Um amor inesperado

35 Primeiro namorado


No dia seguinte, Giane acordou, tomou café e já foi se arrumar para ir com Caio à produtora. Primeiro, ela passou na casa de Gilson, e conversou com Érico sobre uma nova campanha. Sentou-se com Érico à mesa, diante do notebook.

— E eu garanto que é uma campanha superfamília. — disse Érico. — Você não tem com o que se preocupar. Só onde você vai gastar o cachê.

Giane riu.

— Então tá bom. — disse Giane. — Se é assim, eu faço. Então, vou lá porque agora eu tenho uma outra reunião. Depois você me fala, tá, como vai ser?

A garota levantou-se.

— Legal. A gente te avisa. — disse Érico.

— Valeu, Érico! — Giane despediu-se.

— Tchau, Giane! Valeu! — disse Érico.

No caminho para a porta, Giane cruzou com Sílvia, que estava en-trando.

— E aí, tudo bem? — cumprimentou Giane.

— Oi, Giane! Tudo bem, querida? — disse Sílvia.

Giane foi direto para casa, para pegar a bolsa. Caio havia ficado de passar em sua casa para levá-la à produtora. Quando estava saindo de casa, Caio apareceu.

— Sabia que eu estava com medo de você amarelar? — perguntou Caio.

— Tu não me conhece mesmo, né? Não falei que eu vou? Vou! — disse Giane, subindo as escadas junto com Caio. — Não garanto fazer campanha nenhuma.

— Sem problema. A Karen tá doida pra te conhecer. — disse Caio. — Ó, essa produtora, ela é superimportante. Eles fazem muitos comerciais por aqui. — colocou as mãos sobre os ombros dela. — Vai ser superlegal pra sua carreira, você vai ver!

Giane e Caio foram até a produtora. Karen estava dirigindo um comer-cial. Pelo visto, era uma propaganda de produtos de cama, mesa e banho. Os modelos haviam sido fotografados seminus, sob os lençóis.

— Tá lindo. — disse Karen. — Ficou ótimo. Pessoal, vamos mudar a produção? Coloca aquele corpete bem sensual nela. Vai ficar lindo.

Quando viu Caio e Giane ali, Karen se aproximou.

— Oi, Caio! — disse Karen.

— Oi, tudo bem? — disse Caio, e Karen deu um beijo no rosto dele.

— Tudo bem? — disse Karen.

— Essa aqui é a famosa Giane, Karen. — disse Caio, apresentando a garota ao seu lado.

— E aí? — disse Giane, dando um beijo no rosto dela. — Como é que tá?

— Garoto, você precisa abrir sua própria agência, viu? — disse Karen para Caio. — Bem que você falou que essa menina parece uma heroína de mangá.

Giane ficou envergonhada.

— Quê que é isso? Fala sério. — disse Tito, aproximando-se. — Vocês ainda vão me pagar pra posar junto dessa gata? Obrigado, papai do céu!

Giane não gostou nada de ver Tito ali. Jamais posaria ao lado dele.

— Tá brincando que eu vou posar com esse cara? — disse Giane, apontando para Tito. — Mas eu tô fora!

— Que isso, garota? Você me conhece, por acaso? — perguntou Tito. Ele não entendia a reação de Giane. Nunca a tinha visto.

Na verdade, Giane mal conhecia o Tito, apenas de ouvir falar. Nunca foram nem apresentados um ao outro. Tito não costumava aparecer na Casa Verde. Não se misturava com o núcleo pobre da família. Mas Giane sabia que ele era primo do Érico, filho do Wilson, que havia sido noivo da Lara Keller, e que ele havia atropelado a Renata. Giane havia visto ele no Luxury, quando Lara o apresentou como noivo dela. Até foto dele na internet tinha visto.

— Não, mas eu sei bem o babaca que você é! — disse Giane. — Mas eu quero distância desse idiota! Tá louco! — afastou-se.

Caio não estava entendendo a reação de Giane.

— Só um minutinho, Karen! — disse Caio, e foi atrás de Giane. Segu-rou-a. — Giane, você ficou louca?

— Louca eu estaria se tivesse posando com esse cara! — disse Giane. — Pelo amor de Deus, né? Nem que eu precisasse muito! Tô fora! Valeu, Caio!

