Giane continuou trabalhando na loja, até que Caio apareceu.

— E aí, gostou das minhas flores? — perguntou Caio.

Para Giane, as flores que ganhou só serviram para fazer ciúmes no Bento. Mais nada. Ela só dançou com Caio para provocar o Bento, para fazer ciúmes também. Giane não queria nada com Caio. Ela se questionou por que ele insistia em andar atrás dela.

— Garoto, qual é a tua, hein? Me diz logo, de uma vez. — disse Giane.

— Eu gostei de você, garota. Só isso. — disse Caio. — Queria te conhecer melhor. Ó, se você me der uma chance...

Ela não estava interessada em conhecê-lo melhor. Nem ele, nem nenhum outro homem. Amava Bento. Só queria saber do Bento.

— Pode parar. E você foi muito abusado, hein, de me mandar flores hoje.

— Ah, é? Por quê? Você não gosta de flor? — perguntou Caio.

— Não tô entendendo essa sua cisma comigo. — disse Giane. — Você não trabalha lá no Luxury? Lá tem um monte de garotinha...

Agora Giane se lembrou de onde conhecia Caio. Ele fazia parte da equipe do Luxury. Ela viu Caio pela primeira vez quando Lara veio à Casa Verde entrevistar o Bento. Ela não entendia por que Caio cismou com ela. Ela certamente era muito diferente das garotas com as quais ele devia estar acostumado a andar. Alguém como ele com certeza andava com patricinhas, peruinhas que apareciam no ambiente de trabalho dele. Além do mais, ele foi fotógrafo de agência de modelo. Devia ter namorado várias modelos. Caio devia gostar de garotas mais femininas, mais arrumadas, mais delicadas, mais elegantes. Um rapaz como Caio jamais se interessaria por alguém como ela. Será que a Amora estava armando alguma coisa para cima dela? No ponto de vista de Giane, Amora era bem capaz de ter mandado o Caio fazer a proposta para ela, de ser modelo, para enganá-la e humilhá-la. Não fizeram a mesma coisa com Filipinho? Ele achou que estava fazendo um teste para um musical de verdade, mas era tudo uma armação do Xande para fazê-lo passar vexame.

— Peraí. Isso não é coisa da Amora, não, né? — perguntou Giane.

— Não. Não sou amigo da Amora, não, Giane. — disse Caio. — Tô cansado de peruinhas e periguetes. Eu prefiro investir numa garota autêntica, linda.

Caio realmente cansou de patricinhas. Depois que conheceu Giane, ele passou a achar as garotas do seu meio fúteis, superficiais e vazias, sem conteúdo. Giane era mais autêntica e era linda do jeito que era.

Giane ficou completamente sem jeito. Ela não estava acostumada a ser elogiada desta maneira por um rapaz. Não se lembrava de alguém ter dito a ela que era linda.

— Você deve estar me zoando, não é possível. — disse Giane.

— Giane, eu nunca falei tão sério. — disse Caio. — E aquilo que eu disse ontem ainda tá de pé. Você tem um rosto incrível! Se quiser, eu faço o seu book. Eu já disse que eu fui fotógrafo de agência de modelo.

— Tá bom, Caio. Ah, meu Deus... — disse Giane.

Amora chegou neste exato momento. Devia estar atrás do Bento.

— Caio? — disse Amora, estranhando ao vê-lo ali.

— Bom, pensa na minha proposta com carinho, tá? — murmurou Caio, pegando no queixo de Giane. Dirigiu-se à Amora. — Tudo bem, Amora? Tchau!

Caio saiu.

— Ai, ai... — disse Giane.

— Vem cá, o quê que o Caio estava querendo com você, hein? — perguntou Amora.

— Esse aí? — disse Giane, apontando para o lugar onde Caio acabou de sair. — Tá doidinho por mim.

— O quê? — perguntou Amora, sem acreditar.

— É. Quer até que eu seja modelo. — disse Giane. — Agora, se você veio procurar o Bento, perdeu tempo, porque ele não tá aí, não.

Bento foi cuidar das flores do jardim da avó do Filipinho.

