Um amor inesperado

49 Plantando árvores e distribuindo mudas


No dia seguinte, Giane foi à Acácia Amarela, na intenção de dar uma mãozinha para o Bento. Porém, acabou tirando fotos dele, enquanto ele fazia os arranjos. Sempre que podia, tirava fotos, para praticar.

— Agora, dá uma olhadinha pra cá, vai. — disse Giane.

— Para! Para com isso, vai, Giane. — disse Bento, colocando a mão na frente da câmera.

— Ah, não vem fazer esse charme com esses olhos sedutores, bendito fruto entre as mulheres. — brincou Giane, rindo.

— Foi-se o tempo, tá, Giane? Agora eu sou de uma mulher só.

— Hum. Você não pensa nem um pouquinho na Malu? — perguntou Giane.

Afinal, até pouco tempo atrás, antes de casar com Amora, Bento foi apaixonado pela Malu. Bento descobriu que Malu era irmã dele. Mas os sentimentos não mudam de um dia para o outro por causa de um exame. Giane se perguntava se ele ainda pensava na Malu, de um jeito romântico. Ele se sentia irmão dela? Giane achava que Bento continuava casado com Amora mais por pena do que por paixão. O casamento dele estava em crise. E a história dele com a Malu foi interrompida de maneira brutal, quando ainda estavam apaixonados. A relação deles não terminou porque não se amavam mais, e sim porque descobriram que eram irmãos. Era natural que Bento tivesse dificuldade em enxergar Malu como irmã. Ele podia estar se perguntando como teria sido se ele e Malu não fossem irmãos, como teria sido se eles tivessem ficado juntos. Será que estariam juntos até hoje? Era uma pergunta difícil de se responder.

— A Malu tá muito bem com o Maurício. — disse Bento. Ele evitava pensar em Malu como namorada, até porque Malu era sua irmã. E continuava amando Amora, apesar de estar decepcionado com ela. Mas não estava mais tão apaixonado como antes. Ele ainda se importava com ela, se preocupava, sentia pena, necessidade de ajudá-la. Ainda tinha uma atração enorme por ela. Mas seus sentimentos estavam mudando.

Giane sabia que Malu estava se envolvendo com Maurício. Porém, não era nada sério, pelo menos por enquanto.

— Não foi isso que eu perguntei, né, Bento? — disse Giane.

— Ah. — disse Bento.

Giane o fotografou.

— Giane, para de ser chata, meu! — disse Bento, colocando a mão na frente da câmera fotográfica.

— O Fabinho também me chama de chata. Palhaço. — disse Giane.

Agarota pensou como era impressionante como tudo a fazia se lembrar de Fabinho. Até mesmo uma conversa normal com o Bento.

— “O Fabinho também”. Tá toda amiguinha dele, né? — perguntou Bento.

Bento não gostou de saber que Giane estava tão íntima de Fabinho. Não confiava no caráter de Fabinho. Ele era uma péssima influência. Bento achava que Giane devia andar em companhias melhores.

— É. Ele joga bola mal pra caramba, mas pelo menos, ele me faz dar umas risadas. — disse Giane.

O rapaz resolveu não discutir, então mudou de assunto.

— Falando nisso, você quer se divertir? Me ajuda a distribuir essas mudas pela cidade. Você conhece o Projeto Verdejando? — disse Bento, pegando uma caixa com mudas e colocando-a sobre o balcão. — O objetivo é espalhar o verde pelas ruas e os bairros de São Paulo. Principalmente os lugares onde não tem árvore.

Giane deu uma olhada nas mudas.

— Vamos, vamos sim. Bora lá. — disse Giane.

— Vambora! — disse Bento.

Bento e Giane começaram a distribuir mudas em frente ao Cantaí. Mais tarde, Amora ligou para Bento. Giane entregava mudas para as pessoas, e ouvia Bento ao celular:

— Poxa vida, Amora! Que bom! Que boa notícia, meu amor! Boa sorte. Um beijo.

Bento desligou o celular e contou a novidade à Giane:

— A Amora conseguiu marcar uma consulta com o doutor Geraldo. Ela vai começar a fazer terapia.

