Um amor inesperado

8 Jogo do Corinthians


O dia começou mal. Era a hora do almoço, quando Bento teve uma briga feia com Wilson, irmão do Gilson. Wilson veio buscar o filho, Vinny, e o garoto se recusou a voltar para casa. Vinny não suportava o ambiente de sua casa, por isso, sempre que podia, escapava para a casa de Gilson. Wilson não admitia que o filho desse trabalho para o irmão. Ele quis levar o filho à força e quase bateu no garoto. Bento tomou partido de Vinny, e ele e Wilson acabaram brigando. Ao ir embora, Wilson passou com o carro ao lado de Bento, quase atropelando-o. Era sempre assim. Sempre que se encontravam, Bento e Wilson acabavam brigando.

Em casa, Salma ofereceu um chá para Vinny, procurando acalmá-lo.

— Eu sabia que o papai ia ficar bravo, mas eu nunca imaginei que ele ficaria desse jeito. — disse Vinny.

Bento andava para lá e para cá na sala, bufando de raiva. Ele disse:

— Olha, você vai me desculpar. — dirigiu-se a Vinny e também a Gilson. — O senhor também tio Gilson, mas não é possível que esse cara seja teu irmão. Ele não é gente.

Bento não suportava a grosseria de Wilson. Também não suportava nem mesmo olhar para a cara do Wilson. Tinha aversão. Desde o dia em que Wilson o expulsou do parque, em seu aniversário de dez anos, ele passou a ter ainda mais horror de Wilson. Se antes já não ia muito com a cara de Wilson, por achá-lo grosso e arrogante, depois que foi expulso do parque, passou a detestá-lo ainda mais.

Na opinião de Bento, um sujeito como Wilson não devia ser pai de ninguém. Vinny era um bom garoto e merecia um pai muito melhor. Wilson sempre foi um pai ausente. Bento tinha pena de Vinny, por isso não quis deixar Wilson levá-lo embora. Bento sentia não apenas pena, como um carinho imenso por Vinny, como se ele fosse seu irmão mais novo. A casa onde ele morava nem podia ser chamada de lar. Era um verdadeiro hospício. Vinny sofria com a indiferença da mãe, que era uma maluca que só pensava em reconquistar o ex-marido e ignorava os filhos. E os irmãos de Vinny também não prestavam, só olhavam para os próprios umbigos. Ou seja, na visão de Bento, Tito e Mel tiveram a quem puxar, pois Wilson era um canalha egoísta. Vinny não tinha o que se podia chamar de família estruturada. Logo, para Bento era de se esperar que Vinny preferisse ficar na casa de Gilson e Salma, que era um lar bem mais saudável do que a casa dele, e era onde ele recebia amor e carinho. Era um lugar onde as pessoas se amavam, se respeitavam e apoiavam umas às outras. Gilson e Salma sempre recebiam muito bem o sobrinho, não se incomodavam de ele ficar lá. Adoravam Vinny.

Bento se perguntava como dois irmãos podiam ser tão diferentes. Wilson era o oposto de Gilson. Gilson era um homem bondoso, sereno e acolhedor, sempre tratava as pessoas com gentileza. Ao contrário do Wilson, que só sabia dar patadas em todo mundo.

— O Wilson teve uma infância muito dura. — defendeu Gilson. — Nós dois passamos muita necessidade, Bento.

— E desde quando pobreza determina caráter? — rebateu Bento. — Se fosse assim, o senhor também seria um monstro igual a ele.

Para Bento, Wilson não valia nada. Wilson brigava com ele desde quando ele era pequeno, e para Bento, quem tratava mal uma criança não podia prestar. E por culpa de Wilson, ele ficou com um trauma. Para ele, sua motivação para ter tanta raiva de Wilson não era fútil, justamente porque Wilson causou um trauma profundo nele. Para Bento, isso não era pouco.

Na opinião de Gilson, Wilson podia ser casca grossa, podia ter o gênio difícil, mas não era má pessoa. Era apenas um homem sofrido. Era um homem de temperamento retraído, e sua sensibilidade fora sufocada por uma grossa camada de aspereza. Talvez fosse uma maneira de ele se defender. A vida não fora nada fácil para Wilson. Gilson se esforçava para compreender o irmão. Embora nem sempre concordasse com as atitudes de Wilson, Gilson não o condenava. Gostava de Wilson.

