Um amor inesperado
51 Primeiro beijo
No dia seguinte, logo cedo, ocorreu a maior confusão na rua. Bento e Érico estavam tendo uma briga feia. Estavam se socando, e as pessoas estavam tentando separá-los, evitar que se matassem.
— Bento! Para, cara! Você tá louco? — gritou Giane, aproximando-se junto com Silvério. Ela e o pai colocaram-se entre Bento e Érico, separando-os. Gilson também ajudou a separar os dois. Jonas estava segurando Bento. Gilson e Fabinho seguravam Érico.
— Se você chegar perto da Malu, de novo, eu te mato, você ouviu? — gritou Bento para Érico. Giane, Jonas e Silvério o seguravam.
— Bento, pelo amor de Deus! Não diz isso nem brincando! — gritou Salma.
— Olha aqui, eu não tô nem aí pra você, tá bom? — gritou Érico para Bento. Dirigiu-se à mãe. — E você, vai tomar conta aí do seu filhinho queridinho, do seu favorito! Pensa que eu não sei?
— Para! Para! Vai embora! Tá maluco? — gritou Gilson para Érico.
— Bento, o quê que foi isso? Por quê que você brigou com o Érico, cara? — perguntou Giane.
— Só porque ele pegou a Malu, cara? — provocou Fabinho.
— Cala a boca, moleque! Você quer apanhar também? — gritou Bento.
— Para! — disse Giane.
Giane parou para pensar por uns segundos. Então era por isso que Bento estava furioso. Érico havia ficado com a Malu.
— Pegou a Malu? Ligeirinha ela, hein? Gostei de ver.
Giane foi cuidar de seu serviço. Começou a organizar as flores dentro da van. As flores que os vizinhos trouxeram, como sempre faziam. Caio veio falar com ela. Contou que iria brigar com Lara pela herança do pai.
— Quer dizer que você vai brigar pela herança do seu pai? — perguntou Giane.
— Não quero que a Lara veja um centavo dessa grana. — disse Caio. — Safada, ordinária. Correu pro advogado com o meu pai ali morto, Giane.
— Seu pai sabia muito bem com quem ele tava lidando, né, Caio?
— Ah, mas não importa. Essa Lara não vai se dar bem e eu não vou deixar. — disse Caio, revoltado. — Eu vou fazer o que eu puder pra ferrar essa safada. Pra começar, eu vou tirar ela do Luxury.
— Ué, mas ela não já prometeu dar o lugar dela pra Mel?
— Mas acontece que quem manda agora, sou eu. — disse Caio.
Caio disse que pretendia convidar Amora para voltar a apresentar o Luxury. Foi até a casa de Amora, falar com ela. Giane foi trabalhar na loja. Giane contou para Bento o que Caio pretendia fazer.
— A Amora não vai voltar pro Luxury, Giane. Eu duvido. — disse Bento.
Bento não acreditava que Amora fosse voltar a apresentar o Luxury. Ela mesma disse que preferia investir no tratamento e na vida familiar. Nem passava pela cabeça dela reconstruir a carreira. Se bem que ela tam-bém disse que queria levar uma vida simples, e era tudo da boca para fora.
Ele resolveu dar mais uma chance para Amora porque Simone pediu, várias vezes. Amora convidou a irmã e os sobrinhos para passar uns tempos com eles. Amora explicou que havia realmente se reconciliado com a irmã, mas que continuava magoada e acabou brigando feio com Simone.
Ela disse que a irmã tinha ido embora porque precisava de um tempo para pensar, esfriar a cabeça e, além do mais, estava fugindo do passado, das lembranças ruins e das cobranças dele, que ficava empurrando-a para cima da irmã. Ela não estava pronta para perdoar e ele estava forçando a barra. Amora havia pedido perdão para Simone e pediu perdão para ele também.