Giane foi embora. Caio resolveu se desculpar com Karen:

— Pô, Karen, foi mal. A Giane, é... Ela é um pouco marrenta.

— Não, nem esquenta. Adorei essa menina. — disse Karen.

— Que bom. — disse Caio, sorrindo, aliviado.

À noite, todos na Casa Verde já estavam sabendo que Bento era mesmo filho do Plínio. O exame havia confirmado. Não se falava em outra coisa. Todos estavam comentando, e se perguntando como seria a vida do Bento. Afinal, ele agora era filho de milionário. Porém, ninguém achava que ele deixaria o dinheiro subir à cabeça. Bento sempre foi uma pessoa humilde. Silvério, Nestor e Odila estavam na praça, discutindo o assunto, e Giane também andava por ali, quando viu Fabinho dormindo na escadaria.

Giane não quis acreditar que aquele mau-caráter tivesse tido a coragem de ir dormir ali depois de tudo o que havia aprontado. Ela sabia que a situação dele andava péssima. Ele havia saído da prisão, porém, agora não tinha para onde ir. Estava sem emprego, nem lugar para morar. Até tentou ficar na casa de Gilson e Salma, porém, não foi possível. Ninguém na vizinhança queria vê-lo nem pintado de ouro. Não podia ser diferente, pois Fabinho tratou a todos com desprezo, quis comprar a rua toda, ameaçou demolir a casa de todo mundo, botar todo mundo na rua. E ainda ameaçou Odila, por pouco não a matou. Ninguém queria saber dele. Salma e Gilson deram uma quantia em dinheiro, o suficiente para ele se hospedar em algum hotel por alguns dias, e o mandaram embora. Pelo visto, o dinheiro já acabou, pois ele estava dormindo na rua.

Mas Giane não queria vê-lo ali. Ainda tinha raiva de Fabinho. Ele tratou com desprezo ela e todas as pessoas que ela amava. No ponto de vista dela, Fabinho não se importava com ninguém, estava se lixando para os sentimentos das pessoas que o criaram, o acolheram. Ele podia estar revoltado com o mundo, estava no direito dele, mas não era por isso que as pessoas tinham de aceitar o desprezo dele. Não havia justificativa para as mentiras, os crimes, as tramoias, para a crueldade dele. Fabinho não tinha nada que pôr os pés na Casa Verde, lugar que desprezava. Que fosse dormir em outro lugar. Giane não teria nenhuma culpa em expulsá-lo dali.

— Não tô acreditando. — murmurou Giane, para si mesma.

Giane olhou para trás, onde estavam Silvério, Odila e Nestor, conversando. Eles estavam atrás da árvore.

— Ô gente, dá uma olhada nisso aqui! — gritou Giane.

Ela chutou a perna o rapaz. Fabinho abriu os olhos.

— Ei! Palhaço! O que você tá fazendo aqui, hein? — perguntou Giane.

— Calma aí, maluco. Deixa eu dormir, na boa. — disse Fabinho.

— Quer dormir, vai debaixo da ponte. — disse Giane. — Porque a Casa Verde não é lixão pra urubu pousar, não.

Odila, Silvério e Nestor já haviam chegado.

— Você escutou? Ninguém da rua quer você aqui. Vaza! — disse Odila.

— Meu Deus! Olha só, presta atenção, baranga... — disse Fabinho, levantando-se.

Giane achou que Fabinho partiria para cima de Odila, então colocou-se na frente dela e disse para o rapaz:

— Olha só, eu, se fosse você, não bancava o valentão aqui, não.

Ela não deixaria Fabinho atacar Odila novamente. No que dependesse dela, Fabinho não encostaria em um fio de cabelo de Odila. Ela daria um chute entre as pernas dele. Ele devia dar graças a Deus por Odila não ter prestado queixa na delegacia, do contrário, ele estaria era na cadeia.

— Vocês estão achando que eu tô por baixo, né? — disse Fabinho, furioso. — Mas quando eu levantar, eu não vou ter pena de ninguém, sabia?

Giane se perguntou quando foi que Fabinho teve pena de alguém. Ele não tinha pena, empatia, nenhum respeito pelo próximo. Tudo o que Fabinho sentia era ódio, só pensava em destruir as pessoas. Fabinho era mesmo um monstro. Ele nunca foi um anjo, mas piorou com o tempo.

