Um amor inesperado

55 Tudo em família


À noite, Giane foi até o Cantaí, e encontrou Fabinho vestido de garçom. Era o primeiro dia de trabalho dele. Achou que ele ficava lindo vestido de garçom. Aos olhos dela, ele estava sempre lindo. Aproximou-se e abraçou-o por trás.

— Sabia que você é o garçom mais gato do Cantaí? — perguntou a garota.

— Tô sabendo. — disse Fabinho, e Giane abraçou-o e beijou-lhe o pescoço. — Inclusive, isso aqui vai bombar quando a garotada da zona sul... — beijou-a nos lábios. — Ficar sabendo que eu tô aqui. Vai sair mulher brotando do chão, pá! — levantou e desceu os braços.

— Você é metido! — disse Giane.

— Por isso que você gosta. — disse Fabinho, e beijou-a.

Giane tinha de reconhecer que ele estava certo. Ela adorava as ironias, os deboches dele, o senso de humor, o atrevimento, a ousadia. Até o fato de ser metido.

— Ei, ei, ei! — disse Gilson, e Fabinho virou-se. — Amor é a coisa mais linda do mundo, mas é horário de trabalho. Vamos trabalhar sem B.O., tá? Que eu dei um duro enorme pra conseguir esse trabalho pra você, não vai me decepcionar.

— Tá bom, pode deixar. Vou lá. — disse Fabinho, pegando a caderneta.

— Vai lá. — disse Giane.

Giane ficou no balcão, observando-o trabalhar. Fabinho aproximou-se de Verônica e Nelson, que acabaram de entrar no Cantaí.

— Opa, boa noite! Tudo bem? — cumprimentou Fabinho.

Verônica ficou surpresa ao vê-lo.

— Fabinho, você aqui no Cantaí? — perguntou Verônica, surpresa.

— Tudo bom? Queiram me acompanhar, por favor. — disse Fabinho, apontando para uma das mesas desocupadas. — Essa mesinha aqui, pode ser?

Nelson e Verônica o acompanharam até a mesa.

— Olha, a gente tá com novidade no cardápio, hein? Rissole! São incríveis! Minha mãe é quem faz. — disse Fabinho.

— A dona Margot? — perguntou Verônica.

— É. — disse Fabinho.

— Olha, então, eu acho que a gente vai provar esses rissoles da dona Margot. — disse Verônica, sentando-se à mesa.

— Maravilha! Combinado. — disse Fabinho.

— E dois chopinhos. — disse Nelson, sentando-se à mesa.

— Dois chopinhos. — disse Fabinho, anotando o pedido.

Giane observava tudo, impressionada.

— Não é que o malandro é bom? — comentou a garota, com orgulho, mastigando um petisco. Gilson continuava no balcão.

Gilson já sabia que Giane estava namorando Fabinho. Bento havia contado. Gilson achou que devia conversar com ela sobre o namoro. Ele resolveu dar uma chance a Fabinho, mas esperava não se arrepender. Fabinho podia estar se esforçando para melhorar, mas sempre foi um rapaz problemático, desde pequeno. Era desajustado, encrenqueiro desde sempre. O rapaz não parava em um emprego, estava sempre metido em alguma confusão. Giane devia pensar melhor se valia a pena namorar o Fabinho. Que futuro ela esperava ter ao lado dele? Giane era como uma filha para Gilson, e ele se preocupava com ela.

— Giane, longe de mim me meter na sua vida, mas esse seu lance com o Fabinho... — disse Gilson.

— Ai, tio! — disse Giane. Podia imaginar o que Gilson iria dizer. As pessoas ali na rua não viam com bons olhos seu namoro com Fabinho.

— Tem certeza? — perguntou Gilson.

— O senhor também? — disse Giane.