Amora não acreditava que alguém como Caio, filho de milionário, que podia ter a mulher que quisesse, pudesse estar realmente interessado em Giane. Um rapaz que só andava com patricinhas jamais se interessaria por uma garota pobre, que ainda por cima não cuidava da própria aparência. Na opinião de Amora, Caio não podia estar falando sério quando fez a proposta. Caio só podia estar tirando onda com a cara da Giane, e a coitada nem percebia.

— Como é que é? O Caio disse que você pode virar modelo?

— É. Disse até que faz o meu book. — disse Giane.

— Garota, vê se se enxerga! — disse Amora. — Tá na cara que ele está querendo tirar uma onda com a sua cara.

No ponto de vista de Amora, o mundo da moda não era lugar para garotas como Giane. Ela não conseguia imaginar aquela moleca modelando. A moda exigia uma postura delicada e glamourosa que Giane não possuía. Amora acreditava que o mundo da moda era um privilégio para pessoas como ela. Ela via Giane como uma figura “tosca”, sem charme, incapaz de ter a elegância e o refinamento necessários para as passarelas.

— Não tá não, meu bem. — disse Giane. — Ele está louquinho por mim.

No ponto de vista de Giane, Amora estava era com inveja e com medo da concorrência.

— O Caio? O herdeiro de uma das maiores fortunas da cidade, louco por você? — disse Amora. Na visão dela, Caio jamais se interessaria por uma suburbana, a menos que estivesse ficando maluco. Bento também era suburbano, mas Bento era civilizado, ao contrário de Giane. Além do mais, no que dependesse de Amora, ela transformaria Bento num príncipe. Para Amora, o lugar de Bento era o topo, a alta sociedade, e não o subúrbio. Ela ainda daria um jeito de enquadrar Bento no mundo dela.

— O Caio é rico, é? — perguntou Giane.

Giane achava que Caio ganhava bem, não que fosse milionário. Até onde ela sabia, ele era fotógrafo, e trabalhava na equipe do Luxury. Não imaginava que ele fosse herdeiro de fortuna.

— Está meio brigado com o pai, mas é rico, sim. — disse Amora. — E está cheio de menina que daria tudo pra ficar com ele. Agora, me diz, sinceramente, o quê que ele ia ver numa criatura tão sem charme, sem nenhum traço de beleza? Está na cara que isso é pegadinha, né, Giane? Não. Ah, já sei! Ele deve ter apostado com o Peixinho que ele conseguia transformar uma suburbana qualquer na nova Famosinha da Casa Verde. Só pode ser.

— Deixa de ser ridícula, garota! Cala a boca! Não é verdade! — disse Giane, furiosa. Ela se recusava a acreditar no que Amora dizia.

— Calma! Eu só estou falando isso como sua amiga de infância. — disse Amora. — Porque eles vivem tirando sarro com essas pobres coitadas e eu não queria que você fosse mais uma. Já pensou que triste você acordar um belo dia e descobrir que você é a nova chacota da internet? Giane, eu só estou te falando isso pra te proteger. Porque, no fundo, apesar de tudo, só tenho pena de você.

— E eu tô me lixando pra sua pena! — disse Giane. — Não acredito em nada do que você fala, garota! Ah, vai! Vai, vaza! Vaza!

— Então, vai lá, vai! — disse Amora. — Pode fazer. Não tem problema nenhum. Acho que você tem que se arriscar mesmo. Mas depois não diz que não te avisei, tá? Modelo... Ai, meu Deus, você não tem espelho em casa mesmo, né? — Amora riu e foi embora.

Amora não acreditava que Giane faria sucesso como modelo. Na opinião dela, Giane não era bonita e não levava o menor jeito. Ela não entendia o que Caio tinha na cabeça, para fazer uma proposta dessas para Giane. Ele não podia estar falando sério. Havia por aí tantas garotas bonitas, por que Caio cismou com Giane? Logo com a “mocoronga”? No ponto de vista de Amora, se ele não estava querendo tirar uma com a cara da Giane, então ele tinha um gosto para lá de duvidoso.

— Ah, vai te catar! Nojenta! Invejosa! — xingou Giane.

Giane começou a fazer anotações em um caderno. Porém, refletiu a respeito do que Amora disse. Pensando bem, ela, Giane, não conhecia o Caio. Amora conhecia, afinal, trabalhava com ele. E se Amora estivesse falando a verdade? Será mesmo que Caio havia feito a proposta para tirar sarro dela? Giane ficou furiosíssima.

