Um amor inesperado

40 O primeiro desfile


À noite, depois de ir ao Cantaí, Giane foi despedir-se de Caio, que subiu na moto.

— Vamos lá na agência, amanhã? — perguntou Caio.

— Mas eu já conheço a Para Sempre. — disse Giane.

Ela foi à Para Sempre na festa de divórcio da Karmita Lancaster.

— Eu quero que você veja a sala que a Verônica separou pra gente.

— Tá bom. — disse Giane, quando bateu os olhos em Fabinho, que andava na rua. Falou no ouvido de Caio. — O Fabinho tá aqui na rua.

— E você quer que eu faça o quê? — perguntou Caio.

Caio faria tudo para ajudar Giane, que queria investigar o que exatamente havia acontecido na noite do incêndio da Toca do Saci. Nada tirava da cabeça de Giane que Amora armou para incriminar Fabinho e bancar a heroína para o Bento. Por isso ela estava tão interessada em ir atrás de Fabinho. Giane disse:

— Não sei. Vamos devagarzinho com a moto, antes que ele vá embora.

Ambos colocaram os capacetes. Giane subiu na garupa da moto. Caio andou devagar com a moto, atrás de Fabinho. Fabinho olhou para trás, viu que havia uma motocicleta atrás dele e começou a correr. Porém, viu-se encurralado contra um muro. Não conseguiu escapar. Olhou desesperado para Caio e Giane, na certa pensando que o levariam para a polícia.

— Fabinho, sou eu! Não precisa ter medo! — disse Giane.

— Não chega perto, não chega perto, que eu sei o quê que você quer! Sai! — gritou Fabinho, desesperado.

Giane já havia tirado o capacete e descido da moto. Caio tirou capacete.

— Calma aí, cara! Ela só quer conversar com você! — disse Caio.

— Ó, você, eu não conheço direito não, mas ela eu conheço. — disse Fabinho, e dirigiu-se à Giane. — Eu sei muito bem. O quê que você quer? Você quer me ferrar?

— Fabinho, calma. A Malu sabe que não foi você que botou fogo lá na Toca! — disse Giane.

— Sei. Sei. Ela quer me entregar pra polícia que eu sei. — disse Fabinho.

— Quer deixar de paranoia e ouvir o que ela tem a dizer, moleque? — disse Caio.

— Não é paranoia, não! É porque se eu fico aqui, que nem um otário, você chama a polícia e me bota na cadeia! — gritou Fabinho, e foi embora.

Giane não conseguia entender a reação dele. Também não entendia por que Fabinho não conseguia confiar nela. Ela jamais fez mal algum a ele. Ela queria ajudá-lo. Mas Fabinho parecia não enxergar isso. Ele parecia achar que estavam todos contra ele. Fabinho nem a escutava.

— Fabinho! Quer ir embora, vai então, otário! — gritou Giane. — Mas a Malu acredita em você! E eu também!

Fabinho, porém, não deu ouvidos. Giane foi para casa. Mais tarde, bateram à porta e Giane foi atender. Era Bento, com um buquê de flores. O rapaz estava feliz por Giane ter feito as pazes com a Malu.

— Pra você. — disse o rapaz.

— Ué, meu aniversário já passou. — disse Giane.

— Já passou, mas você ficou amiga da Malu. — disse Bento. — E aí, tio Silvério?

— Oi, filho, tudo bem? — disse Silvério, na frente do computador.

— Pelo menos pra isso serviu o incêndio da Toca. — disse Giane. — Aliás, sabe quem eu vi rondando por aí? O Fabinho.

— O Fabinho? Por que você não me avisou, Giane? — perguntou Bento. — Aliás, por que você não avisou a polícia, né?

— Lógico que não, Bento. Ele é inocente nesse crime! — disse Giane.

— Giane, eu não tô acreditando que você vai acobertar esse cara! —disse Bento, indignado. Continuava acreditando que Fabinho tentou matá-lo.

