Um amor inesperado
58 Desmascarando Amora em público
Mais tarde, Giane e Silvério foram para a casa de Fabinho. Silvério acabou falando sobre seus receios para Margot:
— Sabe do que eu tenho medo, mesmo? Que o dinheiro suba à cabeça do Fabinho e ele faça minha filhota aí sofrer.
Silvério acreditava na mudança de Fabinho. Ele realmente estava se esforçando para melhorar. Mas Silvério morria de medo de que, agora que ficou rico, Fabinho voltasse a ser aquele rapaz esnobe de antes.
— Isso não vai acontecer. O Fabinho é louco pela Giane. — disse Margot.
— Gente, vocês estão pensando o quê? Que eu virei mulherzinha, só porque eu tô namorando? É ruim, hein! — disse Giane. — Deixa o Fabinho pisar na bola, pra vocês verem a rasteira e o chute que eu dou nele.
Ela amava Fabinho, mas tinha a sua dignidade. Não deixaria Fabinho tratá-la feito lixo só porque ficou rico. Para ela permanecer ao lado dele, ele teria de continuar tratando-a muito bem, como ela merecia.
Fabinho entrou na sala, falando ao celular:
— Tá bom. Então, tá. Até mais. — disse Fabinho, e desligou. — Olha só, pessoal, por favor, todo mundo já vai tomando banho, se arrumando, ficando bem cheirosinho, que hoje a gente vai jantar na casa do papai Plínio. — abraçou Giane.
— Tá ficando metidinho, só porque tá rico, é? — brincou Giane, e Fabinho deu um beijo no rosto dela.
— Metidinho. — disse Fabinho, rindo.
— Agora, quero só ver! — disse Giane.
— Escuta, alguém sabe do Bento, hein? — perguntou Silvério. — Na verdade, eu tô preocupado com ele, viu?
— Espero que ele dê uma surra na Amora e bote ela pra fora. — disse Fabinho. — O Plínio falou que a gravidez dela era falsa, mesmo.
Giane também torcia para Bento dizer poucas e boas para a cobra e expulsá-la de casa.
— O que te livra da acusação de ter provocado o aborto, né? — disse Margot.
— É. Agora, só falta a gente provar que foi ela que provocou o incêndio da Toca. — disse Giane, e passou a mão no rosto de Fabinho. — Aí, você se livra de vez.
Fabinho deu um beijo nos lábios dela.
— A gente vai enquadrar essa bandida. — disse Fabinho.
— Vamos, sim. — disse Giane.
Horas depois, Silvério, Margot, Fabinho e Giane foram para o apartamento de Plínio. Malu também foi. Ela já havia ganhado alta. Margot ficou sentada no sofá, mostrando fotos de Fabinho para Irene e Plínio.
— Aqui, nessa aqui ele tem 12 anos, ó. — disse dona Margot, mostrando uma das fotos.
— Ai, que lindo! — disse Irene.
— Ai, que bonitinho! — disse Margot, rindo, ao mesmo tempo em que Irene.
— É em Ribeirão Bonito? — perguntou Irene.
— Ribeirão. — disse Margot, assentindo.
— Ai, o mesmo sorriso! — disse Irene, apontando para a foto.
Fabinho ficou completamente sem jeito.
— Vai começar a pieguice daqui a pouco. — disse o rapaz, apontando para Margot e Irene, abanando a cabeça, envergonhado.