— Será que o Caio... Ah, mas se for, mas se for, eu mato o Caio! Mas eu mato! — murmurou.

Resolveu ir atrás do Caio. Sabia onde ele trabalhava. Tinha o endereço, que estava no cartão que ele lhe entregou. Estava furiosa. Diria poucas e boas para ele. Esses playboys adoravam humilhar garotas pobres. Se Caio achava que iria fazê-la de trouxa, estava enganado. Mas pediria ao pai para ficar no lugar dela, para não deixar Wesley sozinho na loja. Giane pegou a bolsa e saiu, não sem antes avisar o Wesley. Encontrou o pai na rua, conversando com Salma.

— Oi, filha. Que cara é essa? — perguntou Silvério.

— Pai, eu vou sair pra resolver um assunto. — disse Giane. — Você dá uma força pro Wesley, lá na loja? O Bento foi na casa da dona Glória, e eu não vou esperar por ele.

— Tá. — disse Silvério.

— Tchau, querida! — disse Salma.

Giane chegou ao estúdio, pediu para falar com Caio e ficou esperando do lado de fora. Caio ficou feliz ao ver Giane ali. Pensou que era a oportunidade de ela conhecer o local onde ele trabalhava.

— E aí, gata? Você não quer entrar? — perguntou o rapaz.

— Não. — disse Giane, fervendo de raiva por dentro. — O que eu tenho pra resolver com você pode ser aqui fora mesmo. — cruzou os braços.

— Tá. É sobre o book? — perguntou Caio, inocentemente.

Caio achou que Giane veio falar com ele sobre a proposta para ser modelo. Quem sabe ela tenha resolvido aceitar. Ainda não percebeu que a garota estava furiosa.

— Não, sobre a sua cara de pau! — disse Giane. — Você estava querendo me enrolar, é, cara, pensando que eu sou trouxa? Eu não sou, não!

Caio não estava entendendo nada. Qual era o motivo de tanta fúria?

— Calma! Por que você tá falando assim comigo? Só te convidei...

— Cala a boca! — explodiu Giane. — Cala a boca! E não me procura mais, hein, playboyzinho? Se não quiser levar um murro nessa sua cara!

Peixinho estava passando por ali e se espantou com a fúria de Giane.

— Nossa!

— Ah, vai te catar! — disse Giane, indo embora.

Peixinho percebeu que o Caio e a garota acabaram de ter uma briga feia.

— Que cara de brava, hein! — disse Peixinho. — O que você fez com a mina, hein?

— Eu enchi a bola dela. Só isso, Peixinho. — disse Caio.

— Ah. — disse Peixinho, duvidando.

Para Peixinho, Caio só podia ter aprontado alguma, para a garota estar tão brava. A garota não estaria furiosa se Caio tivesse enchido a bola dela.

— Dá pra entender, cara? — disse Caio.

— Bom, agora se prepara, que hoje o dia vai pegar fogo, tá? — disse Peixinho. — Vamos trabalhar.

À noite, Giane estava em casa quando bateram à sua porta. Foi atender, e viu que era Caio, que foi logo entrando, sem fazer cerimônia:

— Oi. Posso falar com você?

Caio achava que Giane lhe devia explicações. Giane continuava furiosa.

— Não! Não pode! Dá o fora daqui! — disse Giane.

— O que é isso, hein? Que reação é essa, menina? — disse Caio.

— Se você acha que você vai fazer comigo a mesma coisa que você faz com essas coitadas suburbanas que você engana aí pra se divertir, você quebrou a cara.

Como assim? O que exatamente Giane achava que ele fazia com as coitadas suburbanas? De que maneira Giane achava que ele enganava garotas pobres? Cada vez mais, Caio entendia menos. Ele não havia feito nada de errado para Giane estar tão furiosa com ele.

— Mas de onde você tirou isso, Giane? Hein? — disse Caio. — Quem foi que...

Caio chegou à conclusão de que só podia ter sido Amora. Lembrou que Amora veio falar com ele à tarde, no estúdio, sobre Giane. Amora disse não entender como ele podia ter feito a proposta para Giane ser modelo, havendo garotas mais bonitas dando sopa por aí. Que ele devia ter vergonha de ter mau gosto. Só podia ser Amora quem fez a cabeça de Giane contra ele. Giane tinha baixa autoestima, e Amora a atacou em seu ponto fraco. Certamente fez isso para que Giane achasse que não podia virar modelo, que não tinha chance alguma como concorrente dela. Caio só não sabia o que exatamente Amora disse. Certamente havia inventado alguma história e Giane acreditou.

