Um amor inesperado
37 New face número 1
Giane estava deitada no sofá da sala. Acabou de brigar com Caio. Caio veio chamá-la para ir na festa da Karmita Lancaster. Porém, Caio ficou emburrado ao ver que ela estava cuidando das flores e das plantas da estufa, ajudando Bento. Silvério, que havia saído, chegou em casa.
— Oi, filhota! — disse Silvério, fechando a porta.
A garota não emitiu um som. Apenas levantou o braço. Silvério percebeu que a filha estava com a cara amarrada.
— Nossa, que cara, hein? O quê que foi?
— Nada, pai! — disse Giane.
— Nada. Engraçado. — disse Silvério. — Eu encontrei o Caio agora há pouco na rua. — apontou para a rua. — E ele estava com essa cara aí também, de poucos amigos. — sentou-se no sofá e colocou as pernas da filha sobre as suas. — O quê que foi, hein? Vocês brigaram?
— Bobeira dele, pai. Eu... Ele foi me chamar pra uma festa. — disse Giane. — E eu estava lá, ajudando, dando uma ajudinha pro Bento. E aí ele ficou emburrado.
No ponto de vista de Silvério, a filha precisava se tocar que não podia viver grudada no Bento como antes. Claro, ela não precisava deixar de ser amiga do Bento, mas era necessário haver um distanciamento. Qualquer homem no lugar do Caio teria ciúmes.
— Ah, qualquer um no lugar dele ficaria. — disse Silvério. — Filha, durante muito tempo você teve a sua vida ligada ao Bento. Tá na hora de seguir em frente. A fila anda, hã?
— Ah, pai. — disse Giane, sentando-se. — Mas eu não vou deixar de ser amiga do Bento. Ah, não vou!
— E nem precisa! — disse Silvério. — Meu bem, olha, pro namoro dar certo, tem que ter empenho. O namoro ou o amor, é como uma flor. Tem que ser regado, é preciso de tempo, dedicação, cuidado, entendeu? Você não pode simplesmente, deixar de cuidar da sua vida, pra cuidar da vida do Bento. Deixa ele um pouco de lado, vai tentar ser feliz com o Caio. Ele é um moço bom, sabia? E olha, gosta de você, de verdade.
— É, você tem razão! — disse Giane, dando um soco amigável no pai. — Pô, show! — a garota riu.
— Show, tem razão! Então, vai. Vamos lá, vamos lá. Liga logo pro Caio. — disse Silvério. — Diz pra ele que você vai encontrar ele na festa. — ele viu que a filha não se decidia. — Vai, vai, vai! Vai, molenga, vai! — ele bateu palmas.
— Tá! — disse Giane, rindo, subindo em cima do sofá. — Eu vou mesmo. — andou em direção ao seu quarto. Virou-se. — Pai, obrigada!
Giane ligou para o Caio, dizendo que ia encontrá-lo. Depois se arrumou, maquiou-se, botou um vestido bem bonito e foi encontrar Caio na festa de divórcio da Karmita Lancaster. A festa estava acontecendo na Para Sempre, e estava bastante animada. Havia muita gente, muitos famosos, e a imprensa toda estava presente. Chegando na festa, Giane também encontrou Sílvia e toda a equipe da Crash Mídia. Sílvia disse:
— Ai, Giane, você tá linda! Olha, merece ser fotografada. Fotógrafo, cadê o fotógrafo?
— Ah, meu Deus! — disse Giane.
— Ô fotógrafo! Chamei! — disse Sílvia. Dirigiu-se à Giane. — Olha, você só não vai dormir tarde hoje, pelo amor de Deus, porque nós temos trabalho amanhã cedinho. E você sabe que não tem nada pior do que modelo de ressaca e com olheira.
— Não, que isso? Não se preocupa, não, que eu não bebo. — disse Giane. — Aliás, nem vou ficar muito tempo aqui, né? Caio, vambora! Isso aqui tá cheio.
A garota não se sentia nada confortável no meio de tanta gente e barulho, muito menos com a presença da imprensa ali.
— Agora já era. — disse Caio.
Giane se perguntou o que Caio estava aprontando.