— E o Bento, Giane? Você tem alguma novidade? — perguntou Malu. Estava preocupada com Bento. Certamente, ele estava sofrendo. Quebrou a cara com Amora, se decepcionou e acabou de descobrir que era filho do Wilson, homem que ele sempre detestou e que o detestava também. Bento contou para ela, Malu, como descobriu que era filho do Wilson. Ele e Wilson tiveram uma briga feia. Foi o conflito mais intenso que já houve entre os dois. Bento ficou possesso ao acreditar que Wilson empurrou-a da escadaria para incriminar Amora. Wilson havia ameaçado tirar tudo que Bento mais amava, até jogou pedras na Acácia Amarela. Bento foi até o apartamento onde Wilson morava com Charlene e encontrou Perácio e Nancy, ex-secretária de Wilson. Ele soube, por Perácio, que Wilson tinha ido para a casa da Glória. Glória tinha acabado de ligar para Perácio. Bento foi até à casa da Glória, e encontrou Wilson lá no jardim. Os dois trocaram acusações mútuas. Bento partiu para cima de Wilson. Wilson revidou com socos. Os dois, Wilson e Bento, estavam descontrolados. Wilson estava fora de si porque acreditava que Bento havia sabotado o bufê para levá-lo à falência. Os dois lutaram. Bento teria acabado com a raça de Wilson se Gilson e Salma não tivessem chegado na hora exata e contado que eram pai e filho. Charlene havia ligado para eles, informando que Bento foi atrás de Wilson na casa da Glória. Charlene ficou sabendo por Nancy, que tele-fonou para ela. Gilson e Salma correram para a casa da Glória para impedir que pai e filho se matassem. Sabiam que Bento estava transtornado, Wilson também.
Giane ainda não sabia de nenhuma novidade sobre o Bento.
— Não, nenhuma. Mas olha, eu acho que a coisa vai feder. — disse Giane.
Malu estava feliz por estar ali com a família. Porém, ao mesmo tempo, estava triste, pois Maurício havia terminado com ela. Ela e Maurício estavam felizes. Estavam namorando para valer, depois de ela se convencer de que Maurício gostava dela de verdade. Até que a troca dos exames foi descoberta. Maurício ficou inseguro, cismou que ela ainda gostava do Bento, que só estava com ele por falta de opção e que não terminava com ele para não magoá-lo. Então ele decidiu facilitar as coisas para ela, segundo as palavras dele, e terminou tudo com ela. Só que ela gostava realmente de Maurício. Não queria perdê-lo.
— Fabinho, eu posso conversar com você um minuto? — perguntou Plínio.
— Claro. — disse Fabinho, levantando-se do sofá. — Eu tava esperando por isso mesmo.
— Por favor. — disse Plínio, apontando para o escritório.
Fabinho passou a mão no ombro de Giane, antes de entrar no escritório com Plínio. Fabinho ficou conversando com Plínio por mais ou menos meia hora. Depois, foram jantar. Depois do jantar, ficaram um pouco na sala.
— Bom, gente, a comida tava muito boa. — disse Fabinho, levantando-se do sofá e abraçando Margot. — A lasanha da dona Margot continua imbatível.
— Então, o próximo jantar é lá em casa. — disse Margot.
— A gente vai com certeza. — disse Irene. — E vocês, por favor, venham sempre. A casa é de vocês.
— A gente vai voltar. Eu vou voltar, porque eu sou folgado. Vê se não desconvida. — disse Fabinho, bem-humorado.
— É. E sem noção. Com esse aí, é melhor você ficar com um pé atrás. — brincou Giane.
— Se liga, hein, pivete! Que eu te troco por uma modelete, assim, ó. — brincou Fabinho, estalando os dedos. Margot riu.
— Ah, é? Já vai tarde, amor. — disse Giane.
Margot e Silvério riram. Sabiam que nem Giane, nem Fabinho falavam sério. Era apenas o jeito deles de se amarem.
— Isso é um cavalo, cara. Isso é. — disse Fabinho, aproximando-se de Irene e lhe dando um beijo no rosto.
— Vai com Deus. — disse Irene. Estava aliviada e feliz, depois de ter ouvido a conversa de Plínio com Fabinho. O filho não pensava mais em usar o dinheiro apenas para gastar ou para humilhar os outros.
— Tchau, mãe! — disse Fabinho, e passou a mão na barriga da mãe. — Tchau, irmãozinho!
Fabinho foi apertar a mão de Plínio.
— Tchau, Fabinho! — disse Plínio.
— Tchau! Até mais. — disse Fabinho, dando um tapa no ombro de Plínio.