— O meu irmão não é esse monstro também. — defendeu Gilson. — Nunca foi. Quando ele era jovem, a gente chamava ele de coração de ouro. Não é, Salma?

— É, mas Wilson nunca mais foi o mesmo depois da morte da Lívia. — disse Salma.

— Quem era essa Lívia? — perguntou Vinny.

— É uma namorada que seu pai teve antes de conhecer sua mãe. — explicou Salma, passando a mão no ombro do garoto.

— Olha, sinceramente, eu não tô nem um pouco interessado na vida desse cara. — disse Bento. — E nada justifica ele tratar as pessoas dessa maneira.

— É isso aí mermo, Bento. — disse Giane. — Pô, lembra lá do teu aniversário de dez anos? Tio Gilson levou a gente no parque...

— Ô Giane! — explodiu Bento, interrompendo-a. — Desculpa, prefiro nem lembrar dessa história. Olha, vou pra casa, gente. Vou esfriar minha cabeça.

Era uma lembrança dolorosa demais. Bento não queria nem falar no assunto. Só de ouvir falar no assunto, dava gatilho.

— Calma... — dizia Gilson, mas Bento já ia embora.

Vinny perguntou:

— O que é que o meu pai fez pra ele não querer lembrar?

— Ele expulsou a gente do parque, xingou o Bento de pivete. — Giane explicou. — Pô, o garoto tava fazendo dez anos. Isso aí não se faz não.

Giane odiava Wilson. Ela tinha a mesma opinião que Bento. Para ela, Wilson não prestava. Quando Bento estava completando dez anos, Gilson resolveu levar todas as crianças do lar para o parque de diversões de Wilson. Giane, como não podia deixar de ser, foi junto. Porém, o parque estava fechado para a comemoração do aniversário do filho de um político. E Wilson não quis misturar crianças carentes com as crianças ricas, filhas de políticos. Por isso ele não permitiu a entrada de Bento e outras crianças do lar. Expulsou todas. Tratou Gilson, Salma e toda a criançada com a maior grosseria. Bento ficou magoadíssimo. Ele nunca mais quis ir ao parque, porque ficou traumatizado. Não foi apenas o fato de ter sido expulso do parque, e sim por ele ter sofrido um forte abalo psicológico. E também tinha a ver com o que isso significava. Wilson parecia achar o fim do mundo crianças carentes estarem no mesmo ambiente que crianças da elite. Ou seja, Wilson tratou crianças carentes como seres inferiores. Bento se sentiu humilhado. Ele não entendia bem o porquê, mas a rejeição de Wilson ainda doía nele. No ponto de vista de Bento, ele não merecia ser tratado com desprezo, pois ele não tinha culpa por ter sido abandonado e não saber quem eram seus pais. Só de olhar para o Wilson, ele revivia a humilhação que sofreu.

— E a partir desse dia, toda vez que o Bento cruza com seu pai é briga na certa. — disse Salma.

Desde o episódio do parque, Bento e Wilson viviam se desentendendo, por várias razões. Bento nunca morreu de amores por Wilson, até porque Wilson nunca fora muito carinhoso com as crianças do lar. Além do mais, Wilson mal aparecia na Casa Verde. Porém, até ter sido expulso do parque, Bento não brigava com Wilson. Ficava quieto, no canto dele e deixava Wilson para lá. Mas tudo mudou depois que Wilson expulsou Bento do parque. Desde aquele dia, a antipatia que Bento tinha por Wilson se transformou em ódio.

— O quê que eu acho mais estranho é que esse Wilson aí é a única pessoa na vida que consegue tirar o Bento do sério. — comentou Giane.

Bento geralmente era uma pessoa tranquila, leve, alto astral. Mas ele não podia ouvir nem falar no nome de Wilson, que dava gatilho. Tudo o que se referia a Wilson desencadeava uma reação forte em Bento. Giane nunca viu Bento com tanta raiva de alguém. Se havia uma pessoa que Bento odiava, sem sombra de dúvida, essa pessoa era Wilson.

