Um amor inesperado

26 Ensaio Fotográfico


Depois da briga com Amora, Giane voltou para casa. Ficou se admirando na frente do espelho. Ainda relutava em entrar no mundo da moda. Era um mundo que ela criticava, do qual tinha horror. Mas uma coisa era fazer o book, outra coisa era virar modelo de fato. Resolveu fazer o book. Assim, calava a boca da entojada da Amora. Amora ia ver que ela podia sim fazer um book, ficar bem bonita. Aquela cobra iria ver do que ela era capaz. Além disso, quem sabe assim Bento finalmente a enxergava. Mas somente na hora certa ela contaria a ele. Ligou para o Caio.

— Alô, Giane? — disse Caio, do outro lado da linha.

— Caio. Eu aceito fazer o book que você me falou.

Combinaram de ir no estúdio no dia seguinte, para fazer as fotos. No dia seguinte, Giane acordou um pouco mais tarde do que o costume e encontrou Silvério e Salma tomando café na cozinha.

— Bom dia! Bom dia! — disse Giane, sentando-se.

— Bom dia. — disse Salma.

— Bom dia, filha. — disse Silvério.

— E aí? — disse Giane.

— Acordou mais tarde hoje ou é impressão minha? — perguntou Silvério.

Giane tomou um gole do café.

— É. Às vezes, é bom, né, dormir um pouquinho mais. — disse Giane, pegando um pedaço de pão francês e cortando-o.

Salma passou a mão no rosto dela e disse:

— Vai ver que é por isso que você tá com a pele tão bonita, hein?

— Ô pai, vem cá. É... Você pode dar uma força pro Bento hoje? Que eu vou ter que dar uma saidinha. Eu vou resolver um negócio lá no Itaim. — disse Giane, passando margarina no pão.

— Mas eu precisava sair também. Você vai demorar muito? — perguntou Silvério.

Giane bebeu mais um gole do café.

— Hum. Acho que sim. Valeu! — disse ela e saiu, apressada, levando o pão.

— Tchau! — disse Salma.

Giane foi até à casa de Bento, ficou na entrada e esperou Amora sair. Queria ver como Amora estava depois da surra que levou, e avisá-la para que não se metesse com ela novamente. Ela já havia avisado na noite anterior, mas queria reforçar. Além do mais, não perdia uma oportunidade de provocar Amora. Riu quando a viu.

— E aí, Amora? Contou pro Bento da surra de ontem?

— Vai pro inferno, Giane. — disse Amora.

Amora não contou ao Bento sobre a surra, pois ele não gostaria de saber que ela esculachou Giane. Ele não entenderia, por mais que ela tivesse os motivos dela para ter feito o que fez, e a última coisa que ela queria era brigar com Bento. Bento tinha dificuldade em entender as razões dela. Ele não entendia nem mesmo por que ela se preocupava tanto com sua reputação. Prova disso era que Bento achava que ela não devia ligar para a opinião pública, mas não era assim tão simples. Além do mais, ela sentia necessidade da aprovação do Bento.

Giane achava que quem estava no inferno era Amora, pois era ela quem estava sendo vítima de calúnias. Haviam muitos boatos, muitos escândalos envolvendo Amora e a mãe dela, Bárbara. Giane ficou sabendo que Amora havia até mesmo saído do Luxury, para dar uma descansada na imagem. Amora estava queimada, havia perdido trabalhos e isso só tendia a piorar. Fabinho não daria sossego a ela, disso Giane tinha certeza. Além disso, Amora que experimentasse se meter com ela.

— No inferno, tá você. E isso só vai piorar, querida. Sua chapa está esquentando. — disse Giane. Se Amora se metesse com ela novamente, ela não deixaria barato. Amora não sabia com quem estava lidando. Aquelas bofetadas que ela dera foram só o começo.

Amora não deu a menor bola para o que Giane disse e foi embora.

Ao chegar no estúdio, Giane maquiou-se e arrumou-se. Caio estava ajeitando as coisas no estúdio.

— E aí, Giane? Pronta?

Giane foi na frente da câmera. Estava nervosíssima. Nunca havia posado antes. Ela não sabia muito bem o que fazer com as mãos, os braços.

— Ai, meu Deus do céu! Vamos lá. Vou procurar alguma pose de revista.

Procurou imitar algumas poses que havia visto nas revistas.

— Olha aqui para mim. — disse Caio. — Ah, se solta mais, vai!

Giane procurou deixar os braços mais soltos.

— Isso, isso. Linda. Sorrisinho. — disse Caio, fotografando. — Gata.

