Um amor inesperado

3 Presente de grego


Giane e Bento continuavam trabalhando na floricultura. Até Socorro foi à loja, e começou a olhar umas flores que estavam expostas. Ela disse:

— Ai, essas aqui são bonitas pra enterro. Quanto é?

— Imagina, Socorro, você acha que eu vou cobrar de você? — disse Bento, gentil. Ele jamais cobraria da irmã de criação. — Pode deixar que eu faço um arranjo. Mas quem foi que morreu?

— O Jonathan James. Estou indo pro enterro agora. — disse Socorro.

Jonathan James era um frentista que conseguira espaço na mídia por ter se casado com Bárbara Ellen. Ele virara ator, um galã de novelas, e ganhara bastante dinheiro. Tudo isso graças à influência de Bárbara. Ele morreu ao cair do cavalo e quebrar o pescoço.

— Tá brincando! — disse Giane. — Agora, além de babar ovo da Amora, você vai puxar saco de Bárbara Ellen?

No ponto de vista de Giane, Socorro era uma boba. Ela se perguntou se Socorro não tinha nada mais para fazer da vida, além de ficar puxando saco de gente famosa, que não estava nem aí para ela. Também se perguntou o que Socorro iria fazer no enterro. Na opinião de Giane, Socorro deveria ir trabalhar e cuidar da própria vida. Socorro até faltava ao trabalho, ou se atrasava para ir atrás da Amora. Socorro se comportava como se ela e Amora fossem grandes amigas, mas Amora não estava nem aí para ela. Giane tinha pena ao ver a garota correr atrás de quem só a esnobava. Giane não conseguia entender como Socorro podia ter adoração por uma pessoa que mal conhecia. Quando Socorro chegou ao lar, Amora já havia sido adotada pela Bárbara. Socorro só conhecia a celebridade, a it-girl, mas da verdadeira Amora, Socorro não sabia absolutamente nada.

— Olha aqui, esse é um momento muito difícil pra família da Amora e você devia ter mais respeito por elas, hein? — disse Socorro.

Na verdade Socorro não se importava com Jonathan, tampouco com Bárbara. Mas tinha certeza de que encontraria Amora no enterro e queria prestar solidariedade, além de passar um tempo com ela. Ela amava e admirava Amora por ter alcançado o estrelato. Na opinião dela, Amora era uma guerreira, uma vencedora. Amora viera de baixo, era órfã como ela, vivera na mesma casa que ela e virara modelo e apresentadora. Era a maior it-girl do país, fonte de inspiração para muitas garotas, inclusive ela. Para Socorro, Amora era um exemplo de vida, a sua estrela-guia. Socorro queria ser “top” igual a Amora. Ela tinha consciência de que nunca seria alguém igual à Amora. Mas Socorro acreditava que, se ela ficasse perto da Amora, tinha certeza de que alguma coisa iria sobrar para ela.

— Ô garota, você não devia chamar Socorro não. — disse Giane. — Sabe qual devia ser seu nome? Era capacho.

Socorro saiu e ficou esperando em frente à loja. Giane continuou falando:

— Puxa-saco, viu? Também tomara, tomara que a Amora faça pra ela a mesma cara de nojo que ela fez pra gente ontem. Não é não? — e olhou para o Bento, que fechou a cara.

Bento estava ficando cansado de ouvir Giane falar o tempo todo o quanto Amora era metida. Ele se perguntou por que Giane não esquecia Amora. Na opinião dele, Giane não tinha nada que ficar lembrando que Amora havia virado a cara para ele, pois isso era para ele o mesmo que ficar botando o dedo na ferida. A rejeição de Amora o machucava profundamente. Além do mais, a implicância de Giane com Amora o irritava.

— Ué, cara, é mentira? Pô, que cara é essa? — perguntou Giane.

— Porque às vezes não dá pra aguentar você, Giane, você está insuportável de chata. — disse Bento, tratando de fazer o arranjo das flores que Socorro pediu.

— Ah é, né? Aquela nojenta te trata mal e eu que sou chata, né? — reclamou Giane. — É isso mesmo, Bento? Eu que sou chata?

Bento foi atrás de Socorro.

— Aqui, Socorro. — disse Bento, entregando as flores para Socorro.

— Obrigada, Bento. Tchau, gente! — Socorro despediu-se.

— Tchau! — disse Wesley, o garoto que ajudava Bento e Giane na loja.