Giane podia até entender que as pessoas estivessem de pé atrás com Fabinho. Ela até entendia a preocupação dos amigos. Mas deviam confiar nela. Deviam confiar pelo menos na inteligência dela. Se ela se apaixonou por Fabinho, era porque viu qualidades nele. Ele tinha um lado bom. Ele podia ter seus defeitos. Era grosso, explosivo, marrento, arrogante. Mas sabia ser gentil, amoroso. Ele a tratava bem, não era abusivo. Além do mais, ela sabia o que estava fazendo. Era adulta, não era trouxa e sabia avaliar o caráter de alguém. Sempre teve um bom faro para sacar quem prestava ou não, e a intuição lhe dizia que Fabinho não era tão ruim. Sua intuição não costumava falhar. Fabinho agora era uma pessoa melhor. No ponto de vista de Giane, ele era só um garoto mimado, egoísta, que havia infelizmente se deixado dominar pela inveja, pela revolta e pelo rancor. Ele errou sim. Foi cruel. Era uma pessoa detestável. Fez muita besteira, passou por cima de qualquer escrúpulo, magoou as pessoas. Ela não esqueceu nada do que Fabinho fez, nem concordava com as coisas que ele fazia antes. Na opinião dela, sofrimento nenhum dava o direito de destruir as pessoas, sobretudo pessoas que não tinham culpa, como o Bento ou Gilson e Salma, que tinham feito tudo o que podiam por Fabinho. Mas ele já havia sido punido pela vida, pagou um preço alto por tudo o que fez, além disso, ele estava virando gente. Ele se arrependeu. Reconheceu seus erros. Não sentia mais inveja do Bento. Pelo menos, parou de perseguir o Bento. Ele estava se esforçando para mudar, deixou as maldades para trás. As pessoas deviam deixar a desconfiança de lado, se desarmarem e darem um crédito a ele. Havia no mundo pessoas muito piores que Fabinho, que cometeram crimes bem mais graves, e a vizinhança agia como se ela estivesse namorando um serial killer. Até quando encheriam o saco?

Muitos achavam que Fabinho era um marginal, um bandido. Mas na opinião de Giane, ele era muito mais do que isso. As pessoas não o conheciam direito. Não sabiam quem era a pessoa por trás do bandido. Agora ela sabia que nem mesmo ela conhecia Fabinho o suficiente. Ele a surpreendia a cada dia. Ela admirava o esforço dele para mudar.

Fabinho foi até o balcão, onde estavam Gilson e Giane.

— Tio, dois chopes e uma porção de rissoles da dona Margot. — disse Fabinho, colocando a caderneta sobre o balcão.

— Tá. — disse Gilson.

O celular dele começou a tocar.

— Quem será? — perguntou Gilson.

Fabinho fez um carinho no rosto de Giane. Gilson tirou o celular do bolso e atendeu.

— Oi? Fala, Bento. Hã. A Irene sumiu? Tá, não. A gente fica em contato. Tá bom, tá bom. — disse Gilson, e desligou o celular.

— Como assim, a Irene sumiu? — perguntou Fabinho.

— É, parece que ela teve uma briga feia com a Bárbara, sumiu. Tá todo mundo louco atrás dela. Inclusive, o Bento. — disse Gilson, e afastou-se.

— Caramba. — disse Fabinho, abalado.

— Fabinho, que cara é essa? O quê que foi? — perguntou Giane.

— A Irene sofre de depressão crônica. E se a história se repetir? E se ela some com o filho do Plínio na barriga por causa da Bárbara, de novo?

Todos estavam sabendo que Irene estava grávida novamente.

— Não, não. Não pira. Vai que não é nada. Vai que... — disse Giane.

— Eu vou atrás... Eu vou atrás da Irene. — disse Fabinho, tirando o avental.

— Fabinho, você vai perder seu emprego! — disse Giane.

— Você fala pro... Pro... Pro Gilson que eu volto depois. Te ligo, tá? — disse Fabinho, saindo do Cantaí.

Giane não estava gostando nada disso. Aonde Fabinho foi? Ele não tinha como saber onde estava Irene. O que havia passado pela cabeça dele? Será que Fabinho imaginou onde Irene poderia estar?

Nem bem Fabinho saiu, Gilson voltou com os pedidos.