— Nem eu vou ter pena de dar uma bifa no meio da tua cara se você não sair daqui agora, escutou? — disse Odila, erguendo a mão para ele.

— Presta atenção, hein? — disse Fabinho. — Porque o mundo gira e eu vou acabar com vocês. Hoje eu tô assim, mas amanhã eu vou levantar! Gentalha!

— Vaza, palhaço! Some daqui! — disse Giane, enquanto ele juntava as coisas dele.

— Urubu! — xingou Odila, vendo-o ir embora.

— Palhaço! — xingou Giane.

— Mas também, espera um pouco, gente. — disse Nestor. — Você pegou muito pesado com o rapaz, Odila.

— Ah, não! — disse Odila, sem paciência.

Para ela, o que ela fez ainda foi pouco. O garoto ameaçou jogá-la de um prédio de 21 andares. Ele tinha era de agradecer de joelhos por ela não tê-lo denunciado à polícia. No ponto de vista de Odila, Fabinho estar na rua, sozinho, sem ninguém do lado, já era um bom castigo. Ele estava colhendo o que plantou. Odila só não denunciou porque a justiça do país é falha. Fabinho nunca ficava muito tempo preso, logo era solto. Ela não queria se desgastar por causa do Fabinho, à toa. Muitos criminosos, que cometiam crimes mais graves que Fabinho, não ficavam nem trinta anos na prisão. Bastava terem bom comportamento para passarem para regime semiaberto ou aberto. Fabinho podia não ser punido pela justiça, mas já estava sendo punido pela vida, por Deus, ou pelo universo.

— Nada disso, nada disso! — discordou Silvério. — A Odila fez muito bem, de botar esse ordinário pra correr.

— Gente, calma aí! Calma! — disse Giane.

Mais tarde, na mesma noite, era aniversário da Rosemere. Giane se arrumou toda, botou um vestido preto para a comemoração e até convidou Caio para ir ao Cantaí com ela. Primeiro ela e Caio conversaram na praça, sobre o que havia ocorrido na produtora. Os dois estavam a sós ali, em frente à grade.

— Pô, Caio, você sabe que eu já não curto esse negócio de ser modelo. — disse Giane. — Aí, você ainda me arruma uma furada dessas, pô!

— Ai, tá bom. Eu desisto. — disse Caio. — Você não quer ser modelo, eu respeito, Giane. Mas o quê que você quer fazer da vida, hein? Você quer viajar, você quer estudar, você quer plantar flor? O quê que você quer fazer?

— Sei lá. — disse Giane. — Há um tempo atrás, tudo que eu queria era... Era cuidar da Acácia Amarela pro resto da vida. E agora, eu já não sei mais.

A vida toda ela esteve ligada ao Bento, e por muito tempo ela não queria outra coisa da vida que não fosse cuidar da loja ao lado dele.

— Então, enquanto você não descobre, você devia fazer uma poupança. — disse Caio. — Eu não tô falando pra você aceitar fazer a campanha da Gatinha de Bolinha, até porque, essa já era. Mas... Cara, toma cuidado, sabe, pra... Pra... Pra... Pra não fechar as portas. Não é todo mundo que tem essa sorte que você tem, não, garota.

— Hum. — disse Giane, sorrindo.

— É até pecado jogar ela fora. — disse Caio.

Giane concordou com Caio. Estava pensando em guardar o dinheiro das campanhas em uma poupança. Assim, estaria investindo no seu futuro. Poderia estudar, viajar, quem sabe até comprar um imóvel. Ela é que não iria gastar tudo em roupas caras e sapatos repetidos como Amora.

— Você tem razão. — disse Giane. — Mas fazer campanha de... De biquíni não rola comigo, você sabe, né? Pô, mas... — deu um tapinha no braço dele. — Ei, desculpa aí, lá, com a sua amiga.

— Tudo bem. Você fica me devendo uma, hein? — disse Caio.

— Tá bom. Agora, bora pro Cantaí. — disse Giane.

— Vambora. — disse Caio.