No ponto de vista de Giane, se o problema da Amora fosse apenas o trauma, a mania de comprar sapatos repetidos, tudo bem. Mas o buraco era bem mais embaixo. Amora não valia nada, fez mal à muita gente e continuava enrolando o Bento.

— O caso dela não é de terapia, não. É de polícia. — disse Giane, e foi oferecer a muda para uma mulher que passava por ali. — Oi!

— Oi. — disse a mulher, que pegou a muda e foi embora.

— Tomara que ela se empenhe em superar esses traumas e se tornar uma pessoa melhor. — disse Bento. Ele ainda esperava que Amora cumprisse o combinado, pelo bem dela e do casamento deles.

Giane achava que era impressionante como Bento ainda tinha esperanças, continuava alimentando ilusões com Amora. Giane esperava que Amora realmente estivesse disposta a se tratar. Pelo bem dela mesma, mas principalmente, pelo bem do Bento. A garota pegou uma muda de lírio.

— É, Bento. Uma mudinha de lírio, pra não perder a esperança.

Depois voltaram para a loja. Giane começou a podar as flores.

— Você acha que a Amora vai fazer o tratamento? — perguntou Giane.

— Claro que vai, Giane. — disse Bento. — Essa é uma das condições pra gente continuar casado.

— Hum! E qual seria a outra? — perguntou Giane.

— A outra seria ela fazer as pazes com a irmã. Mas isso, ela já fez.

Giane ficou pensativa. Então Bento impôs condições para continuar casado com Amora: que ela fizesse as pazes com a irmã e se tratasse, fizesse terapia. Atendendo às exigências de Bento, Amora concordou em fazer terapia e até fez as pazes com a irmã. Porém, Giane nunca mais viu a irmã da Amora, Simone, nem os filhos. Nunca mais apareceram na Casa Verde. Sumiram. Amora dissera que eles foram embora, depois de a irmã arrancar dinheiro dela. Para Giane, era difícil de acreditar em uma palavra que Amora falava. Não seria a primeira vez que Amora mentia.

Giane achava estranho Amora, que sempre foi tão rancorosa, perdoar a irmã tão rápido. Certamente, ela disse que perdoava só para agradar ao Bento. E era estranho a Simone ter sumido do nada, depois de ter vindo do Chile atrás da irmã. Se Simone queria tanto reencontrar a irmã, se entender com ela, não sumiria assim. Será que Simone viria de tão longe só para arrancar dinheiro da irmã? Simone parecia ser gente boa. Pelo menos, não tinha cara nem jeito de pilantra. A pilantra, mentirosa, era Amora. Com certeza, isso devia ser mais uma armação da Amora. E Bento achava que tinha de ficar ao lado da Amora, por ela estar passando por um momento difícil. Ele estava morrendo de pena, achava que Amora era uma coitada, estava doente e sofrendo com o sumiço da irmã. Porém, Amora estava era enrolando o Bento de novo com promessas de que iria se tratar, mudar, se tornar uma pessoa melhor. Eram apenas promessas. E Giane não acreditava nas promessas da Amora. Até quando Bento iria dar chance para Amora? Não bastava tudo o que ela fez?

O telefone tocou e Bento atendeu.

— Acácia Amarela. Casamento na Para Sempre? Quando? — disse Bento, e anotou o caderno. — Tá bom. Eu te mando as opções e orçamentos. Obrigado.

Bento desligou o telefone.

— Casamento de quem? — perguntou Giane.

— Lara Keller e Franklin Cardoso. — disse Bento.

Giane riu.

— Então, chuta alto, que esses dois não valem nada, mas adoram se gabar que pagaram caro. E aí, vambora distribuir umas mudas?

— Que tal plantar umas árvores? — perguntou Bento.

— Bora lá. — disse Giane, e bateu na palma da mão de Bento. — Yeah!

Saíram pela cidade, para plantar as mudas. Uma hora, Fabinho até li-gou para ela.

— E aí, Giane, está aonde? Nossa, que programa de índio. Cara, tô achando que estão armando pra mim, sabia? É. Hoje eu encontrei o cara que falou que tem razões pra acreditar que é o meu tio. Tá. Te falo mais tarde, então. Valeu!