— Foi a Amora? — perguntou Caio.

Giane ficou em silêncio, e isso foi para Caio uma confirmação.

— Foi a Amora que encheu tua cabeça. — disse Caio, apontando para ela.

— Sai daqui! — disse Giane, procurando expulsá-lo.

Giane achava que Amora não prestava, mas ela trabalhava com Caio, devia conhecê-lo há tempos. Amora sabia melhor do que ela do que o Caio era capaz. Assim, não importava quem dizia, e sim o que dizia, e o que Amora dissera fazia sentido. Caio não podia estar falando sério quando a convidou para ser modelo. Ela não era bonita nem levava jeito para desfilar. Nem achava que tinha altura o suficiente. Caio só podia mesmo estar querendo tirar sarro dela, fazer uma brincadeira de mau gosto. Giane não queria conversa com Caio, não queria vê-lo nem pintado de ouro e não deixaria ele enrolá-la. Ela não era nenhuma idiota e não se deixaria enganar por ele. Ele que procurasse outra para iludir.

— Responde! Foi ela que fez minha caveira, né? — insistiu Caio.

Giane acabou confirmando que foi mesmo Amora.

— O quê que a Amora disse de mim?

— Tudo. Afinal, ela te conhece muito bem, né? — disse Giane. — Tá cansada de ver você e aquele Peixinho, prometendo mundos e fundos pras garotas iludidas só pra se divertir, né? Bem coisa de gente riquinha, que se acha melhor do que os outros.

Caio não entendeu nada. Como assim, coisa de gente riquinha? Pelo visto, Giane achava que todo rico necessariamente tirava sarro dos pobres. Como se todo rico fosse metido à besta, cheio de si e vivesse pisando nos pobres. Só que Giane estava enganada. Ele não era assim. Caio disse:

— Ah, gente riquinha? Então, ela também falou que o meu pai é rico.

— É. Você me contou isso? Não. Tive que saber pela Amora. — disse

Giane. — Que aliás, faz parte desse mesmo mundinho podre aí, de vocês. Então, faz um favor pra mim? Esquece que eu existo, pronto.

Caio concluiu que Giane tinha aversão ao mundo dos ricos e famosos. Ela julgava as pessoas que faziam parte deste mundo como presunçosas, falsas, superficiais. Mas nem todos eram como Amora Campana. Caio acreditava que, com o tempo, Giane iria perceber isso.

— Tudo bem. Mas antes, você vai ter que me ouvir, Giane. — disse Caio.

— Você acha que eu vou te ouvir? Ah, vá... — disse Giane.

— Pra começar, eu não sou rico. Quem é rico é o meu pai. — disse Caio. — Com quem eu rompi relações e não falo há dois anos, Giane. Você sabe por quê?

— Hum?

— Porque eu não concordo com o jeito que ele vive. Porque eu não admito que ele se meta na minha vida. Que ele desrespeite as minhas escolhas.

Caio disse apenas meia verdade. A principal motivação para ele ter rompido com o pai foi outra. Seu pai agarrou sua ex-namorada Camilinha. Sílvia, ex-mulher do seu pai, flagrou. Por isso ela se divorciou de seu pai. Mas esta era outra história. Caio achou que ainda não era o momento de contar tudo para Giane. Acabou de conhecê-la. Se tratava de um problema de sua família, envolvendo uma ex-namorada dele. Não dava para sair por aí comentando, porque se tratava de um assunto delicado. Mais tarde, no momento certo, ele contaria para Giane.

— Você acha que eu vou cair nesse papo? — perguntou Giane.

Giane não comprou o discurso de Caio. Caio dizia que não era rico, que quem era rico era o pai dele. Porém, no ponto de vista de Giane, o que era do pai, também era do filho. Caio que não viesse com esse papo de não se considerar rico, de desprezar o dinheiro do pai, que ela não acreditaria. Ela não conseguia imaginar um filhinho de papai como ele não querendo montar na grana do pai. Na opinião dela, era o que todos no mundo dele faziam. Era muito cômodo. Por que razão ele recusaria o dinheiro do pai?