— Cadê o Fabinho? — perguntou Gilson.

— Ele foi atrás da Irene, tio. — disse Giane.

— Maldita hora que eu empreguei esse menino. — disse Gilson.

Giane e Gilson ficaram esperando por Fabinho. Ele estava demorando. Giane tentou ligar no celular de Fabinho.

— Droga, Fabinho! — disse Giane, ao celular, batendo a mão no balcão. — Não atende. Caixa postal, tio.

— Quando ele atender, você avisa ele que hoje foi o primeiro e o último dia dele aqui. — disse Gilson, furioso. Era impressionante como o garoto sempre dava um jeito de se queimar com quem o ajudava.

Giane digitou novamente o número do celular de Fabinho.

— Pô, Fabinho! Você também não dá uma dentro!

Tentou várias vezes ligar no celular de Fabinho, porém, ele não atendia. Resolveu ir embora. Acabou indo com o pai jantar na casa da Margot. Giane contou que Fabinho havia acabado de ser demitido.

— O Fabinho foi demitido? — perguntou Margot, tirando os pratos da mesa. Haviam acabado de comer.

— Quem mandou? Quem mandou ir atrás da Irene? — disse Giane.

— Mas por quê que ele fez isso? Ele sabia onde ela estava? — disse Silvério, levando os pratos para a pia.

— Não. Disse que teve um estalo de onde ela poderia estar. Sei lá. — disse Giane, e suspirou. — Cara doido! Onde que eu fui amarrar meu burro?

— Ué, como assim? Não vai dizer que vocês estão... — disse Silvério.

Ele notou que a filha estava diferente nos últimos dias. Mas Giane não havia falado nada para ele. Achava que ela e Fabinho eram apenas amigos. Giane era reservada, nunca foi de contar tudo para ele. Se bem que ele havia notado um clima entre Fabinho e Giane. Havia alguma coisa no ar, mas ele achava que era apenas impressão.

— É. É. A gente... A gente tá namorando aí. — disse Giane, sem jeito.

Margot e Silvério riram. Silvério abraçou Margot.

— Bom, sendo assim, né? — disse Silvério. Ele e Margot riram. — Fica tudo em família.

Giane surpreendeu-se. Como assim tudo em família? O que o pai quis dizer com isso? Será que Silvério e Margot estavam namorando?

— Vocês... Vocês dois estão... — disse Giane, apontando para eles.

Silvério deu um beijo no rosto da Margot, que ria.

— É sério isso? — perguntou Giane.

Então o pai estava namorando Margot. Bem que ela havia desconfiado de que estava rolando um clima entre o pai e a Margot. Ficou feliz por ele. O pai estava sozinho há muitos anos, desde que ficou viúvo. Merecia ter uma companheira. E Margot era um amor de pessoa.

Silvério balançou a cabeça positivamente e disse:

— Uhum.

— É, isso se você e o Fabinho não se importarem, né? — disse Margot.

— É. — disse Silvério.

— Ah, deixa comigo! Se o fraldinha encrencar, eu dou um jeito nele. — disse Giane.

Silvério e Margot riram.

— Mas você vê. Olha aí! — disse Giane, feliz.

Fabinho logo voltou para casa. Assim que chegou, sentou-se no sofá. Giane sentou-se ao lado dele.

— E aí, você encontrou a Irene? — perguntou Giane, colocando a mão sobre a perna dele.

— Encontrei. Ela tava na ala psiquiátrica do HC. — disse Fabinho.

— E como é que você soube que ela ia estar lá? — perguntou Margot.

— A primeira vez que ela pirou, ela foi levada pra lá, né? — disse Fabi-

nho. — Não sei. Me pareceu meio óbvio que se ela surtasse de novo, ela ia procurar um lugar que ela sabia que ela ia ter ajuda, né? Que nem eu vim parar aqui nessa rua quando tava quase morrendo.

— É, mas você não sabia disso, né? Você foi na intuição. — disse Giane. — Que louca essa sua ligação com a Irene, né? Mesmo você não sendo filho dela. — colocou a mão sobre o ombro dele.

