Um amor inesperado

48 Jogando uma pelada


No dia seguinte, na hora do almoço, Giane estava regando as flores, quando Fabinho chegou e começou a jogar pedrinhas nela.

— O que é, ô praga? — perguntou Giane.

— E aí, maloqueiro? Tá com essa cara de fome? — disse Fabinho, jogando mais uma pedrinha em direção a ela. — Quer almoçar lá em casa?

— Eu, hein! Não sabe fazer nem pipoca de micro-ondas. — disse Giane. — Não sei mesmo. Mas minha mãe chegou, a comida é muito boa. Va-

mos?

— Eu tenho aula de inglês. Mas convite pra jantar, eu aceito. — disse Giane. Ela até já havia almoçado.

— Então, tá bom. Combinado. Mas, olha, você leva a sobremesa porque chegar na casa dos outros de mão abanando é feio, tá? — disse Fabinho, e jogou mais uma pedrinha nela. — Tá?

— Você vai ver o que é feio... — disse Giane, divertida, correndo em direção a ele. — Se não parar de jogar essa porcaria dessas pedrinhas!

Fabinho saiu correndo, porém, Giane o alcançou, pegando no braço dele e segurando-o. Fabinho segurou-a pela cintura. Giane sentiu-se estremecer com o toque dele. Podia sentir o calor do corpo dele, a respiração. Era bom estar tão perto dele, tocá-lo, sentir seu cheiro. Ele cheirava bem. Giane disfarçou. Jamais deixaria transparecer o que estava sentindo. Mas bastava vê-lo para seu coração bater mais forte. Sentia-se tão atraída que mal raciocinava na presença dele.

— E aí? Te peguei! Tem medo de mulher? — disse Giane, brincalhona.

— Não, de mulher, não. Tenho medo de maloqueiro. — brincou Fabinho.

Giane deu um tapa no ombro dele.

— Pede desculpas! — disse a garota.

— Senão o quê? Vai me bater? — disse Fabinho.

Ela não respondeu. Olharam-se intensamente. E, de repente, era como se nada mais existisse no mundo além deles. Giane não conseguia tirar os olhos do garoto à sua frente. Ele era tão lindo! Sentiu seu coração acelerar. Ele estava tão próximo dela, sentia a respiração dele, a pressão das mãos dele em sua cintura. Olhou nos olhos dele e, em seguida para os lábios. Ele tinha uma boca maravilhosa. Como seria beijá-lo? Sentiu vontade de tocar aqueles lábios com os seus. Inclinou-se. Hesitou. Ele inclinou o rosto e quando estava um passo de beijá-la, Giane resolveu soltá-lo. Era uma loucura o que estava prestes a fazer. O que estava havendo com ela?

— Vai, vai trabalhar! O Érico não te paga pra ficar tacando pedrinha, não. Palhaço! — disse Giane, pegando o regador que havia deixado no chão.

Sentira-se confusa. O que acabou de acontecer? Quase beijou Fabinho. Ficou com vergonha. Será que seria capaz de agir naturalmente com ele depois disso? Continuou regando as flores. Depois resolveu passar em casa. Ao chegar em casa, viu que havia vários pares de sapatos na sala. Sentou-se no sofá e resolveu dar uma olhada neles. Silvério apareceu na sala.

— Oi, filha! Olha só o que chegou pra você. — disse Silvério, apontando para os sapatos e sentando-se no sofá ao lado dela.

— Olha! — disse Giane, dando uma olhada nos sapatos. — Até que esse negócio de ser modelo tem suas vantagens, né, pai?

— Ô Giane, você viu... — disse Socorro, entrando na sala com uma revista em mãos. Fechou a porta da frente.

— Ô Socorro, entra aí! — disse Silvério.

Socorro espantou-se ao ver várias caixas de sapatos.

— Caramba! Você ganhou isso tudo? — perguntou Socorro para Giane. — Só vim perguntar se você tinha visto o seu anúncio na revista. — entregou a revista para Giane. — Tá linda, viu? Parabéns! Quanto sapato, né?