Bento achava um absurdo Giane proteger um cara que atentou contra a vida dele. Afinal, Giane era como uma irmã para ele. A birra que ela tinha da Amora estava mesmo passando dos limites. Não adiantava, ninguém conseguiria convencer Giane de que Amora não era a pessoa ruim que ela pensava. Giane jamais reconheceria o gesto heroico de Amora.

— Bento, você sabe o que eu penso dessa história. — disse Giane.

— Presta atenção, Giane, eu vi o Fabinho com o fósforo aceso na mão. — disse Bento. — É muito leviano da sua parte você acusar a Amora só por pirraça. Aliás, você quer saber? Eu nem sei por quê que eu perco o meu tempo. Eu não devia ter vindo aqui.

Bento foi embora. Silvério não gostou nada de ver Giane brigar com Bento. Não conseguia entender por que Giane havia resolvido defender Fabinho. Para Silvério, mesmo que Fabinho tivesse devolvido o cachorro do Nestor, continuava não prestando. Não era por isso que iria canonizá-lo. Ele sabia que a filha não era capaz de mentir, inventar. Mas também era difícil de acreditar que Fabinho tivesse feito alguma coisa boa para alguém. Para Silvério, Giane podia ter confundido outro garoto com Fabinho. Podia ter sido outro garoto, parecido com Fabinho, que devolveu o Pixinguinha. Se bem que, pensando melhor, Nestor não havia colocado o endereço no cartaz, apenas os números dos telefones. A pessoa que devolveu o Pixinguinha só podia ser alguém que sabia onde Nestor morava. Ainda assim, mesmo que tivesse sido o Fabinho, ele não era nenhum anjo. Desde a infância, Fabinho nunca valeu o que o gato enterra. Silvério não confiava no caráter de Fabinho. Tudo indicava que havia sido o Fabinho quem tentou matar o Bento. E Giane sempre gostou tanto do Bento, sempre o defendeu com unhas e dentes. O que havia dado nela, para brigar com o Bento e defender o Fabinho? Giane odiava Fabinho.

— Como é que você pode brigar com o Bento por causa daquele mau-caráter, hein?

— Pai, o Fabinho tá pagando os pecados dele. — disse Giane, sentando-se na cadeira. — Precisa ver como é que tá o cara. Acabado! Fiquei morrendo de dó.

— Giane, será que você não tá usando o Fabinho contra o Bento, por ciúmes? — perguntou Silvério.

Suspeitava que a filha ainda gostasse do Bento, e estivesse morrendo de ciúmes dele com a Amora. Giane podia estar namorando o Caio, mas podia não ter esquecido completamente a paixão pelo amigo de infância.

— Claro que não, pai. Não tenho mais ciúme do Bento. — disse Giane. — Eu tô preocupada com esse negócio da Amora. Ela enredou o cara de um jeito agora que ele não vai mais sair.

No dia seguinte, Giane estava regando as flores da rua, quando Caio apareceu.

— Você não devia estar trabalhando? — perguntou Giane, abraçando-o.

— Terminei por hoje. — disse Caio, e Giane lhe deu um selinho. — Ó, ganhei dois ingressos pra pré-estreia de “A Casa da Mãe Joana 2”. Vamos? — retirou os convites do envelope e mostrou para a namorada.

— Poxa, claro, esse filme é hilário. — disse Giane, pegando os convites e dando uma olhada. — Como será que é o novo, hein? Vamos.

— Então fechou, vou tomar um banho e depois eu te pego. — disse Caio, dando um beijo nos lábios dela.

Giane devolveu os convites.

— Toma. Vai lá. — disse a garota, e voltou a cuidar das flores.

— E aí, Giane, tá animada pro desfile? — Jonas puxou conversa.

Pela primeira vez, Giane iria desfilar, representando uma marca de sapatos. Sentia-se ansiosa, pois nunca desfilou antes. Ela tinha medo de errar, de tropeçar, cair.