Giane virou-se, posando de lado.

— Assim?

— Não, o outro lado. Aí. — disse Caio. — Linda. Eu gostei dessa mão.

Caio fotografou Giane em diversas poses, usando várias roupas diferentes. Mas Caio queria que o sorriso de Giane fosse mais verdadeiro.

— Não, Giane. Não. Vamos lá, de verdade. É — disse Caio, estalando o dedo. — O que você gosta de fazer? O que você mais gosta de fazer?

— Ah, pô! Assistir o jogo do timão, né? — disse Giane, sorrindo.

— Ah! Isso, isso! Esse sorriso! — disse Caio. — Então tá. Vai lá. Finge que o timão fez um gol.

Giane abriu o maior sorriso e fez diversas poses, como se estivesse comemorando um gol do timão. Caio fotografava.

— Mais uma, mais uma! Yeah! Linda!

Assim que acabou de fazer as fotos, Giane voltou para casa. Foi direto na loja. Silvério estava no balcão. Estava tirando o avental.

— Ô, meu amor, ainda bem que você chegou. — disse Silvério. — Eu já estava de saída, mesmo. Tchau.

Silvério deu um beijo na filha e saiu. Bento apareceu:

— Demorou, hein, Giane? O que você foi fazer lá no Itaim?

— Segredo. Mas logo, logo você vai saber. — disse Giane, ajeitando uma mecha do cabelo, atrás da orelha.

— Segredo... Pela cara, a coisa foi boa, né? — disse Bento.

— É, foi muito boa. — disse Giane, animada.

Giane e Bento continuaram trabalhando. Mais tarde, Malu apareceu na loja. Bento estava agachado no chão, mexendo em umas plantas, quando Malu se aproximou por trás.

— Você não sabe de onde eu tô vindo. — disse Malu. Ela havia acabado de visitar a Serra da Cantareira com Artur Bicalho.

— Da onde? — perguntou Bento, levantando-se.

— Serra da Cantareira. — disse Malu. — Bento, você tinha que ter ido. — mostrou as fotos do celular para ele. — Não, presta atenção nas fotos aqui. Olha que linda.

— Eu já fui passear lá um milhão de vezes! — disse Bento.

— É, né? É aqui do lado, claro! — disse Malu, dando um tapinha no peito dele e rindo.

— Aliás, a gente podia combinar de fazer uma trilha simples com as crianças da Toca. — sugeriu Bento.

— Mais do que isso, Bento. — disse Malu. — A gente precisa preservar a serra, pros filhos, pros netos das crianças de hoje. Ei! Faz a campanha comigo?

— Malu, eu já te falei... — disse Bento.

— Olha aqui! — disse Malu, largando o celular. — Esquece a mídia, tá bom? O importante é a gente preservar a natureza, Bento. Não adianta me dizer que não. — abanou a cabeça. — Eu só vou sair daqui, quando você me disser que sim.

— Você não vai sair daqui? — disse Bento.

— Não. — disse Malu.

— Você tem certeza? — perguntou Bento.

— Uhum. — disse Malu.

— Tá bom, Malu! Eu topo! — disse Bento, abrindo os braços.

Bento achou que Malu tinha razão. Eles não deviam se importar com a opinião pública. Até porque havia coisa muito maior em jogo: a defesa da Serra da Cantareira.

Malu se jogou nos braços dele.

— Ai! — disse Malu, enchendo-o de beijos.

Giane ouviu vozes e resolveu ver o que estava acontecendo. Acabou vendo Bento e Malu abraçados. Ficou morrendo de ciúmes.

— Pronto. Tá bom. A gente faz a campanha. — disse Bento.

Malu foi embora, e Bento e Giane continuaram na loja, trabalhando. Ficaram sabendo, pela internet, que Amora foi difamada mais uma vez. Mel, filha do Wilson, foi entrevistada pela Lara no Luxury e contou um monte de mentiras sobre Amora. Mel disse que Amora saía com tudo quanto era homem, principalmente homens casados. Deu a entender que Amora traiu Maurício várias vezes. Amora foi atrás de Mel tomar satisfações. Acabou dando a maior surra na garota. Bento e Giane assistiram à briga pelo notebook.

— Tá tudo errado, Giane. — disse Bento. — Tá errado essa patricinha falar o que falou. Tá errado a Amora ir lá tomar satisfações. Ela não precisava disso.