Horas mais tarde, quando já havia acabado todo o trabalho que tinha para fazer, Giane encontrou Bento conversando com Lili, e ouviu parte da conversa. Pelo visto, estavam falando de Amora. Giane chegou à conclusão de que só podia ser a respeito de uma entrevista que Amora havia dado para Sueli Pedrosa naquele mesmo dia. Todos na vizinhança estavam comentando. Amora fizera a boazinha diante da mídia, dissera que ajudava as pessoas humildes da Casa Verde. Mas a verdade era que Amora jamais havia ajudado as pessoas que a criaram, se quer as visitava. Por isso, ali na rua, estavam todos revoltados com a cara de pau da patricinha.

Ninguém gostou do arzinho superior de Amora ao se referir ao pessoal da Casa Verde. Ela falava como se fizesse um grande favor ao visitar as pessoas humildes. E pelo visto, Bento também não estava nem um pouco contente com o comportamento da queridinha dele. Na opinião de Giane, Amora só falou que visitava as pessoas humildes para causar uma boa impressão, para ficar bem com a mídia. Ela só se importava com a imagem.

— Vai à casa dela então. — aconselhou Lili. — Agora tem uma coisa, Bento, fala o que você tem pra falar olhando diretamente no olho dela, porque o tom que ela usou pra se referir às pessoas que cuidaram dela, que criaram ela aqui foi totalmente trabalhado no cinismo. Afinal de contas, me fala, quem foi que ela ajudou? Me fala. Hã? Hum?

Bento estava furioso por Amora ter mentido. Ele chegou à conclusão de que ela não ligava a mínima para as pessoas que a criaram ali. Ela apareceu apenas uma vez, e não veio mais, nem foi ao aniversário dele. Para Amora, as pessoas dali só serviam para ela se fazer de santa, para divulgar a bondade dela para o Brasil inteiro. Bento não se conformava com o fato de Amora renegar o passado e quem fazia parte dele.

— Quer saber, tio Lili? Eu vou resolver isso agora. — disse Bento.

— Vai lá. — disse Lili, vendo Bento indo embora.

Desta vez, Giane gostou de ver Lili aconselhando Bento a ir atrás da Amora. Aquela patricinha fingida estava mesmo precisando ouvir umas boas verdades, depois de desdenhar dos moradores da Casa Verde.

— Belo conselho aí, viu, tio Lili? — elogiou Giane, aproximando-se. — Espero que agora o Bento entenda de uma vez por todas quem é aquela lacraia. Mandou bem, toca aqui! — bateu com a mão aberta na dele, e em seguida com a mão fechada.

À noite, Giane resolveu ir ao estádio de futebol, assistir ao jogo do Timão, com os garotos da vizinhança: Jonas, Douglas e Lucindo. Giane estava vestindo a camiseta do time, assim como os rapazes, que estavam levando também as bandeiras do Timão. Estavam preparados para torcer pelo Corinthians.

— Bora, Giane! — gritou Jonas, no portão, enquanto ela descia as escadas da entrada de sua casa e agitava um pompom branco.

— Bora aê. — gritava ela, de volta.

Os rapazes cantavam: “Aqui tem um bando de louco! Louco por ti, Corinthians! Eu canto até ficar rouco!”

— Vambora, vambora! — dizia Douglas.

— Vambora, véio! Vambora, vambora! — dizia Lucindo.

Giane já estava prestes a entrar no carro, quando viu Bento sair da van, em frente à casa de Gilson. Pela expressão do rosto dele, certamente havia tido uma briga feia com Amora. Giane decidiu ir atrás do amigo. O jogo poderia esperar. Ela queria ver como o Bento estava e não pretendia demorar muito. Os garotos não gostaram nada disso. Resmungaram.

— Peraí, gente! Espera um pouquinho, pô! — disse Giane.

— Mano, quem trouxe essa mina, véio? — disse Lucindo.

— A gente vai se atrasar, pô... — reclamava Douglas.

— Manda ela fazer um bife pra mim, essa maloqueira! — dizia Lucindo.