— Pô, nem fala, cara, eu tô nervosona! — disse Giane, dando um tapinha amigável no braço dele.

— Ah, não fica, não. — disse Jonas. — Cliente te adorou, você vai arrasar!

— Ai, tomara! — disse Giane.

Socorro, que estava por perto, ouviu a conversa e se aproximou.

— Como assim? Você vai desfilar, Giane? — perguntou Socorro.

— Vou, Socorro, por quê? Só a Amora que pode ser modelo, né? Ah! — disse Giane, afastando-se.

Giane continuou cuidando das flores. Mais tarde foi ao cinema com Caio, como haviam combinado. Também foram na Para Sempre, e Caio mostrou a sala onde iria trabalhar. À noite, Giane ficou sabendo que a Toca do Saci foi invadida. Malu avisou o Bento, e também ela, Giane. Giane foi imediatamente para a ONG.

Giane logo suspeitou de Amora. Só podia ter sido ela. Depois do incêndio da Toca, Giane não duvidava de mais nada. Amora era capaz de tudo. Era capaz de qualquer coisa para atingir a Malu e a todos que ela considerava seus inimigos. Além do mais, Giane achava estranho a Toca ter sido invadida logo depois do incêndio. E logo depois do bazar de sapatos. Na opinião de Giane, era coincidência demais para o seu gosto.

Giane ficou sabendo por Malu que Amora não realizou o bazar por livre e espontânea vontade. Amora foi até a Toca do Saci se oferecer como voluntária. Malu estranhou, pois Amora nunca gostou da Toca. Aí a Sueli Pedrosa apareceu por lá, e Amora fez a maior cena: primeiro deu um jeito de falar no Bento, perguntou se a Sueli já estava sabendo do Bento. Depois mandou a Sueli embora e disse que não queria saber da mídia. Malu ficou indignada. Estava na cara que Amora estava fingindo. Malu tentou expulsar Sueli, mas Amora disse que a presença da mídia poderia ser boa para divulgar a Toca e atrair mais voluntários. Era evidente que o que Amora queria era se fazer de boazinha para o Brasil inteiro, principalmente para o Bento, e ainda contar que o Bento era filho do Plínio. Por isso Malu quis obrigar Amora a vender todos os seus sapatos e doar a renda para a ONG. Malu achou um absurdo Amora usar as crianças da ONG para se fazer de boazinha, para ficar bem com Bento e com a mídia. Não queria que Amora usasse a Toca do Saci. Se Amora queria se fazer de santa, que vendesse os sapatos. Amora foi obrigada a se desfazer dos seus sapatos, do contrário, Malu diria à imprensa que ela era uma oportunista. Amora devia estar morrendo de ódio da Malu. Ela vendeu os sapatos por preços bem menores e deu um cheque de três mil reais para Malu.

Quando Giane chegou à Toca, viu que haviam pichado a fachada. Havia frases como “Ong de fachada”, “Vai lavar roupa patricinha”, “Toca do dinheiro sujo”. Com certeza, Amora pagou alguém para fazer o serviço. Ouviu Amora dizer:

— Mas alguém tem que fazer alguma coisa pra acabar com essa violência, né?

— Para com isso, Amora! Eu sei que foi você! — disse Madá.

— Mas é claro que foi ela, dona Madá. — disse Giane, aproximando-se.

— Eu? Mas como, se eu estava numa boa com meu noivo? — disse Amora.

— Você pagou alguém pra fazer isso. — disse Giane.

— Peraí! A cidade cheia de vândalos e vocês estão me acusando de mandar pichar a ONG de fachada? Pelo amor de Deus! — disse Amora.

— Vai te catar, Amora! — disse Giane. — Tanto lugar pra pichar, eles iam escolher justo a ONG da Malu?

