Um amor inesperado
52 Tragédia no bufê
Giane não conseguiu mais tirar da cabeça o beijo que deu em Fabinho. Passou horas lembrando do beijo, até adormecer. No dia seguinte, cedo, foi colher as flores da rua, como sempre fazia. Foi quando alguém se aproximou e tapou seus olhos com as mãos. Giane achou que era Fabinho.
— Fabinho, para, que eu tô trabalhando! — disse Giane, sorrindo, tirando as mãos e olhando para trás.
Viu que era Caio, que não gostou de ser confundido com Fabinho.
— Fabinho? Por que você achou que era o Fabinho? Você tá com ele?
— Hã? Você tá maluco? De onde você tirou isso? — perguntou Giane.
No ponto de vista de Caio, Giane estava muito distraída, muito pensativa. Se ela o confundiu com Fabinho, era porque estava pensando nele.
— Ué, por quê que você achou que era ele, assim chegando em você como eu cheguei? Cheio de carinho, de intimidade? — perguntou Caio.
— Ué, você chegou assim, em mim e a gente nem tem nada. E nem vamos ter mais! — disse Giane, procurando fugir do assunto.
Giane percebeu que não conseguia tirar Fabinho da cabeça, e deu muita bandeira. Agora tinha de aturar o Caio. E ela não estava a fim de aturar mais uma crise de ciúme. Também fazia questão de deixar bem claro para o Caio que não tinha volta, que era para ele não ter esperanças. Ela estava apaixonada por Fabinho, e não dava para voltar atrás nisso.
— Giane, a gente tem uma história. Eu gosto de você, você sabe disso! — disse Caio.
Lá vinha o Caio com aquele papo de novo. Giane já estava sem paciência. Quando é que Caio iria entender que não havia mais nada entre eles? Se havia algo rolando entre ela e Fabinho, não era da conta do Caio. Já passou da hora de o Caio superar o fim do namoro e seguir em frente.
— Ai, Caio, não força! Eu sou sua amiga e só, tá? — disse Giane, irritada.
Caio ficou chateado. Era óbvio que tinha acontecido algo entre Giane e Fabinho. Ele cantou esta pedra fazia tempo. Desde o início, notou o interesse de Giane em Fabinho. Embora ele não entendesse o que Giane viu em Fabinho. Fabinho vivia esculachando-a. O problema era que Fabinho não prestava. Caio tentou alertá-la, também tentou afastar os dois, mas de nada adiantou. Tentou voltar com Giane, mas ela agora só o dispensava. E de nada adiantaria argumentar com Giane. Ela estava caidinha pelo bandido, e não havia nada que ele pudesse fazer. Já tinha feito tudo o que estava ao seu alcance. Não brigaria com ela, pois isso só a afastaria dele. Caio não queria perder a amizade de Giane. Mas achava que um dia Giane cairia em si. Ela iria se dar conta de que Fabinho não prestava. Pensando bem, era até bom que ela ficasse com Fabinho. Só assim para ela desencantar. Quem sabe assim ela aprendesse a dar valor para ele, Caio. Porque ele sim foi bom para ela. Ele elevou a autoestima dela, a ajudou a seguir em frente. Foi graças a ele que ela conseguiu trabalhos como modelo, e foi ele quem a ensinou a fotografar.
— Algum problema aí, Giane? — perguntou Fabinho, que chegou e viu Caio e Giane discutindo.
Como se não bastasse aturar Caio, Giane precisava rever Fabinho. Só de vê-lo, o coração batia mais forte. O problema é que ela não sabia como
encará-lo, depois de ter se atirado nos braços dele na noite anterior. Morria de vergonha.
— Não, a gente tá conversando. Dá licença? — disse Giane.
— Quem vai dar licença pro casalzinho agora sou eu, então. — disse Caio, irritado, e apontou para Fabinho. — É bom você ficar com esse cafajeste aí, Giane! Quem sabe, assim, você aprende a dar valor a quem presta?
— Do que ele tá falando? — perguntou Fabinho, sem entender nada.
— E eu lá sei? Mais um pirado na minha vida! — disse Giane, fugindo do assunto. — Agora, dá licença que eu tô trabalhando.