— Então, chegou a convidada mais esperada da festa. — disse Lara Keller, apresentando o Luxury. — People, eu tenho o prazer de apresentar pra vocês, Giane, a mais linda new face do Brasil.
— Eu vou te matar. — murmurou Giane, sorrindo, para Caio.
A garota não gostava muito de aparecer na mídia. Não gostava de holofotes. Nem gostava muito de ser modelo. Só aceitou para calar a boca da Amora e, além do mais, foi o primeiro trabalho que apareceu depois que ela resolveu deixar a Acácia Amarela. Ela precisou se afastar de Bento, para não sofrer mais, poder se descobrir, e se interessar por outras coisas, aprender coisas novas, ter vida própria, enfim. Porém, Caio achava que não havia nada demais em Giane aparecer na mídia, até para divulgar o trabalho dela. Lara perguntou:
— E aí, Giane, tá feliz com o sucesso?
Giane não soube bem o que responder. Era engraçado, porque quando estava na Casa Verde, na sua casa ou na Acácia Amarela, Giane se sentia à vontade para ser ela mesma e dizer o que lhe viesse à cabeça. Mas agora, diante das câmeras, sua timidez aflorou e ela não sabia o que dizer. Para ela era uma prova de que não estava em seu habitat natural. Ela se sentia estranha naquele ambiente, com aquelas pessoas e tinha dúvidas se iria conseguir se acostumar com o meio midiático. Caio, em seu socorro, disse:
— A Giane não é de falar muito, não, Lara.
— Ah, mas esse rosto fala por si só, né, gente? — disse Lara. — Há quanto tempo a gente não via uma elegância tão natural e traços tão perfeitos, hein?
Giane ficou feliz com o elogio de Lara.
— Foi o Caio quem descobriu a Giane. — disse Sílvia, o lado de Giane. — E aí ele me mostrou o book dela e eu fiquei encantada. Foi amor à primeira vista, não foi? Ela é linda.
Giane passou algumas horas na festa. Permaneceu o tempo todo ao lado de Caio e das pessoas conhecidas, não apenas da equipe da Crash Mídia, como também da vizinhança, pois Lili e Charlene também estavam na festa a trabalho. Giane ficou sabendo da última novidade de Fabinho, que entrou de penetra na festa, mais cedo, e causou a maior confusão, aca-bando por ser expulso. Fabinho tentou se aproximar de Camilinha para dar o golpe do baú, mas Camilinha não quis saber e ainda o acusou de extorsão. Isso aconteceu antes de Giane chegar à festa. Fabinho não se cansava de aprontar mesmo. Porém, Giane não ficou na festa até muito tarde. Logo foi para casa, pois tinha trabalho no dia seguinte. De manhã cedo, foi para a casa de Gilson e Salma, e encontrou todos tomando café.
— Bom dia! — disse Giane.
— Bom dia! — disse Salma.
— E aí? Vim comer com vocês. — disse Giane, sentando-se à mesa.
— Claro! — disse Salma.
— Se está procurando o Bento, ele não está aqui, não. — disse Socorro.
— Opa! Estou, sim! Bom dia! — disse Bento, entrando.
— Bom dia! — disse Salma.
— Ô Giane... — disse Bento, sentando-se à mesa. — Jonas me contou que você fez maior sucesso lá na festa da Karmita Lancaster.
— Ah, é. — disse Giane, sorrindo.
— Não sabia que você gostava dessas coisas. — disse Bento.
— Não gosto, Bento, mas faz parte do ofício, cara. — disse Giane, cortando uma fatia do bolo.
Ela não pretendia seguir a carreira de modelo por muito tempo, nem gostava de aparecer na TV. Mas a nova profissão até que estava fazendo bem a ela, ajudando-a ganhar mais autoestima e autoconfiança. Antes ela se sentia à margem, e invisível como mulher. Agora ela estava sendo valorizada, admirada.
— Ela está bombando na internet. — comentou Salma, orgulhosa. — É a new face número 1 do Brasil!
Salma adorava Giane. Afinal, ela viu a menina nascer, crescer, ajudou a criar. Giane era como uma filha para ela. Salma até torceu para Bento e Giane namorarem, mas Bento sempre gostou da Amora a vida inteira, depois gostou da Malu. Até outro dia, Bento estava namorando a Malu. E Giane agora estava em outra. Estava namorando Caio.