— Quanto sapato, né, Socorro? — disse Giane, rindo. — Pode escolher um, Socorro, vai. Aproveita e esfrega na cara da Amora e diz que fui eu que te dei.

— Sério? Qualquer um? — perguntou Socorro.

Socorro aproximou-se e pegou um sapato.

— Giane, olha que lindo! — disse Socorro, e pegou outro sapato. — Olha esse! Não acredito! O que você acha?

— O que eu acho? — disse Giane.

— É, eu acho lindo! — disse Socorro, entusiasmada. — Ai, não acredito! E agora? Eu não consigo escolher!

— Não consegue escolher, Socorro? — perguntou Giane.

— Não! — disse Socorro.

Giane acabou ajudando Socorro a escolher os sapatos. Depois foi para a aula de inglês. À noite, Silvério e Giane vieram jantar na casa de Margot. Margot preparou uma lasanha. Estava deliciosa. Pelo visto, Margot era mesmo uma cozinheira de mão cheia. Silvério elogiou:

— Nossa, Margot, tua lasanha é uma delícia!

— É. Tá páreo pra da tia Salma. — disse Giane.

— Muito boa mesmo. Parabéns. — disse Fabinho.

— Fabinho, eu queria te agradecer por estar aqui, comigo. — disse Margot.

— Ih, mas já começou. — disse Fabinho, envergonhado.

— Por ter tomado um rumo na vida. — disse Margot. — Por estar perto de pessoas tão bacanas.

Pelo modo como Margot falou, Giane entendeu que Fabinho antes andava em más companhias. Então ele não andava com pessoas bacanas. Estava explicado o que o levou a cometer crimes.

— Novela mexicana, adora. A vida inteira essa novela. — disse Fabinho.

Fabinho tomou um gole do suco. Silvério perguntou:

— E aí, Fabinho? Tá feliz lá na agência do Érico?

— Não pagam lá essas coisas, não. Mas tá bom, né? — disse Fabinho. — Mil vezes o que a Giane me pagava na loja lá. — apontou para Giane.

— Pagava o que você merecia! — disse Giane, de boca cheia.

— Vai falar de boca cheia? Ô jumenta, cadê a educação? — disse Fabinho.

— Jumento é você! Quem é você pra falar de mim? Ah, palhaçada! — disse Giane.

Discutiram. Fabinho zoou da camiseta dela de pica-pau. Margot e Silvério acharam graça ao verem os filhos se implicando. Após o jantar, Giane e Silvério voltaram para casa. Giane resolveu andar um pouco pelas ruas da Casa Verde. Estava uma noite linda. Ela não conseguia tirar da cabeça o que aconteceu na hora do almoço. Passou o dia todo pensando nisso. Aliás, ultimamente, passava a maior parte do tempo pensando em Fabinho. Ele havia virado uma ideia fixa. Estava andando pela praça, quando avistou o rapaz sentado no chão, apoiando-se no banco e olhando para o céu. Giane resolveu se aproximar. Fabinho parecia estar com a cabeça longe dali. No que ele estava pensando? Será que estava pensando nela?

Giane aproximou-se por trás e olhou no rosto dele.

— Hum! Quem olha assim pro céu é porque tá pensando em alguém.

— Não tô pensando em nada, só tô olhando. — disse Fabinho.

— Ah, fala sério. Você nunca se apaixonou por ninguém? Frio. — disse Giane, sentando-se ao lado dele.

— Eu, não. Nunca. — disse Fabinho. — Quer dizer, uma vez, eu achei que estava apaixonado, mas era cisma.

Giane achou que ele estava falando de Amora.

— Ah, não. Me diz que não é quem eu tô pensando. — disse Giane, enciumada. — Mas o quê que alguém vê naquela Amora?

A garota não conseguia entender. O que Amora tinha, para ter chamado tanto a atenção dele? O que será que os homens viam nela? Amora podia ser bonita, produzida, mas era uma entojada, fútil, superficial. Era um poço de arrogância, se considerava superior a tudo. Se bem que Fabinho devia ter se identificado com Amora. Eram dois metidos à besta.