— Não, Giane. Eu só vou embora depois que a gente conversar sobre ontem.
— Não tem nada pra gente conversar. — disse Giane.
— Tem sim, Giane, você me beijou, você esqueceu?
Giane ficou morrendo de vergonha. Não queria tocar no assunto.
— Larga do meu pé, que eu tô trabalhando. — disse Giane.
— Giane, eu só quero saber o porquê. Por quê que você me beijou?
A garota não sabia o que dizer. Não se sentia à vontade para dizer o que realmente estava sentindo. Mas também, ele precisava mesmo perguntar? Não era óbvio? Um beijo como aquele, que significado ele achava que tinha? O que ele queria, que ela se declarasse? Nem pensar! Arrumou logo uma desculpa:
— Porque eu fiquei com pena de você! Satisfeito?
Fabinho ficou em silêncio. Giane viu que ele ficou magoado. O rapaz afastou-se, sem dizer nada. Nem deu ouvidos quando ela disse:
— Fabinho, peraí! Eu... Eu não queria... Droga!
Continuou colhendo as flores por toda a rua. Esperou um pouco, deu um tempo, até que resolveu ir atrás de Fabinho. Precisava falar com ele, se desculpar. Foi até a praça, ver se o encontrava lá. Porém, viu que Érico havia ido atrás dele. Fabinho estava carregando duas sacolas. Certamente, ele fez compras na padaria. Chegou perto, e ouviu Érico dizer, apontando o dedo para Fabinho:
— Olha aqui, você para de mentir e me escuta. Se você aprontar alguma coisa pra Amora, não vai ser o Bento que vai acertar as contas com você não, viu? Sou eu.
Giane ficou furiosa. O que havia dado no Érico? Primeiro ele acusava o Fabinho sem provas, o demitia, agora vinha ameaçá-lo? Que o Bento defendesse a mulher dele, tudo bem, ela até entendia, mas por que o Érico resolveu defender Amora? Depois que Érico sofreu o acidente, ele não estava batendo bem da cabeça. E parecia que havia resolvido pegar no pé do Fabinho. Érico estava sendo muito injusto.
— Érico. — disse Giane, e Érico, que estava de costas para ela, virou-se. — Você não vai ameaçar o Fabinho, muito menos por causa da Amora, cara. Senão, eu tô fora das campanhas da sua agência. Entendeu?
— Tudo bem, tudo bem. Você vai ficar defendendo o bandidinho aqui agora, é isso? — perguntou Érico, apontando para Fabinho.
Érico foi até ali tirar satisfações com Fabinho porque Amora disse que Fabinho andou ameaçando-a. Érico não conseguia entender o que deu na Giane para ficar defendendo Fabinho, depois de tudo o que ele aprontou. Mas ela cismou que Amora provocou o incêndio da Toca. Na opinião de Érico, Giane acusava Amora por birra.
— Bandida é a Amora, cara. Se você não tivesse tão doido da sua cabeça, você não tinha demitido o Fabinho nem tomado as dores daquela cobra.
— Então, tá. Fica dando mole pra esse marginal, pra ver o quê que vai te acontecer. — disse Érico. Afinal, ele deu uma chance para Fabinho. Havia acreditado que Fabinho estava mudando para melhor, por isso ofereceu o emprego na Crash Mídia. Mas alguém entregou a campanha da Tratore para o Natan. E na opinião de Érico, só podia ser o Fabinho. Fabinho era puxa-saco do Natan. E também, o histórico de Fabinho não ajudava. Por causa do Fabinho, a imagem da agência foi queimada. Fabinho tinha o péssimo hábito de prejudicar quem o ajudava. Depois do que ocorreu na Crash Mídia, Érico deixou de acreditar na mudança de Fabinho. Achava que Fabinho não mudou nada, e que podia ter sido mesmo o Fabinho quem provocou o incêndio na Toca do Saci. Sem falar que ele andou ameaçando Amora. No ponto de vista de Érico, Amora não tinha por que inventar que Fabinho estava ameaçando-a.