— É. — disse Fabinho.

— Isso é coisa de gente que se ama muito. Pode ter certeza. — disse Margot, sentada no sofá, na frente do filho.

— Aliás, falando nisso. — disse Giane, dando uns tapinhas no joelho de Fabinho. — Adivinha quem tá junto?

Silvério, que estava perto da Margot, colocou as mãos nos ombros dela. Dona Margot segurou uma das mãos dele.

— Eu e o Silvério. A gente tá namorando. — disse Margot, rindo.

— É. — disse Silvério, rindo. — É. Mas pode ficar tranquilo que as minhas intenções são as melhores possíveis.

— Como assim? — perguntou Fabinho, levantando-se do sofá.

— Como assim, o quê? — perguntou Silvério.

— Não tô entendendo. — disse Fabinho.

— O quê? — disse Silvério.

— Não tô entendendo. — disse Fabinho, aproximando-se de Silvério.

— O que foi? O quê que tem? — disse Silvério, estranhando a reação do rapaz.

— Você é meu sogro ou meu padrasto? — disse Fabinho, brincalhão, mexendo com Silvério.

Silvério e Margot riram. Fabinho também riu. Ouviram-se batidas na porta.

— Dona Margot, hein? Ó, ó! O quê que é isso? Abalando a Casa Verde! — disse Fabinho, indo abrir a porta. — Vamos ver quem nos atrapalha.

Abriu a porta e viu que era Simone.

— Oi, Simone. — disse Fabinho.

— Dá licença. Fábio, eu queria falar com você. — disse Simone.

Simone resolveu pedir para Fabinho deixar Amora em paz. Além do mais, não custava nada ouvir o que ele teria a dizer. André contou que Fabinho havia ameaçado Amora. Simone foi até à casa da irmã e conversou com ela, para saber o que havia de fato acontecido. Amora lhe disse que Fabinho fazia tortura psicológica com ela, que a perseguia, a ameaçava, tudo escondido. Que até um blog para difamá-la ele fez. Amora também disse que Fabinho tacou fogo na Toca do Saci e fez a cabeça da Malu contra ela. Fabinho conseguiu convencer Malu de que não foi ele, e sim Amora. Simone disse que Amora devia falar com Bento sobre isso, mas Amora disse que Malu era invejosa, que sempre teve inveja dela a vida toda e que iria dizer que ela estava mentindo, iria fazer a cabeça do Bento contra ela. Amora disse também que Malu havia até inventado uma fundação ridícula para colar no Bento. Amora reclamou que tinha um monte de gente tentando destruí-la. Simone decidiu ter uma conversa séria com Fabinho.

— Entra. — disse Fabinho, e Simone entrou. Parecia nervosa.

— Você veio fazer o que aqui? — perguntou Fabinho, fechando a porta. — Defender a sua irmã? Porque se é isso, você pode...

Giane se perguntou o que havia acontecido entre Fabinho e Amora, para Simone ter vindo até ali falar com ele.

— Não, não, não, não, olha só, eu não vim brigar, não. — disse Simone, interrompendo. — Eu vim aqui em missão de paz. A minha irmã me contou do longo histórico de desentendimentos...

— Desentendimentos, não! — disse Fabinho, interrompendo. — A sua irmã é uma criminosa.

— Calma, Fabinho, calma! — pediu Margot.

— Não! Calma, não! — disse Fabinho. — Ela precisa saber quem é a irmã dela. Claro! Ela chegou agora, tá achando que a irmãzinha dela é uma coitada injustiçada. Não. A sua irmã é um capeta!

Giane morria de pena da Simone. Era uma ótima pessoa, um doce. Mas a verdade precisava ser dita. Ela precisava saber que a irmã dela não prestava. Fabinho não era santo, mas a Amora armava, mentia e depois fazia carinha de santa. Simone não sabia com quem estava lidando.

— É. Se você não sabe, é melhor você saber logo. — disse Giane para Simone. — A Amora é um monstro.