— A Amora é muito inteligente. A Amora é muito bonita. Tudo que você não é, né? — disse Fabinho, em tom de brincadeira. Riram.

— Ai, como você é ridículo. Vai te catar, garoto. — disse Giane, rindo.

— Cara, eu acho que eu nunca parei pra olhar pro céu, sabia?

— Ui, ui, ui! Como estamos sensíveis. — disse Giane, rindo e olhando para o céu, para a lua. — Aproveita e faz um pedido pra lua. Um amor pra ver se amolece esse coração de pedra aí.

Fabinho olhou para Giane e sorriu.

— Eu pedindo amor, é? É, pode ser. — disse Fabinho, rindo, olhando novamente para ela e em seguida para o céu.

Os dois ficaram por algum tempo perdidos em seus pensamentos. Giane olhava fixamente para a lua e para o céu estrelado. Não conseguia acreditar no que havia feito. Perguntou a Fabinho se nunca havia se apaixonado, sugeriu que ele pedisse um amor para a lua. Falou sem pensar. A verdade é que mal conseguia raciocinar, se concentrar em qualquer coisa quando estava perto dele. Mas era tão bom estar ao lado dele. Se pudesse, não saía de perto do garoto. Mais tarde, foi dormir feliz, pensando nele.

No dia seguinte, Giane acordou cedo e foi para a casa do Bento. À medida em que se aproximava, ouviu vozes. Eram Bento, Amora e Fabinho discutindo. Bento, furioso, expulsava Fabinho:

— Pela última vez, sai fora da minha casa!

— O quê que tá pegando aqui, Bento? — perguntou Giane.

— Não, não é nada, Giane. É mais uma crise da cocotinha. — disse Fabinho.

Fabinho foi embora. Amora a fuzilou com o olhar.

— Não acredito. O quê que você tá fazendo aqui que eu não te chamei, hein, garota? — disse Amora, irritada. Como se não bastasse o Fabinho aparecer ali, agora a maloqueira veio encher o saco. Continuava não suportando olhar para ela.

— Você acha que eu vim falar com você? — disse Giane, impaciente, e dirigiu-se a Bento. — O Bento, você vai colher as flores do linhão?

— Não. Eu fiquei de passar na dona Glória. — disse Bento.

— Você vai me deixar aqui sozinha, Bento? — perguntou Amora.

Amora tinha horror de ficar sozinha naquele lugar, longe do Bento. Aquele lugar lhe trazia lembranças dolorosas. Ao lado dele, ela se sentia mais segura.

— Não, Amora. O tio Gilson e tia Salma estão aí qualquer coisa. — disse Bento.

Amora grunhiu, chateada.

— Ao invés de ficar miando, por quê que você não vai ajudar lá na loja, hein? — disse Giane.

— Chata! — xingou Amora.

Giane foi colher as flores do linhão. Bento foi na casa da Glória. Mais tarde, quando Bento voltou, Giane foi à casa dele. Acabaram conversando sobre Amora. Bento foi à casa de Bárbara no dia anterior e conversou com Madá, que acusou Amora de ter mandado pichar a Toca do Saci. Porém, Bento não acreditou que Amora fosse culpada pela pichação. Não que achasse que Madá estivesse mentindo. Madá não mentiria, nem tinha o costume de caluniar ninguém. Ela apenas suspeitava de Amora, e não fazia nada por maldade. Ela estava defendendo o que acreditava. Bento achava que Madá estava imaginando coisas. E não dava para culpá-la, afinal, Amora fez ameaças. Mas não havia provas contra Amora. Amora podia até ter ameaçado fazer alguma maldade contra Malu, caso Madá abrisse a boca sobre o falso bazar. Mas, no ponto de vista de Bento, isso não significava que Amora havia mandado pichar a Toca. Não necessariamente. Uma coisa era ameaçar, outra era fazer. E Amora não disse exatamente o que faria. Além do mais, Madá não era uma pessoa isenta. Bento ainda achava que Fabinho era culpado pelo incêndio e pela pichação.