Porém, Bento não sabia até onde ia a paciência que ele tinha com Amora. Ele sempre deu força para a esposa solucionar seus problemas. E podia até entender as razões e as limitações dela. Mas não engolia a capacidade que Amora tinha de mentir. Ela também havia mentido sobre fazer terapia. Ela nunca foi atrás do doutor Geraldo, nem da doutora Ivelise, terapeutas que Plínio recomendou, e ainda inventou uma terapeuta que não existia, doutora Letícia Neri. Bento ficou decepcionado, e quando foi falar com Amora, ela disse que havia mentido porque ficou desesperada, com medo de perdê-lo, pois ele disse que iria se separar dela caso ela não se tratasse. Ela disse que cumpriu parte do trato ao trazer Simone e as crianças para perto dela. Mas disse que não queria se tratar, que não suportaria reviver o passado, tudo o que sofreu na infância. Amora disse que queria melhorar, até doou os sapatos para a Toca.
Mas Bento não sabia mais quem era Amora, nem o que sentia por ela. Ela não era mais a garotinha doce que ele conheceu na infância. No entanto, por consideração à Simone e também por tudo o que ele Amora haviam vivido juntos desde a infância, resolveu dar mais uma chance.
Giane, por sua vez, achava que Amora sentia falta de apresentar o programa. O que Bento esperava, que a Amora fosse uma dona-de-casa o resto da vida? Não era do feitio dela.
— Por quê? Você prefere a sua mulherzinha em casa, lavando roupa, cozinhando? — perguntou Giane, irônica, molhando as flores.
— Não, não é isso. — disse Bento. — Eu ficaria feliz se a Amora achasse um trabalho produtivo, legal. Você quer saber? Se ela ainda gosta desse mundinho fútil e vazio, ela que seja feliz.
Na opinião de Bento, não havia nada de produtivo em apresentar um programa que fica falando da vida alheia, do estilo de vida dos ricos e famosos. Ainda se fosse um programa sobre jardinagem, ou culinária, ou qualquer outra coisa que fosse útil. Mas na opinião dele, o Luxury era fútil. Para ele, o ideal era que Amora deixasse do mundo podre das celebridades e fosse trabalhar em qualquer outra coisa. Até porque no mundo da fama, as pessoas muitas vezes acabavam se sujando, se corrompendo. Mas se ela gostava, ele respeitava. Já que Amora reclamava que ele não cedia, que ela era a única que abria mão das coisas que gostava, então ele estava disposto a ceder. Ele achava que Amora devia ocupar a cabeça, fazer alguma coisa que lhe desse prazer.
Giane viu que a boca de Bento estava machucada.
— Nossa, este aí ficou feio, hein. — disse Giane, referindo-se ao machucado. — Deixa eu ver.
— Oi! — disse Malu, alegre, entrando na loja e cumprimentando Wes-ley.
— Oi, tudo bem? — disse Wesley.
Malu viu que Bento estava com a boca machucada.
— Que isso, Bento? Andou brigando, foi? — perguntou Malu.
— É, por sua causa. — disse Giane.
— Como é que é? — perguntou Malu.
Giane achou melhor deixar Bento e Malu conversarem a sós.
— Wesley, vamos lá molhar as plantas, lá fora. — disse Giane.
— Tá bom. — disse Wesley, e foi atrás de Giane.
Nem bem Giane foi para a frente da loja, Maurício chegou.
— Ei, Giane, tudo bem? — disse Maurício.
— Tudo bem! — disse Giane.
— Eu queria mandar umas flores pra Malu, você me ajuda?
Maurício discutiu com Malu, ao flagrá-la aos beijos com Érico. Ele achava o fim Malu ficar se atracando com o primeiro babaca que aparecia na frente dela, só para se sentir desejada, como ela disse. Porém, sua mãe o aconselhou a compreender e apoiar a Malu, em vez de julgá-la. Maurício resolveu pedir desculpas para Malu.
— Ah, não vai precisar. A Malu tá aí dentro conversando com o Bento.
— Ah, é? Você sabe o quê? — perguntou Maurício.
— Não sabe? O negócio andou engrossando aqui. — disse Giane.
Contou para Maurício que Bento e Érico haviam brigado de socos por causa da Malu. Em seguida, Maurício e Giane entraram na loja. Giane foi molhar as plantas. Malu continuava conversando com Bento.
— Olha aqui, se o Maurício não tivesse atrapalhado, não ia ser só um beijo não, viu? — disse Malu.
— Como é que é, Malu? — perguntou Maurício, atrás dela.