— Em segundo lugar, eu nunca te enganei. — disse Caio. — Eu acho, sim, que você devia fazer um book, porque você é linda, menina! Você faria muito sucesso como modelo. Mas se a tua autoestima, ela é tão baixa ao ponto de você achar que é mentira, quando um cara te faz um elogio, quando o cara diz que você é bonita, eu não posso fazer nada.

O que Caio acabou de dizer mexeu com ela. Talvez o rapaz estivesse sendo sincero e ela tivesse o julgado mal.

Caio estava quase indo embora, porém voltou.

— Só uma última coisa. — disse Caio. — Se você conhece a Amora tão bem quanto eu, por quê que você preferiu acreditar nela, Giane?

— Ah, sei lá. Porque eu não conheço você. — disse Giane. — Tirando aí, a galera aqui da rua, ninguém nunca me tratou assim, legal, de graça.

Giane era desconfiada e não acreditava facilmente nas pessoas. Até porque, desde criança, ela era alvo de chacota. As outras meninas zombavam dela, os meninos também, com raras exceções. Era assim na escola. Os colegas a humilhavam, faziam brincadeiras de mau gosto. A exceção era o pessoal da rua. Era o Bento quem a tratava melhor. O Bento e os vizinhos, como a Charlene, a Renata, o Érico, a Rosemere, entre outros. Os garotos da rua, como Douglas e Jonas, gostavam de provocá-la, mas não eram maldosos. Como é que ela ia achar que alguém como Caio não faria uma brincadeira de mau gosto com ela? Afinal, foi isso o que fizeram com ela a vida inteira, e também com o pobre do Filipinho, que também era alvo de chacota por ser um garoto sensível e desastrado.

Caio abanou a cabeça.

— Você tem que ser menos desconfiada, garota. — disse Caio. —Sabe? Não é só nessa rua aqui, que tem gente boa, não, cara. No mundo inteiro. Bom, era só isso que eu tinha pra te dizer. Não vou mais... Prometo que eu não encho mais o teu saco. Você tem o meu celular, se você quiser ligar. Você que sabe.

Caio saiu, foi embora, e Giane sentou-se no sofá. Estava furiosa. Amora ia ver só uma coisa. Se visse Amora na frente, era capaz de estapeá-la.

— Mas eu mato aquela desgraçada!

Ao mesmo tempo, Giane ficou feliz. Se Caio foi capaz de enxergar beleza nela, Bento também enxergaria. Tomou um banho e trocou de roupa. Afinal, passou o dia todo com a mesma roupa, que estava suja e suada. Decidiu ir ao Cantaí, para ver se encontrava o Bento por lá. Ela queria vê-lo, jogar conversa fora, saber como foram as coisas na casa da Glória. Mas Bento não estava no Cantaí. Giane acabou encontrando Jonas.

— E aí, Giane, tudo bem? Está querendo alguma coisa? — perguntou Jonas.

— Queria saber onde é que está o Bento. — disse Giane.

— Acho que ele está com a Amora lá na casa dele. — disse Jonas.

— Valeu. — disse Giane.

Ficou um tempo no Cantaí, bateu papo com os amigos, depois resolveu ir embora. Foi se despedir do pai, que também estava no Cantaí. Silvério estava conversando com Salma no balcão.

— Paiê! Tô indo, tá? Pra mim, já deu. — disse Giane.

— Tchau, filha! — disse Silvério, acenando para filha.

Giane estava saindo, porém Douglas, que trabalhava como garçom no Cantaí, foi atrás dela, para entregar-lhe uma caixinha.

— Fiz pra você. — disse Douglas.

Ela não estava com paciência para aturar o Douglas. Será que ele nunca ia entender que ela não estava, nem nunca estaria a fim de um pirralho como ele? Ele era novo demais para ela. Ela não queria presente nenhum.

— Eu não estou acreditando, Douglas. — disse Giane. — Você vai me encher desses troços! Vai dar isso pra Socorro. Vai, vai, vai, vai, vai!

Giane estava chegando em casa, quando viu o carro de Amora sair da casa do Bento. Ela achou que Bento estava sozinho. Pensou em dar uma passadinha na casa dele, mais tarde.