— Monstro? Desculpa, mas até onde eu sei, o bandido dessa história aqui é você. — disse Simone para Fabinho. No ponto de vista dela, o mau-caráter era Fabinho. Era ele que perseguia sua irmã. Ela sabia que Amora não era santa. Amora a tratou mal quando ela chegou à Casa Verde. Amora fingiu fazer as pazes com ela só para impressionar o Bento, ofereceu dinheiro para ela sumir com os filhos, fez ameaças e tudo. Mas Simone entendia o que levou Amora a agir desta maneira. Amora estava magoada e com muita raiva. Não era para menos, pois Amora foi abandonada nas ruas, aos nove anos de idade. Era compreensível que Amora não quisesse vê-la nem pintada. Ela fazia Amora lembrar de coisas ruins. Ao olhar para ela, Amora revivia tudo o que havia passado nas ruas. Simone acreditava que foi seu abandono que fez de Amora uma garota dissimulada, mentirosa, rancorosa, cruel. Mas Amora não era uma pessoa ruim. Ela e Amora estavam se entendendo. Aos poucos, Amora estava voltando a ser aquela garota doce, carinhosa e parceira. Estava voltando a ser a sua Mayara. Fabinho não sabia do que estava falando.

Do ponto de vista de Giane, Simone era uma tonta. Simone se sentia culpada ainda por ter abandonado Amora quando ela tinha nove anos de idade. Simone achava que Amora era uma coitada. Para Simone, a Amora ainda era aquela menininha meiga. Mas aquela garotinha que Simone amava não existia mais. Amora se transformou em um monstro. Amora havia ameaçado a irmã, os sobrinhos. O que mais Amora precisaria fazer para Simone se tocar de que a irmã não valia nada? Era impressionante o que a culpa fazia com uma pessoa. Simone era outra que não enxergava um palmo na frente do nariz. Além do Bento, claro.

— Não, minha querida, eu não sou bandido, não. — disse Fabinho, furioso. — Eu realmente fiz um blog pra difamar a sua irmã. Mas pra se vingar ela... Ela me botou na cadeia, ela me fez perder o meu emprego e ela me acusou de ter incendiado um projeto social. — usou os dedos para contar tudo o que Amora aprontou para incriminá-lo.

— Em vez de falar com a gente, fala com a Malu. A irmã dela. — disse Giane.

— Do jeito que vocês falam, parece que a Amora é uma bandida, criminosa... — disse Simone, nervosa, chateada.

— Não parece, ela é uma bandida! — disse Fabinho. — E ela faz exatamente isso! Ela usa as pessoas pra conseguir o que ela quer.

— Olha só, Simone, fica com os dois pés bem atrás nessa sua relação com ela. — disse Giane. — Pro seu bem e pro bem dos seus filhos.

Amora já fez maldades com a irmã e os sobrinhos. Quem podia garantir que não faria de novo, que não iria prejudicá-los? Assim pensava Giane.

— Não, eu quero entender direito por que vocês têm tanta raiva da Amora? — perguntou Simone, nervosa.

— Como é que você não entende? Como é que você não entende? — perguntou Fabinho, furioso.

— Ela não é essa pessoa que vocês estão pensando. — disse Simone.

— A Amora é uma... — disse Fabinho.

Simone desmaiou, e Fabinho segurou-a, antes que caísse no chão.

— Simone, Simone? — disse Silvério.

— O que é isso, gente? — disse Fabinho, colocando-a sobre o sofá.

Giane foi até a casa de Bento. Precisava contar a ele que Simone havia passado mal. Bateu na porta.

— Quem é? — perguntou Bento.

— Bento, é a Giane. — disse Giane.

— Entra, Giane. — disse Bento.

— Nossa! Isso é hora de bater na casa dos outros? — reclamou Amora.

— Ei! — disse Bento, repreendendo-a.

— Bento, olha só. — disse Giane, assim que entrou. — A irmã da Amora baixou lá na casa do Fabinho, passou mal e desmaiou. Tá lá.

