Um amor inesperado

9 Escândalo no Kim Park


Giane e Bento estavam trabalhando na loja, como sempre. Bento estava com a cara amarrada. Giane concluiu que, com certeza, Bento estava daquele jeito por causa da briga com Amora no dia anterior.

— Essa sua tromba aí tá me lembrando um elefante. — disse Giane, fazendo um arranjo de flores. — O que é até um bom sinal, né, porque se é verdade o que dizem sobre a memória deles, eu espero que você nunca se esqueça o que a sua queridinha disse na televisão.

— Ô Giane, eu não tô afim de papo. Pode ser? — disse Bento. Ele não queria conversar sobre Amora. Sempre quando o assunto era Amora, ele e Giane acabavam discutindo, e ele não estava a fim de brigar.

— E se alguém de repente te oferecesse flores? — disse Giane, entregando o buquê de flores para ele.

Ela queria animá-lo. Não gostava de vê-lo daquele jeito. Bento sorriu.

— Pô, isso é que eu gosto de ver. — disse Giane, sorrindo. — Seu sorriso é tão bonito.

Giane olhou para ele, derretida. Ela gostava de vê-lo sorrir. Para Giane, Bento era o homem mais lindo do mundo. Era alto, forte, tinha os olhos verdes. Andava com o cabelo ondulado sempre um tanto bagunçado e com a barba por fazer. Tinha o visual despojado, simples e rústico. Usava sempre calça jeans e camiseta, roupas mais básicas e em tons neutros, puxando para o azul, verde e cinza escuro. Bento não era muito vaidoso, mas também não se descuidava.

Mas o que encantava Giane, mais do que a aparência de Bento, era o seu coração generoso. O que Giane mais amava em Bento era sua bondade, doçura, gentileza, sensibilidade, carisma e alto-astral. Ele não tinha vergonha de se emocionar, de mostrar seu lado sensível, de se encantar com a beleza das flores, o que era raro em um homem. Não era à toa que Bento era florista: mexer com flores exigia um toque delicado, cuidado e paciência, características que Bento demonstrava em seus relacionamentos e em sua forma de ver o mundo. Ao contrário dela, que tinha o pavio curto e não levava desaforo para casa, Bento era mais “paz e amor”, raramente se metia em brigas. Geralmente, ele preferia resolver conflitos com conversa e empatia. Às vezes Bento até usava de agressividade para se defender, mas isso não era comum, somente em casos extremos, como último recurso. Ele dificilmente usava a força. No entanto, era a serenidade dele que a atraía. Ele a acalmava, a protegia, a respeitava e aceitava como era, passando-lhe segurança. Ao lado dele, ela não precisava provar que era mulher ou se desculpar por quem era. Bento era forte, e ao mesmo tempo sensível, sem deixar de ser viril. A relação deles era de carinho e respeito mútuo.

— Bento? — disse Malu, entrando na loja, apressada. Parecia nervosa.

Giane fechou a cara imediatamente. Na visão dela, aquela patricinha apareceu na hora errada, para estragar tudo, interromper o clima que parecia estar rolando entre ela e Bento. A tal de Malu andava sempre atrás do Bento agora. Malu conheceu Bento outro dia e já o tratava com intimidade, como se os dois se conhecessem desde sempre, como se fossem amigos de infância. Só que ela, Giane, conhecia Bento desde que nasceu. Ela o conhecia melhor do que a Malu. No ponto de vista dela, Bento não devia ficar tão íntimo da patricinha. Os dois pertenciam a mundos diferentes, e Bento iria acabar quebrando a cara. Na opinião de Giane, Malu estava fazendo Bento de bobo e ele não percebia.

— Que foi, Malu? — perguntou Bento, percebendo o nervosismo da amiga.

— Bento, me desculpa vir assim, viu? — disse Malu. — Mas é que... Aconteceu uma coisa tão... Eu tô chocada. Você pode conversar comigo?

— Claro, claro. — disse Bento. — Vamos lá tomar um café. A gente conversa com calma. — entregou as flores para Giane. — Giane, você cuida aqui pra mim?

Bento saiu com Malu. Foram a uma cafeteria ali perto.

— Patricinha filha de uma... — disse Giane, furiosa e enciumada.

Quando Bento voltou à loja, Giane ficou sabendo o que havia acontecido. Malu quis levar as crianças de sua ONG, a Toca do Saci, ao parque, sem pagar nada. Porém, Wilson, dono do parque, não permitiu e ainda a tratou com grosseria. Bento ficou furioso por Wilson, mais uma vez, não permitir que crianças carentes entrassem em seu parque e por ter tratado tão mal a Malu. Para ele havia virado uma questão pessoal, e decidiu comprar a briga. Giane também. Ela sabia muito bem o que sentia uma criança ao ser destratada por alguém como Wilson, que havia feito o mesmo com as crianças do lar do Gilson no passado. Wilson havia expulsado ela, Bento e outras crianças do parque. Giane nunca se esqueceu daquele dia.