— A gente se fala, hein! — disse Plínio.
— Tá bom. — disse Fabinho, e foi despedir-se de Malu. — Tchau, irmãzinha! — deu um abraço e um beijo nela, e recuou. — Não vai machucar.
Malu ainda estava se recuperando, continuava dolorida.
— Tchau! — disse Malu.
— Tchau, gente! Tchau, Malu! — disse Giane.
— Boa noite a todos! Boa noite! — disse Plínio.
— Vão com cuidado, hein? — recomendou Irene.
— Tchau, Malu! — disse Silvério.
— Ai, ai, tchau! — disse Malu.
Silvério, Margot, Fabinho e Giane foram embora, depois de ouvirem as recomendações de Irene. No dia seguinte, cedo, Giane resolveu ligar para o Bento. Estava preocupada com ele. Imaginou que Bento devia estar péssimo, depois de ficar sabendo de todas as tramoias da Amora. Ele devia ter brigado feio com a esposa. Porém, Bento não atendia. Então resolveu ligar para Amora:
— Alô? Não, Giane. O Bento não passou. Eu não sei se ele está na casa do tio Gilson. Eu não sei onde ele pode estar. Não me interessa onde ele passou a noite! — disse Amora, e desligou na cara de Giane.
Mais tarde, Giane estava podando as flores da praça, quando Fabinho apareceu.
— Não para de trabalhar nunca não, hein? Coisa de pobre. — brincou Fabinho, descendo as escadas.
— Ih, lá vem ele empinar o nariz só porque o papaizinho liberou a grana. — disse Giane.
Já estava sabendo que Plínio iria adiantar a herança. Plínio já marcou novo exame de DNA e notificou o laboratório da má-fé da Socorro. Com isso, Socorro seria demitida por justa causa e responderia processo-crime.
Giane estendeu a mão:
— Cadê o meu cartão de crédito sem limite? Porque eu preciso comprar sapato. — disse Giane, imitando Amora.
— Mas, Amora... — disse Fabinho, batendo na palma da mão dela. — Pra comprar sapato? — agachou e olhou para as flores. — Você não percebe que o importante é a beleza das flores?
Giane percebeu que Fabinho estava imitando Bento, e riu.
— A força da liberdade, da fraternidade, da igualdade... — disse Fabinho.
— Você tem toda a razão, Bento. — disse Giane, levantando-se e pendurando-se no corrimão da escada. — Eu acho até que eu vou lá no shopping comprar um monte de fraternidade salto 15 e vou propor isso como uma pauta pro Luxury. O que você acha?
— Amora, tenebroso, Amora, você não aprende... — disse Fabinho.
Margot chegou neste momento e disse:
— Eu achei muito feio vocês dois imitando a Amora e o Bento num momento tão difícil como esses, viu?
— Ai, eu sinto muito pelo Bento. — disse Giane. — Mas eu quero assistir de camarote a Amora sendo expulsa daquela casa. — sentou-se no chão.
— E eu quero um lugar nesse camarote. — disse Fabinho, e dirigiu-se à dona Margot. — Agora, olha, falando sério, eu quero que você pare de fazer salgadinho. — dirigiu-se à Giane. — Eu quero que você pare de ficar plantando flor, tá? Porque vai sair a minha herança e eu quero dar um vidão pra vocês.
— Tá louco! Eu que não vou ficar sem fazer nada. — disse Giane. Achava que não tinha a menor vocação para madame.
— E eu vou botar limite nesse seu cartão de crédito. — brincou Fabinho. — Não, falando sério, agora. Por favor, gente. Vai sair esse dinheiro... — sentou-se ao lado de Giane. — E eu quero consertar umas burradas aí que eu fiz.
— Olha, se você quiser consertar todas, vai precisar de umas 10 heranças. — implicou Giane.
— Hum, engraçadinha. Mas você tá certa. O pior é que você tá certa. A pior delas, por exemplo, não tem como reparar, que é ter me envolvido com um pivete, maloqueira. Aí, realmente, não tem como. — implicou Fabinho.