Giane foi atrás de Bento, na casa dele. Percebeu que ele estava chorando. A garota ficou triste ao vê-lo tão arrasado por ter quebrado a cara com Amora.

— Bento. Você está chorando, cara?

Bento estava arrasado por ter constatado que Amora tinha vergonha dele e das pessoas que a criaram. Amora tinha horror a ele. Ele e Amora discutiram, e ela chamara as pessoas que a criaram de rudes e ignorantes. Aquela garota arrogante, esnobe, em nada lembrava sua amiga de infância. Amora não parecia mais ser aquela garota doce e simples que ele conheceu um dia. Ele não aceitava o desprezo de Amora, e se perguntava como ela podia tratá-lo com desdém. Como Amora podia ter deixado de gostar dele? Eles eram tão unidos quando crianças. Ele não entendia o comportamento de Amora. No dia em que ela foi visitá-lo, ela parecia tão simples, tão desarmada. Tratou bem a todos ali. Mas agora voltou a tratá-los mal. E ela não foi ao aniversário dele, nem ligou para dar satisfações. Toda hora Amora mudava de humor, de comportamento. Era difícil de aceitar que Amora se transformara em uma garota fútil, presunçosa, mentirosa e dissimulada. Como Amora podia tratar mal pessoas que cuidaram dela, por serem pobres? Ela foi pobre. Como ela podia renegar o passado, se esquecer de onde veio? Depois que ela foi visitá-lo, Bento achava que voltariam a ser amigos e que tudo voltaria a ser como era antes. Mas foi tudo ilusão. Havia várias maneiras de se perder uma pessoa. Ele sentia como se tivesse perdido não só uma amiga de infância, mas a esperança de um amor verdadeiro, e isso era muito duro.

— Você tinha razão, Giane. — disse Bento, com lágrimas nos olhos. — Fui um cretino de achar que Amora ainda era aquela menina simples e doce. Ela não gosta de mim. Eu não significo nada pra ela, Giane.

Giane entendia o sofrimento dele. Ela podia não gostar de Amora, mas até podia entender, ou ao menos tentar. Bento e Amora pareciam se gostar tanto quando eram crianças e hoje Amora não queria saber dele. Giane imaginava que devia doer muito em Bento o desprezo de uma pessoa que foi importante em sua vida. Mas Giane acreditava que estava na hora de Bento esquecer Amora. Bento tinha de valorizar quem gostava dele. Giane viu aí a chance de dizer tudo o que guardava em seu coração. Bento precisava saber o quanto ela gostava dele, que ela sim se importava com ele e era a mulher certa para ele. Amora e ele não tinham nada a ver, e Amora não ligava mais para ele. Giane não suportava ver Bento sofrer.

— Pô, Bento. — disse Giane, emocionada. — Pô... Pô, cara. Então esquece essa tonta. Olha, olha aí. Você não precisa dela pra nada. Tem... Tem um monte de gente aqui que te adora, cara. Bento, se você prestar atenção... Tem... Tem gente que te ama. Bem perto de você.

Bento olhou para ela. Sabia que as pessoas ali da rua gostavam dele. Mas Amora era importante para ele. Quando eram crianças, ele e Amora eram unidos, se adoravam. Amora era uma companheira para todas as horas e jurara que estaria sempre ao lado dele. Mas tudo mudou quando cresceram. Agora Amora estava noiva de Maurício, mas Bento achava que ele e Amora ainda podiam ser amigos. Além do mais, se Amora quisesse, podia desmanchar o noivado. Ele sentia que o noivado era de fachada, que Amora não amava o noivo. Mas pelo visto, Amora não queria saber dele. Tinha vergonha dele e das pessoas que a criaram. Para Bento era triste saber que ele não tinha a menor importância para Amora. O desprezo de Amora o feria profundamente.

Giane ficou nervosa, ansiosa.

— Ô Bento... O que eu tô querendo te dizer, cara...

— Ô Giane, vambora! Tá todo mundo te esperando! — disse Jonas, que resolveu ir atrás dela.

— Peraí, cara! Tem paciência. Não pode esperar um minuto? — disse Giane, irritada.