Giane deu risada.
— Você está feliz? — perguntou Bento para Giane. — Se você estiver feliz, eu estou feliz também.
— Ih! — disse Giane, rindo. — Essa frase aí é minha, lembra?
— Não lembro. Não lembro disso. Não lembro mesmo. — disse Bento, levantando-se. — Eu lembro só que você é linda mesmo e que eu te quero muito bem. — Aproximou-se e deu um beijo no rosto dela. Salma riu.
Bento estava muito orgulhoso de Giane. Sentia-se feliz por ela. Ele não gostava muito do mundo da fama. Não mudou a maneira de pensar, ainda tinha suas críticas. Ainda mais depois de tudo o que ele passou, com todas aquelas fofocas, aqueles escândalos todos envolvendo a ele e Amora.
Não foi somente a Amora que foi massacrada pela mídia, ele também foi. Afinal, o Brasil inteiro ficou pensando que ele tinha traído Malu com a irmã dela. Os jornalistas ficaram nos calcanhares dele. Ele foi muito criticado, julgado e condenado por um bando de desconhecidos, e quase abandonou a campanha do Salve a Cantareira por conta do escândalo. Ele quase abriu mão de defender uma causa importante. A diferença era que Amora tinha muito mais a perder do que ele. As fofocas e escândalos prejudicaram a reputação e a imagem dela, e por conta disso, ela perdeu contratos publicitários, foi desconvidada dos eventos, foi mandada embora do Luxury e da emissora, enfim, ficou queimada no mercado. Com ele, era diferente. Mesmo com os escândalos, ele não perdeu nada. Ele continuou na loja e na cooperativa, vendendo suas flores, como sempre. Até porque ele tinha um negócio próprio e uma clientela fiel, que o conhecia há anos, antes mesmo de ele ficar famoso. Seu trabalho era completamente diferente do da Amora. As fofocas em nada afetavam seu trabalho. Ele não dependia de patrocínio, nem corria o riscode ser mandado embora, porque era um dos donos da loja. Ninguém tinha nada a ver com a vida dele. Ele nunca ligou para a opinião alheia, não quando se tratava de sua vida íntima. O que importava era sua postura profissional e na loja, o atendimento e a qualidade do serviço prestado continuavam os mesmos. Na profissão dele, ele não precisava vender uma vida perfeita para o mundo.
Mas Bento não gostava de aparecer. Não fazia questão de fazer parte do mundo das celebridades, e nem passava pela cabeça dele ser modelo. Sílvia havia até sugerido que ele fizesse um book, mas ele nem quis saber. Porém, se Giane queria ser modelo, a ele só restava apoiá-la. Além do mais, ele torcia pela felicidade e pelo sucesso de Giane. Conhecia bem a amiga e tinha certeza de que ela manteria os pés no chão e não deixaria a fama subir à cabeça. Tampouco se envolveria em escândalos ou baixaria. Ele tinha certeza de que Giane não buscaria a fama a qualquer custo, e que manteria os valores, ou seja, agiria com honestidade, ética e respeito em todas as situações. Ela foi muito bem criada, ao contrário da Amora. Dava para ver que o trabalho como modelo estava fazendo bem a ela. Giane estava mais alegre, não ficava mais reclamando, resmungando pelos cantos. Ela estava aprendendo a gostar mais de si mesma.
Mais tarde, Bento e Giane foram para a Acácia Amarela. Bento ficou ajeitando uns vasos de flores, enquanto Giane fotografava.
— Ô Bento, chega pra direita aí, cara! Favorece! — pediu Giane.
— Que favorece, Giane? Afinal de contas, você quer ser modelo ou quer ser fotógrafa? — perguntou Bento, levando um vaso de flor para o balcão.
— Eu não vou ser modelo por muito tempo, não. — disse Giane. — Eu quero mesmo é aprender a fotografar. E hoje você é o meu modelo. Sabia que você leva jeito?
Amora apareceu na loja neste momento.
Bento colocou a mão na frente da câmera fotográfica e disse:
— Que leva jeito, Giane? Para com isso!
— Leva mesmo! — disse Amora, referindo-se a Bento, e dirigiu-se a Giane. — Você também. Sabe que eu estou encantada com a sua trajetória como modelo?