Bento também foi visitar Plínio e Irene. À essa altura, Bento e Plínio haviam se reconciliado. Bento conversou com os pais sobre Amora. Irene acreditava que Amora era culpada pelo incêndio e pela pichação, Malu também. Porém, no ponto de vista de Plínio, Amora podia não ser flor que se cheire, mas ninguém podia acusá-la sem provas. Plínio aconselhou Bento a perguntar para Amora a respeito dos crimes dos quais ela era acusada. Ele achava que Bento era inteligente e perceberia se Amora estaria mentindo ou dizendo a verdade. Bento seguiu o conselho do Plínio e questionou Amora a respeito do incêndio da Toca do Saci, mas é claro que Amora negou ser a responsável e ainda acusou Fabinho. Por isso ela, Bento e Fabinho estavam discutindo de manhã. Fabinho até assumiu que foi ele que havia destruído a estufa. Bento resolveu não denunciar Fabinho. Até porque sabia que a confissão, por si só, não era suficiente para condená-lo. Era preciso outras provas. Vários meses se passaram desde o crime, e ninguém tinha visto o rosto do Fabinho quando ele destruiu a estufa. Nem a cicatriz era prova suficiente, pois o ferimento podia ter sido causado por qualquer outro objeto que não o ancinho. Além do mais, Fabinho podia desdizer, negar, falar que não destruiu a estufa. Bento achou que denunciar Fabinho era perda de tempo. E Bento acreditou na Amora quando ela disse não ser responsável pelo incêndio.

Bento começou a organizar os sapatos da Amora, que estavam espalhados pela sala de sua casa, colocando tudo em caixas enormes.

— E aí? O quê que você vai fazer com isso? — perguntou Giane.

— Tirar da frente, pelo menos, né? Não dá pra viver com esse mundaréu de sapato que tem aqui. — disse Bento.

— Bento, me diz uma coisa, com sinceridade. Você ainda ama a Amora?

— Sinceramente? Eu não sei. — disse Bento. — Eu não sei, porque eu não sei se eu conheço mais ela, você me entende? Eu amava a mulher que ela parecia ser, mas depois de tudo que eu descobri...

Bento continuava decepcionado com Amora, por conta da história do falso bazar e de tudo o mais. Ela disse para todo mundo que não ligava mais para dinheiro e para a fama, que iria largar a vida fútil e vazia de celebridade para levar uma vida simples ao lado dele, e era tudo mentira, para convencê-lo a se casar com ela. Amora não se casou com ele para viver na Casa Verde. Não queria viver no mundo dele, com as pessoas que ele amava. Ela queria era morar nos Jardins. Estava contando com o dia em que ele ia se valer do fato de ser herdeiro do Plínio.

Amora achava que ele ia mudar por ter ficado rico. Amora o acusava de não ceder, reclamava que só ela cedia, mas não era verdade. Ela não havia cedido em nada, tanto que aquele papo de mudar, de levar vida simples era da boca para fora. Na viagem de lua-de-mel, ele fez todas as vontades dela: mudaram de hotel, foram ao Valle Nevado, esquiaram, tomaram banho de piscina aquecida. Mas Amora não fez nenhuma das vontades dele. Não visitaram nenhuma vinícola, nem conheceram a casa de Pablo Neruda em Isla Negra. Amora queria tudo do jeito dela. Já na lua-de-mel, deu para ver que o casamento não estava dando certo.

Amora era egoísta, além de mentirosa. Bento não esperava que Amora fosse capaz de mentir tanto, montar toda aquela farsa, enganar todo mundo, se passar por boazinha. Amora podia chamá-lo de turrão, de cabeça-dura, mas ele nunca a enganou. Sempre foi honesto, sempre disse o que pensava e o que queria da vida e até cedeu um pouco. Nada justificava Amora ter mentido para ele. Era para ela ter sido sincera, ter mudado para valer. Bento achava que Amora havia voltado a ser aquela menina doce e simples que ele conheceu no lar do Gilson, a garota por quem ele se apaixonou. Mas ele se enganou. Aquela menina não existia mais. E ele tinha a sensação de que não conhecia a mulher que ela se tornou. Como ele podia amar uma pessoa que mal conhecia?