Malu virou-se.
— É isso mesmo. — disse Malu. — Eu iria pra cama com o Érico, sim. E vocês dois não têm nada a ver com isso, entenderam?
— Você não pode estar falando sério, Malu! — disse Maurício.
Maurício não conseguia entender o comportamento de Malu. Malu vinha se comportando de maneira diferente do que ele esperava. Malu era sensível, romântica, nunca foi muito atirada. Nunca foi dada a relacionamentos sem compromisso. Porém, ela deixou claro que não estava pronta para assumir um relacionamento e que queria ter apenas uma amizade colorida com ele. Queria apenas curtir. E na noite anterior, Malu ficou com o babaca do Érico. Aquela não era a Malu que ele conhecia. Ela estava se revelando uma completa desconhecida. Ele estava gostando de Malu de verdade, mas Malu não queria compromisso com ele.
— Tô. Qual é o problema de eu fazer amor com o Érico? — perguntou Malu.
— Você ia fazer sexo com o Érico. — disse Maurício, e apontou para si. — Amor você fez comigo, Malu!
— Ui! — disse Giane, que estava ouvindo a conversa.
— Vocês estão juntos mesmo? — perguntou Bento.
— Peraí, gente, eu não tô com ninguém! — disse Malu.
— E esse é motivo pra você sair por aí querendo transar com qualquer um? — perguntou Bento. Não conseguia entender. Malu dizia não estar com ninguém, mas transou com Maurício. E falou em transar com Érico.
Bento era outro que estava estranhando o comportamento de Malu. Malu vinha agindo de uma maneira diferente. O que estava acontecendo com ela? Estava preocupado com Malu. Achava que ela estava querendo se vingar dos homens. Era o que estava parecendo. Malu sofreu muito. Primeiro gostou do Maurício e não foi correspondida, pois Maurício só enxergava Amora, até ficou noivo dela. Depois Malu gostou dele, Bento. Porém, teve a história do DNA, e Malu descobriu que era irmã dele. Ele acabou se casando com Amora. Malu já tinha raiva de Amora, e parecia que também estava com raiva dele e de Maurício.
— De onde vocês tiraram que vocês podem me julgar desse jeito? Hein? — disse Malu, indignada. Dirigiu-se a Maurício. — Me fala! Você, me fala! Logo que você terminou com a Amora, você não foi correndo atrás da Lara mesmo sabendo que ela era mau-caráter? Não fez isso?
— Não, mas eu... — disse Maurício. Ele sabia que Lara não era flor que se cheire, mas ela sabia ser legal quando queria e o tratava bem. Além do mais, santo ele nunca foi. E não se tratava de julgar a Malu. Ele estava apenas estranhando o comportamento dela.
— Não, peraí. E você? — disse Malu, dirigindo-se a Bento. — Você não ia pra cama com a Charlene na base da amizade colorida? Nossa, vocês... Vocês são engraçados, né? Vocês podem fazer tudo, tudo, qualquer coisa, aí, a mulher chega, vai fazer uma coisa parecida, aí é vagabunda, não é isso?
Malu não entendia como Maurício e Bento podiam se achar no direito de terem relacionamentos casuais, e ela não. Só porque ela era mulher? Será que era tão difícil assim para eles entenderem que ela queria ter um momento só dela, que não queria namorar com ninguém?
Pela primeira vez na vida, ela estava pensando nela. A vida inteira, ela viveu em função dos outros. Ela fazia de tudo para ver as pessoas à sua volta felizes, e seus desejos e vontades ficavam em segundo plano. Agora ela queria pensar mais nela, conhecer outras pessoas, viver experiências diferentes, qual era o problema? Estava apenas experimentando.
Ela precisava se descobrir, se conhecer melhor, saber o que queria. Precisava viver a vida dela. Ela nunca havia ficado com ninguém. Agora sabia como era. Foi bom ficar com Érico. Malu se arrependeu de não ter conhecido, ficado e até namorado com outros rapazes antes. Em vez de sair com outros caras, ela ficou a vida toda sonhando, suspirando por Maurício sem ser correspondida, porque ele só tinha olhos para Amora. E depois de tudo o que ela, Malu, havia passado com o Bento, ela precisou de um tempo para se recuperar. Mas a avó dela estava certa, ela não tinha nada que ficar se resguardando. Não valia a pena continuar sofrendo, até porque o Bento já tinha seguido em frente e casado com Amora.