Na opinião de Bento, Amora não devia se preocupar tanto com o que as pessoas iriam pensar. Amora sabia quem era. Ela era o que era, não o que os outros pensavam. E Amora só tornou as coisas piores do que já estavam ao dar uma surra na Mel. Além de ficar com imagem de vagabunda, agora ficaria com fama de barraqueira, encrenqueira. A Mel iria se valer da surra para posar de vítima. O que Mel queria era aparecer. Era daquelas pessoas que faziam de tudo por quinze minutos de fama.

Para Giane, o pior era que Bento também estava metido na confusão. O nome dele havia sido citado no programa. Mel disse que Bento era apenas mais um dos vários homens com quem Amora saía.

— Quem não precisava disso era você, né, Bento? — disse Giane. — Estava aí, sossegado. Agora, vive metido em escândalo, em baixaria.

— Que é isso, Giane? A Amora não tem culpa se uma imbecil resolveu inventar um monte de mentira pra se promover. — disse Bento, afastando-se e indo cuidar das flores.

Giane continuava no balcão, fazendo anotações. Ela não conseguia sentir a menor empatia pela Amora. Na opinião de Giane, Amora não valia nada e estava colhendo o que plantou. Se Amora tinha inimigos, era porque ela pisava em todo mundo. Mel podia não valer grande coisa. Mas Giane tinha certeza de que Mel não difamou Amora apenas por inveja, ou para aparecer, ficar famosa. Amora certamente tratou mal a Mel, e Mel resolveu se vingar. Mas Bento insistia em defender Amora, achava que ela era vítima. Quando ele iria se tocar da bisca que Amora era?

— É. Tem razão, Bento. — disse Giane, irônica. — Tadinha da Amora, né? Por quê que você não vai lá, é, oferecer seu ombro pra mocinha indefesa chorar? Aproveita e fala pra ela que você vai fazer campanha com a Malu. — começou a digitar no notebook. — Não quero nem imaginar a reação da pobre coitada.

Giane sabia que Amora morria de ciúmes do Bento com a Malu. Além do mais, Giane estava cansada de saber que Amora e Malu não se davam bem. Amora não gostava de ver Bento para cima e para baixo com Malu.

Bento se perguntava se era impressão dele ou Giane estava com ciúmes.

— Ô Giane, não é por nada não, mas quem parece que não tá gostando nada disso é você, né? — perguntou Bento.

Caio apareceu neste exato momento.

— Giane, que bom que você tá aí, gata!

— Ah, Caio! — disse Giane, animada.

Certamente, Caio veio falar sobre as fotos que ela tirou.

— O teu ensaio ficou maravilhoso. — disse Caio.

— Tá falando sério? — perguntou Giane.

— Tô. — disse Caio.

— Tem alguma foto aí, pra eu ver?

Caio tirou o celular do bolso.

— Só pra você ter ideia de como vai ficar o book. — disse Caio, mostrando as fotos para ela.

Bento não estava entendendo nada. Que ensaio era esse? O que Giane estava aprontando?

— Book? Ô! Que book é esse? — Bento quis saber.

Giane olhou as fotos. Estavam maravilhosas.

— Nem acredito! Caraca! Essa sou eu? — Giane surpreendeu-se. Ela não estava se reconhecendo naquelas fotos.

— É. Eu não te falei que você é linda, menina? — disse Caio. — Você vai arrebentar, garota.

Giane ficou muito feliz com as fotos. Bento perguntou:

— O quê que é isso aí, Giane?

A garota pegou o celular de Caio e deu mais uma olhada.

— O Caio acha que eu levo jeito pra ser modelo. — ela explicou.

— Só você olhar as fotos dela que você vai ver. — disse Caio.

— Qual que é a tua, hein, cara? — perguntou Bento.

Bento desconfiava das intenções de Caio. Será que o tal do Caio não estava armando alguma para Giane? E se Caio estivesse com a intenção de tirar sarro da Giane, como Xande fez com Filipinho?

Caio pegou o celular da mão de Giane e aproximou-se de Bento. Não gostou nada da forma como Bento falou com ele.

— Qual que é a tua? Você é o quê da Giane? — Caio quis saber.

— Hã. Sou o quê da Giane? Eu sou praticamente irmão dela. — disse Bento. Por isso faria de tudo para defendê-la. Caio que não se metesse a engraçadinho. Bento não deixava ninguém tirar sarro de Giane perto dele, e era assim desde quando eram crianças.

— Então, parabéns pela tua linda irmã! — disse Caio.

Giane ficou animada, pensando que Bento estava com ciúmes dela.

Caio aproximou-se de Giane.

— Ó, eu te aviso quando o book estiver pronto, tá?