Bem na hora em que ela havia tomado coragem para se declarar, dizer a Bento o que sentia, o Jonas resolvia aparecer. Ela não pretendia demorar. Giane se perguntou se custava muito para Jonas esperar um pouco.

— Vocês estão indo pro jogo? — perguntou Bento, enxugando os olhos.

— É. — disse Giane.

— Vai nessa, Giane. — disse Bento.

— Mas... Você vai ficar aí sozinho, cara? — perguntou Giane.

Ela queria que Bento fosse ao jogo. Ele precisava espairecer. Bento torcia para o Corinthians, assim como ela.

— É. Eu acho que eu tô mesmo precisando ficar sozinho. — disse Bento.

— Deixa o Bento em paz, Giane. Vem. — chamou Jonas, aproximando-se e colocando a mão em seu ombro.

Giane afastou-se. Ainda olhou para trás. Não queria deixar Bento sozinho. Não enquanto ele estivesse tão triste. Giane pensou em desistir de assistir ao jogo, para ficar com ele. Porém, Jonas insistiu:

— Vem, vem, vem. — ele chamou.

O jeito foi ir ao jogo com os rapazes. Ela sabia que não podia fazê-los esperar ainda mais. Passaram horas agradáveis e divertidas assistindo ao jogo do Corinthians. Felizmente, o time venceu o jogo. Voltaram alegres, comemorando. Giane apitava e os rapazes cantarolavam: "Bando de louco! Louco por ti, Corinthians!". Entraram na casa de Gilson eufóricos, enrolados nas bandeiras do Corinthians. Gilson deu um abraço em Lucindo:

— Vi na televisão! Que jogão! — comentou Gilson.

— E podia ter sido melhor, se não fosse aquele juiz filho duma... — disse Douglas.

— Ei! Respeita aí. Tem criança na sala. — interrompeu Giane, rindo, brincalhona, referindo-se a Vinny, que estava sentado no sofá.

— Ô, não vem com hipocondria não, mano! — disse Lucindo. — Dá vergonha de andar com essa maloqueira aí no meio da Fiel. Essa mina falava umas coisas que os mano tinham até medo do que ela falava pro juiz.

Giane ria, com uma apito na boca.

— Pode crer! Tinha palavrão que eu nem conhecia. — disse Jonas, rindo. — De onde você tira isso, hein, Giane? Desse jeito você não vai arrumar um namorado nunca!

— Ei! Palhaçada! E eu lá quero namorado? — disse Giane, irritada, enfiando novamente o apito na boca.

Ela pensava que não fazia bem ao seu ego ouvir alguém dizer que ela nunca iria conseguir arrumar um namorado, alguém que gostasse dela. De preferência, um certo rapaz de quem ela gostava.

— Nossa, ainda bem que vocês chegaram. — disse Salma, colocando uma mão no ombro de Giane. — Acabei de tirar um bolo do forno. Quem é que vai querer um pedaço?

Giane apitou. Douglas, Lucindo e Vinny foram para a cozinha. Gilson e Salma também. Giane e Jonas ficaram a sós na sala. Giane atirou-se no sofá.

Jonas havia percebido o clima quando viu Giane conversando com Bento antes do jogo. Ele notou o interesse da garota. Jonas sempre achou que Giane gostava do Bento, e não era como irmã. Ele resolveu levar um papo com ela, dar alguns conselhos. Afinal, ele era homem, conhecia os homens e sabia do que eles gostavam. Os homens que ele conhecia não costumavam se atrair por garotas como Giane, que não se encaixava nos padrões de beleza e feminilidade esperados pela sociedade.

— Ô Giane, não era pra você ficar brava não. — disse Jonas. — Mas se você tá a fim de um cara aí que nem eu acho que você tá, você... Tem que ser mais feminina, pô. Homem não gosta de mulher que fala aquilo que você falou no jogo, não. Tem que usar uns vestidinhos, se comportar que nem menina.

— Ô Jonas, ó! Escuta aqui, cara! — disse Giane, furiosa, puxando-o pela gola.