A cidade estava cheia de vândalos. Mas no ponto de vista de Giane, quem mais teria interesse em atingir a Malu era a Amora. Qualquer outra pessoa não teria o mesmo interesse. Giane não sabia bem qual era o motivo, se a pichação tinha ou não ligação com o bazar de sapatos e com o incêndio da Toca, como ela suspeitava. Mas só podia ser a Amora. Amora é quem tinha raiva da Malu. Ultimamente, Amora e Malu andaram brigando muito, se desentendendo.

— Gente, eles picham até igrejas, por quê que eles iam respeitar a Toca do Saci? — perguntou Amora. — A verdade é que esse lugar não tem a menor segurança. Hoje foi só uma pichação, mas e amanhã? O quê que pode acontecer, né?

Amora esperava que Madá entendesse o recado. Ela agora sabia que na Toca não havia câmeras de segurança, então mandou pichar.

— É pra ter medo mesmo. — disse Madá. — Depois de tanto trabalho pra erguer a Toca do Saci, vem uma pessoa e tem a coragem de fazer isso. — apontou para a fachada da ONG. — É uma pessoa monstruosa.

Uma ideia passou pela cabeça de Giane. Será impressão ou Amora fez algum tipo de ameaça a Madá? Então, ela, Giane, estava certa. Amora mandou pichar a toca. Na certa, Madá devia ter descoberto algum podre dela. Amora certamente mandou pichar a Toca para ameaçar Madá, dar algum tipo de recado, para Madá não abrir o bico. E a melhor maneira de fazer Madá ficar calada era ameaçar fazer alguma maldade com a Malu. Madá tinha adoração pela neta.

— Você é muito cínica, né, Amora? Mas é claro que foi você! — disse Giane.

— Fui eu? Então prova! — disse Amora. — Senão eu te meto um processo por calúnia, garota!

— Ah, que medo, garota! — disse Giane.

— O que tá acontecendo aqui? — perguntou Bento, aproximando-se. Percebeu que Giane, Madá e Amora estavam discutindo.

— Eu estou sendo covardemente acusada por essas duas. — disse Amora, apontando para Giane e Madá.

— Três. Eu tenho certeza que você está por trás disso. — disse Malu.

Para Malu, estava muito na cara que Amora queria atingi-la de todas as maneiras. Por isso Amora procurava destruir o que ela mais amava, que era a Toca. Afinal, ela tocou num tema delicado para Amora, que era a coleção de sapatos. Amora ainda estava com ódio dela por causa da história do bazar. E também porque ela tentou provar para o Bento que tinha sido Amora quem tacou fogo na Toca. Amora quis se vingar dela, com certeza. Malu achava muito estranho a Toca ter sido pichada logo após o incêndio e o mutirão. Malu não tinha provas, mas achava que só podia ter sido Amora. Ela não tinha inimigos, a não ser Amora. Outro vândalo não tinha como saber que a Toca não tinha sistema de segurança. Fabinho não podia ser, pois estava desaparecido. Ele estava sendo acusado de ter incendiado a Toca, e de tentar matar o Bento. Fabinho não seria besta de pichar a Toca depois disso. Ele não iria querer ganhar outra acusação.

— Nossa, Bento! Eu vou te esperar no carro, tá? — disse Amora. — Eu não mereço servir de saco de pancadas pra elas. — afastou-se.

— O que é isso? Foi o Fabinho! — disse Bento. — Só ele teria tanto ódio, tanta loucura pra fazer um negócio desses.

No ponto de vista de Bento, parecia coisa do Fabinho. Fabinho era bandido, não a Amora. A cidade estava cheia de criminosos, mas Fabinho conhecia a Toca muito bem e sabia se tinha ou não sistema de segurança.

— Não, Bento, até outro dia eu também pensava assim! — disse Madá.