Na verdade, Amora não conseguia entender como uma garota tão sem charme como Giane estava fazendo sucesso como modelo. Na opinião de Amora, Giane não passava de uma suburbana brega. Amora não conseguia entender como alguém como Caio podia ter se interessado por uma garota sem graça, inexpressiva, grossa e deselegante como Giane, e ainda tê-la transformado em modelo. Amora não se conformava em ver Giane entrar no mundo das passarelas, que ela considerava seu território, enquanto ela estava com a imagem arruinada e não conseguia mais trabalhos. Mas Amora acreditava que era apenas uma questão de tempo até conseguir dar a volta por cima e conseguir tudo o que era dela de volta. Ela não podia deixar passar uma oportunidade de se fazer de boazinha, de amiguinha. Bento precisava acreditar que ela estava disposta a mudar, por isso estava tratando melhor a Giane. Fazia parte do plano. Faria tudo o que estava ao seu alcance para reconquistar Bento, ter de volta o homem que amava.
— É mesmo? — disse Giane, irônica.
Giane não caiu na conversa de Amora. Afinal, até pouco tempo atrás, Amora achava que ela não levava o menor jeito para ser modelo. Até zom-bou dela, humilhou ela. Fez a caveira do Caio, disse que o Caio só podia estar querendo fazer uma brincadeira de mau gosto com ela. Agora vinha com esse papo? Amora não a enganava. Para Giane estava na cara que Amora estava fazendo a amiguinha, a boazinha para impressionar o Bento.
— É. — disse Amora, simpática. — É uma pena que eu não esteja mais no mercado, senão eu ia tentar te ajudar, te promover de algum jeito.
Na opinião de Amora, Giane não estava nem jamais estaria à altura dela. Socorro até havia ficado preocupada, disse para ela ficar esperta com Giane, pois Bento gostava muito dela e ela resolveu virar it-girl. Malu a provocou, dizendo que a estrela de Giane subia como um foguete, que Giane era uma concorrente muito forte e que o jogo ainda não estava ganho. Porém, no ponto de vista de Amora, Giane não era adversária para ela. E era a ela que Bento amava. Ela era a mulher da vida dele. Estariam sempre ligados. Ele só precisava se lembrar disso. Para Amora, mais perigosa era a Malu, porque Bento gostava dela, se identificava com ela, os dois tinham muito em comum. Bento e Malu haviam sido namorados até pouco tempo atrás. Por mais duro que fosse para ela, Amora, aceitar, Bento gostava realmente de Malu. Mas ela tirou a tonta da Malu da jogada ao mandar Socorro adulterar os exames de DNA. Além do mais, Amora acreditava que, por mais que Bento tivesse se encantado por Malu, nada era maior ou mais forte do que ela e Bento tinham, ou tiveram. O que havia entre eles era mais profundo. Bento iria se dar conta disso. Já a Giane não era páreo para ela. Bento nunca enxergou Giane como mulher. Se fosse para Bento namorar Giane, isso já teria acontecido.
— Imagino como você ia. — disse Giane. — Mas fica à vontade. Eu vou deixar você bancar a boazinha aí pro Bento. — estalou os dedos, e levantou o polegar. — Manda a ver. Vai lá.
Giane deu uma saída. Mas logo voltou para a loja, quando Amora já havia ido embora. Resolveu dar uma mãozinha para Silvério e Bento na loja.
— Bom, Giane, você pode não acreditar, mas que a Amora mudou, ela mudou. — disse Bento.
Giane pensou que Bento era mesmo um otário.
— E ela nem sabia que o Bento era herdeiro do Plínio. — disse Silvério, carregando um vaso com flores e levando a um canto da loja. Dirigiu-se a Bento. — Olha, vou falar uma coisa. A Amora pode ser muito tinhosa, mas eu acho que ela te ama de verdade, viu?
Bento acreditava que o amor da Amora por ele era sincero. Até porque ela havia demonstrado várias vezes.
— É. Eu ainda acho que o negócio dela é fama e dinheiro. — disse Giane, espirrando água na planta. — Mas tudo bem, pode ser que ela goste do Bento. Desse jeito torto aí, mas pode ser.
