havia vivido ao lado de Bento e outras crianças. Sentia-se sempre feliz quando estava perto de Bento, e isso não mudou com o passar dos anos. Ela tinha ótimas lembranças. No entanto, ao contrário de Bento, ela não tinha apego a Gilson e Salma, nem à vizinhança. A única exceção era Bento.
Ela morou pouco tempo no lar e, enquanto esteve lá, evitou se apegar ao lugar e às pessoas, pois não pretendia ficar muito tempo. Além de não suportar permanecer naquele local, ela queria encontrar a irmã. Na época, pensava que sua irmã Simone havia ido tentar a sorte em outro lugar e que voltaria para buscá-la. Na rua, mendigando, elas não teriam futuro. Simone era sua única família depois da morte da mãe, pois não tinham parentes, apenas uma à outra. No começo, logo que chegou ao lar, Amora ainda tinha esperança de encontrar a irmã. Mas, com o tempo, percebeu que Simone havia ido embora, sumido no mundo e nunca mais a procurou.
Ao chegar ao lar, ela conheceu Bento e rapidamente se afeiçoou a ele. Eles se tornaram amigos. Como não tinha mais ninguém e se sentia solitária, acabou se apoiando no afeto de Bento. Ao lado dele, ela se sentia segura. Apesar de ter sido bem cuidada por Gilson e Salma, ela não se sentia bem ali. Não que as pessoas a tivessem tratado mal em algum momento; a questão não era essa. Ela nunca sofreu rejeição, pelo contrário, ela tinha feito amizades com outras crianças e era tratada com carinho por todos os moradores da Casa Verde. O problema era que o lar de Gilson a fazia lembrar constantemente de que passara a infância inteira na rua. Por isso ela tinha sentimentos ambivalentes pelo local e pelas pessoas. Ela não gostava de se recordar de como chegara ao lar. Este era um dos motivos pelos quais desejou ser adotada. Ainda era difícil para ela estar ali, e não era somente porque considerava aquelas pessoas de um nível inferior ao seu. Ela tinha horror àquele lugar e àquelas pessoas, pois lhe despertavam lembranças indesejáveis. Bastava olhar para aquelas pessoas para a lembrança da época em que era menina de rua, quando chegou ali, vir à tona. Ela se via novamente desnutrida, esfarrapada, usando as sandálias enormes da irmã. Quanto menos fosse ali, melhor.
Apesar de tudo, foi bom reencontrar Bento, e ela não queria mais perdê-lo de vista. Ela e Bento podiam combinar de se encontrar em qualquer outro lugar, que não fosse a Casa Verde.
— Não precisa agradecer nada, basta você dar notícia de vez em quando que está de bom tamanho. — disse Gilson.
— Eu dou, tio. Pode deixar. — disse Amora, abraçando Gilson e Salma. — Tchau! Tchau!
— Volta, hein! — disse Salma.
— Tchau seu Nestor, seu Silvério, dona Otília. — disse Amora.
Nestor e Silvério acenaram para ela.
Amora chegou a errar o nome da vizinha. Ela se recusava a pronunciar o nome de Odila, agindo como se fosse outra pessoa e até mesmo usando um nome semelhante. Fazia de tudo para escapar do passado, comportando-se como se ele e as pessoas que dele faziam parte não existissem. Assim, as pessoas daquele lugar se tornavam tão insignificantes para ela que nem fazia questão de dizer o nome correto. Ela acreditava que, se não desse importância para as pessoas e fingisse que o passado não existia, a dor seria menor.
— Odila! — disse Odila.
— Liga não, liga não, tia, liga não. É que ela deve ter muita coisa na cabeça, entendeu? — disse Giane, sarcástica, e Silvério cutucou em seu ombro. A filha tinha de parar de implicância com Amora.
— Espero que um dia possamos ser amigas, Jane. — disse Amora, disfarçando o horror que sentia.
Amora jamais se tornaria amiga daquela "mocoronga". Não tinha o menor interesse em se aproximar de Giane, a quem era insuportável olhar. Sentia dor e mal-estar ao encará-la, preferindo fingir que ela não existia. Por isso, fazia questão de chamá-la de "Jane", não apenas como um mecanismo de defesa, mas também para provocá-la.
— Mal posso esperar. — disse Giane, irônica, e grunhiu.
— Ai, Amora, eu nunca vou esquecer esse dia. — disse Socorro, emocionada, dando um abraço em Amora.
— Obrigada pelo carinho, Socorro! — disse Amora.
Na opinião de Amora, Socorro era uma pessoa irritante e deveria se afastar dela. Ela não gostava que nem Socorro, nem qualquer outra pessoa dali, a tocasse, com a única exceção sendo Bento. Isso porque, ao lado dele, ela se sentia protegida.
— Tchau, cocotinha! Juízo. A gente se vê. — Fabinho despediu-se. Amora olhou feio para ele.
Giane notou que Fabinho dirigiu a palavra apenas a Amora. Ele não se despediu dela e nem de Bento. O fato de Fabinho continuar a ignorá-los completamente a deixava magoada e indignada com a ingratidão. Não era tristeza por uma amizade perdida, até porque não eram exatamente amigos nem tinham afinidades, tampouco intimidade um com o outro, e sim pela falta de consideração e de gratidão de Fabinho pelas pessoas. Giane viu, então, Bento se despedir de Amora e convidá-la para a sua festa de aniversário. Amora prometeu que iria.
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