Foram para a festa da Rosemere no Cantaí. Ficaram conversando e comendo quitutes. Até que viram Douglas e Brunettý, a Mulher Mangaba, no maior amasso. Giane não ligava a mínima para Douglas, ele podia ficar com quem quisesse. Mas achou que eles estavam exagerando, querendo chamar atenção. Estava muito na cara que Douglas estava tentando fazer ciúme nela. Não funcionou.

— Aff! Que ridículo! Vambora daqui, vamos. — disse Giane a Caio.

Saíram do Cantaí. Conversaram mais um pouco, e Caio acompanhou Giane até sua casa. Quando estavam em frente à sua casa, Giane disse:

— Caio, pô, valeu aí. Essa força que você está me dando, veio no momento certo. Você... Você está sendo muito legal comigo.

Caio resolveu aproveitar a chance para pedi-la em namoro:

— Então, o quê que você acha de me dar uma chance?

Giane não sabia o que dizer. Tinha um carinho enorme por Caio, e gratidão também. Ele era um cara legal, estava sempre ao lado dela, ajudando-a bastante. Mas não estava apaixonada por ele. Ainda não esqueceu Bento. Ela não tinha intenção de usar Caio como muleta.

— Eu estou louco por você desde a primeira vez que eu te vi, Giane. — disse Caio. — Você é... Você é surpreendente, você é diferente de todas as garotas que eu já conheci. Olha, eu te prometo que eu vou ser o melhor namorado que você já teve, tá?

Giane achou graça. Ela nunca teve um namorado antes. Afinal, ela amou Bento a vida inteira, desde menina, e nunca olhou para outro. E os rapazes da rua nem olhavam para ela. Sempre a tratavam como se ela fosse um deles. Giane até pensou que nunca ninguém se interessaria por ela, nem a pediria em namoro. Riu. Viu que Caio havia ficado chateado.

— Desculpa, eu... Eu não tô rindo de você. — disse Giane. — Só que é engraçado esse “namorado”. É que eu... É que eu nunca tive um namorado.

— Seu primeiro defeito. E nisso eu acho que eu vou poder te ajudar. — disse Caio, rindo.

— Bobo! — disse Giane, sorrindo. — Eu tenho um monte de defeitos. Eu sou... Sou brigona, eu sou desbocada, eu...

— Você é linda, você é autêntica. — disse Caio. — Você é maravilhosa, sabia? É sério, Giane, eu acho que a gente tem tudo pra ser feliz juntos.

Giane surpreendeu-se. A vida toda, ela pensou que o jeito dela intimidava e afastava os homens, que ninguém nunca iria gostar dela como era. Giane sempre teve a sensação de que os homens se assustavam com ela, preferindo mulheres mais femininas, delicadas e dóceis. Caio foi o primeiro homem a dizer que gostava do jeito marrento dela.

Caio aproximou-se e beijou-a nos lábios. O beijo durou alguns segundos.

— E então, garota? Você aceita namorar comigo? — perguntou Caio.

Giane resolveu aceitar namorar o rapaz. Precisava seguir em frente e deixar para trás sua paixão por Bento. Caio era um cara bacana. Era gentil, carinhoso. Quem sabe com o tempo ela acabaria gostando dele. Ela pensou melhor, e achou que não era uma má ideia dar uma chance a ele. Neste momento, o que ela mais precisava era se sentir mulher, se sentir desejada, e ninguém nunca havia olhado para ela como Caio olhava.

— Tá. Aceito. — disse Giane.

Começaram a se beijar, quando Silvério apareceu:

— Giane, é você?

Caio e Giane separaram-se imediatamente. Os dois ficaram constrangidos.

— Ah, desculpe! Desculpe! — disse Silvério. — Olha, eu não quis atrapalhar. Me perdoe.

Silvério estava prestes a entrar em casa, quando Caio chamou:

— Seu Silvério! Seu Silvério, a sua filha, ela acabou de aceitar namorar comigo, seu Silvério! — disse Caio, rindo, feliz.

Giane ficou com vergonha.

— Mas que boa notícia! Bem, vocês têm a minha bênção! — disse Silvério.

— Tá. Então, a gente se fala amanhã, né? — disse Giane, despedindo-se de Caio e entrando.

— Se prepara, meu filho! — disse Silvério, andando até o portão. — Se prepara que essa é osso duro de roer, hein!

— E é justamente isso que eu mais gosto nela. — disse Caio.