Mais tarde, Bento e Giane foram fazer uma entrega na Para Sempre, a empresa onde trabalhavam a Renata e a Charlene. Charlene encontrou-os descarregando as flores de dentro da van. Ao vê-los, Charlene disse:

— Sabia que essas flores lindas só podiam ser obra de vocês. Tudo bem?

Charlene notou que Bento estava com a cara amarrada. Giane também.

— Bento, que cara é essa? — quis saber Charlene.

— A Malu foi pedir pro idiota do Wilson Rabelo liberar as crianças da Toca do Saci no Kim Park. O cara aproveitou pra ofender a coitada. Maltra-tou ela e escorraçou ela de lá aos berros. — disse Bento.

— Como é que ele pode tratar mal uma garota tão doce como a Malu? — perguntou Charlene.

— Dá pra acreditar que um cavalo desse possa ser irmão do tio Gilson? — disse Giane, indignada. — Ô Bento, da próxima vez que você quiser arrebentar esse cara, você me avisa, que eu seguro e você bate.

Bento não conseguia entender como Wilson podia se recusar a receber crianças carentes em seu parque, apenas porque não ganharia nada com isso. No raciocínio de Bento, Wilson já ganhava dinheiro o suficiente, e não havia problema algum em deixar as crianças entrarem sem pagar, uma vez ou outra. Bento questionava se seria tão custoso para Wilson demonstrar solidariedade, oferecer um pouco de alegria para as crianças. Aparentemente, para Wilson o custo era alto, era pedir demais.

Bento até entendia que Wilson não tinha obrigação nenhuma de receber as crianças. Certamente, Wilson pensava que o parque era uma empresa, não uma casa de caridade. Contudo, na visão de Bento, não custava nada Wilson tratar bem as pessoas, e ele não precisava ter sido tão estúpido com a Malu. No entendimento de Bento, Wilson podia, aliás, devia ter recusado de uma maneira educada. Malu ficou ofendida e magoada por Wilson ter sido tão grosseiro e ter tratado com tanto desprezo o projeto dela. Esta situação fez com que Bento revivesse novamente o dia em que Gilson expulsou a ele e outras crianças do parque.

— O casca-grossa só pensa em dinheiro. — disse Bento. — O cara não faz a menor ideia do que seja solidariedade.

— Aliás, mudei de ideia. — disse Giane, furiosa. — Da próxima vez que esse Wilson Rabelo aparecer, você segura e eu bato.

Lili, que também trabalhava na Para Sempre, apareceu.

— Wilson Rabelo? — disse Lili. — Há, há! Mas que coincidência! Venham ver quem tá lá no Kim Park como convidada VIP.

Lili, Charlene, Bento e Giane foram em uma das salas da empresa. Ligaram a televisão e ficaram assistindo ao programa da Sueli Pedrosa. A matéria falava a respeito da visita da Mulher Mangaba ao Kim Park. Sueli Pedrosa comentava: “Dá pra ver que a Mulher Mangaba se divertiu muito no Kim Park, né, gente? E o convite VIP oferecido a ela foi estendido ao pomar inteiro. Gente, olha que delícia!”. Foram mostradas fotografias das mulheres-frutas.

— Gente, que absurdo! — disse Bento, indignado. — Criança entrar sem pagar não pode, mas montar esse fim de feira aí, tudo bem? Ah, não dá. Eu vou lá.

Bento estava furioso. Wilson só visava o lucro. Chamou a Mulher Mangaba para dar mais visibilidade ao seu parque. Wilson só pensava em criar estratégias de marketing para ganhar mais dinheiro. Era só isso o que importava para ele. As crianças carentes que se danassem. Bento quis ir ao parque tirar satisfações com Wilson, mas Giane o impediu.

— Não, não, não, Bento. — disse Giane, pegando no braço dele. — Faz isso não, cara. Você vai ser preso, pô!

— A Giane tem razão, você tá fora de si. — disse Charlene. — Mas alguém tem que falar alguma coisa pra esse cara. Essa pessoa sou eu.

Como voluntária da Toca do Saci, Charlene se considerava a pessoa mais indicada para falar em nome da Malu e das crianças da ONG. Na opinião dela, Wilson não tinha nada que ter ofendido a Malu. Lili disse:

— Charlene, que isso? Tá louca? E o trabalho?

— Diz que eu fui defender uma boa causa e já volto. — disse Charlene.

Na hora do almoço, Giane e Bento foram à casa de Gilson. Ouviram Salma dizer:

— Poxa, Jonas! Coitadinho do menino.

Bento e Giane viram Vinny sair da sala. Pela expressão do seu rosto, estava chateado.

— O que aconteceu com o Vinny? — perguntou Bento.

— Ficou mal porque a Sueli Pedrosa tá mostrando o maior barraco dos pais dele ao vivo. — explicou Jonas.