No ponto de vista de Giane, Érico era um idiota. Ela não era trouxa, e nada iria acontecer com ela. Trouxa era ele. Pelo visto, Amora inventou alguma mentira sobre o Fabinho e o Érico caiu como um patinho. Amora não dava ponto sem nó, e não era a primeira vez que Amora armava contra Fabinho. Além do mais, o Érico mudou após o acidente. Ele havia se transformado em um babaca, e em vez de ficar mais esperto, ficou mais burro.
— Érico, eu não sou um marginal e eu também não te traí. — defendeu-se Fabinho. — Você tem que ficar de olho na Júlia, porque ela tá saindo com o Edu. Antes de você ter me demitido, na noite anterior, eu vi os dois juntos.
Júlia era uma das publicitárias da Crash Mídia, e Edu trabalhava para a Class Mídia, a empresa concorrente, que pertencia a Natan Vasquez, pai de Maurício. No ponto de vista de Érico, era mais provável que tenha sido o Fabinho, que era um vigarista e certamente entregou a campanha em troca de alguma quantia em dinheiro. Júlia era uma tonta, mas não era pilantra. Não dava para achar que a Júlia entregou a campanha, só porque ela estava saindo com Edu. Fabinho não era de confiança.
— Você até pode enganar a Giane. Só que a mim, você não engana não, tá bom? — disse Érico, e subiu as escadas, passando por ele. — Tô de olho em você, hein, moleque?
Assim que Érico foi embora, Fabinho aproximou-se de Giane.
— Valeu por ter me defendido. — disse Fabinho.
— O que é justo, é justo. — disse Giane.
— Ah, é? Pensei que você tivesse com pena de mim que nem no dia que você me beijou. — provocou Fabinho.
Giane irritou-se. Será que agora ele iria ficar só falando nesse beijo?
— Eu não tenho pena de você, não. Às vezes eu tenho é muita raiva.
— disse Giane, irritada, subindo as escadas. Foi direto para a loja.
Trabalhou na Acácia Amarela o dia todo. Mas não conseguia parar de pensar em Fabinho. Se preocupava muito com ele. À noite, ligou para Irene e pediu para que ela viesse dar uma força para ele. Irene prometeu que iria. Afinal, Fabinho estava passando por um momento difícil e estava precisando de apoio. Bem que Giane gostaria de ir até a casa dele, ver como ele estava. Mas não sabia como olhar para ele. Ficava sem jeito. Não saiba direito como agir, nem o que falar. Era difícil lidar com sentimentos. Só sabia que o sentimento era muito forte. Então ficou em casa. Porém, não conseguia tirar da cabeça o beijo que trocaram. Ficou na sala, sonhando acordada, encostando os dedos na boca. Encostou-se na grade da janela, e sorriu, lembrando-se do beijo, se derretendo de paixão.
No dia seguinte, Giane pegou a câmera fotográfica e foi tirar fotos das flores e dos vizinhos, que começaram a colher as flores, como sempre faziam.
— Bom dia! — disse Renata, cumprimentando Bento, que estava colhendo as flores junto com Nestor e Odila.
— Oi, Rê, bom dia! — disse Bento, abraçando-a e lhe dando um beijo no rosto. Entregou as flores para ela. — Ó, um bom dia de trabalho pra você.
— Ah, querido, vai ser! Adorei! — disse Renata.
— Tchau! — disse Bento.
— Tchau! — disse Renata, e dirigiu-se a Nestor.
— Tchau, pai! — Tchau, tchau! — disse Nestor, lidando com as flores.
Silvério e Margot passaram por ali.
— Tudo bem? — Silvério cumprimentou Bento.
— Margot, pra você ter um dia lindo! — disse Bento, entregando um arranjo de flores para Margot, que adorou.
— Vai ser lindo! — disse Margot, encantada.
— Elas combinam com você. — disse Silvério. Margot riu.
— Bom dia, Nestor. — disse Silvério.
— Olá, como vai Silvério? Bom dia, Margot. — disse Nestor.
Margot e Silvério saíram andando, e viram Odila.
— Oi, Odila, bom dia. — disse Silvério.
— Bom dia, tudo bem? — disse Odila, sorridente.