— Ó só! Tá vendo? É isso que eu tô falando. — disse Jonas, ajeitando a camiseta. — Eu te dei a dica. Se servir, você pega.

Jonas foi para a cozinha. Giane ficou na sala. Ajeitou a camiseta, e ao sentar no sofá, tentou cruzar as pernas como as outras meninas fazem. Chegou à conclusão de que não levava muito jeito. Pensou no que Jonas dissera e acabou dando-lhe razão. Ela precisava de umas dicas de alguém que entendesse das coisas de mulherzinha. Giane queria ficar mais feminina para chamar a atenção de Bento. Ela não gostaria de precisar mudar, porque ela queria ser amada do jeito que era. Para Giane, não era possível que os homens se interessassem pelas mulheres apenas pela aparência delas, ou pelo jeito delicado que algumas tinham. Na visão de Giane, não era justo os homens se interessarem apenas por mulheres que se encai-xavam no estereótipo de feminilidade e beleza. Contudo, mesmo sendo um homem simples e sensível, Bento gostava era de mulheres femininas e produzidas como Amora. Giane não se sentia páreo para Amora.

No dia seguinte, Giane resolveu procurar Renata, a vizinha, filha da Odila. Renata era noiva do Érico, filho da Salma. Giane queria uns conse-lhos de Renata. Renata sabia muito bem como se arrumar, se vestir de um jeito mais feminino.

Depois de tomar café, Giane foi direto para a casa de Renata. Renata e os pais, Nestor e Odila, estavam tomando café. Giane bateu palmas.

— Dá licença aí. — disse Giane, entrando na sala. — Dá licença, bom dia, bom dia!

— Oi, Giane! — disse Renata, mastigando.

— Bom dia! — disse Odila, pegando uma xícara de café.

— Oi! — disse Nestor.

— Oh, Rê. Você tem um tempinho pra... Pra mim? — perguntou Giane.

— Huhum. — disse Renata, assentindo. — Claro, senta aqui.

— Oi, Giane. Fica à vontade aí, querida. — disse Nestor. — Você não quer comer uma omelete que eu acabei de fazer?

— Ah, não, obrigada aí, seu Nestor. Já tomei café. — disse Giane.

— Graças a Deus! — disse Odila. — Que sorte essa menina tem de já ter tomado café, viu? Coitada da minha filha, comendo essa gosma.

Nestor e Odila viviam às turras. Giane estava acostumada, Renata também. Nestor e Odila estavam divorciados, porém continuavam vivendo sob o mesmo teto, para um não ter que dar para o outro metade do valor da casa. Odila retirou-se. Nestor resmungou:

— Ah, meu Deus! Você vê, Renata, a minha sina? — ele disse, enfiando um pedaço de omelete na boca e mastigando.

— Pai... — disse Renata, esperando que o pai a deixasse a sós com Giane.

— Né? É duro pra mim, viu? — Nestor continuava resmungando.

— Pai. — disse Renata, olhando para ele e em seguida para Giane.

— Você viu que sina a minha, né, filha? — disse Nestor.

— Pai. Pai, pai, pai! — disse Renata, esperando que ele entendesse.

— Tá, vou servir um negocinho lá, já venho. — disse Nestor, levantando-se da mesa e levando o prato com omelete. Finalmente havia percebido que Giane queria ficar sozinha com Renata. Saiu da sala.

Giane e Renata ficaram a sós.

— Vai. E aí, o que aconteceu?

— Ô Rê, eu tava querendo umas dicas aí tuas... — disse Giane.

— Huhum. — disse Renata.

— É que assim... Pô. Você aí, você é mó bonita, né? — disse Giane. — Se veste aí... Pô, legal, né? Eu... Eu... Eu queria, assim, uns conselhos pra... — sentou-se na cadeira, ao lado de Renata. — Porque assim... É... Ficar aí mais... Não sei. Mais feminina, sabe?

— Mais feminina? — disse Renata. — Ah... Por acaso isso teria alguma coisa a ver, assim, com um certo florista aqui da rua?

Pelo visto, Renata notou o interesse de Giane em Bento. Contudo, era difícil para a garota falar de seu sentimento, por isso preferiu negar.