Antes, Madá achava que o incêndio da Toca só podia ser coisa do Fabinho. Não simpatizava com Amora, sabia que Amora não prestava. Mas achava que Amora não colocaria em risco a vida do Bento. Afinal, tudo o que Amora aprontou foi para ficar com Bento. Não se arriscaria a perdê-lo. Nem mesmo para bancar a heroína. No ponto de vista de Madá, isso seria demais. Madá suspeitava que Amora havia forjado aquele acidente, até porque não havia saído muito machucada e logo recebeu alta. Mas forjar atropelamento para comover o Bento, fazê-lo se sentir culpado e atrapalhar a noite dele com a Malu era uma coisa, outra completamente diferente era incendiar a ONG com Bento dentro. Madá até acreditava que Amora faria tudo para prejudicar Malu, mas não faria mal algum ao Bento. Amora era mimada, fútil, superficial, esnobe, passava por cima das pessoas em busca de seus interesses, jogava sujo, usava das mesmas armas que seus adversários para preservar sua imagem e se manter na mídia, impedir que a derrubassem. Mas Madá não conseguia imaginar Amora cometendo ato de vandalismo. Não combinava com ela. Amora tinha bons antecedentes. Já o Fabinho, além de ter a ficha mais suja que pau de galinheiro, sempre teve inveja do Bento, era bem capaz de matá-lo. Fabinho já havia destruído a estufa do Bento. Além do mais, era Fabinho quem tinha fama de bandido, não Amora. Amora podia não prestar, mas não tinha passagens pela polícia. Não que ela soubesse. Quando Malu acusou Amora de ter tacado fogo na Toca, Madá achou que a neta estava mistu-rando as coisas, se deixando levar pela raiva que tinha da Amora. Porém, depois, Madá acabou descobrindo que o bazar era uma farsa.

Teve uma discussão feia com Amora, e Amora ameaçou fazer alguma maldade com Malu, caso Madá abrisse o bico. Desde então, Madá passou a suspeitar de que foi Amora quem botou fogo na Toca, até porque ela havia dado a entender, embora não tivesse afirmado com todas as letras ser a responsável. Madá entendeu que Amora não tinha limites e seria capaz de tudo, usar dos meios mais sórdidos para ficar com Bento, até posar de heroína. Malu estava coberta de razão. Agora, então, com a pichação, Madá tinha a mais absoluta certeza de que quem botou fogo na ONG foi Amora. Amora já havia ameaçado a Malu antes, porém a pichação foi para reforçar, para garantir que Madá não desse com a língua nos dentes. Porque sempre haveria o risco de Madá abrir a boca, mesmo com a ameaça. Não se sabia até quando ela ficaria quieta. Então, Amora quis deixar bem claro que não estava brincando. Para Amora, não bastava ameaçar uma vez. Apesar da ameaça, Madá dissera não ter medo dela e que contaria tudo a Bento, para livrá-lo da roubada de se casar com ela. No raciocínio de Amora, se ela ameaçasse e não fizesse nada, Madá po- deria abrir o bico, por achar que ela não faria nada com Malu. A pichação foi uma forma de dar o recado. Mas agora Madá não contaria a ninguém o que descobriu. Não falaria nada sobre o bazar, para ninguém. Depois da pichação, ficou com mais medo ainda. Amora não ficava só na ameaça, ela mandava fazer as coisas. Se ela dizia, ela fazia.

— Não foi o Fabinho! — disse a Malu.

— Gente, a Amora estava comigo! — disse Bento. — Isso foi obra de alguém que sabia como entrar na Toca!

Giane achava que não era Fabinho. Fabinho estava desaparecido.

— Bento, foi a Amora! Ela pode me processar se quiser, que eu vou continuar dizendo. — disse Giane.

Ficou combinado que todos pintariam a Toca no dia seguinte. No dia seguinte, bem cedo, Giane chamou Bento, que estava na estufa com Amora.

— Bento, bora lá, pintar a Toca?

Foram à Toca do Saci. Todos ajudaram a pintar a fachada da ONG. Maurício até ajudou a instalar câmeras de segurança.