Brenda, esposa de Perácio, apareceu por ali. Nestor a cumprimentou e ofereceu uma rosa. Brenda perguntou pelo filho. Nestor disse que Xande estava morando na casa dele, no quartinho dos fundos. Rosemere apareceu, e quis saber o que Brenda fez de tão terrível para Xande querer se afastar dela. Discutiram. Xande passou por ali. Brenda quis levá-lo, mas Xande se recusou a ir com ela. Giane tirou fotos de Odila, depois passou por Bento, Gilson e Salma, que estavam conversando sobre Simone, que estava doente e havia sido internada em um hospital. Haviam acabado de descobrir que Simone tinha leucemia. Bento agradeceu a Gilson e Salma por cuidarem das crianças.
— A gente está nessa vida pra quê? Pra ajudar uns aos outros, né? — disse Salma, fazendo um carinho no rosto de Bento. Para ela, Bento continuava sendo um filho do coração, mesmo não sendo seu sobrinho.
— Nunca imaginei que a Amora fosse se dedicar à irmã desse jeito. — disse Gilson. Afinal, Amora passou a noite ao lado da irmã, e isso o surpreendeu. Até pouco tempo atrás, Amora tratava muito mal a irmã.
— Nem eu, tio Gilson. — disse Bento. Ele também estava surpreso. Afinal, Amora tinha muita mágoa da irmã por tê-la abandonado nas ruas. Amora até quis que Simone desaparecesse, porque Simone a lembrava da infância descalça. Amora não suportava olhar para Mayara também, porque a sobrinha era muito parecida com ela. Amora não queria nenhum contato com a irmã, nem com os sobrinhos, pois lhe traziam lembranças dolorosas. Além do mais, Amora acreditava que Simone não se importava com ela, que só resolveu aparecer quando descobriu que ela era rica e famosa. Ele tentou fazer com que Amora se reconciliasse com Simone, e não foi nada fácil. Ele até forçou a situação, dizendo que não continuaria casado com Amora se ela não fizesse as pazes com a irmã. Mas Amora não estava pronta para perdoar. Por isso mentiu e fez de tudo para a irmã sumir com os sobrinhos e não cruzar com ele. Mas agora estava tudo resolvido e parecia que Amora e Simone estavam se entendendo.
Bento acreditava que desta vez Amora estava sendo sincera. Não estava fazendo número, posando de boazinha. Na noite anterior, ele havia visto o desespero de Amora com a doença da irmã. Não parecia ser fingimento. Amora realmente se importava com Simone, se preocupava com o bem-estar da irmã. E estava demonstrando carinho pelos sobrinhos. Ele também havia percebido que a presença da Simone e das crianças estava fazendo bem para Amora. Ao lado da irmã e dos sobrinhos, Amora parecia outra pessoa. Até o fazia lembrar da garotinha doce que ele conheceu na infância. Simone era uma pessoa maravilhosa. Era uma pessoa bondosa e íntegra, e Bento tinha certeza de que ela teria muitas coisas boas para ensinar para Amora. Amora estava até aprendendo a cozinhar. Logo ela, que não sabia fritar um ovo e não fazia questão de cozinhar. Bento sentia como se finalmente estivesse vendo uma luz no fim do túnel. Quem sabe, com ajuda de Simone, Amora melhorasse.
Giane olhou para Fabinho, que apareceu neste momento, ao lado da casa dele. Fabinho também olhou para ela.
Bento percebeu que Giane estava diferente nos últimos dias. Andava muito pensativa, suspirando pelos cantos. Bento sabia que ela havia terminado com Caio fazia um tempo. Será que ela estava gostando de alguém?
— E você, hein? O que você tá aí toda quietinha? E não é de hoje, não, viu? — perguntou Bento.
Mas Giane não revelaria a ninguém sua paixão por Fabinho. Pelo menos, por enquanto. Por isso resolveu desconversar.
— Nada não. É, chega de papo. Vou lá pra loja, tá, gente? — disse Giane.
