Um amor inesperado

1 Entrega na Class Mídia


Giane estava satisfeita com o trabalho realizado. Bento e ela estavam cuidando daquelas flores há meses. Bento realmente tinha um dom natural para cuidar da terra e das plantas. Era um dos melhores profissionais do ramo, na opinião de Giane. Sem dúvida, eles faziam um trabalho excelente. Ela adorava seu trabalho, e não tinha medo de pegar no pesado.

Ela e Bento eram sócios em uma pequena empresa de paisagismo, Acácia Amarela. Tudo começou com a estufa. Mas hoje plantavam flores em qualquer lugar da rua, até na praça. Faziam a coleta, entregavam no Ceasa e repartiam o produto da venda entre os cooperados. Estavam no Ceasa, descarregando as flores da van e colocando-as nos carrinhos.

— Olha, as flores estão lindas! — disse Giane, organizando as caixas com as flores a serem levadas. — E eu achando que só ia dar para colher daqui a uma semana.

— Também, deu uma dura nelas! — disse Bento. — E eu vou dar uma dura em você se não andar logo com isso. — mexeu com ela.

Bento achava que Giane estava fazendo corpo mole.

— Ô Bento, até as flores você trata melhor do que eu! — reclamou a garota.

— Ah, então toma, garota, pronto! — disse Bento, entregando um vaso de flores para a amiga.

Começaram a arrastar os carrinhos com as flores. Bento sempre parava para entregar flores às mulheres que cruzavam seu caminho.

— Tem uma pra você. — disse Bento, entregando flores a uma loira.

— Obrigada! — disse a moça, sorrindo.

— De nada! — disse Bento, sorrindo para a moça.

Bento também entregou flores para uma morena que passou por ali.

Giane revirou os olhos, enciumada. Que mania ele tinha de jogar charme para as mulheres! Ela achava que Bento não devia ficar parando e entregando flores para cada moça bonita que aparecia na frente dele. Ele iria se atrasar. Além do mais, se ele continuasse distribuindo flores de graça para a mulherada, iria acabar dando o maior prejuízo.

— Bora, Bento! — disse Giane, andando na frente, arrastando um carrinho cheio de flores.

— Bora, Giane! — disse Bento.

— Tá caindo, Bento!

— Cuidado aí! — disse Bento.

Foram até a barraca de um conhecido.

— Bom dia! — disse Giane, entregando uma caixa com flores a um dos rapazes que trabalhavam na barraca. — E aí, colega? O que é que você fez?

— Tudo isso e a conta. — disse Bento, entregando uma folha ao dono da barraca.

— Isso aí, Bento! — disse Giane, retirando as flores do carrinho e entregando ao outro rapaz, funcionário do dono da barraca.

— Você só pensa em ganhar dinheiro! — reclamou o dono da barraca.

— Ih! Sabe quantas bocas a gente tem que sustentar, colega? — perguntou Giane.

— Para de chorar, hein, seu Massa? — disse Bento.

— Cuidado aí, cuidado com essa planta aí. — dizia o dono da barraca, para o rapaz que o ajudava.

Assim que voltaram à Casa Verde, Giane foi cumprimentar os vizinhos, Lili e Nestor. Gilson, dono do lar adotivo em que Bento foi criado, veio falar com o rapaz a respeito de uma universitária que queria entrevistá-lo para uma pesquisa sobre lares adotivos. Apesar de estar cheio de trabalho, de coisas para fazer, Bento concordou em ser entrevistado. Giane foi pegar umas caixas de flores, e Bento ficou conversando com a moça. Conversaram por mais ou menos meia hora, até que Giane foi chamar o amigo:

— Ô Bento, vambora!

— Ô, Giane! Me ajuda a carregar isto aqui. — disse Bento, referindo-se a uma caixa cheia de flores, e dirigindo-se à moça, Malu, fez questão de apresentar a amiga. — Malu... — colocou as mãos sobre os ombros de Giane. — Essa é a famosa Giane.

— Prazer! — disse Malu, aproximando-se, simpática, sorrindo para Giane. Bento já havia falado de Giane para ela.

— Beleza! — disse Giane, enciumada, com a cara amarrada.

Giane pensou que era mais uma para jogar charme para o Bento e encher a bola dele. Ele fazia sucesso não apenas como empresário do ramo de flores, como também com a mulherada, pois era muito bonito e tinha carisma. Giane lembrou-se de que no Ceasa ele ficou o tempo todo fazendo charme para as mulheres, entregando flores para elas. Ela se sentiu ameaçada pela presença da outra. A universitária era bonitinha, tinha os olhos verdes e era alegre, alto-astral, do jeito que Bento e qualquer homem gostava. Para Giane, a garota estava roubando a atenção dele. Bento estava cheio de coisa para fazer e a garota só ficava atrapalhando.