Socorro pegou o primeiro ônibus que apareceu. No horário de almoço, Giane, mal-humorada, foi direto para casa. Ficou emburrada a manhã inteira por causa da discussão com Bento. Estava irritada por ele tê-la chamado de chata. Tudo por causa daquela nojenta da Amora. Foi andando na van, dirigindo e ao chegar na rua, quase atropelou Lucindo. Ele havia atravessado a rua sem olhar. Giane levou um susto enorme. Lucindo gritou:

— Pô!

— Pô! — gritou Giane.

— Você tá louca, sua maloqueira! Quê que é? Você tirou a carta ontem?

— Sai da frente! Não enche o saco! Cala a sua boca, imbecil! Sai da frente, vai te catar, ah! — gritou Giane.

— Ah, vai embora! — disse Lucindo, saindo de frente da van.

Ao chegar em casa, Giane bateu a porta. O pai, Silvério, que estava em frente ao computador, assustou-se ao ver a filha tão furiosa.

— Nossa, o que foi isso? — perguntou Silvério.

— Como é que o Bento ainda pode ficar pensando na Amora, hein? — reclamou Giane, enciumada, atirando no chão os tênis que havia tirado dos pés ao entrar em casa.

Ela não conseguia entender por que Bento não esquecia Amora. Para Giane era realmente impressionante, o tempo passava e Bento ainda pensava na Amora. Parecia gostar de sofrer. Depois que foi adotada por uma família rica, Amora só o tratava mal. Bento ainda não havia se tocado de que aquela garota que ele conheceu na infância não existia mais.

Giane foi até a geladeira, e tirou de lá uma garrafa d’água. Silvério perguntou:

— Giane, me diz uma coisa: o Bento sabe que você gosta dele?

— Quê que é isso, pai? Não é nada disso que o senhor está pensando, não.

— Ah, não? Então porque essa crise de ciúmes?

— Eu não tô com ciúme, pai. Eu tô com raiva. — disse Giane, indo em direção à sala, com um copo d’água. — Tô com raiva do Bento porque ele é muito burro, entendeu? — sentou-se no sofá. — Ainda vem me chamar de mala, de chata.

Bebeu água e deixou o copo em cima da mesinha de centro.

— É, pelo visto, hoje o nervosismo é geral. — disse Silvério, indo em direção ao computador. — Quem passou pela rua chorando foi o Filipinho. Outro teste musical. E adivinha só o que aconteceu?

Era óbvio que Filipinho não havia passado no teste. Giane não conseguia entender por que Filipinho não desistia desta história de ser ator de musical. Ele devia era procurar um outro emprego, algo que fosse estável, para complementar o que ele ganhava como garçom do Cantaí.

— Hum! Outro cabeça-dura, né pai? Outro cabeça dura! — disse Giane, tirando o casaco e deitando-se no sofá. — Por quê que homem tem que ser tão teimoso, hein?

A garota passou o resto do dia trabalhando. Continuou de mau humor. Não olhou mais para o Bento, nem falou com ele. Ambos estavam colhendo as flores no jardim, quando Bento levantou-se e disse, assim que ela passou por ele:

— Ô Giane!

Ela fez que não ouviu e continuou andando. Bento insistiu.

— Giane! Eu queria te pedir desculpas.

Giane parou, e Bento disse:

— Eu acho que eu fui grosso com você.

Bento se deu conta de que não precisava falar daquele jeito com Giane. Giane era sua melhor amiga e se importava com ele. Ela só não gostava de ver Amora tratando-o mal. E o pior era que ela estava certa.

— Pô, Bento! — disse Giane. — Eu não ligo pra você me chamar de mala, não. Mas você me chamar de insuportável por causa da Amora é sacanagem, né cara?

— Você tem razão sobre tudo, principalmente sobre Amora. — disse ele.

Ele acreditava que Giane tinha razão. Amora havia se transformado em uma garota esnobe. Mal olhou na cara dele no flash mob, nem veio falar com ele. Bento chegou à conclusão de que talvez Amora tivesse vergonha dele, por ser pobre. Bento pensava que era impressionante como o dinheiro mudava as pessoas, fazendo-as esquecer os afetos. No ponto de vista dele, não havia justificativa para falta de consideração.

Giane sorriu, sem que ele estivesse olhando. Era tudo o que ela queria ouvir. Horas depois, quando ela e Bento estavam descendo da van em frente à casa dela, foram abordados por um homem.

— Senhorita Giane? Uma entrega para a senhora. — disse ele, entregando uma sacola para ela.