— Não acredito! A sangue ruim se mandou. O Bento está sozinho.

Entrou em casa, animada. Ficou deitada em seu quarto, sonhando acordada com Bento, lembrando do beijo que roubou dele, e da conversa que Bento teve com Jonas, contando que sonhou com uma mulher que o beijava. Já que Bento estava sozinho, Giane resolveu aproveitar para se arrumar e ir até a casa dele. Ela queria vê-lo dormir, admirá-lo, estar perto dele. E queria que ele sonhasse com ela novamente.

Giane ainda tinha esperanças de conseguir conquistá-lo e botar a cobra da Amora para correr. Ela não se importava com Amora. Amora não valia nada, só fazia Bento sofrer. Giane acreditava que Bento estaria bem melhor ao lado dela. Ela sim o queria bem e o faria feliz. Ela acreditava que era a mulher certa para ele, pois o conhecia melhor do que ninguém.

Levantou-se da cama, abriu o guarda-roupa, pegou o vestido preto e ficou admirando-se em frente ao espelho. Suspirou.

— Acho que hoje, o seu sonho vai ser bem melhor.

Giane botou o vestido, calçou os sapatos de salto, maquiou-se, arrumou o cabelo e saiu. Olhou para os lados e viu que a rua estava deserta. Andou até a casa de Bento. Pulou a janela, sem fazer barulho. Foi até a sala. Deu uma olhada. Não havia ninguém. Bento devia estar dormindo. Arrumou o cabelo e suspirou. Porém, acabou tropeçando no salto e quase caindo no chão. Amora estava no banheiro, ouviu o barulho e achou que era Bento.

— Bento, você já voltou? — perguntou Amora, indo para a sala.

Ela e Bento voltaram a se entender, depois da última briga. Mas era a segunda vez que Bento saía e a deixava esperando. Bento estava sempre bancando o herói, socorrendo algum amigo, resolvendo problemas dos outros. Bento achava que o mundo todo era problema dele.

Primeiro ele saiu para pegar o celular que havia deixado na van, mas acabou indo atrás da Charlene. Bento estava perto da van, em frente à casa de Gilson, quando viu Pedrinho, um garotinho que Charlene pretendia adotar, sair correndo da casa dela. Pedrinho contou que Wilson o ameaçou, para que ele não aceitasse ser adotado por Charlene. Bento achou um absurdo Wilson fazer maldade com uma criança indefesa. Achou que precisava abrir os olhos de Charlene para a falta de caráter de Wilson. Então Bento pediu a Douglas o endereço do restaurante onde Charlene foi jantar com Wilson. Bento foi até lá e contou tudo para Charlene, que rompeu com Wilson. Bento voltou para casa, mas logo saiu novamente, para buscar a carteira que havia esquecido na casa de Glória. Filipinho havia ligado avisando. Como Bento não encontrava a chave da van, acabou saindo no carro de Amora.

Giane surpreendeu-se ao ver Amora ali. Esperava encontrar Bento, não Amora. Ela achou que Amora tinha ido embora. Também se sentiu constrangida. Foi pega no flagra, invadindo a casa do Bento e ainda por cima toda arrumada, produzida. E agora, como ela ia se explicar?

— O quê que você está fazendo aqui, Amora?

Amora também estava surpresa. Era mesmo Giane? Amora nunca pensou que algum dia iria ver Giane toda maquiada, de vestido, usando sapatos de salto. Ela ficava diferente. Mas o que ela pretendia, aparecendo na casa do Bento no meio da noite? Por que se produziu toda? Será que Giane resolveu assumir a paixão por Bento e dar o bote?

— Eu é que pergunto: o quê que você está fazendo aqui vestida deste jeito ridículo? — perguntou Amora.

Giane não sabia como responder. Ficou quieta.

— Você ainda não disse o que tá fazendo aqui. — disse Amora.

— Eu vim falar uma coisa com o Bento. — disse Giane.

Amora se deu conta de que não ouviu batidas na porta. Se tivesse ouvido, teria aberto a porta. Como Giane entrou ali?

— Se a porta tá trancada, você entrou por onde? — perguntou Amora.

— Não é da sua conta. — disse Giane.

Amora olhou na direção dos fundos da casa.