Giane desligou o celular. Achou estranho um homem aparecer do nada e falar que era tio do Fabinho. Por que será que o homem achava que Fabinho era sobrinho dele? Mas mais tarde ela e Fabinho conversariam sobre isso. Não era assunto para se falar por telefone. Ela e Bento estavam distribuindo e plantando mudas em uma praça. A garota ficou feliz ao ver Bento sorrir e entregar uma muda para uma mulher que passou por ali. Há tempos ela não via Bento sorrir. Quando estava longe de Amora, Bento era outra pessoa. Ao lado de Amora, ele ficava com um semblante carregado. Longe dela, ele se tornava uma pessoa mais leve e bem-humorada.

— Olha, tá sorrindo! Esse é o Bento que eu conheço! Vou até fotografar. — disse Giane, e começou a fotografá-lo.

— Não! Para com isso, vai, Giane. — pediu Bento.

— Posa, vai! — disse Giane.

— Para com isso! Para. — protestou Bento.

— Faz aquele sorriso lindo, vai... — disse Giane.

— Ô Giane, você quer parar com isso? Vem me ajudar aqui. — disse Bento.

— Ah, facilita, vai, vai. — disse Giane, continuando a fotografar.

— Para, Giane! Giane, para com isso! — disse Bento, rindo.

A garota tirou várias fotos do amigo. À noite, foi jantar na casa de Fabinho, que contou que um tal de Perácio o abordou, dizendo ser seu tio. O rapaz logo desconfiou, pois se tratava de um desconhecido, que apareceu do nada, dizendo que ele pertencia a uma boa família. No ponto de vista de Fabinho, o cara, para ter achado necessário falar que a família era boa, só podia estar sugerindo que a família era montada na grana. O cara estava era jogando a isca para ver se ele caía como um patinho. Ele não era de acreditar em qualquer história que contassem. Achou que era armação. Depois a Rosemere insistiu para ele falar com Perácio. Mas Fabinho não quis saber. Nem deu ouvidos a ela. Achava que Rosemere estava armando para ele, para se vingar, por ele ter ameaçado Odila de morte.

— A Rosemere é gente boa, Fabinho. — defendeu Giane, levando os pratos para a mesa. — Ela nunca ia participar de alguma armação contra você. Se bem que aquele Perácio é pai do Filipinho, né? Ficou anos negando o menino. Uma vez, eu ouvi ela falando com a dona Odila, de alguma picaretagem desse cara.

No ponto de vista de Giane, Perácio não era confiável. Era um falsário. Era bem capaz de estar armando alguma coisa.

— Tá vendo? Esse cara é picareta. Isso é armação, com certeza. — disse Fabinho. — Se não é da Odila, é da Bárbara. De repente, até da Amora.

Mas até onde Giane sabia, nem Bárbara nem Amora conheciam Perácio. Ou conheciam? Não sabia. Odila podia ser rancorosa, mas não era má pessoa, jamais armaria contra Fabinho. Ela não era disso. Giane pensou melhor. Achava que não custava nada Fabinho ouvir o que Perácio tinha a dizer. Perácio podia não ser a pessoa mais confiável do mundo. Ficou anos sem assumir o filho, era picareta. Não devia valer grande coisa. Mas Giane achava que Perácio não iria participar de nenhuma armação contra Fabinho, sem que oferecessem dinheiro a ele. E Odila, Amora e Bárbara não armariam contra Fabinho, pelas razões já mencionadas. Amora e Bárbara já haviam se vingado de Fabinho. Amora botou Fabinho na cadeia, e tacou fogo na Toca para incriminá-lo. Bárbara acabou com Fabinho na festa que ele organizou para comemorar o encontro com a família. Contou todos os crimes dele para a imprensa. Bárbara e Amora não teriam por que fazer mais nada contra ele, até porque Fabinho era carta fora do baralho e no raciocínio de Giane, ele deixou de representar uma ameaça para elas. Ninguém pagaria Perácio para mentir para o Fabinho.