— Bento, como que você vai continuar casado com uma pessoa assim?

— Eu não vou abandonar a Amora agora, Giane. Ela tá doente. Ela precisa de ajuda. — disse Bento. Ele sentia necessidade de ajudar Amora a superar o trauma. Ele havia prometido isso para ela. Ele estava fazendo por Amora o que ninguém tinha feito até então. Ele a convenceu a fazer terapia. Desistiu de se separar, pelo menos por enquanto. Impôs a Amora duas condições para continuar casado com ela: que ela se tratasse e fizesse as pazes com a irmã. Se ela se recusasse, ele se divorciaria. Bento não tinha noção do quão doente Amora estava, até Simone aparecer.

Ele e Amora conversaram com Simone, que contou como tinha ido parar no Chile. A mulher que a chamara para trabalhar em um show a largara na fronteira, pois não tinha documentos e era menor. Ela conhecera um caminhoneiro, Elídeo, que estava levando uma carga para Valparaíso e a chamara para ir com ele. Depois, ele voltara para o Brasil e Simone ficara no Chile, trabalhando numa boate. Na boate, ela conhecera o falecido marido, Juan, que tinha perdido a primeira esposa. Juan acabara tirando-a da boate e se casando com ela. Juan era bem mais velho e tinha morrido no começo do ano. Simone não procurara Amora, não voltara para buscá-la depois de ter se casado com Juan, pois ele não tinha dinheiro para isso. Além do mais, ela não sabia que Amora tinha mudado de nome. Só descobrira há poucos meses, quando lera em uma revista brasileira que Amora havia perdido a irmã com nove anos, e que a irmã se chamava Simone. Então, concluíra que Amora era Mayara. Ficara sabendo também que Amora morara no lar do Gilson, que nem existia mais. Então passara a enviar cartas, cartões postais para Gilson. Estava economizando há um ano para voltar ao Brasil. Não ganhava muito como cabeleireira.

Bento acabou entendendo que Simone era uma adolescente, que agarrou a primeira oportunidade de deixar a miséria, sair da rua, resolveu tentar a sorte e teve de deixar Amora para trás, pois não podia levar criança no lugar onde ela iria trabalhar. Certamente, Simone achou que logo juntaria dinheiro suficiente e teria condições de voltar para buscar Amora, mas não foi o que aconteceu. E era óbvio que não foi uma escolha fácil, devia ter sido muito difícil para Simone abandonar a irmã. Na época Simone era menor de idade também, por isso a mulher que a chamou para trabalhar desistiu de levá-la e a largou na fronteira. Amora a princípio não queria perdoar Simone, achava que nada justificava o abandono. Mas Bento acabou convencendo-a a fazer as pazes com a irmã, depois de conversar bastante. Simone havia contado para ele tudo o que ela e Amora passaram quando moravam nas ruas, e ele ficou sensibilizado. Ele podia entender por que Amora se tornou uma pessoa dissimulada, mentirosa e sem escrúpulos. Mas ela não era assim. Amora não era uma pessoa ruim quando ele a conheceu. A rua e a Bárbara haviam mudado muito a Amora.

Giane não gostou de ver que Bento caiu no papinho da garota traumatizada por ter passado a infância descalça, da pobre menina de rua que foi abandonada pela irmã, que a deixou com uma mulher que a explorava. Como se isso justificasse todas as maldades da Amora. No ponto de vista de Giane, nenhum sofrimento justificava mau-caratismo. Nem mesmo as canalhices de Fabinho eram justificáveis aos olhos dela, mas ele estava mudando. O sofrimento da Amora era verdadeiro, e ela tinha um trauma, mas também era verdade que ela usava isso para comover as pessoas, manipulá-las e conseguir o que queria. Era óbvio que Amora iria se fazerde coitadinha, se valer do seu trauma para continuar casada com Bento.