— Você pulou a janela? Isso é invasão de domicílio, sabia? — disse Amora, sorrindo, debochada. — Agora, para tudo. Por quê que você está vestida deste jeito ridículo? — bateu as mãos. Ela sabia muito bem o porquê, só queria ver qual desculpa Giane iria inventar para ter aparecido ali vestida daquele jeito.

— E eu lá te devo satisfação? — perguntou Giane.

— Ah, já entendi! — disse Amora, unindo as mãos e caminhando pela sala. — Você veio aqui pra seduzir o Bento! Claro. Agora que ele tá comigo, você resolveu atacar.

Para Amora estava na cara que Giane veio ali porque achava que encontraria Bento sozinho. Bento havia saído no carro dela. Claro que a “mocoronga” achou que ela havia saído, em vez do Bento. Giane vivia cuidando da vida do Bento, sabia quem entrava e saía da casa dele. Para Amora, era óbvio que Giane resolveu aproveitar a oportunidade para fazer uma surpresa para ele. Mas se Giane achava que tinha chance com Bento, ainda mais usando aquele vestidinho e aquela maquiagem barata, bem coisa de pobre, estava redondamente enganada. Giane não era páreo para ela, Amora. Na opinião dela, Giane, mesmo mais arrumada, era brega. Tinha péssimo gosto para roupa e maquiagem. Jamais teria o mesmo charme, a mesma elegância, o mesmo refinamento que ela.

Amora achava incrível a quantidade de pessoas invejosas e ressentidas à volta dela. Como se não bastasse tudo o que ela estava sofrendo por conta de calúnias, do escândalo envolvendo sua família, o desaparecimento de sua mãe, que resolveu fugir da mídia; ela ter perdido a campanha da joalheria Quatre Mondes, ter rompido relações com Natan, a emissora tê-la suspendido do Luxury, a Sueli Pedrosa ter acabado com ela, ela ainda tinha de lidar com a inveja da Malu e da Giane.

Agora que ela estava com Bento, Malu e Giane resolveram dar em cima dele. Malu ainda não desistiu de tentar tomar o Bento dela. A sonsa teve a capacidade de dizer na cara dela, Amora, que beijou o Bento, que estava no páreo e que achava que tinha chance. Ultimamente, Amora perdeu as contas das vezes em que teve vontade de estapear Malu, de matá-la. Malu ficava se fazendo de santinha, de certinha, mas era uma sonsa. Para Amora era curioso como as pessoas próximas a ela a criticavam por ter beijado Bento enquanto ainda era noiva de Maurício, por ela correr atrás do Bento, mas ninguém criticava a santa do pau oco da Malu por ter beijado Maurício ou por dar em cima do Bento, mesmo ele sendo um homem comprometido.

Malu dava em cima dos namorados dela e não era criticada por isso. Madá, Emília, Luz, Kevin e Dorothy apoiavam a sonsa da Malu em tudo, a incentivavam a lutar por Bento e viviam dando lição de moral nela, Amora. Só mesmo a mãe adotiva ficava do lado dela. Bárbara e ela só discordavam quando o assunto era Bento. Amora já estava sentindo falta da mãe. Agora a idiota da Giane resolveu se produzir toda para seduzir o Bento. Amora achava impressionante como ela não tinha um minuto de sossego. Ela sabia que Bento era um homem especial, incrível, mas não era o único homem no mundo. Por que Giane e Malu não se interessavam por outros homens? Só podiam ter inveja dela.

Amora sabia que Bento era o pacote completo: tinha uma estampa de galã, era forte, viril, e esta força vinha acompanhada de uma doçura e gentileza extremas, além de sensibilidade, carisma e alto astral. Enfim, Bento era uma mistura de homem rústico com alma sensível, tinha um magnetismo que enlouquecia as mulheres. Contudo, na opinião de Amora, Bento era areia demais para o caminhãozinho de Malu e Giane.

Giane ficou morrendo de vergonha. Jamais admitiria suas intenções ou seus sentimentos para Amora.

— Eu não quero nada com o Bento, não. Ele é um otário. Eu tenho é dó do Bento. Por ele gostar de uma cobra feito você. — disse Giane.

— Dó sinto eu. — disse Amora, fazendo um gesto circular com o dedo. — Dessa maquiagenzinha tosca, desse vestidinho chinfrim.