Além disso, Giane sabia que Perácio era filho da Glória. Perácio tinha uma irmã que morreu no parto. Giane ficou sabendo disso pelo Bento e pela Rosemere. Giane sabia também que Glória, a avó do Filipinho, considerava o Bento um neto do coração. Glória era muito apegada ao Bento. Como o filho da irmã do Perácio teria a mesma idade do Bento, Glória criou a fantasia de que o Bento era neto dela. Mas Giane achava que o verdadeiro neto da Glória estava morto, que havia morrido ao nascer. Porém, se Perácio achava que Fabinho podia ser sobrinho dele, então o filho da irmã do Perácio sobreviveu. Certamente, Fabinho era o bebê que Silvério trouxe para o lar do Gilson. Antes, todos achavam que era o Bento, mas depois descobriram que Bento era filho do Plínio. Então, o bebê que Silvério trouxe da rodoviária só podia ser o Fabinho. E a mulher que entregou o bebê nas mãos do Silvério só podia ser Glória.

— Eu acho que você devia ouvir o que ele tem pra dizer, né? Você não tem vontade? — perguntou Giane.

— Pra quê? Pra minha vida voltar a ser aquele inferno de exame, briga, desconfiança? Não. — disse Fabinho. — E esse Perácio também, tem uma cara de pé-rapado, golpista.

Pelo visto, Fabinho não queria reviver aquele inferno e não estava interessado em fazer parte de família de falsários.

— Eu acho que você devia se informar. Pelo o que eu sei... — disse Giane, continuando a arrumar a mesa.

— Não, Giane, na boa. Eu não quero saber o que você sabe. — disse Fabinho, interrompendo-a. — Essa é uma página que eu virei da minha vida. Eu não quero. Eu não quero saber quem me pôs no mundo e quem me abandonou. Não quero mesmo, sabe? Pra quê? Não vou atrás dessa história mais, não. Minha vida, agora, é o hoje, é o presente. É isso aqui que eu tenho. — apontou para Margot. — Margot é minha verdadeira mãe, pessoa que ficou do meu lado a vida inteira. Não quero voltar a viver no inferno, não. Dá pra entender?

Giane se deu conta de que Fabinho realmente mudou. Antes, ele estava obcecado em encontrar a família biológica. Obcecado em ficar rico. Agora, ele não queria mais saber, não queria ir mais atrás desta história. A história do DNA devia tê-lo machucado muito. Certamente, Fabinho não queria procurar a família biológica por medo de ser rejeitado novamente. Já havia sido rejeitado por Plínio. Giane sabia que Plínio nunca gostou de Fabinho, nem quando achava que o rapaz era filho dele. Até porque Plínio não escondia isso de ninguém.

Na opinião de Giane, não dava para tirar as razões de Plínio. Se tratava de um filho do qual Plínio não soubera a existência até pouco tempo atrás. Era um estranho. Plínio não iria morrer de amores pelo filho de um dia para o outro. Com Irene era diferente, pois Irene passou vários anos achando que Fabinho era filho dela. Ela acompanhou o crescimento de Fabinho, ainda que à distância. Ela foi vê-lo várias vezes, até ele ser adotado. Plínio nem sabia que tinha um filho, até meses atrás. O afeto era algo que teria de ser conquistado, a relação precisava ser construída, e Fabinho fez tudo errado. Se aproximou de Plínio da maneira errada. Era até compreensível a imagem negativa que Plínio tinha de Fabinho. Fabinho era mau-caráter, se aproximou dele por interesse, mentiu, armou um golpe. Plínio certamente ficara chocado com as coisas que Fabinho fazia, com tudo o que as pessoas falaram dele. Plínio aceitou Bento como filho facilmente por que eles já tinham uma relação de respeito e afeto. Bento era grande amigo da Malu, até namoraram. Era completamente diferente da relação que Plínio tinha com Fabinho, que agiu de modo oportunista. Mas devia ter sido muito duro para Fabinho ser rejeitado pelo homem que achava que era seu pai. Agora Fabinho não queria fazer exame nenhum, para não sofrer novamente tudo aquilo que sofreu. Para ele, o passado estava morto e a mãe era Margot. Ele agora dava valor à mãe adotiva, a tratava com cari-nho.