— Valeu, Caio. — disse Giane.

Caio foi embora. Bento disse:

— Ô Giane, Giane!

— Oi, Bento. — disse Giane.

— Não tô acreditando que você caiu na conversa desse cara. — disse Bento.

— Por quê, Bento? Só a Amora que pode ser modelo e só você pode ficar famoso?

— Eu não tô te entendendo. — disse Bento. — Você que sempre me criticou por aparecer na mídia, agora quer ser modelo?

Na verdade, Giane o criticava por aparecer na mídia porque achava que ele queria ficar famoso para impressionar Amora. Ela tinha medo que Bento ficasse como Amora, que deixasse a fama subir à cabeça e começasse a virar a cara para as pessoas que queriam bem a ele. Ela acreditava que ele estava se perdendo, se tornando uma subcelebridade, justamente aquilo que ele tanto criticava. Na visão dela, Bento estava sendo incoerente, entrando na selva que ele tanto dizia abominar. Ele desprezava o mundo dos famosos, e ficava usando a mídia para atingir Amora.

Mas Giane ainda não diria a Bento suas intenções. Ela queria calar a boca da Amora. Queria que Bento a enxergasse, visse que ela podia ser atraente. Era por causa dele que resolveu fazer o book. Giane não pretendia ir tão longe nesta história de virar modelo. Para ela, o mundo da moda era cheio de frescura. O que ela queria era chamar atenção de Bento.

— É. Resolvi descobrir como é ser famoso. — disse Giane. — Deve ser bom, né? Você gostou tanto que não largou mais o osso.

— Giane, eu tô falando sério. — disse Bento. — Toma cuidado. Você nem conhece esse cara direito. Não viu o que aconteceu com o Filipinho?

Giane percebeu que Bento não estava com ciúmes, e sim achando que Caio podia estar enganando-a e fazendo aquelas fotos para tirar sarro dela. Pelo visto, Bento achava que ela não levava o menor jeito para ser modelo. Certamente, Bento não a achava tão bonita quanto Amora.

— Por que você tá falando isso, hein, Bento? Você acha que alguém só faria um book comigo assim pra me zoar? Você me acha assim, tão feia, tão ridícula? — perguntou Giane, chateada.

— Não. Claro que não. Não é isso, Giane. Não. — disse Bento. — Sei lá, Giane. Só abre teu olho, hein?

— Abre teu olho... Abre você. Olhe pra você, Bento! — disse Giane. — Você convive com aquela falsa da Amora desde pequeno e nunca descobriu a cobra que ela é.

Bento não falou mais nada. Não estava a fim de discutir com Giane. Giane sempre implicou com Amora. Só que, na opinião de Bento, Amora era muito melhor do que Giane pensava. Ele acreditava que, no fundo, Amora era uma pessoa boa. O problema de Amora era ter se deixado influenciar pela Bárbara, ter se deixado corromper pelo mundo da fama e da riqueza. Mas ele tinha certeza de que Amora um dia voltaria a ser aquela menina meiga que ele conheceu na infância.

À noite, Giane mostrou as fotos ao pai, pelo computador. Caio havia enviado para ela.

— Olha aquela ali! — disse Giane, apontando para a foto. — Aquela ali, de cima!

— Então foi isso que você foi fazer no Itaim! — disse Silvério, sorrindo. — Ficou linda, filha!

— Olha, pai. — disse Giane, levantando-se da cadeira e sentando-se em um banquinho. — O senhor é a primeira pessoa que eu tô mostrando. Então, não sai espalhando aí, pela rua, não!

— Tá bom. — disse Silvério. — E agora? Qual é o próximo passo?

— Quando o book ficar pronto, o Caio disse que vai me levar lá na... Na agência que ele trabalhava. — disse Giane.

— É isso mesmo que você quer? Ser modelo? — perguntou Silvério. — Ou está fazendo tudo isso pro Bento perceber o quanto você é bonita?

Giane ficou envergonhada.

— Ah, o Bento lá é cego, pai? — disse Giane. — Se até o Caio me enxergou, por que o Bento fica achando que eu ainda sou o irmãozinho dele?

Silvério riu.

— O Bento vai levar o maior susto quando vir essas fotos, hein?

Afinal, Bento nunca viu Giane tão arrumada e em roupas mais femininas. Mas Giane achava que ainda não era a hora de mostrar as fotos ao Bento.

— É. Não vai, né, porque ele não vai ver. — disse Giane. — E o senhor nem comenta, pai. Só quando eu te disser que está na hora.