— Ô Bento, bora lá! — disse Giane, tratando de apressá-lo, pegando a caixa com flores.

— Bora lá. — disse Bento. Sabia que tinha muito o que fazer.

— Bora lá que a gente tem um monte de encomenda. Bora! — disse Giane.

— Bom, tchau... — disse Bento, despedindo-se de Malu, já perto da van.

— Ah, tira uma foto para eu colocar no meu trabalho? — pediu Malu.

— Tiro, claro! — disse ele.

Malu tirou uma foto de Bento.

— Nem sei como te agradecer. O papo foi ótimo. — disse Malu.

Giane, que estava dentro da van e havia acabado de colocar um vaso de flores, pulou, passando por entre Bento e Malu. Estava cheia de ciúmes. Não gostava de ver outras mulheres se aproximando de Bento.

— Será que a gente pode conversar outra vez? — perguntou Malu a Bento.

— Claro que a gente pode, não tem problema. Olha só! — disse Bento, entregando um vaso de flor para Malu. — Uma viola tricolor, pra dar boa sorte pro seu trabalho.

— Ah! Adorei! — disse Malu, encantada.

— Ô Bento! — gritou Giane, impaciente, em um dos bancos da frente da van, olhando para trás.

— Já vou, Giane, tô indo! — disse Bento, fechando as portas traseiras da van. — Já vou! Tchau Malu! Tô indo, vamos, Giane!

— Tchau, Giane! — gritou Malu, despedindo-se.

Bento entrou na van e partiram. Foram à Class Mídia entregar as flores para a noiva do Vitinho Barata, Tina. Giane ficou esperando no veículo, Bento entrou na agência. Ao sair da agência, Bento trazia uma revista feminina com a foto da famosa Amora Campana na capa. Amora era uma moça que tinha vivido um ano no lar do Gilson, antes de ser adotada pela atriz Bárbara Ellen. Hoje, Amora é modelo de sucesso, além de apresentadora do Luxury, um programa sobre moda e fofocas da vida dos ricos e famosos. Apesar de fazer muitos anos que não se viam, Bento nunca se esqueceu de sua namoradinha de infância e ainda pensava muito nela.

— E aí? — perguntou Giane.

— Linda, né? — perguntou Bento, ao entregar a revista para Giane, que revirou os olhos ao olhar a revista.

— Fica aí babando pela Amora, fica. — ela disse, cheia de ciúmes. — Enquanto isso ela tá lá, no mó vidão, nem lembra que você existe.

Bento não concordava com Giane. Ele e Amora podiam ter perdido o contato, mas ele tinha certeza de que Amora ainda lembrava dele.

— O que você sabe da Amora, hein, Giane? — perguntou Bento, enquanto Giane folheava a revista, para depois deixá-la de lado.

Giane resolveu mudar de assunto. O que ela sabia era que Amora nunca mais pisou na Casa Verde depois que foi adotada. Além disso, a vizinha, Renata, havia dito que Amora não a cumprimentava cada vez que se cruzavam na Para Sempre, empresa onde Renata trabalhava. E não era apenas a Renata que Amora ignorava e tratava mal. Ela fazia o mesmo com Érico, filho de Gilson e noivo de Renata. Cada vez que se cruzavam na Class Mídia, agência onde Érico trabalhava, Amora fingia não conhecê-lo. O incrível era que Amora e Bento nunca se cruzaram, apesar de ele entregar flores para Tina na Class Mídia de vez em quando. Amora fazia umas campanhas para a Class Mídia, e o dono da agência era pai do noivo dela. Mas quando Bento ia fazer a entrega na Class Mídia, Amora nunca estava lá. Amora passava a maior parte do tempo apresentando o Luxury, mal aparecia na Class Mídia. Só aparecia para fazer um comercial.

Para Giane era evidente que Amora tinha vergonha de seu passado, de suas origens, de todas as pessoas que a acolheram, inclusive de Bento. Estava na cara que Amora fazia questão de esquecer a infância que teve. Mas resolveu ficar calada, não contar para Bento que Amora virava a cara para Renata, para não vê-lo arrasado. Não quis discutir com Bento por causa entojada da Amora, então resolveu falar da universitária.

— Falando em gente metida, garota mais nojentinha que tava lá na tua casa hoje, hein? "Ai, eu posso tirar uma foto sua pro meu trabalho". — disse Giane, enciumada.