Malu seguiu o conselho da avó e decidiu perder a virgindade com Maurício, até porque ele foi seu primeiro amor. Ela realizou um sonho antigo. Mas por mais maravilhoso que tenha sido, ela não queria namorar sério, pelo menos por enquanto. Por isso decidiu ter apenas uma amizade colorida com Maurício. Ela queria ser livre para fazer o que quisesse, ficar com quem quisesse. Não estava nem um pouco a fim de se apaixonar e quebrar a cara de novo. Já havia sofrido demais.
Todos os rapazes que ela se apaixonou, namorou, eram da Amora. Não era à toa que Amora dizia que ela era invejosa. Malu agora achava que devia ter saído com outros caras, em vez de ficar sofrendo por Maurício ou por Bento, disputando com Amora. Porém, antes tarde do que nunca. Na noite anterior, pela primeira vez, dois homens a disputaram, brigaram por ela e isso lhe deu uma autoconfiança danada. Era desse tipo de experiência que ela precisava para se sentir mulher, se sentir desejada. Ela sempre desejou. Primeiro desejou Maurício, depois desejou o Bento. Tudo o que Malu queria era ser amada, desejada, como Amora era. Ela morria de vontade de encontrar alguém que gostasse dela de verdade. Queria amar e ser correspondida. Mas Maurício e Bento só queriam saber da Amora.
Malu agora se dava conta de que passou a vida inteira esperando ser amada, e que ficou rastejando atrás de homens que só enxergavam a Amora. Malu cansou disso, e achava que merecia mais que isso. Por isso decidiu conhecer outros rapazes. Não queria passar a vida disputando homens com Amora, e não se sentia segura para começar um namoro firme. Não queria precipitar as coisas, nem estragar a amizade, a parceria entre ela e Maurício. Além do mais, ela duvidava que Maurício gostasse dela de verdade. Ele sempre gostou da Amora, a vida inteira. Prova disso era que Maurício continuava defendendo Amora, o que era motivo de briga entre eles. Maurício disse várias vezes que a amava, mas Malu não acreditava. Ela morria de medo de voltar a se apaixonar por Maurício, e ele voltar correndo atrás da Amora. Ainda mais agora, que o casamento de Bento e Amora estava em crise. Malu não queria sofrer novamente. A última coisa que queria era ser um estepe, ou um prêmio de consolação para alguém. E todas as vezes em que ela se apaixonou, não deu certo.
— Não é isso, Malu! Não é isso! — disse Bento. — É que você... Você é uma menina especial. Você... É sensível.
No ponto de vista de Malu, Bento confundia ser sensível com ser santa imaculada. Estava mais do que na hora de ele parar de enxergá-la como uma mocinha pura, ingênua e bobinha. Era tudo o que ela não era. Ela podia não ser tão experiente em relacionamentos amorosos quanto Amo-
ra, mas não tinha nada de boba. Definitivamente, Bento não a conhecia. Não o suficiente. Ela era íntegra, bondosa, sensível, gostava de romantismo e de cavalheirismo. Mas estava longe de ter vocação para ser freira. Ela ficou com o Érico porque quis. Ela quis saber como era ficar com alguém. E tinha sido apenas um beijo, nada mais. Érico não se aproveitou dela, não fez nada contra a vontade dela, nem forçou nada. Mesmo que ela tivesse ido para a cama com Érico, ninguém teria nada a ver com isso. Malu não imaginava que um beijo ia dar tanta confusão.
— Mas eu não sou santa, nem quero ser. — disse Malu. — Eu tenho as minhas necessidades, os meus prazeres, como qualquer outra mulher. Que isso?
— Pois eu tô muito decepcionado com você, Malu. — disse Maurício.