— Bom, agora, eu duvido alguém entrar na Toca sem ser visto. — disse Maurício.

— Olha só! Mas que equipe mais competente vocês me saíram! — disse Plínio. — Olha, não dá pra perceber que teve um vandalismo aqui.

— É. A Malu não gostou daquele negócio lá de “vai lavar roupa, patricinha”. — brincou Giane, piscando um olho. Bento achou graça.

— Ah, eu não gostei foi do “Toca do dinheiro sujo”. — disse Malu. — Que é isso? O dinheiro que entra aqui é muito limpo.

Plínio concordou com a filha. Afinal, era ele quem botava dinheiro na Toca.

— É isso mesmo, filha! Muito limpo, ora essa! — disse Plínio. Dirigiu-se a Bento. — E você, filho?

— Já falou pro seu pai que você vai casar? — perguntou Giane a Bento.

Giane já estava sabendo que Amora pediu Bento em casamento.

— É. Pois é, Plínio. — disse Bento. — Já tá quase tudo acertado. Só falta marcar o dia e o lugar.

— Ah. — disse Plínio, e não estava nada contente com a notícia.

Plínio acreditava que Bento merecia coisa muito melhor do que a cabeça-de-vento da Amora. Na opinião dele, Amora era fútil. Mas se Amora era a mulher que Bento queria, então ele torcia para o filho ser feliz. Pelo menos até Bento descobrir que Amora não era a pessoa certa, que ele e Amora não tinham nada a ver um com o outro. Aí se divorciariam e Bento encontraria outra mulher que o fizesse mais feliz. Plínio já amava Bento como um filho e tudo o que desejava para ele era a felicidade. Também queria ver Malu feliz. Torcia para ela namorar Maurício. Antes achava que Maurício não servia para Malu, que era um cara inconsistente, inútil, um boa vida, um verdadeiro turista na vida e no trabalho. Vivia viajando para lugares como Nova York, Aspen, Ibiza, Sardenha. Plínio achava que Bento era a opção ideal para Malu, até descobrir que Bento era seu filho. Mas com o tempo Plínio foi vendo que Maurício era um rapaz gentil, sensível e solidário. E não era um inútil, pois estava trabalhando, botando a mão na massa. Estava indo bem na agência do Érico.

Giane viu que Malu não fez uma cara muito boa. Certamente, não gostava da ideia de se tornar cunhada da Amora.

— Bom, Malu. — disse Bento, batendo as mãos. — Agora, a Toca tá pronta e eu tô com você pro que der e vier, tá? — Bento aproximou-se e deu um beijo no rosto de Malu. — Não esquece de jogar o sal grosso da tia Salma, viu? — dirigiu-se a Giane. — E aí, vambora?

— Eu não vou, não. O Caio ficou de passar aqui pra me pegar. — disse Giane.

— Tchau, gente. — disse Bento, indo embora.

— E a gente, Malu? Vamos comer alguma coisa? — perguntou Maurício. — Vai. Nem que seja um cachorro-quente aí na van da esquina.

— Vamos. — disse Malu, e chamou Giane. — Vamos? Vamos?

— Não. Vão vocês dois que vocês estão muito bem juntos. — disse Giane.

Giane bem que notou um certo clima entre Malu e Maurício e ela não iria querer ficar segurando vela.

— Vambora. — disse Maurício, pegando na mão de Malu e puxando-a.

Giane resolveu falar com Plínio. Era pai do Bento, afinal. Ela precisava alertá-lo sobre Amora, para que ele ficasse de olho. Giane não tinha mais ciúmes do Bento. Aquela paixão que sentia por ele havia ficado para trás. Mas continuava se preocupando com ele. Amora não prestava. Ela podia até gostar do Bento, mas gostava de um jeito bem torto, porque continuava enganando-o, fazendo-o de trouxa. E agora Amora não parava mais de aprontar. No ponto de vista de Giane, era preciso ficar de olho. Não adiantava falar com o Bento, pois ele estava cego de paixão e não dava ouvidos a ela, nem à Malu. Bento achava que ela e a Malu estavam de implicância com a Amora, que estavam perseguindo-a. Amora aprontava, se fazia de vítima e o Bento caía como um patinho na conversa dela.