Giane emocionou-se. Balançou a cabeça afirmativamente.

— Dá. Dá pra entender. Bom... — disse Giane, batendo as mãos. — Página virada então, né?

Aproximou-se de Margot, que estava preparando uma torta.

— Hum! Essa torta tá com um cheiro bom! — disse Giane.

Semanas se passaram. Chegou o dia do casamento de Lara Keller e Franklin Cardoso. Era um dia de muito trabalho para Giane e Bento, pois iriam levar as flores na Para Sempre. Era uma grande entrega. Giane estava levando as flores para dentro da van, quando Caio disse:

— Eu não acredito. Vocês não podiam fornecer as flores pro casamento do sacana do meu pai com aquela vigarista, Giane!

Giane até entendia as razões de Caio para se revoltar. Mas no ponto de vista dela, negócios eram negócios. Ela não aprovava o casamento de Lara e Cardoso, não concordava, mas sabia separar as coisas. E o casa- mento de Lara e Cardoso não era algo que a afetasse pessoalmente. Ela não tinha nada com isso. Cardoso não era pai dela.

— Isso é coisa do teu pai, Caio. — disse Giane, colocando um vaso de flor na van. — E você, ao invés de ficar choramingando aí por causa do papai malvado que vai casar com a madrasta sinistra, devia era ir no casa-mento.

— Vou fazer o que lá? Vou rir da fria que ele vai se meter?

— Ué, você não paga pra rir no cinema? — disse Giane, pegando outro vaso de flor e colocando dentro da van. — Então, vai lá, rir de graça. Ainda comendo do bom e do melhor. — deu um tapinha no braço dele. — Vai, mané.

— Quer saber? Acho que eu vou, sim. — disse Caio.

Giane e Bento foram na Para Sempre, entregar as flores e ajudar na decoração. A festa estava cheia de convidados, além de fotógrafos e jornalistas. Toda a mídia estava presente. Amora também foi. Ela não suportava Lara, mas resolveu ir ao casamento, porque um monte de gente que ela gostava estaria na festa. Porém, não ficou muito tempo. Logo Giane viu Amora sair correndo da empresa, e parecia nervosa. Bárbara estava com ela. Giane logo imaginou que havia acontecido alguma coisa. Assim que viu Bento e Charlene, Giane disse:

— Oi, Bento! Acabei de ver sua mulher saindo correndo. O quê que foi? Ela não achou que você estava vestido à altura? — a garota riu.

Bento achou que não era hora para Giane fazer piada. Ele acabou de ver Wilson acusando Amora de maltratar a irmã, na frente da mídia. Wilson contou que Simone estava trabalhando ali na Para Sempre, há mais de um mês, e que Amora ligou para a irmã, obrigando-a a sair correndo dali para não cruzar com ele, Bento. Amora disse que não sabia que a irmã estava trabalhando ali, que Simone havia desaparecido. Wilson a desmentiu. Amora soltou os cachorros em Wilson, chamou-o de louco e foi embora com a mãe. Bento a princípio não quis acreditar no que Wilson disse. Amora não podia ter mentido para ele mais uma vez, inventado história. Amora dissera que Simone pedira dinheiro para comprar remédios para o André, que estava doente. Amora dera um cheque em branco. Simone sacara uma fortuna e depois sumira com os filhos. Era essa a história que Amora havia contado. Bento não queria acreditar. Quase saiu no braço com Wilson, pois Wilson havia admitido que contou para ele pelo prazer de vê-lo com a cara no chão e em público. Charlene os separou. Bento perguntou para Charlene se era verdade que Simone estava trabalhando ali. Para a decepção dele, Charlene confirmou, e Bento pediu o endereço de Simone.

— Você quer parar de piada, Giane? — disse Bento, nervoso. — Vem comigo, que eu preciso ir num lugar urgente.

Bento estava querendo ir embora depressa, porém, Charlene o deteve.

— Devagar, Bento! — disse Charlene, procurando acalmá-lo. — A Simone tá sofrendo muito. Calma!