— Não, peraí, decepcionada quem tá aqui, sou eu, com o machismo de vocês dois, tá? — disse Malu. — Eu vim aqui, Bento, pra falar sobre a nossa ONG, sobre coisa importante. Não pra debater a minha vida íntima, nem a de vocês. Mas já que tá todo mundo chateado um com o outro aqui, tudo bem, eu vou embora.
— Malu, peraí, que eu vou te ajudar no projeto. Vamos. — disse Giane.
Giane e Malu saíram da loja. Conversaram um pouco sobre a ONG. Tiveram ótimas ideias. Depois, Malu foi para a Toca do Saci, e Giane voltou para a Acácia Amarela. Plínio apareceu na loja, e ele e Bento conversaram sobre a Malu.
— E o que é que você quer que eu faça a respeito? — perguntou Plínio.
— Não sei, Plínio. Conversa com ela. Isso tá parecendo desforra. — disse Bento.
— Que isso? A Malu tá só se divertindo. — disse Giane.
Do ponto de vista de Giane, Malu era livre, desimpedida e podia fazer o que quisesse da vida dela. Era natural que Malu tivesse vontade de conhecer gente nova, viver experiências diferentes. Giane havia conversado bastante com Malu, e sabia que ela ainda não se sentia pronta para ter um relacionamento sério. Malu estava com medo de se apaixonar e ser magoada novamente. Também, depois de tudo o que ela passou, não podia ser diferente. Primeiro ela se apaixonou por Maurício, mas ele era noivo da Amora e não a correspondia. Depois, ela se apaixonou por Bento, mas descobriu que era irmã dele. E Bento acabou casando com Amora. Malu perdeu dois homens ela amou para Amora. Era natural que ela não se sentisse segura com Maurício e quisesse conhecer outros caras.
A vida não havia sido nada fácil para Malu. Todas as vezes em que ela se apaixonou, não deu certo e ela estava com medo de sofrer. Malu colocou na cabeça que amar era sofrer. Malu teve sua primeira vez com Maurício, mas era por que eram amigos, se davam bem e ela o amou um dia. Maurício foi o primeiro amor de Malu. Mas isso não significava que ela quisesse compromisso, pelo menos por enquanto. Estava só ficando com Maurício. Maurício queria namorá-la. Mas Malu precisava de um tempo para si mesma, para se descobrir. Precisava se sentir segura, para somente dali a algum tempo, conseguir se envolver com alguém. Malu precisava de um tempo para deixar passar o medo. Giane achava que Bento devia era tentar entender a Malu, em vez de julgá-la. Maurício também.
— É, mas ela não é assim, gente. — disse Bento. — A Malu é uma menina recatada, poxa.
— Bom, mas também a Malu tem direito a ter o seu momento de leviandade. Ela sempre foi tão certinha. — disse Plínio. Ele conhecia Malu como a palma da mão. Entendia as razões da filha e não a condenava. A filha sempre foi sua parceira, sua melhor amiga.
— O Bento tá é com ciúme, Plínio! — disse Giane.
— Não confunda ciúme com cuidado! — disse Bento.
— Posso saber de quem que vocês estão falando? — perguntou Amora, entrando na loja neste momento.
Bento suspirou.
— Da minha irmã. — disse o rapaz.
— Ah, o Plínio já sabe que a Malu agora é periguetinha? — perguntou Amora. Na opinião dela, Malu andava muito atirada. Se bem que ela até preferia Malu mais atirada. Era mais de verdade. Daquela songa monga ela não gostava. Malu finalmente resolveu se desfazer da imagem de garota recatada. Amora sempre soube que Malu não era nenhuma santa.
— Será que você pode não falar assim da Malu? — perguntou Bento. — Mesmo que fosse, ninguém teria nada a ver com isso! — disse Plínio. Giane ficou indignada. Amora não tinha nada que falar mal da Malu.
Que moral ela tinha? Era mau-caráter, estava sempre mentindo, fazendo intriga, armando um monte, e nunca foi uma mulher recatada. Não tinha nada que chamar Malu de periguete. Giane achou que Amora estava merecendo uma lição. Então resolveu pegar uma foto que tirou de Bento.
— Amora, tó pra você. Foto do maridão. — disse Giane, entregando a fotografia para Amora. — Tá bonito, né? Feliz.
Amora olhava para a foto do marido, sorrindo.