— Eu queria mesmo era falar com você, Plínio. — disse Giane, assim que se viu a sós com ele. — Sobre o Bento. E a Amora.

— Claro! Lá dentro? — perguntou Plínio.

— Vamos. — disse Giane.

Foram conversar em uma das salas de recreação da ONG. Giane sentou-se em um banco e Plínio sentou-se em uma cadeira em frente a ela.

— Olha só, Plínio, eu não ia te dizer isso se o Bento não fosse o que ele é pra mim. A gente cresceu junto, a gente construiu um monte de coisa juntos, e eu conheço a Amora.

— Eu também conheço bem a Amora e não sou ingênuo. Eu sei o quanto ela e é tola e fútil. — disse Plínio.

Para Giane, Amora era mais do que isso. Ela era mau-caráter.

— É, mas isso é elogio pra ela. O buraco é bem mais embaixo. — disse Giane. — Não estou dizendo isso por causa do que ela aprontou comigo, não. É porque eu acho que ela faz muito mal e vai continuar fazendo, pra muita gente.

No ponto de vista de Giane, Amora já havia feito o Bento sofrer bastante e continuava enganando-o. Amora sempre tratava mal a ela e a todo o pessoal da Casa Verde, e agora estava fazendo muito mal à Malu, ao Fabinho e pelo visto, até mesmo para Madá. A Amora armava e para se safar, botava a culpa no Fabinho e se fazia de vítima para o Bento, quando alguém a acusava de algo. Amora era mesmo uma bandida muito da ordinária, na opinião de Giane. Bento nem fazia ideia da pessoa com quem iria se casar. Mas Giane não tinha como provar que Amora era uma criminosa. Ainda assim, ela sentia que precisava alertar o Plínio.

Plínio não sabia o que pensar. Achava que conhecia Amora muito bem, pois a viu crescer. Era filha adotiva da Bárbara, irmã da Malu. Sabia que Amora apresentava desvios de caráter. Era egoísta, mimada, fútil, esnobe, arrogante. Tratava mal pessoas mais humildes. Usava das mesmas armas que seus adversários para preservar sua imagem e se manter na mídia. Era oportunista, e não tinha quase nenhum escrúpulo quando se tratava de competir. Mas ele acreditava que Amora estava se esforçando para melhorar. Amora havia até feito um bazar de sapatos para arrecadar dinheiro para a ONG. Para Plínio, não havia sido pouca coisa o fato de Amora vender seus preciosos sapatos. Era uma mudança significativa. Ela também ajudou no mutirão, trouxe estantes de livros para as crianças da Toca. Agora, o que Giane disse era muito sério. Ela estava dizendo que Amora era pior do que ele pensava, que fez e ainda faria mal a muita gente. Será que Giane achava que Amora faria mal ao Bento?

— Você está falando do Bento? — perguntou Plínio.

— Não, não acho que ela vai fazer mal ao Bento, ela não é nem louca, né? Eu acho que ela gosta do Bento, ainda mais agora que ele é rico, né?

— E o Bento não se importa com dinheiro. — disse Plínio. Ele achava que Amora devia estar ciente que Bento não pretendia mudar de vida.

— É, mas ela acha que ela vai conseguir mudar ele, tirar ele lá, daquele “buraco”. É assim que ela chama a casa dele. — disse Giane.