Porém, antes de ir para a loja, Giane resolveu passar na padaria, para falar com seu Leal. Passou a noite toda pensando em como ajudaria Fabinho. Ficou sabendo pelos vizinhos que havia uma vaga de balconista na padaria. Seu Leal era um velho conhecido e concordou em dar uma chance a Fabinho. Ali na Casa Verde todos se conheciam. Giane então foi logo atrás de Fabinho, para dar a notícia. Encontrou-o na praça, sentado nas escadas. Sentou-se ao lado dele.
— Falei com o seu Leal da padaria e ele disse que quer te empregar.
— Valeu por se importar comigo. — disse Fabinho.
— Só acho que o que estão fazendo com você é uma sacanagem.
— Oi, oi, gente! Posso ajudar em alguma coisa? — ouviram Nestor falar com Amora e Simone, que chegaram naquele momento.
— Ai, obrigada. Eu agradeceria se o senhor me ajudasse com a minha irmã. — disse Amora. — Obrigada, seu Nestor. Deixa eu levar a sua bolsa. — pegou a bolsa de Simone e pendurou-a no braço.
Nestor e Amora ajudaram Simone a andar. Foram caminhando pela rua. Giane e Fabinho observaram. Fabinho perguntou:
— Você acha que esse lance da Amora com a irmã é verdade?
Giane continuava com o pé atrás em relação a Amora. Tinha dúvidas se Amora realmente gostava da irmã, ou se ela só estava tratando bem a Simone para se fazer de boazinha e continuar casada com Bento. Até pouco tempo atrás, Amora tratava muito mal a Simone, fez ameaças, mandou Simone sumir da Para Sempre para não encontrar com Bento. Agora elas pareciam estar se dando bem. Pareciam estar se entendendo. Mas Giane não confiava em Amora.
— Pode até ser. Mas é melhor continuar de olho. — disse Giane. — Com essa aí, é bom não descuidar.
Fabinho foi à padaria conversar com seu Leal. Giane foi para a loja. Estava tirando fotos de uma cliente, Caetana, que estava posando com um vaso de flor, quando Bento chegou.
— Estava tudo parado, acabei atrasando a última entrega. — disse Bento. — O que isso, Giane? Assim, elas é que vão cobrar da gente!
— Nada, isso aqui é brinde. Eu vou mandar por e-mail pra ela. — disse Giane, mostrando a foto da cliente para Bento. — Olha só.
— Deixa eu ver. — disse Bento, olhando a foto, e Wesley também olhou.
— Gostou? — perguntou Giane.
— Nossa, ficou ótima! Que legal, Giane, você leva jeito! — elogiou Bento.
O celular de Bento tocou e ele atendeu.
— Oi, Malu. Que voz é essa? O André?!
Giane foi mostrar a foto para Caetana.
— Ai, essa daqui eu adorei, eu vou por no meu perfil. — disse Caetana.
— Vai? — perguntou Giane, contente.
— Ficou ótima! — disse dona Caetana.
— Ficou ótima, né? — disse Giane.
— Tá bom, eu tô indo praí. — disse Bento, e desligou o celular. — Ô Giane, você acredita que várias crianças se machucaram na festa do bufê? — vestiu a jaqueta. — Se acontecer alguma coisa com o André, o Wilson me paga!
Malu havia levado as crianças da Toca do Saci ao aniversário da San-drona, que estava sendo realizada no bufê infantil de Wilson. Havia levado também André e Mayara. Sandrona era ex-funcionária do parque. Houve um acidente com vários brinquedos e muita gente havia se machucado. Parecia ter havido um problema na manutenção. Bento saiu da loja furioso. Já tinha um carinho muito grande pelos sobrinhos. Achou que Wilson foi muito irresponsável. No ponto de vista de Bento, Wilson só podia ter economizado na manutenção. Ou seja, colocou o dinheiro acima do bem-estar das pessoas que frequentavam o parque. Por causa do Wilson, André havia machucado o pé na piscina de bolinhas.
Giane ficou sozinha na loja. Horas depois, ela estava tirando fotos das flores expostas na vitrine, quando Fabinho apareceu, do lado de fora, fa-zendo uma pose. Ela tirou a foto. Achou graça.