Bento e Giane olharam para a televisão. Estava acontecendo o maior barraco no Kim Park, o parque de diversões de Wilson. Damáris, a ex-esposa de Wilson e mãe de Vinny, brigara com a Mulher Mangaba, causando a maior confusão. Damáris morria de ciúmes do ex-marido e acreditava que a Mulher Mangaba tinha um caso com Wilson. Ela e a Mulher Mangaba brigaram na frente da imprensa, de todo mundo, inclusive de crianças. As outras mulheres-fruta acabaram se envolvendo na briga. Acabara virando uma pancadaria geral. Wilson acabara expulsando Damáris, a Mulher Mangaba e outras mulheres-fruta do parque. Os seguranças arrastaram-nas para fora. Com certeza, o barraco não era bom para a imagem do parque. Bento e Giane acharam bem feito para o Wilson.

— Outro barraco, fora o da Charlene? Hoje é dia, hein! — disse Giane.

— Que história é essa de barraco da Charlene? — perguntou Gilson.

— É, tio, ela foi lá dizer umas verdades pro seu irmão. — disse Bento. — Uma boa verdade é sempre bem-vinda, não é?

Mais tarde, Giane e Silvério foram jantar na casa de Gilson. No meio do jantar, Érico chegou. Ele estava falando no celular. Havia recebido uma ligação de Renata. Érico desligou o celular e foi sentar-se à mesa, cheia de gente. Na mesa estavam sentados, além de Silvério e Giane, Gilson, Salma, Vinny, Bento e Jonas.

— Opa, que eu cheguei na hora. — disse Érico.

— Você que se atrevesse a perder a noite do nhoque. — disse Salma.

— Nunca. — disse Érico, sentando-se.

— Que pena que você chegou. — disse Jonas. — Agora vai sobrar menos pra mim.

— Que é isso, Jonas? O que é do homem o bicho não come, tá? — disse Érico. — Vem cá. Sabe o que a Renata falou pra mim agora? Que o Natan se separou da mulher.

— Grande novidade. — gritou Socorro, lá de seu quarto, que ficava perto da sala de jantar. — Fofoca tá rolando na internet ó... — estalou os dedos. — Faz tempo.

Socorro não saía da frente do computador.

— Socorro, larga isso e vem jantar, vem. — disse Gilson.

Charlene entrou na casa, junto com o irmão, Douglas. Na Casa Verde era assim: todos se conheciam e entravam na casa uns dos outros sem bater.

— Oi, oi, oi! — disse Charlene, cumprimentando a todos.

— Arrá! — disse Douglas, apontando para a mesa. — Eu não disse que era nhoque? Senti o cheiro de longe.

— Menino, deixa de ser esfomeado. — Charlene repreendeu, colocando a mão no ombro do irmão. — Que vergonha!

— Que isso, imagina. — disse Bento. — Tem nhoque pra todo mundo aqui, fica à vontade.

— Chega aí, gente. — disse Salma.

— E aí, Charlene? Foi lá no Kim Park hoje? — perguntou Bento.

— Arrasei com ele. — disse Charlene. — Disse tudo que todo mundo tinha vontade de dizer e mais alguma coisa. Quando eu acabei, meu amor, só tinha extrato de pó de titica em cima da mesa.

Todos comemoraram, gritaram e bateram palmas. Salma pediu:

— Parem com isso, por favor, o irmão e o filho do Wilson estão na mesa.

— Desculpa aê. — disse Giane.

Ninguém teve a intenção de ofender Gilson e Vinny, mas Giane acha-va que Wilson merecia ouvir umas verdades, para aprender a respeitar os outros. Wilson ofendeu não apenas a Malu, como também a Mulher Man-gaba e todas as mulheres-fruta, ao expulsá-las do parque.

— Perdão aos dois. — disse Charlene. — Mas eu não me arrependo de absolutamente nada.

— Eu sei que meu pai mereceu. — disse Vinny.

— Pelo menos agora ele vai pensar mil vezes antes de ofender alguém. — disse Giane.

— E vai mesmo, porque tá todo mundo detonando o Wilson Rabelo na internet. — disse Socorro. — Ao invés de ele ajudar a Mulher Mangaba, ele escorraçou a coitada junto com a doida que bateu nela.

— Olha! — disse Giane.

— A doida, no caso, foi minha mãe. — disse Vinny.

— E pegou super mal ele ter deixado a Mulher Mangaba ser agredida e ainda ter mandado expulsar do parque, tanto que estão planejando até um boicote ao parque amanhã. — disse Socorro.

— Aí, tá vendo? — disse Charlene. — Justiça vem a cavalo, meu amor! Vamos brindar, porque hoje não é só o dia da fortuna não, hoje também é o dia da verdade.

Charlene levantou um copo de suco.

— Pois então um brinde à justiça e à verdade, porque elas sempre vencem. — disse Bento, pegando um copo de suco para brindar.

Bento, Charlene, Jonas e Giane brindaram.