Giane estava até acreditando no amor da Amora pelo Bento. Afinal, Amora havia largado o Maurício, que era rico, para ficar com Bento, que era um pobretão. Amora estava querendo reatar com Bento há tempos, antes mesmo de saber que ele era herdeiro do Plínio. Além do mais, Bento e Amora se conheciam desde crianças. Mas na opinião de Giane, se Amora gostava do Bento, era um jeito bem estranho de gostar. Ela dizia gostar do Bento, mas enrolava para assumi-lo para a mídia, parecia ter vergonha dele. Além disso, ela forjou um atropelamento para comovê-lo, fazê-lo se sentir mal, e fingiu apoiar o namoro do Bento com a Malu. Amora era mesmo uma falsa, na visão de Giane. Além do mais, nada tirava da cabeça de Giane que, ainda assim, mesmo gostando do Bento, cedo ou tarde Amora iria se valer do fato de ele ser herdeiro do Plínio. Amora podia até gostar do Bento, mas esta história de ela largar a fama, o luxo e o glamour estava mesmo difícil de engolir. Amora não era uma pessoa humilde. A Amora boazinha e simples não a convencia, de jeito nenhum. Amora não iria aguentar por muito tempo a vida simples na Casa Verde.
— E aí, Bento? E aí, sogrinho, tudo bem? — cumprimentou Caio, ao entrar na loja. Aproximou-se da namorada. — Bom dia, minha linda. — deu um beijo no rosto de Giane. — Vamos tomar um café?
— Pode ser. — disse Giane, largando o borrifador e batendo as mãos uma na outra. — Pai, ó, vou direto pra gravação de lá, tá? Tchau, gente!
— Sorte. — disse Silvério, sorrindo, vendo a filha e o namorado irem embora.
Caio e Giane foram tomar um café, e depois ficaram um tempo na praça. Ainda tinham algum tempo antes de irem para a sessão de fotos. Caio contou que Karmita sugeriu que ele abrisse uma agência de modelos, e se ofereceu para ser sócia dele. Giane achou ótima a notícia.
— Sério? Então a Karmita te ofereceu pra fazer a sua própria agência?
— Sério. — disse Caio.
— Tá aí, gosto da ideia. Vai em frente! — incentivou Giane.
— E você estaria comigo, nessa? — perguntou Caio.
— Eu? Imagina! Eu não entendo nada disso. — disse Giane.
— Claro, você prefere continuar com o Bento, né? — disse Caio, cheio de ciúmes. — Você está sempre naquela loja, lá agora. Não sai mais de lá.
Na opinião de Caio, Giane tinha de sair da loja e da cooperativa de vez. Aquela loja era um negócio do Bento, e Giane tinha de deixar de ser a sombra dele.
— Ei, o que é isso? Ei! Aquela loja é minha também. — disse Giane. — Eu que ajudei a fazer.
Ela não tinha paciência para as crises de ciúmes do Caio.
— Ah, então me ajuda a fazer a minha agência. — disse Caio. — Vou precisar de uma fotógrafa. — Abraçou-a.
— Quem sabe nisso, eu possa te ajudar. — disse Giane, dando-lhe um beijo nos lábios. — Vamos comigo lá na sessão de fotos. Tô indo pra lá agora.
— Claro! — disse Caio. — Até porque agora, a Sílvia... — pegou no braço de Giane e girou-a. — Pediu pra eu ser o fotógrafo.
Foram direto para o estúdio. Quando chegaram, Sílvia já estava lá.
— Giane, olha ali. — disse Sílvia, apontando para vários pares de sapa-tos. — Esses são os modelos que você vai usar e caminhar pelo cenário.
— Difícil vai ser escolher o mais bonito. — disse Giane, enquanto o maquiador a maquiava.
— Você tem o dia inteiro pra decidir. — disse Sílvia. — Vamos começar?
Giane foi fotografada enquanto caminhava pelos diferentes cenários, fazendo várias poses, usando várias roupas e vários sapatos diferentes. Ela fez fotos sentada em uma cadeira de praia, no meio das flores, montada em uma bicicleta. Deu um beijo em Caio, durante um intervalo. Depois ela trocou de roupa e fez fotos em outro cenário, tomando um sorvete. Ela fez fotos carregando duas sacolas. No final da sessão de fotos, todos no estúdio gritaram e bateram palmas. Giane deu um beijo em Caio.