— Pois é. É assim que ele fica quando ele tá longe de você. — disse Giane.
Giane viu que Amora ficou chateada.
— O que é isso, Giane? — perguntou Bento. Não gostou nada do que Giane disse para Amora. Ele até entendia que Giane quis defender a Malu. Mas Giane não precisava dar patada na Amora.
— É verdade! Quando você não tá com ela, você fica ótimo. — disse Giane.
— Isso é um problema meu e da Amora. — disse Bento. Achava que nem Giane, nem ninguém tinha nada a ver com seus problemas conjugais.
No ponto de vista de Giane, não era apenas um problema dele. Amora vivia atormentando a vida de todo mundo, sem o menor remorso. Bento só continuava casado com Amora por pena, e porque ela sempre arrumava novas maneiras de enrolá-lo. Agora resolveu trazer a irmã e os sobrinhos para a Casa Verde, para Bento ver que ela se reconciliou e se acertou com a irmã. Amora fazia de tudo para Bento não se separar dela. Simone agora estava morando com os filhos na casa que pertence à Madá e Emília, e onde Tina também estava morando. Madá e Emília agora estavam vivendo na mansão, com Bárbara, Malu e os irmãos adotivos dela.
Giane virou-se e olhou para Bento.
— Não. Isso é problema de todo mundo. Você não é dela, Bento. Você é nosso. — disse Giane. Dirigiu-se à Amora. — Também, só esfreguei essa foto na sua cara, porque você chamou de periguete a minha amiga Malu.
Resolveu sair um pouco da loja. Acabou de ter uma briga feia com Amora e com Bento. Era melhor ficar algum tempo fora, tomar um pouco de ar, deixar a poeira abaixar. O dia não estava sendo nada fácil. Mas voltou para a loja para ajudar Bento. Amora já tinha ido embora, Plínio também. Giane ficou ajudando Bento na loja. Mais tarde, foram buscar os sobrinhos de Bento, André e Mayara, na Toca do Saci. Giane ficou esperando na van, e Bento entrou na Toca para dar uma palavrinha com Malu e pegar os sobrinhos.
Bento acabou se desculpando com a irmã. Reconheceu que agiu como um idiota. Malu tinha todo o direito de transar, de ficar com quem quisesse. Ele só ficou preocupado porque ela estava agindo de maneira diferente, e ele insistia em enxergá-la como uma moça pura e ingênua. Além do mais, ele sentiu ciúmes dela. Ciúmes de irmão mais velho. Mas agora se dava conta de que, em vez de cuidar da vida da Malu, era melhor focar no projeto, na fundação que ele e Malu iam abrir juntos. Chegando à Casa Verde, Giane e Bento desceram da van com as crianças.
— Bento, pode deixar que eu levo eles pra casa, tá? — disse Giane, fechando a porta da van e pegando nas mãos das crianças.
— Obrigado, Giane. — disse Bento. Não estava com uma cara muito boa.
— O quê que foi? Vai pra algum enterro? — perguntou Giane.
— Que enterro, Giane? Eu vou pra casa. — disse Bento.
— Com essa cara, Bento? Olha, se o casamento tá assim no primeiro mês, eu acho que você podia repensar, né? Vamos, crianças. — disse Giane.
No ponto de vista de Bento, era curioso como todo mundo ficava dando pitaco no casamento dele. Todo mundo achava que ele devia repensar se valia a pena continuar casado com Amora. Mas o pior era que Giane estava coberta de razão. Ela não era a única a pensar que ele era outra pessoa quando estava longe de Amora. Irene também havia feito um comentário parecido, mas ele não quis dar o braço a torcer e disse que apenas tinha uma vida independente da vida da Amora. Mas era para ele estar feliz. Devia ficar animado ao voltar para casa. Ele costumava ser mais alegre, sorrir com mais frequência. O casamento não ia nada bem. O que era triste, pois o casamento mal havia começado e ele havia se casado por amor. Até pouco tempo atrás, acreditava que Amora era a mulher da vida dele, e que o amor deles podia superar todos os problemas. Como podia tudo ter desmoronado daquele jeito, em tão pouco tempo? Mas ele não tinha coragem de abandonar Amora em um momento tão difícil. Ela estava doente, com problemas, precisava de ajuda. Amora precisava não apenas de terapia, como também se sentir acolhida. Foi o que ele disse a Plínio mais cedo. Amora no fundo se sentia muito sozinha, e ele morria de pena dela.