— É muito cretino, não é não? — disse Giane, beijando-o.
Horas depois, Giane foi até à Para Sempre, mais especificamente, na agência Karmita. Contou para Caio tudo o que Amora havia feito: tudo sobre a troca dos exames de DNA, o incêndio na Toca do Saci, a pichação, o bazar fake, inclusive sobre o falso aborto. Giane disse também que Amora confessou para Bento quase todos os seus crimes. Amora até já tinha ido embora da Casa Verde. Caio ficou chocado. Ele realmente acreditava que Amora havia perdido o bebê. Havia levado até flores para ela no hospital. Caio não achava Amora uma santa. Pelo contrário, sempre achou que ela não era flor que se cheire. Mas também nunca pensou que Amora fosse capaz de fazer tantas atrocidades. Agora se dava conta de que nunca chegou a conhecer Amora de verdade. Não podia acreditar que por trás daquela perua, daquela patricinha, havia uma bandida perigosa. Amora era ainda pior do que Fabinho. Ele não ia com a cara de Fabinho, mas as maldades de Fabinho não chegaram nem perto das da Amora. Porque por pior que Fabinho fosse, ele não chegou a manipular a vida de tanta gente. Além disso, fingir que estava grávida e forjar aborto era demais. Amora chorou a morte de um bebê que nunca existiu.
— Nossa, eu tô espantado com o cinismo da Amora. — disse Caio. Estava chocado com a capacidade que Amora tinha para mentir, dissimular. Um dia antes de forjar o aborto, Amora se fez de vítima para ele, inventou uma história de que Fabinho a ameaçava, fazia tortura psicológica com ela, que ela tinha medo de perder o bebê por conta disso. Ainda fingiu preocupação com a Giane. Disse que era para ele estar atento, senão Fabinho iria acabar com a vida da Giane. E ele caiu na conversa dela como um pato, pois acreditava que Fabinho era uma ameaça para Giane.
— Fala sério! Você trabalhou tantos anos com ela, nunca sacou a bisca que ela era? — perguntou Giane, lidando com a câmera fotográfica.
— Homens, minha filha. Prestam uma atenção... — disse Camilinha.
Caio achava que Amora era uma metida, mas não alguém capaz de cometer crimes. Até pouco tempo atrás, ele achava que Fabinho era o bandido. Ele não ia muito com a cara da Amora, mas também não levava muito a sério o que Giane falava. Achava que Giane implicava com Amora. Agora, se deu conta de que Giane estava era coberta de razão.
— Não, mas fingir que tava grávida, gente. — disse Caio. — E eu indo lá, entregar flores pra ela.
— Bem feito! Quem não mandou dar as flores pra mim, hein? — disse Camilinha, em frente ao computador.
— Você sabe que o Plínio vai processar a Socorro, né? Isso vai cair em cima da Amora. — disse Giane. — Se prepara que não vai ser bom pra imagem do Luxury.
— Camila, você vai assumir o programa, tá? — disse Caio.
— Tá. — disse Camilinha, sorrindo.
— Tá. — disse Caio.
— Mas vem cá. — disse Camilinha. — Pra ficar ainda mais perfeito, só falta você namorar comigo, né?
Caio nem respondeu. Não estava a fim de namorar Camilinha. Até saiu com ela algumas vezes, sem compromisso, mas não superou ainda o tér-mino do namoro com Giane. Ele ainda gostava de Giane.
— Vem cá! Você não tem nenhuma vaga de estagiária aí de fotografia pra mim, não? — perguntou Giane.
— O Giane, vem cá! Você não tá namorando o Fabinho? Ele não tá rico? Para de querer trabalhar. Vai curtir a vida. — disse Camilinha, enciumada. Por ela, Giane sairia da agência. Não queria Giane perto do Caio. Queria que Giane se afastasse do Caio de uma vez por todas, só assim para Caio esquecê-la. Se Giane continuasse na agência, iria empatar o lance dela com Caio, mesmo sem intenção. A mera presença de Giane atrapalhava, pois Caio insistia em querer voltar com Giane.