— Minha irmã? O que vocês fizeram com ela? — disse Amora, levan-tando-se do sofá, nervosa, e saiu correndo na frente.

— Fizemos nada com ela. — disse Giane.

Amora, Bento e Giane foram até a casa de Fabinho. Simone já estava acordada. Já estava se sentindo melhor.

— A minha pressão caiu. Foi só isso. Desculpa. — disse Simone.

— Eu vou buscar um pouco de sal. — disse Silvério.

— Não, não. Não precisa, não, já tô bem. — disse Simone. — Amora, me leva pra casa?

— Vamos. Lógico. — disse Amora, ajudando a irmã a se levantar. Dirigiu-se a Fabinho. — Você nunca mais se meta com a minha família.

Amora não acreditava na mudança de Fabinho. Para ela, Fabinho continuava sendo um canalha, um mau-caráter que havia aprontado muito, fez mal a ela e ao Bento. Não queria Fabinho se metendo com sua família. No ponto de vista de Amora, se Fabinho fez mal a ela, era bem capaz de fazer mal à Simone, ao André e à Mayara. Além do mais, Fabinho perseguia Bento desde criança. Amora imaginou que Simone veio defendê-la, tirar satisfações com Fabinho, e ele disse um monte de coisas que não podia provar. Claro que ele tentaria se safar das acusações que pesavam contra ele. No ponto de vista de Amora, Simone passou mal por culpa de Fabinho.

Giane revirou os olhos. Não adiantava Amora fazer ceninha, nem ameaçar o Fabinho, que ela não acreditava. Amora podia enganar o Bento, podia enganar a Simone, mas a ela, Giane, Amora não enganava. Estava na cara que Amora estava era fingindo estar morrendo de preocupação com a irmã, querendo se fazer de boazinha, para impressionar o Bento.

Amora e Simone aproximaram-se de Bento.

— Eu vou passar a noite com a Simone, tá bom? — disse Amora para Bento.

— Tá bom. — disse Bento.

Bento esperou Amora e Simone irem embora para perguntar:

— O que a Simone veio fazer aqui?

Bento ainda não sabia o que Simone estava fazendo ali, na casa do Fabinho. Certamente, ela não veio fazer uma visita de cortesia ao marginal. Para ela ter vindo ali, só podia ter um motivo: Amora. O que será que Fabinho andou aprontando, para ter deixado Simone tão preocupada?

— Ela veio pedir pra eu nunca mais me meter com a sua mulherzinha. — disse Fabinho, irônico.

— Ah, então, você assume que estava rondando a Amora? — perguntou Bento.

— Não, não. Eu assumo que a sua mulher tá tentando me ferrar. E não só a mim. — disse Fabinho. — Então, você se prepara, Bento. Porque vem bomba por aí.

Fabinho sentou-se no sofá. Mas era óbvio que Bento não acreditou nele.

— Impressionante, hein, Giane? Como você caiu no papo desse cara. — disse Bento, levantando o polegar, antes de ir embora.

Para Giane era impressionante como Bento caía sempre no papo da Amora. Mesmo depois de tudo o que Amora fez, depois de a víbora ter mentido tanto, Bento ainda acreditava nela e dava novas chances para ela. Amora aprontava, depois se fazia de vítima e Bento caía como um patinho. Com a história da gravidez, Bento estava comendo na mão da Amora novamente. Já estava achando que Amora estava mudando. Bento era muito otário mesmo. Ainda tinha aquela fantasia de que Amora voltaria a ser a garotinha meiga que ele conheceu na infância. Mas Fabinho ainda devia explicações. Por que Simone tinha vindo atrás de Fabinho para tirar satisfações? O que havia acontecido entre ele e Amora? Assim que Bento foi embora, Giane sentou-se no sofá, ao lado de Fabinho.

— Agora, você vai me falar, Fabinho, o quê que você fez pra Amora que deixou a Simone tão assustada? — perguntou Giane.