Bento achava impressionante, Giane não gostava de nenhuma mulher que se aproximasse dele, com exceção das que moravam na Casa Verde, amigas de anos. Ele havia simpatizado com Malu, achou-a muito gentil e simpática. Ele se perguntava como Giane podia achá-la metida.

— Olha, mas hoje você tá muito mala, hein, garota? Sabe o que você está precisando, Giane?

— Hum...

— Arrumar um namorado.

Na opinião de Bento, Giane era muito rabugenta, mal-humorada e só um namorado amoleceria o coração dela. Só assim ela levaria a vida com mais bom humor.

— Que namorado o que, pô! Se liga! Você que fica aí, fica aí sonhando com a Amora. — disse Giane. — Uma hora você vai cair na real. Aí eu quero ver. Quero ver.

Bento não entendia nada. No ponto de vista dele, ele tinha todo o direito de sonhar e não havia problema algum nisso. Ele gostaria de reencontrar, de se reaproximar de Amora. Amora sempre foi importante para ele. Ela foi sua amiga de infância. Nunca a esqueceu. Não se esquecia uma amizade verdadeira. Era até mais que amizade. Na verdade, ele e Amora nunca rotularam a relação deles, mas viveram um amor puro e genuíno. Para ele, Amora era especial. E eles tinham uma ligação muito forte. Ele sentia falta dela. Fazia quase quinze anos que não se viam. Na última vez em que se viram, ambos tinham uns dez, onze anos de idade. Dava para ver, nas revistas, que Amora havia se transformado em uma linda mulher. Já era linda quando criança, adulta ficou ainda mais bonita. Durante anos, Bento ficou lendo tudo o que saía sobre Amora nas revistas e na internet. Bento nunca a procurou porque não tinha o endereço dela. E ele tinha certeza de que Amora nunca foi visitá-lo porque a mãe adotiva não deixava. Bárbara Ellen jamais deixaria Amora pisar na Casa Verde.

Para Bento, Amora foi mais do que uma amiga ou namoradinha de infância. Ele e Amora eram o suporte emocional um do outro, até porque não tiveram uma infância comum. Amora passou a infância inteira na rua, até ir parar no lar de adoção, e Bento sentiu necessidade de proteger e cuidar daquela menina frágil e carente, que se apoiou nele como se ele fosse a tábua da salvação.

Giane pensou que se tivesse de namorar alguém, seria o Bento. Isso se ele quisesse namorá-la. Era apaixonada por Bento, desde menina, embora nunca tenha dito nada a ninguém. Ela e Bento eram muito amigos, se davam muito bem, se entendiam, trabalhavam juntos. Cresceram juntos, construíram muitas coisas em parceria. Bento era seu melhor amigo. De todos os garotos da rua, ele era o mais próximo dela. O único que não zombava dela por causa de seu jeito moleca. Pelo contrário, ele sempre a defendia. Sempre cuidava dela, a protegia, e ela retribuía da mesma forma. Ela se sentia confortável sendo ela mesma perto dele, porque Bento não ficava exigindo que ela fosse delicada ou feminina. Enquanto o resto dos homens do bairro a via como figura exótica ou alvo de piadas pelo seu jeito bruto, Bento a tratava com a maior naturalidade.

Porém, ele não a enxergava. Não como ela gostaria. Ele vivia sonhando com o dia em que reencontraria Amora. Mesmo depois de tanto tempo, Bento não havia esquecido Amora.

Ela sabia que não era páreo para Amora. Amora havia se transformado em uma celebridade, uma it-girl. Amora era sempre linda, feminina, andava sempre toda produzida, na última moda, era considerada um exemplo para muitas garotas. Fazia sucesso com os homens. Não era apenas o Bento que babava pela Amora, os outros garotos da rua também. Enquanto ela, Giane, não sabia se arrumar, não ligava para coisas como vestidinho, maquiagem, salto alto. Não era nada feminina. Andava, se vestia e se comportava como moleque. Cresceu no meio dos meninos, tanto que era até tratada como se fosse um deles. Nunca ninguém tentou namorá-la. Nenhum garoto nunca demonstrou o menor interesse nela.

Giane não se achava bonita como Amora. Ela se sentia sempre em desvantagem. Acreditava que qualquer outra mulher teria mais chance com Bento do que ela. E ainda por cima era grossa, briguenta, barraqueira. Achava que não tinha chance alguma, que Bento jamais se interessaria por ela. Além do mais, ela não tinha coragem de falar com ele sobre seus sentimentos. Tinha medo de estragar a amizade, ou pior, que ele a rejeitasse, lhe dissesse um não categórico. E ela sabia que morreria se perdesse a amizade dele, ou se ele não a correspondesse.