— Simone? Ela não tinha ido embora? — estranhou Giane.

— Não. Ela tá trabalhando aqui, na Para Sempre. Vem comigo, Giane! — disse Bento.

Giane entendeu tudo. Amora estava enrolando o Bento mais uma vez. Se fez de boazinha, fingiu ter feito as pazes com a irmã, depois inventou uma história, disse que a irmã havia arrancado uma grana preta dela e sumido. Até disse que estava sofrendo com o sumiço da irmã, por ter sido abandonada de novo. Tudo para fazer Bento ficar com pena dela e não se separar. Certamente, Amora exigiu que Simone não aparecesse mais na Casa Verde. E com certeza Amora mandou Simone ir embora da Para Sempre, para não cruzar com o Bento. Na opinião de Giane, Amora não valia nada mesmo. E Giane podia apostar que Amora não estava fazendo terapia coisa nenhuma. Amora era uma mentirosa compulsiva.

— Ah, então é por isso. Então, por isso que a Amora tava correndo. Ai, tá! Vamos! — disse Giane.

— Vem! — disse Bento.

Quando estavam saindo, cruzaram com Caio. Bento e Charlene foram na frente, e Giane acabou ficando por ali.

— Oi, Caio!

— Oi. — disse Caio.

— Você veio, mesmo! — disse Giane, abraçando-o.

— Vim dizer umas coisas pro meu pai que estão entaladas na minha garganta faz tempo. — disse Caio.

Caio sentia necessidade de falar umas verdades para o pai.

— Nossa! Esse dia tá cheio de grandes decisões, hein? Mandou bem. — disse Giane.

— Nossa! — disse Sininho, assistente do tio Lili. — Já te disseram que você é a cara daquela garota do comercial? É só dar uma produzida.

— Ela é a garota do comercial, Sininho. — disse Caio.

Giane estava vestida de maneira mais simples e despojada. Não estava elegante como Caio e os demais convidados da festa.

— É que eu não ando assim, produzida, pra evitar acidente, sabe? — brincou Giane.

— Aaaah... — disse Caio.

— Porque quando eu passo, as pessoas ficam olhando pra trás, aí, pode bater com o carro, entende? — disse Giane.

— Giane, você vai ficar aqui? — disse Bento, voltando.

— Outro louco por mim! — brincou Giane, e deu um beijo no rosto de Caio. — Pega leve com teu pai, hein?

Ela levou Bento na van até o endereço da Simone. Depois voltou para a Casa Verde. Quando estava andando na rua, recebeu uma ligação de Amora.

— Amora, mas que honra receber uma ligação sua. É claro que eu sei do Bento. Ele casou com uma patricete mentirosa e foi na casa da irmã dela ver se descobre mais algum podre. Capricha na janta, que hoje vai ter “D.R”!

Giane desligou o celular e riu. Fabinho estava por perto e a ouviu falando ao celular.

— O quê que você tá aprontando, hein, moleque? — perguntou Fabinho.

— Nada, só fiz uma patricinha tremer na base. — disse Giane.

— Quer bater uma bolinha comigo? — perguntou Fabinho, colocando o braço sobre os ombros dela.

— Não, hoje eu não posso. — disse Giane. — Tenho que ir pra loja. Quer ir comigo?

Fabinho abanou a cabeça.

— O Bento vai demorar pra chegar. — disse Giane. Ela tinha certeza de que a conversa do Bento com a Simone seria longa.

— Tá louco, se é pra trabalhar, eu prefiro ajudar a minha mãe. Ela tá fazendo docinho pro Cantaí agora. — disse Fabinho.

— Hum, ajudando a mamãe? — disse Giane, dando um tapinha no braço dele.

— É. — disse Fabinho, balançando a cabeça afirmativamente.

— Bom menino. — disse Giane.

— Melhor do que carregar caixa ali. — disse Fabinho, fazendo um movimento de carregar caixa. — Que nem peão. Pensa que eu não sei que você quer me explorar?

— Quero mesmo! — disse Giane.

— Marginal! — disse Fabinho.

Giane riu e foi direto para a loja.