Fabinho contou que discutiu com Amora. Amora ainda fez cena, como se ele estivesse ameaçando-a. Com certeza, Amora se vitimizou para a irmã. Mentiu, distorceu a história. Por isso Simone veio tirar satisfações. Fabinho também falou que discutiu com Amora por causa da história da sabotagem no bufê. Todos suspeitavam de que alguém havia sabotado os brinquedos do bufê do Wilson, mas ninguém sabia quem era. Não havia câmeras de segurança no bufê. O sistema de segurança foi desativado porque Wilson pretendia trocar. Assim, não havia como saber quem havia entrado no bufê na calada da noite para mexer nos brinquedos. Agora, Fabinho suspeitava que Amora podia ter sabotado os brinquedos do bufê de Wilson, ou mandado alguém fazer o serviço e pretendia comprar o parque dele por um preço mais baixo. Para Fabinho, estava na cara que Amora quis se vingar de Wilson, pois foi Wilson quem contou para o Bento que ela estava maltratando Simone. Além do mais, Wilson expulsou o Bento do parque quando ele era criança, soltou os cachorros em Amora quando soube que ela ia estrelar a campanha do Kim Park. Amora tinha ódio do Wilson e queria dar o troco por tudo o que ele fez com ela e Bento.

— Quer dizer que a Amora sabotou o bufê do Wilson? — perguntou Giane.

— Isso é uma acusação muito grave, meu filho. — disse Margot, que estava por perto e ouvira a conversa. — De onde é que você tirou isso?

— A presidente do fã-clube dela que acusou. — disse Fabinho. — Eu ouvi uma conversa das duas.

— Mas a Socorro não é confiável. Ela não bate bem das ideias. — disse Giane.

Giane não confiava em Amora, nem gostava dela, mas se perguntava se Amora chegaria ao ponto de botar a vida de um monte de gente em risco só para se vingar do Wilson. Amora cruzaria esta linha? Ela botou o Bento em risco para posar de heroína. Mas a intenção da Amora era forjar um ato de heroísmo, prejudicar a Malu e de quebra incriminar o Fabinho. Ela não teve a intenção de matar o Bento ou machucá-lo, embora ela tenha assumido o risco. Uma coisa era bancar a salvadora, outra coisa era machucar de propósito um monte de gente inocente, que não tinha nada a ver com a história, só para prejudicar um homem que odiava. Se Amora foi capaz de uma coisa dessas, ela ultrapassou todos os limites.

— Mas a obsessão dela pela Amora, pode ter virado ódio. — disse Silvério.

— Não, não foi a impressão que eu tive, não. — disse Fabinho. — Eu tenho certeza. Tem dedo da Amora nesse lance do bufê.

— É. Você tendo certeza ou não, não se mete nessa história, Fabinho. — disse Giane. — Vai acabar sobrando pra você. Do jeito que a Amora é, é capaz de ela inverter as coisas e botar a culpa em você. Fica longe da Amora.

Giane já entendeu qual era o jogo da Amora. Amora mentia, intrigava, fazia teatro para todo mundo achar que Fabinho era o vilão e ela a coitada que estava sendo perseguida. Toda vez que Fabinho se aproximava de Amora, ela fazia ceninha para as pessoas acharem que ele estava ameaçando-a. Amora estava fazendo de tudo para prejudicar Fabinho, e para fazer as pessoas ficarem com pena dela. Giane não sabia o que Amora pretendia com isso, mas era óbvio que ela estava armando. Achava melhor Fabinho ficar bem longe de Amora, do contrário, ela iria acabar prejudicando-o. Era bem capaz de botar a culpa nele pela sabotagem no bufê.

— A Giane tem razão. — disse Margot. — Você já não tinha decidido manter distância da Amora? Então?

— Olha só, Fabinho. É isso, ou acabou entre a gente. — disse Giane.

— É. Vocês estão certos. — disse Fabinho, sentando-se ao lado de

Giane. — Vou ficar longe dessa história. — deu um beijo no rosto de Giane.

— É isso aí, filho. — disse Margot.