— Não queria uma foto bonita? Conseguiu, aposto! — disse Fabinho, entrando na loja. — Vê se eu fiquei galã, aí. Eu sou galã, né? Sabe que eu sou galã!
— Palhaço! Conseguiu o emprego lá na padaria? — perguntou Giane.
— Consegui, trabalho amanhã. — disse Fabinho.
Giane assentiu.
— Vem cá, aquela foto de eu jogando bola, cadê? Deixa eu ver.
— Ah, já apaguei, pra que eu ia guardar aquilo? — mentiu Giane.
Continuava tendo vergonha e medo de expressar seus sentimentos. Não queria dar bandeira, então mentiu. Na verdade, ela havia guardado todas as fotos que tirou dele. Para ela, assumir o que sentia não era simples. Não foi assim com Bento, com Fabinho não seria diferente.
— Giane, vem cá. A gente vai ficar com esse clima idiota até quando, hein?
— Quem manda você só me procurar quando eu tô ocupada? — disse Giane, continuando a fotografar as flores.
— Ah, valeu! É, quem vê pensa, né? — disse Fabinho. — Até parece que eu sou um mané que fico implorando a sua atenção. Nem parece que foi você que me beijou naquele dia.
Giane ficava envergonhada só de ouvir falar no beijo.
— Eu? Você tá muito louco! Imagina que eu te beijei! — disse Giane.
— Ah, então tá. Então, nós nos beijamos. — disse Fabinho. — Giane, mesmo assim, né, por favor. Esse clima não tem nada a ver. Foi só um...
Giane ficou chateada, porém disfarçou. Só um beijo? Para ela, não havia sido um beijo qualquer. Então o beijo não significou nada para ele? Se um beijo daqueles não era nada para ele, para ela já era muito. Porém, pelo visto, para Fabinho havia sido uma ficada e nada mais.
— Fala! Só um beijo. Besta, banal, ridículo, eu também acho. — disse Giane. — Pra quê que a gente vai ficar falando disso, então?
— Não, você tá distorcendo. Eu não falei isso. Para de ser difícil. — disse Fabinho.
— Foi você que disse, ué, que nunca se apaixonou. — disse Giane, e continuou a fotografar as flores.
Mas ela se apaixonou. E não sabia se Fabinho sentia o mesmo por ela. Às vezes achava que sim, às vezes achava que não. Ele deu a entender que o beijo não teve tanto significado para ele. Ela tinha medo de não ser correspondida. Medo de sofrer novamente. Por isso relutava em dizer a ele o que sentia. Com Bento havia sido horrível. Bento nunca a enxergou, nunca percebeu que ela gostava dele, e quando ela finalmente conseguiu abrir o coração, dizer o que sentia, ele disse que a amava como irmã. E se Fabinho dissesse que não gostava dela, do jeito que ela gostava dele? Que a via apenas como uma amiga? Só de pensar que Fabinho podia não sentir por ela o mesmo que sentia por ele, sentia-se a mais infeliz das garotas. E se ele não quisesse compromisso sério, quisesse apenas ficar com ela de vez em quando? Uma amizade com benefícios, como se diz? Ela não queria apenas ficar, não queria amizade colorida. Ela queria ser a namorada dele.
— É verdade. Eu nunca me apaixonei mesmo! — disse Fabinho. — Mas eu sinto sua falta!
Giane ficou surpresa e feliz. Sorriu. Não conseguia acreditar. O que ele havia dito? Nunca imaginou que o ouviria dizer isso. Olhou para Fabinho.
— Agora fala pra fora que eu não ouvi nada. — disse Giane. Se ele sentia falta dela, então talvez ele gostasse um pouco dela. Mas ela pre-cisava ter certeza se ele gostava dela tanto quanto ela gostava dele. Ela precisava ter a mais absoluta certeza de que estava sendo correspondida.
Uma coisa era ela ter sido a única menina que brincava com ele quando eram crianças, outra coisa era ele querer namorá-la. Além disso, ele a odiou por muito tempo e só a esculachava até pouco tempo atrás. Ele costumava se interessar por peruinhas. Pelo menos, até alguns meses atrás ele só andava atrás de mulheres como Amora Campana, ou Mel Rabelo. Ela precisava ter certeza de que ele a queria, que a desejava.