— Já vi tudo. Você caiu de novo na dela. — disse Giane.

— E você na do Fabinho. — disse Bento.

O coração da garota bateu mais forte ao ouvir o nome de Fabinho.

— Que moral você tem pra falar de mim, Giane? O cara que destruiu minha estufa, quase matou a dona Odila. Quem que é o trouxa desta histó-ria, sou eu? — disse Bento.

Giane não iria discutir com Bento. Até porque sabia ser inútil. Ela achava que Bento não tinha moral alguma para falar dela. Primeiro porque estava casado com uma bandida. Segundo, Fabinho estava realmente mudando, ao contrário da Amora, que continuava aprontando e mentindo para o Bento. Além do mais, ela, Giane, não era casada com Fabinho. Não estava nem namorando ele. Ela não estava sendo feita de trouxa. Além do mais, não estavam falando de Fabinho, e sim dos sentimentos de Bento. O Bento havia acabado de dizer que não sabia se ainda amava Amora, que não sabia se conhecia ela, mas não iria se separar por pena. Mesmo depois de tudo o que Amora aprontou, de todas as mentiras, todas as armações, Bento não se separava dela por pena, e ainda acreditava nas promessas dela. Amora prometia que ia mudar e ele acreditava. Quando Bento iria deixar de ser otário? E não era bom manter um casamento por pena. Bento deveria se tocar que não bastava ele querer que Amora mudasse, Amora deveria querer também, e era evidente que ela não queria.

— Bento, só me diz uma coisa. Como que você vai continuar casado com uma pessoa que você não confia, cara? — disse Giane, saindo da sala, aos trancos e barrancos, por causa dos sapatos espalhados pelo chão. — Boa sorte, aí.

Ao sair da casa do Bento, Giane acabou se deparando com Fabinho na rua.

— E aí? Estava onde? — perguntou Fabinho.

— Não é da sua conta. Tá me controlando agora, é? — disse Giane.

— É um cavalo grosso mesmo, né? Eu ia te chamar pra tomar um sorvete comigo.

Giane riu. Era disso que ela gostava: ao lado dele ela podia ser ela mesma. Podia ser grossa, gritar, falar palavrão, sem se preocupar com o que ele iria pensar dela, porque eles falavam a mesma língua do confronto, da intensidade e da falta de filtro. Ao contrário de muitos homens, Fabinho não se intimidava com o jeito dela, e era tão explosivo, intenso e casca grossa quanto ela. Por isso brigavam tanto. Não era apenas por conta das canalhices de Fabinho, ou porque ele tentava prejudicar Bento. Era também porque se pareciam. Ambos tinham a cabeça dura, o pavio curto. Ao lado dele, ela não se sentia inadequada. Ao contrário do que acontecia com Bento e com Caio, que eram tão educados, tão gentis e civilizados, que ela sentia que tinha de se conter. Com Bento e Caio ela sentia que estava representando um papel: com Bento ela tinha de ser a sócia, a parceira, a amiga leal, com Caio ela tinha de ser a modelo perfeita. Ao lado deles ela tinha de ser a mulher educada. Com Fabinho era diferente. Ele era o único que realmente aguentava o tranco da personalidade dela.

— Tô falando sério. — disse Fabinho.

— Vai ter uma peladinha, eu topo. Bora, palhaço. — disse Giane.

— Peladinha? — disse Fabinho, sem entusiasmo.

Foram até a praça, depois de passarem na casa de Fabinho para pegarem a bola dele. Giane chutava a bola de um lado para o outro.

— Ô, Fraldinha, não sabe jogar bola, não?

— Claro que eu sei. Eu tô destreinado. — disse Fabinho, tentando roubar a bola dela. Porém, não conseguia nem alcançar a bola.

Definitivamente, Fabinho não levava o menor jeito para jogar bola.