— Valeu! Bom dia! — disse ela, assentindo, e retirou um cartão de dentro da sacola. Ao verde quem era o presente, Giane deu um sorriso irônico.

Ela olhou e viu que se tratava de uma caixa com um lindo par de sapatos, mas que não faziam o estilo dela. Bento tomou o cartão da mão dela e leu: “Obrigada pelo simpático reencontro. Adorei a Acácia Amarela”. Para Giane estava na cara que o bilhete era irônico. Pensou que Amora não podia deixar de alfinetá-la. Viu que Bento ficou furioso, e explodiu com ela:

— Como é que é, Giane? A Amora esteve hoje na loja e você não me disse nada? Por que?

Giane ficou quieta. Bento insistiu:

— Por que você não me falou que ela foi me procurar?

— Pra você não ficar assim, Bento. Você fica aí achando que a Amora ainda é aquela garotinha doce, meiga da infância. Isso é porque você não sabe a fulaninha metida que ela virou. — explicou Giane.

Para Giane, o problema era que Bento ainda guardava aquela imagem da namoradinha de infância, da menina doce, carinhosa e parceira, que andava com ele para lá e para cá. Bento acreditava que Amora não havia mudado tanto assim, que tudo seria como antes, se eles se reencontrassem. No entanto, Giane acreditava que Amora não era mais aquela menina. Amora foi adotada por uma atriz famosa e rica, foi criada com todo o mimo. Amora acabou deixando-se corromper por um mundo de fama, luxo e glamour. Com certeza ela deixou que tudo isso lhe subisse à cabeça. Certamente tinha vergonha do passado de pobreza. Na opinião de Giane, Amora não passava de uma patricinha deslumbrada e voluntariosa. Em seu raciocínio, se Amora não fosse tão metida, tão esnobe, não teria ficado tantos anos sem ter visitado o Bento ou os donos do lar onde ela foi criada.

Bento não concordava com Giane. Amora foi visitá-lo na loja. Isso significava que ela ainda se lembrava dele, ainda se importava com ele. Certamente, ela sentiu saudades dele. Chegou à conclusão de que Amora não tinha vergonha dele, afinal. Nem das pessoas que a criaram.

— Se a Amora é tão metida, o quê que ela foi fazer na loja? — perguntou Bento.

— Eu sei lá. Foi lá pra te esnobar ou me esnobar, né? — disse Giane.

Na opinião de Bento, Giane devia ser menos desconfiada e parar de implicar com Amora. Ele se perguntou se Giane achava mesmo que Amora se daria ao trabalho de vir de um bairro tão distante para humilhá-los, ainda mais depois de tanto tempo sem aparecer. Ele duvidava.

— Por que ela se abalaria dos Jardins pra esnobar a gente? E esse sapato que ela te deu? Foi em agradecimento a quê? Aos que você deu a ela quando ela chegou no lar do tio Gilson? — disse Bento, irritado.

— Você acha que ela lembrou que aquele sapato era meu?

— Eu não acredito que você jogou isso na cara dela.

No ponto de vista de Bento, metida era a Giane, que ficava jogando as coisas na cara da Amora. Giane sabia ser chata quando queria.

— Joguei mesmo, pra ela parar de se sentir melhor do que a gente. Chegou aqui me olhando de cima. Mandei ver. — disse Giane.

Na opinião de Bento, se Amora realmente se considerasse superior a ele e às pessoas que a tinham criado, não teria aparecido na loja.

— Quer dizer então que a Amora veio me visitar, você desancou a coitada daqui e ainda acha que a sacana e arrogante é a Amora?

— E não é, Bento? Olha esse sapato aqui, cara. Ela só me deu isso porque sabe que eu nunca usaria um troço desse. Foi o jeito que ela encontrou de pisar ainda mais na gente, cara. — disse Giane.

No ponto de vista de Bento, Amora seria incapaz de pisar em alguém. Ele acreditava que Amora havia dado os sapatos para agradecer, porque Giane fez questão de jogar na cara dela que havia dado os sapatos quando ela chegou no lar do Gilson. E depois a arrogante era a Amora.

— Isso não é verdade, Giane. Você não tinha o direito de destratar a Amora e de esconder de mim que ela foi me procurar. — disse Bento, indignado.

— Cara, quer saber? Eu desisto. Não importa mermo né, o que a Amora faz, o que ela diz. Você vai aí continuar correndo atrás dela feito um cachorrinho, “au-au”. Fala sério! Você quer quebrar a cara com a patricinha? Então vá em frente.