— Eu falei, pivete, que sinto a sua falta. — disse Fabinho.
— Ah, é? — disse Giane, toda derretida, olhando para ele. Estava se segurando para não beijá-lo novamente. Era difícil resistir a ele.
— É. — disse Fabinho.
— É a declaração mais grossa que eu já ouvi em toda a minha vida.
— E eu não deveria ter vindo aqui perder meu tempo com você.
— Ah, é, é?
— Tchau. — disse Fabinho, afastando-se.
— Peraí! Peraí! Deixa eu tirar uma foto sua no meio das flores.
— Que tirar foto minha com flor, tá maluca? Me respeita!
— Ué. É o contraste entre a delicadeza e a brutalidade, entendeu? — disse Giane, e Fabinho sorriu.
— É. — disse Fabinho, assentindo.
— Deixa eu ajeitar o seu cabelo. — disse Giane, e foi mexer no cabelo dele.
— Não, não, não, para, para, para, tá maluca? Sai. — disse Fabinho, tirando a mão dela. Giane gargalhou.
— Vai. — disse Giane, fotografando-o ao lado das flores. — Agora, eu tenho uma prova fotográfica de que você sabe sorrir. — aproximou-se e tropeçou. — Ai. — mostrou a fotografia para ele. — Ah, moleque! Vai lá, vai lá!
Tirou outra foto dele ao lado das flores. Fabinho continuou na loja, ajudando-a, organizando os vasos de flores. Bento continuava no hospital. André havia machucado o pé. Bento ligou avisando. Fabinho perguntou:
— Você tem certeza que o sócio fofolete não vai aparecer por aí não, né?
Giane não respondeu. Até porque não era a primeira vez que ele per-guntava. Fabinho não tinha por que se preocupar. Bento não iria aparecer na loja tão cedo.
— Você viu a Amora toda boazinha com a irmã? — perguntou Giane, enquanto fazia um arranjo de flores. — Isso é pra vizinhança comentar com o Bento e ela sair bem na foto.
— Ela vai acabar se estrepando por conta própria. — disse Fabinho.
— Sei lá... Tenho medo. Tenho medo dessa pilantra se dar bem pra sempre.
— A Amora é muito confiante, né? Que nem eu já fui um dia. — disse Fabinho. — E se tem uma coisa que eu aprendi, é que gente assim acaba tomando uma rasteira da vida.
Fabinho foi embora. Giane continuou trabalhando na loja, até fechar. Antes de ir para casa, passou na casa de Margot e deixou com ela um cartão para Fabinho, desejando boa sorte, afinal, no dia seguinte seria o primeiro dia de trabalho dele.
Mais tarde, depois do jogo de futebol que passou na TV, Caio veio visitá-la. Conversaram sobre o que havia acontecido no bufê de Wilson. Caio estava presente na festa de aniversário da Sandrona, quando as pessoas sofreram os acidentes nos brinquedos. Várias crianças se machucaram. Camilinha estava na cama elástica quando caiu e bateu a cabeça. Caio acompanhou Camilinha até o hospital. Ela já recebeu alta.
— E aí a Camilinha tá bem. Ela tá ótima. Vai ficar sem nenhuma se-quela.
Giane deu risada. Caio passou o dia todo com Camilinha. Será que estava rolando alguma coisa entre os dois? Não simpatizava com Cami-linha, a achava muito metida. Mas torcia para que Caio se interessasse por outra. Só assim para ele largar do pé dela.
— Tá caidinho por ela, né, Caio? — perguntou Giane.
Caio na verdade estava usando Camilinha para fazer ciúmes em Giane. Foi o Wesley quem deu a ideia de ele sair com uma garota. Assim, talvez, Giane ficasse com ciúmes, ou então, ele, Caio, desencanava.
— Essa resposta eu vou deixar no ar pra você se dar conta do que você perdeu. — disse Caio, e beliscou o queixo dela. — Se cuida! Amanhã tem estúdio, hein! Não esquece!
— Tá bom. Até amanhã. — disse Giane.