— Não! Não tem nada a ver com ninguém não. — disse Giane, enver-gonhada. — Que isso? Pô, é pra mim mesmo, entendeu? Pô, tô cansada aí também de ser tratada igual moleque. Chato, né? Pô.

— Claro, claro. — disse Renata.

Renata queria ajudar Giane. Mas não sabia se a garota iria gostar das roupas que ela escolheria. Primeiro, Giane teria de descobrir o tipo de roupa que gostaria de vestir, que passaria a usar. Isso se ela realmente queria mudar de estilo e se vestir como as outras meninas. Giane sempre foi diferente das outras garotas. Sempre viveu entre os meninos, no universo dos meninos, e não conhecia outra coisa. Giane não sabia ser diferente. Na opinião de Renata, não dava para Giane se vestir como as outras meninas do dia para a noite. Além do mais, Renata achava que Giane devia se vestir de acordo com seu gosto, com sua personalidade, em vez de simplesmente copiar as outras. No ponto de vista de Renata, Giane não devia adotar um visual que não tinha nada a ver com ela. Renata achava que Giane era genuína e autêntica em seu visual.

— Bom, Giane, eu até posso te levar pra tomar um banho de loja, mas será que você ia se sentir bem? Hã? — disse Renata, levantando-se da cadeira. — Usando um saltinho, uma sainha justinha, uma blusinha? — apontou para os pés, correu as mãos pelas coxas e fez um gesto de vestir uma blusa.

Giane gargalhou. Renata também. Renata sentou-se novamente na cadeira.

— Pois é... Giane, olha só, estilo é uma coisa assim que tem que vir de dentro. — disse Renata. — Tem que ter... Sabe, tem que ter a ver com você. É isso! Não adianta você entrar numa embalagem que não tem nada a ver com você. Você ia se sentir presa, artificial. Pensa nisso. E outra, você ia perder o que você tem de mais belo! Esse seu jeito assim, sabe? Despachado, moleque. Seu humor. Essa é a sua graça, Giane.

— É. Pode ser. — disse Giane.

— Giane. — disse Renata, levantando-se e passando as mãos no rosto da garota. — Olha só, você é linda. Quem tiver que gostar de você, vai gostar de você do jeito que você é, sem tirar nem pôr.

Renata foi para o quarto. Giane foi atrás dela.

— Ô Rê... Peraí.

Renata estava arrumando a bolsa para ir trabalhar.

— Ô Rê. Mas e se...? Assim. A pessoa aí que eu gosto... — disse Giane.

— Hum. — disse Renata, pegando no celular e sentando-se na cama.

Giane sentou-se também.

— Ela... Ela não gostar desse jeito aí. Que eu sou? — perguntou Giane.

Renata achava que Giane não devia mudar tanto, fingir, deixar de ser quem era só para agradar ao Bento. Giane não devia abrir mão de sua essência, de sua autenticidade. No ponto de vista de Renata, se Giane quisesse se arrumar mais, se cuidar mais, ser mais vaidosa, tudo bem. Mas Giane não devia se anular para agradar ninguém, nem fazer uma mudança radical. Para Renata, Giane não precisava imitar Amora Campana, por exemplo. Não era para ela virar outra pessoa. Renata sabia da insegurança de Giane em relação à Amora, e acreditava que Giane estava pensando em ficar mais feminina, mais parecida com Amora ou com qualquer outra garota para fazer Bento enxergá-la. Mas Giane era linda do seu jeito.

— E você ia ser feliz? Fingindo só pra agradar o carinha? — disse Renata. — Giane, continua sendo como você é. É o melhor que você pode fazer.

— Pô, brigadão, Rê! — disse Giane. — Pô, valeu aí pelo toque.

Renata sorriu.

— Brigadão, hein? — disse Giane, dando um tapa no braço de Renata. — Pô, você é mó legal, hein, cara?

— Não, não sou tão legal assim. — disse Renata, passando as mãos no rosto de Giane. — É que eu vivi um tiquinho mais que você. Só isso.

— Mandou aí. Valeu. — disse Giane, fazendo um gesto com a mão e retirando-se.