À noite, Giane passou em casa, trocou de roupa. Não havia ninguém em casa. Silvério havia saído. Giane foi ao Cantaí com Caio. Assim que chegaram, viram que Nestor mostrava um cartaz aos clientes.
— Vocês, por acaso, viram? Esse meu cachorrinho sumiu, olha. — disse Nestor. Os clientes negaram terem visto o cachorro.
— Seu Nestor, está tudo bem? — perguntou Giane.
— Não está nada bem, não, Giane. — disse Nestor, triste. — O Pixinguinha sumiu, querida. Você viu ele por aí, por acaso?
— Não vi, seu Nestor. — disse Giane. — Mas, ó, pode deixar que eu vou ficar ligada, tá?
— Ah, meu Deus! — disse Nestor.
— Não desanima, não. A gente vai achar o Pixinguinha. — disse Giane.
— E aí, gente boa? Tudo certo? — disse Brunettý, que acabou de entrar no Cantaí.
— Ô dona Mangaba, não está nada certo. — disse Nestor. — Sabe o Pixinguinha? Sumiu. Me dói o coração pensar que o coitadinho pode estar passando fome, frio. E já pensou se alguém maltrata? Eu morro.
— Mas vamos pensar positivo, né? Vamos? — disse Giane. — Olha só, com certeza alguém vai ver esse cartaz e se vir, vai... Vai devolver o seu cachorro.
— É. Ela tem razão, seu Nestor. — disse a Mulher Mangaba. — E ó, eu vou rezar pra são longuinho e ele vai aparecer. O senhor vai ver.
— Brunettý, minha gata! — disse Douglas, aproximando-se da Mulher Mangaba e lhe deu um selinho. — Veio me ver?
— Meu namorado! — disse a Mulher Mangaba, lascando um beijão nele.
— Namorado?! — disse Giane, estranhando. Ela achava que os dois não tinham nada a ver. O que a Mulher Mangaba tinha em comum com Douglas? Ele era um pirralho, e a Mulher Mangaba era areia demais para o caminhão dele.
— É. A gente está namorando. — disse Douglas. — Sabe, tem gente que valoriza o material aqui. Vamos, amor?
— Tchau! — disse a Mulher Mangaba.
— Tchau! — disse Giane.
— Tá na hora de dar uns bons conselhos pra esse garoto aí, viu? — disse Nestor.
Caio estranhou. Ficou parecendo que Douglas estava querendo fazer ciúmes na Giane. Será que havia um lance mal resolvido entre eles?
— O quê que foi isso aí? Vocês tiveram alguma coisa? — perguntou Caio.
— Nada! Maluquice desse doido aí. — disse Giane. — Vambora, que meu pai deve estar doido pra saber das novidades. Ó, seu Nestor, fica tranquilo que o Pixinguinha vai aparecer, tá?
A essa altura, Silvério deveria estar em casa. Giane queria contar ao pai tudo sobre a campanha que fez.
— Deus te ouça, meu amor! Deus te ouça! — disse Nestor.
Caio e Giane passaram na casa dela, conversaram um pouco com Silvério, depois voltaram para o Cantaí, para comemorar a campanha. Quando chegaram ao Cantaí, Socorro estava no balcão.
— Ih, Giane, já tá sabendo? — disse Socorro. — Filipinho tá mal no hospital.
Giane não gostou. Era só o que faltava. Primeiro era o Pixinguinha que sumia, agora era o Filipinho que foi parar no hospital. A bruxa estava solta.
— Você também, hein? Só vem dar notícia ruim! — disse Giane. — Sai pra lá, urubu!
Ela e Caio até ficaram um pouco no Cantaí. Dançaram. Porém, Giane logo quis ir embora. Para ela, já deu o que tinha que dar. Além do mais, estava preocupada com o Filipinho, queria saber como ele estava.
— Vambora? Vamos? Eu tô preocupada com o Filipinho. — disse Giane.
Caio, porém, queria passar o máximo do tempo com a namorada.
— Não, vamos ficar mais um pouco. — disse Caio, abraçando-a. — É tão bom ficar assim com você. Se eu pudesse, eu ficava aqui pra sempre, sabia? — beijou-a no rosto.