Para Plínio era grave o que Giane estava dizendo. Até então, Plínio acreditava que Amora estava decidida a mudar de vida. Amora largou a fama, o luxo, o glamour. Amora falou em mudar de vida antes de todos descobrirem que Bento era herdeiro dele. Amora dizia que não ligava mais para dinheiro, estava tratando melhor as pessoas. Agora, Plínio ficou com dúvidas. Se Amora falou em tirar o Bento do "buraco", ela pretendia tirar vantagem do fato de Bento ser herdeiro dele. Amora achava que iria convencer Bento a botar a mão na herança. Então, aquela história de que ela pretendia viver uma vida simples, sem luxo, longe dos holofotes, era mentira. Amora não mudou nada. E ela perdeu muito dinheiro. Ela tinha um bom dinheiro investido, mas para uma pessoa como ela, devia ser ninharia. Certamente ela pretendia gastar muito, fazer uma nova coleção de sapatos de grife, caríssimos. E comprar a mansão mais cara na região dos Jardins. Se era verdade que Amora não mudou, que continuava querendo viver no luxo, com certeza ela iria querer tudo mais caro. Plínio achou que era preciso tomar providências, esclarecer algumas coisas com Amora. Mas não tomaria nenhuma atitude sem antes conversar com Irene.

— Oi, Giane. — disse Caio, entrando na sala.

— Oi. — disse Giane, e dirigiu-se a Plínio. — É... Bom, eu podia te dizer um milhão de coisas, mas o meu namorado chegou e a gente tem um compromisso. Mas pensa no que eu te falei.

— Claro. — disse Plínio, balançando a cabeça positivamente.

— Tá bom? — disse Giane.

— Tá. — disse Plínio.

— Tchau! — disse Giane, levantando-se do banco.

— Tchau! — disse Plínio.

— Tchau! — disse Caio, despedindo-se.

Giane foi direto para o desfile, junto com Caio e Sílvia. Chegado ao local, foi direto ao camarim, se arrumar, junto com as outras modelos. Caio tirou várias fotos das modelos. Giane quis fotografar, então Caio lhe deu a câmera. Caio posou junto com as outras modelos, e Giane fotografou. Em seguida, Caio tirou mais fotos das modelos. Giane arrumou-se, botou um vestido branco, maquiou-se, e colocou até aplique no cabelo, para ficar mais comprido.

O desfile foi apresentado pela Lara Keller, no comando do Luxury.

— As meninas já estão prontas pra entrar e é um modelito mais lindo do que o outro. — disse Lara, no microfone, e olhou para Giane, que estava ao lado. — E olha quem tá aqui, a new face mais requisitada do momento, Giane de Souza. E aí, queridinha, está ansiosa pra estreia nas passarelas?

— Não, até está sendo mais divertido do que eu pensava. — disse Giane. — Só espero não tropeçar na passarela, né?

— É, a gente também. Vamos torcer. — disse Lara.

— Yeah! — disse Giane, fazendo um gesto com a mão.

— Meninas! Meninas! Tá tudo pronto, o desfile vai começar! — disse Sílvia. — Um, dois, três, vão! Vão!

Giane começou a andar pela passarela junto com outras modelos, que foram todas fotografadas. Lara continuava cobrindo o desfile.

— Hi, people! — disse Lara, no microfone. — Estamos de volta com a cobertura do desfile dos sapatos que são a minha mais nova paixão. Tem cada modelo de cair o queixo. Dá uma olhadinha.

No final do desfile, houve uma salva de palmas. Caio foi encontrar Giane no camarim. Ela estava em frente ao espelho, junto com duas outras modelos.

— Você arrebentou! — disse Caio.

— Cara, foi muito legal, né? — disse Giane, virando-se. — Que emoção! Quanta gente! Que incrível!

— Você é incrível! Você estava tão linda. Você é uma estrela, sabia?

Giane tascou um beijo nele e disse:

— Agora, deixa eu me arrumar! Tchau.

— Tá. Tô te esperando lá fora. Tchau. Tchau. — disse Caio, dando um beijo no rosto dela.