— Se eu quebrar, o problema é meu, entende isso? Para de se meter na minha vida, Giane. Você não tem vida própria, não? Saco! — Bento explodiu. Detestava a mania que Giane tinha de se intrometer em sua vida.

O rapaz saiu andando, e Giane disse:

— Ô Bento!

— Me erra, Giane! — disse Bento.

Furiosa, Giane jogou a caixa de sapatos na lixeira.

À noite, foi jogar futebol com os rapazes da vizinhança, como de costume. Adorava jogar futebol com os rapazes da rua, e modéstia à parte, ela jogava bem, melhor do que muitos homens do bairro.

— Ô mano, segura essa mina, véio! — gritava Lucindo, enquanto a garota chutava a bola em direção ao gol. O time dela acabou marcando um ponto.

— Gol! — gritaram.

Jonas começou a chutar a bola. Giane, ao tentar tomar a bola dele, acaba derrubando-o. Douglas apitou.

— Isso é falta! Tá louca? — reclamou Douglas.

— Tá pensando o que? Tá maluco? Que mané falta? — protestou Giane, e Lucindo segurou-a, procurando separá-la de Douglas, impedindo-a de partir para cima do garoto.

— Me solta, seu palhaço! Tá pensando o que? — gritou a garota, desvencilhando-se.

— Olha aqui! Você tá muito truculenta! Isso aqui não é MBA, não! — disse Lucindo.

— Vocês não sabem jogar, não. Bando de Bambi: “ai, ai, ai, não toca em mim”. Ah, palhaçada! — gritou Giane. Empurrou Douglas, tirando-o de seu caminho e saiu andando.

— Sai daqui! — disse Jonas.

— Quê que é, mano, quê que é? — gritou Lucindo. — Me segura aí, mano, me segura que eu vou dar nela!

Giane aproveitou para ir falar com Bento, que estava regando as flores em sua casa. Precisava se explicar. Bento estava de costas para ela. Sabendo de quem se tratava, Bento disse:

— Vai ficar aí sem dizer nada?

Bento a conhecia o suficiente para saber que ela viria atrás dele se desculpar. Além do mais, ele sentiu o cheiro dela. Conhecia bem o cheiro característico dela. Giane estava toda suada, por causa do futebol.

— Ô Bento. Eu vim aí te pedir desculpas, cara. — disse Giane. — Eu... Eu sei que errei de não ter te contado aí que a Amora teve lá na loja. Mas é... Eu queria poupar você, entendeu?

Bento virou-se e olhou para ela.

— Me poupar, Giane?

— Ô Bento, aquela garota, ela se acha melhor do que a gente, entendeu? Só quero te proteger.

Bento não concordava. Achava que Amora não se sentia melhor do que ninguém. Giane não precisava protegê-lo de Amora. Bento não acreditava que Amora fosse capaz de fazer algum mal a ele. Além disso, ele sabia se defender quando era preciso e não precisava da proteção de ninguém. Mas Giane o julgava ingênuo demais, achava que tinha de protegê-lo e ela por vezes o sufocava com esta proteção exagerada.

— Quem foi que te pediu pra você me proteger?

Giane não sabia muito bem o que dizer. Ela se perguntou se ele era capaz de entender oquanto ela gostava dele, e não suportava vê-lo sofren-do. As atitudes de Amora magoavam Bento, por isso Giane quis afastá-la dele.

— Eu gosto de você, cara. Ô, Bento, se você... Se você sofre, se você... Você ficar triste, eu fico triste também. Não tem ninguém que... Que queira mais o seu bem do que eu. — disse Giane, emocionada.

Bento entendeu as razões de Giane. Giane achou que Amora o faria sofrer. Ela só queria cuidar dele. Assim como ele sempre cuidou dela, protegendo-a e defendendo-a sempre que alguém zombava dela, a humi-lhava. Muitas vezes, por ser diferente das outras garotas, Giane era alvo de gozação. Mas Bento jamais deixava ninguém humilhá-la, não na frente dele.

— Tudo bem. Tudo bem, deixa para lá. Passou, vai. Esquece. Só não deixa isso acontecer de novo, tá? Agora, olha, vai pra casa e toma um banho que eu tô sentindo seu cheirinho daqui, viu? Sua molecona! — disse Bento, molhando-a com a mangueira.

— Idiota! — xingou a garota, assim que Bento se afastou.