— Vem, Fraldinha! Tem medo de bola, é, fraldinha? — disse Giane, chutando a bola.

Fabinho ainda tentava roubar a bola dela, sem sucesso.

— Vem, fraldinha! Vem, fraldinha! — disse Giane, e chutou a bola na direção do gol. — Gol! Uh! — levantou os braços, em comemoração.

Fabinho agarrou-a pela cintura e começou a rodá-la.

— Não valeu! — gritou Fabinho.

— Me solta! — disse Giane, e o rapaz soltou-a, porém, logo se agarraram. — Valeu, sim!

Fabinho a segurava pela cintura e a puxava para si. Ficaram por alguns instantes se olhando, encantados. Giane estava adorando estar agarrada com ele, não querendo que ele a soltasse. Ela olhava fixamente para a boca do rapaz, querendo beijá-lo. Fabinho parecia querer a mesma coisa, pois olhava para a boca da garota. Mas ela não tinha certeza, podia ser apenas impressão. Foi quando Caio apareceu e interrompeu o clima.

— Opa, muito bonito! — disse Caio.

Giane e Fabinho se afastaram, constrangidos.

— Oi, Caio! — disse Giane.

— Qual é a próxima campanha, Giane? É chuteira? — disse Caio, cheio de ciúmes. Não gostou nada de ver Fabinho agarrando Giane, na maior intimidade.

— Ah! — disse Giane, sem paciência para as crises de ciúmes do Caio.

— Não entendi, cara. Qual é o problema? — perguntou Fabinho.

Giane não deixaria que brigassem, de jeito nenhum.

— Deixa que eu falo com ele. — disse Giane. — Vai lá, vai lá treinar... — deu um tapinha no braço dele. — Que tu joga muito mal.

— Se liga, hein, pivete! — disse Fabinho, pegando na nuca dela e chacoalhando de leve. Giane lhe deu um tapa no braço.

Assim que Fabinho foi embora, Giane se aproximou de Caio.

— E aí, Caio?

— É sempre assim, é? — perguntou Caio, enciumado.

— O quê? A zoação entre a gente? — disse Giane.

— Não. Ele, né, te agarrando. — disse Caio.

— Que isso? Isso é pelada. Nunca jogou não? — disse Giane.

— Giane, o Fabinho não tava jogando bola. — disse Caio.

— Ah, não tava, mesmo. — disse Giane, rindo. — Ele é ruim de bola pra caramba!

— Você é muito inocente, né? — disse Caio. Não podia entender como Giane podia não ter percebido as intenções de Fabinho.

Giane não se achava tão inocente assim. E daí que Fabinho estava agarrando-a? Ela também o agarrou. Estavam apenas jogando bola, sem maldade nenhuma. Ela e Fabinho eram amigos. Ela reconhecia que havia pintado um clima entre ela e Fabinho. Mas o que Caio pensava, que Fabinho estava se aproveitando dela? Caio tinha cada ideia! Caio tinha mania de distorcer, de interpretar mal tudo o que Fabinho fazia. Fabinho estava brincando. Que mal podia haver no fato de Fabinho brincar de rodá-la? Ela não era nenhuma donzela indefesa e sabia o que estava fazendo. Caio tinha de parar com essa história de querer tirá-la das garras do que ele considerava um monstro. Ela e Fabinho não estavam fazendo nada demais, e mesmo se estivessem, o que Caio tinha com isso? Caio tinha de entender que não eram mais namorados e que ela não devia satisfações a ele. Além disso, Caio não tinha nada que ter aparecido na hora errada para estragar o clima. Por ela, Fabinho podia agarrá-la quantas vezes quisesse.

— Ai! Caio, a gente é só amigo, esqueceu? — disse Giane, impaciente.

— Ó, pra você. Ela é de última geração. — disse Caio, entregando uma nova máquina fotográfica para Giane. — Enfim, quando eu vi, lembrei de você. Tchau.

Giane aceitou o presente, para não fazer desfeita. Caio foi embora, e Giane deu uma olhada na máquina.