Giane levou as crianças para a casa. Estava andando na rua, e havia chegado em frente à sua casa, quando ouviu um barulho. Alguém bateu na grade. Olhou no terreno ao lado de sua casa e viu que era Fabinho. Ele estava sentado no chão, no mesmo local onde haviam jogado bola na última vez. Bateu na grade mais umas duas vezes. Giane resolveu se aproximar. Andou até onde ele estava. Fabinho ergueu os olhos e a viu.
— Fabinho, o quê que houve, cara? — perguntou Giane.
— Vai embora, Giane. — disse Fabinho.
Ela não iria embora até saber o que tanto o afligia.
— Não. — respondeu Giane, decidida, agachando-se e ficando ao nível dos olhos dele. — Me fala, o quê que aconteceu?
— Eu sou perigoso. Você não lembra que eu sou perigoso? — disse Fabinho, levantando-se. — Esqueceu que sou perigoso?
Ele deu as costas a ela e se afastou.
— Como assim, perigoso? Tá louco? — disse Giane, levantando-se e seguindo-o.
Para Giane, Fabinho não representava nenhum perigo. Além do mais, ele mudou. Estava se esforçando para melhorar. Ela o amava e detestava vê-lo tão arrasado.
— Fabinho, anda, me diz. O quê que houve? — perguntou Giane.
Fabinho parou diante da grade, as mãos tocando o ferro frio.
— Alguém de dentro da agência entregou a nossa campanha pro Natan e o Érico pensa que fui eu e me mandou embora. — disse Fabinho. As palavras saíram todas de uma vez. Deixou escapar um suspiro, misturado a uma risada irônica. — Mas também, era muita loucura isso, né? Sonhar que eu ia ter outra chance. Não adianta, as pessoas sempre vão lembrar do meu passado. Vai todo mundo sempre me julgar pelo que eu fiz. Aconteceu alguma coisa, a culpa é do Fabinho. Eu tô perdido, Giane. Não tenho saída, a minha mãe não acredita em mim, ninguém acredita em mim.
Ela acreditava. Fabinho mudou. Ele agora trabalhava de maneira honesta. Estava indo bem na agência. Estava se dedicando, levando a sério o trabalho. Não fazia mais corpo mole nem ficava puxando saco do Érico ou da Sílvia. Apenas fazia a parte dele. Fabinho havia deixado as armações para trás. Nunca mais aprontou nada. Além do mais, a campanha havia sido ideia dele. Fabinho jamais entregaria uma ideia dele de bandeja para o Natan. Ele odiava o Natan. Ele não deixaria o Natan ou qualquer outra pessoa levar os créditos por uma ideia dele. Podia ter sido outra pessoa. Não dava para achar que tudo de ruim que acontecia era culpa de Fabinho. Mas é claro que não apenas o Érico, como todos na agência acharam que foi Fabinho, por conta do seu passado, do histórico dele. Não dava para culpá-los, mas, mesmo assim, Giane acreditava na inocência de Fabinho. Ficou com pena.
Aproximou-se do rapaz e colocou a mão no ombro dele. Fabinho virou-se. Giane viu que ele estava com os olhos vermelhos, cheios de lágrimas. Isso partiu-lhe o coração. Segurou o rosto dele entre as mãos.
— Eu acredito em você. — disse Giane, olhando-o diretamente nos olhos.
— Tá. — sussurrou Fabinho, incrédulo, desviando o olhar.
— É sério. Eu acredito em você! — disse Giane, emocionada.
Aproximou-se ainda mais, ficando a meros centímetros do rosto dele.
— Eu juro! — disse Giane, tocando o rosto dele com as mãos novamente.
Amava-o tanto! Mas não conseguiria expressar o que estava sentindo com palavras. Ela queria cuidar dele, protegê-lo, defendê-lo, daria tudo para fazer sua dor passar.