Fabinho entrou neste momento, sem bater. Caio foi embora, e Fabinho fechou a porta.
— Você fica aí fazendo doce, mas depois você vai pro estúdio do riquinho, né? Pra pagar de modelete. — disse Fabinho.
Giane impacientou-se. Era só o que faltava, Fabinho vir encher o saco. Ela e Caio eram só amigos, e a relação deles era estritamente profissional. Fabinho devia parar de implicar com Caio e de pensar em maldade. Ele devia estar cansado de saber que não havia mais nada entre ela e Caio.
— Fabinho, se você veio encher o saco, então, você dá meia-volta e vai embora, por favor. — disse Giane, irritada.
— Você não tá nem aí pra esse cara, né? — perguntou Fabinho.
— Nem pra ele e nem pra ninguém. Agora, dá licença? Dá licença? Vai, vai, vai, vai! — disse Giane, expulsando-o. Porém, Fabinho não foi embora.
— Giane, por quê que você me beijou? — perguntou Fabinho.
Giane suspirou. Então ele apareceu ali para falar do beijo?
— De novo essa história, Fabinho? Olha só, você é o último cara do mundo por quem eu me interessaria. — disse Giane. Nem sob tortura confessaria seus verdadeiros sentimentos. Não enquanto não tivesse cer-teza do que ele sentia, do que ele queria com ela.
— Ah, é? Você também é a última mulher do mundo por quem eu me interessaria. — disse Fabinho.
— Ah, é? — disse Giane.
A garota não estava entendendo nada. Se ele jamais se interessaria por ela, então, por que ele queria tanto saber por que ela o beijou?
— É. É. — disse Fabinho, chegando junto dela e agarrando-a pela cintura. — Mas você sabe... — inclinou-se e a beijou com paixão.
A princípio, Giane se entregou ao beijo, porém, logo o empurrou.
— Para, Fabinho! Você tá louco? — disse a garota, passando as mãos no cabelo.
— Não tô louco. Você me beijou daquela vez, quem te beijou agora, fui eu. — disse Fabinho, tentando agarrá-la.
— Para! Você tá me zoando? — disse Giane, afastando-se. — O quê que você quer, hein?
Para Giane, o problema era que Fabinho até então não foi claro quanto ao que ele queria ou sentia por ela.
— Não tá claro o que eu quero? Não tá? — disse Fabinho, agarrando-a, puxando-a para si. — Eu quero você! — distribuiu beijos pelo queixo e pelo pescoço dela.
Ela também o queria. Mas não tinha coragem de confessar.
— Para! Para, Fabinho! Vai embora! Vem! — disse Giane, puxando-o pela mão e arrastando-o. Era melhor ele ir embora, antes que ela mudasse de ideia. Mas estava fazendo um esforço sobre-humano para resistir a ele.
— Não vou embora! Não vou embora! — disse Fabinho.
— Vai embora! — disse Giane.
— Então vem comigo! — disse Fabinho.
— Vai embora! — insistia Giane.
— Então vem comigo! — disse Fabinho, agarrando-a.
— Não! Vai embora! Por favor! — disse Giane, rindo, enquanto ele a empurrava contra a estante.
Fabinho beijou-a no rosto. Giane o empurrou.
— Vai! Vai! Vai embora! — disse Giane, gargalhando, abrindo a porta e empurrando-o.
Fechou a porta, sorrindo. Encostou-se na porta. Afastou-se, respirando fundo, com as mãos na porta. Seu coração estava disparado. Procurou se acalmar. Passou as mãos no cabelo. Andou pela sala. Passou as mãos no cabelo novamente. Encostou-se na porta outra vez. Sorriu. Virou-se de costas, ainda sorrindo. Adorou o beijo. Sem dúvida, Fabinho sempre lhe despertou sentimentos fortes. Isso ela não podia negar. Até meses atrás, ele a deixava louca de raiva, à beira de um ataque de nervos. Agora ele continuava deixando-a louca, só que agora de um jeito completamente diferente. Estava cada vez mais difícil resistir a ele. Sentia-se feliz. Ele a beijou e se declarou para ela. Do jeito dele, mas se declarou.
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