Giane achava que Caio estava sendo era muito grudento.
— É? Pra sempre? — disse Giane, dando um selinho nele. — Pra sempre ia ser meio chato, né?
Ela não se imaginava passando o resto da vida com Caio. O que sentia por ele era carinho, gratidão, mas nada além disso. Ela achava que Caio tinha de ir mais devagar, afinal, eles mal haviam começado a namorar e o romance podia não durar para sempre. No ponto de vista de Giane, se tratava de um namoro, não de um noivado, e até mesmo um noivado se desmanchava. Ela estava se esforçando para fazer o namoro dar certo, mas preferia não ficar criando expectativas, pelo menos por enquanto.
— Não. Não ia, não. — discordou Caio.
— Ia. — disse Giane, antes de dar um beijo nos lábios do namorado. No dia seguinte, Giane acordou e se arrumou para ir na aula de inglês.
Toda a vizinhança estava colhendo as flores, como sempre. Giane viu que Gilson e Bento estavam levando as caixas para dentro.
— Ih, tem alguém atrasado aí hoje? — perguntou Giane.
— Ah, depois que eu perdi minha sócia, ficou tudo mais difícil, né, Giane? — reclamou Bento, enquanto juntava as caixas e os vasos de flores do chão e levava tudo para a van, com ajuda de Gilson.
Bento sentia falta de ter Giane ao lado dele, trabalhando na loja. Giane sempre foi sua parceira, e sempre havia sido uma mão na roda.
— Você que deixou a vida enrolar. Eu te avisei, né? — disse Giane.
— Vem cá, que livros são esses? — perguntou Bento.
— Ah, eu tô fazendo inglês. Não te falei, não?
— Ah, é? Poxa, não sabia que você queria voltar a estudar. — disse Bento.
— Nem eu. Tô descobrindo um monte de coisa sobre mim mesma que eu nem sabia. — disse Giane. — Tá sendo legal, viu?
— Tô vendo. — disse Bento, batendo as mãos.
— Tá legal.
— Oi, meu amor! — disse Caio, aproximando-se.
— Oi. — disse Giane.
— Tudo bem? — disse Caio, dando um selinho nela. Dirigiu-se a Bento. — E aí, cara? Seu Gilson, tudo bem?
— Olá. — disse Gilson.
— Não tá na hora do seu curso, não? — perguntou Caio à Giane.
— Tá. Já tô indo. — disse Giane. — Tchau, gente.
— Vambora que eu te acompanho. — disse Caio, pegando na mão dela. — Olha, depois a gente podia ver aquele curso de fotografia de moda. O quê que você acha?
— Pô, uma boa! Show! — disse Giane.
Caio a acompanhou até o curso de inglês, antes de ir para o trabalho. Após a aula, Giane se encontrou com Caio novamente. Foram tomar um café. Caio contou que Camilinha Lancaster iria trabalhar com ele na agên-cia.
— Negativo, Caio. Eu não vou trabalhar com aquela patricinha. — disse Giane, sentando-se à mesa. Já haviam feito os pedidos.
— Você tinha topado ser minha sócia. — disse Caio, sentando-se também.
— E eu lá tenho cacife pra ser sua sócia, Caio? Eu não vou receber ordem de Camilinha, né? — disse Giane, bebendo o suco.
— Quer saber, vou desistir dessa história de agência. — disse Caio.
— Não faz isso! Não desperdiça a oportunidade que a Karmita tá te dando, não. — disse Giane. — Se for assim então, eu desisto de você tam-bém.
Giane tomou mais um gole do suco. Caio abanou a cabeça.
— Que graça tem essa agência se você não tiver comigo?
— Mas eu vou estar. Como modelo. — disse Giane. — E vou sempre estar te dando força. — passou a mão no rosto dele.
— Como você dava pro Bento? — perguntou Caio, enciumado.
— E continuo dando. Eu sou fiel aos meus amigos. — disse Giane, fazendo um carinho no rosto dele. — E eu vou ser fiel a você também.
— Te adoro, sabia? — disse Caio.
— Acho bom. — disse Giane.
— Muito. — disse Caio, antes de beijá-la.
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