Seu coração bateu acelerado. Inclinou o rosto e aproximou os lábios dos dele, sem tocá-los. Fabinho entreabriu os lábios, ofegante. Estava segurando-a pela cintura. Giane inclinou o rosto para o outro lado e mais uma vez aproximou os lábios. Ele continuava com os lábios entreabertos. A garota não resistiu. Queria tocá-lo, sentir o gosto de sua boca. As mãos dela se lançaram em torno dos ombros e dos cabelos dele, puxando-o, e suas bocas se uniram. Ela o beijou com sofreguidão, e ele correspondeu. A mão dele subiu pelas costas dela, pela nuca e emaranhou-se nos cabelos dela. Ela tocou o rosto dele com as mãos, ele a imitou. Havia língua, calor, saliva e respirações entrecortadas. Fabinho a puxou para mais perto, a mão estreitando a parte inferior das costas dela. Giane ainda segurava o rosto dele, beijando-o com vontade, e ele correspondia com ardor. Fabinho segurou a nuca dela novamente, afundando os dedos nos cabelos dela. Os dedos dela passearam pelos cabelos dele, apertando, quase puxando os fios próximos à nuca. Em seguida, a mão dela pousou no ombro dele, apertando o tecido da camisa. Continuaram se beijando intensamente, porém, Giane resolveu parar.
Ofegante, Giane afastou-se, apoiando a mão no ombro dele.
— Desculpa.
Fabinho nem a ouvia. Segurou-a e empurrou-a em direção à grade, ao mesmo tempo em que tascou outro beijo nela. Giane correspondeu ao beijo com a mesma intensidade, abraçando-o. Fabinho se virou, colocando-a de costas para o outro lado da grade, sem desgrudar os lábios dos dela. O barulho da grade balançando com seus movimentos misturava-se ao som dos beijos que trocavam. Suas mãos passeavam em seus rostos, nucas e ombros.
Giane decidiu empurrá-lo, antes que fizessem uma loucura. Precisava sair dali, antes que fosse tarde demais. Não podia se precipitar e estava assustada com a atração quase incontrolável que sentia por ele.
— Não! — disse a garota, e saiu correndo.
— Giane! Giane, calma! Giane! — Fabinho chamou, porém, ela não deu ouvidos.
Giane foi direto para casa. Quando entrou, o pai estava na sala, assistindo à televisão. Foi logo para o quarto, sem dar atenção para ele.
— Oi, filha. Chegou bem na hora do seriado. — disse Silvério, porém, Giane nem o ouviu.
Entrou no quarto, fechou a porta e jogou-se de costas na cama. Passou as mãos na cabeça. Virou-se de bruços, e passou a mão nos lábios, lembrando-se do beijo. Realmente, havia sido um beijo inacreditável, ávido, intenso, cheio de paixão. Nunca havia beijado, nem sido beijada desta maneira. Não podia acreditar.
Com Caio não foi assim. Também nunca foi apaixonada por Caio. Além disso, Fabinho era completamente diferente de Caio e de Bento. Com Caio era tudo morno e previsível, ela sabia exatamente o que esperar. Bento por muito tempo foi o sol da vida dela. Ela ansiava por um calor que a aqueceria, e acreditava que isso era o ápice do desejo. Fabinho era o incêndio. Ele era o caos, o mistério, o desconhecido. Estava sempre surpreendendo-a. Enquanto Bento a acalmava, Fabinho a incendiava, fazia seu sangue ferver, coisa que nem Bento nem Caio haviam conseguido.
Ela estava impressionada. Até pouco tempo atrás, achava que Fabinho era uma pedra de gelo. Estava enganada. Ela descobriu que ele era mais sensível do que parecia. Agora ela estava sabendo que ele era um vulcão, e ele lhe proporcionou sensações incríveis. Agora, não podia negar para si mesma que estava perdidamente apaixonada por Fabinho. Ainda podia sentir seus lábios nos dele, o gosto do beijo. Foi maravilhoso. Encostou novamente a boca na mão. Sorria, ao lembrar do que acabou de acontecer. Encostou várias vezes a boca na mão. Não conseguiu mais tirar o beijo da cabeça. Não sabia se conseguiria dormir.
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