Giane mexeu no cabelo. Amora disse:

— Garota, você ainda tá acreditando naquela história de virar modelo? — Amora riu, irônica. — Minha nossa. — colocou as mãos dos lados da cabeça. — Você é muito mais sem noção do que eu pensava. — uniu as mãos.

Amora resolveu não contar para o Bento que Giane invadiu a casa dele, nem que ela estava usando um vestidinho ordinário e uma maquiagem tosca. A vergonha alheia que ela sentia era tanta que ela preferia nem comentar nada com ninguém. Além do mais, se ela contasse, Bento iria sacar na hora que a “mocoronga” era apaixonada por ele. E Amora acreditava que Giane levaria um fora, que nem Bento, nem homem nenhum iria se interessar por ela. Apesar de achar Giane uma pentelha, uma mala sem alça, Amora queria evitar que ela quebrasse a cara. Era dela, Amora, que Bento gostava. Bento estava namorando com ela.

No fundo, Amora morria de pena de Giane, porque a achava sem graça, além de grossa, ignorante, barraqueira. Na visão de Amora, não devia ser fácil ser a Giane. Além do mais, Giane vivia pagando mico e correndo atrás de quem não a queria. Não tinha senso do ridículo. Na opinião de Amora, Giane era uma coitada. Uma infeliz, uma despeitada, invejosa, que viveu a vida toda esperando que Bento reparasse nela. E agora a “mocoronga” acreditava que Bento iria prestar atenção nela, se ela virasse modelo. Amora achava que Giane não tinha mesmo noção de nada.

Giane abanou a cabeça. Como Amora podia ser tão cruel, humilhando-a daquela maneira?

— Cara, você é muito ruim, né, Amora? Olha, o Bento, ele pode estar cego agora. Mas uma hora, ele vai enxergar você como você é. Aí, ele vai cair fora.

Virou-se, ficando de costas para Amora. Caminhou até a porta de saída. Amora disse:

— Ah, pela porta, não! Sai por onde você entrou. Senão, dá má sorte. — Amora uniu as mãos e riu. — E pode ficar tranquila, porque eu não vou contar pro Bento que você baixou aqui fantasiada de retirante, tamanha a vergonha alheia que eu sinto de você. Não, porque eu sempre te achei um tribufu naquele visual de mano. Agora, pelo menos, disfarçava o corpinho, né? Garota, você tá tão, mas tão ridícula, tão patética com essa roupa. Eu não sei como você não tem vergonha de sair de casa desse jeito.

Para Giane, Amora estava merecendo uma surra. Primeiro Amora inventou histórias sobre o Caio, para que ela, Giane, desistisse de ser modelo, e agora a patricinha zombou dela ao vê-la toda arrumada. Aquilo para Giane foi a gota d’água. Amora estava era morrendo de inveja, por isso tentava diminuí-la. Virou-se.

— E você, hein, Amora? — Hã. — disse Amora.

— Não tem vergonha de sair de olho roxo não?

Estapeou o rosto de Amora e empurrou-a no sofá.

— Ai, garota, sua louca! Ai! — gritou Amora.

Giane encheu-a de tapas:

— Cala a boca! Cobra! Venenosa!

Amora riu de nervoso. Giane afastou-se dela. Amora levantou-se do sofá.

— Ai! Eu vou te processar, garota! — disse Amora.

— Vai? Processa! — desafiou Giane. Ela jamais se deixaria intimidar pelas ameaças de Amora.

— Vou! Por invasão de domicílio e agressão! — disse Amora, apontando para ela.

— Vai em frente! — disse Giane.

— Você vai pra cadeia... — disse Amora.

— Vai em frente! — disse Giane, apontando para ela. — E aproveita e fala pro Bento o porquê dessa surra! Quero ver do lado de quem que ele vai ficar.

Giane acreditava que Amora não falaria nada para o Bento. Bento não iria gostar de saber que Amora a humilhou. E Amora gostava de se fazer de santinha para o Bento. Na frente do Bento, Amora a tratava bem. Nas costas dele, Amora a tratava mal. Ficava chamando-a de maloqueira, de maria macho, de feia.

— Olha só, isso vai ficar como amostra grátis. — disse Giane, apontando para Amora. — Se você se meter comigo de novo, aí sim, você vai ter o prato completo. — afastou-se e andou em direção à saída, porém voltou. — Sangue ruim!