Só que Giane não estava com Fabinho pelo dinheiro.
— Fala sério! E eu lá quero dinheiro dos outros. Eu já falei pra ele, se ficar metido dou um pé na bunda. — disse Giane.
Caio ficou esperançoso. Achava que era bem capaz de Fabinho ficar metido, deixar o dinheiro subir à cabeça e esnobar a Giane. Afinal, Fabinho já fez isso antes. Quem sabe assim, ele, Caio, ainda tinha alguma chance com ela. Quem sabe poderiam reatar. No ponto de vista de Caio, Fabinho não gostava tanto assim de Giane. Não como ele, Caio, gostava. Era bem capaz de Fabinho largar Giane e ficar com qualquer peruinha. No ponto de vista de Caio, se Giane falava em largar Fabinho, nem gostava tanto dele.
— Aí você me avisa, que eu tô na fila, tá? — disse Camilinha, levantando-se. Estava tentando fazer ciúmes em Caio.
— Hum, ridícula. — murmurou Giane, com ciúmes. Camilinha que se atrevesse a chegar perto de Fabinho, que iria ver só uma coisa.
— Me avisa também, tá? — disse Caio, esperançoso, chegando perto dela.
Só que nem passava pela cabeça de Giane largar Fabinho. Não achava que ele fosse ficar metido. Ela tinha certeza do amor dele. Giane deu um tapinha em Caio. Ele que não criasse ilusões na cabeça dele.
— Bobo. — disse Giane, rindo, abraçando-o.
— Você tá feliz, né? — perguntou Caio.
— Tô. — disse Giane, assentindo. Ela estava amando e sendo amada.
— Dá pra ver nos seus olhos. — disse Caio.
— Tô mesmo. Mas você vai ser também. — disse Giane, dando um empurrãozinho nele com o ombro. — Tô sabendo, tem um monte de mulher aí, no seu pé. — riu.
Giane torcia para Caio ser feliz com outra pessoa. Achava que Caio tinha de superar o fim do namoro, esquecê-la de vez. Caio abanou a cabeça.
— Não. Nenhuma delas é como você. — disse Caio, e Giane ficou sem graça. — Tá aí! A vaga é sua.
— Sério? — disse Giane, feliz.
— Vai ser bom trabalhar com você. — disse Caio.
No ponto de vista de Caio, Giane era talentosa e além do mais, ele a queria por perto. Acreditava que ainda podia ter alguma chance com ela, ainda que pequena. Ele não era de desistir facilmente de quem gostava.
— Ai, valeu! — disse Giane, abraçando-o, feliz.
— Ó! A gente vai fotografar as telas do Perácio Pais, tá? — disse Caio.
Perácio, pai do Filipinho, era pintor. Estimulado por Brenda, copiava os quadros da mãe para substituí-los e vender os originais para o mercado negro. Perácio acreditava que estava enganando a mãe. Porém, Glória sempre soube que o filho falsificava quadros e trocava os falsos pelos originais, sem que ele soubesse. Perácio descobriu que na verdade vendeu os quadros falsos. Agora, estava criando quadros originais. Ele pretendia conseguir uma boa quantia em dinheiro para ressarcir as pessoas a quem prejudicou ao vender os quadros falsos.
— Tá. Vamos lá, vamos lá. — disse Giane, disposta.
Caio pegou um caderno.
— A gente começa com um cronograma aqui. — disse Caio.
Giane tirou uma fotografia dele e riu.
— Aqui, garota. — disse Caio, mostrando o cronograma.
— Obrigada. — disse Giane, contente.
— A gente começa com o cronograma aqui. — disse Caio, virando as folhas do caderno, mostrando o cronograma.
Algumas horas depois, Amora apareceu na agência Karmita.
— Caio, eu não sei nem por onde começar, eu... — disse Amora.
— Não precisa. Eu já soube o bastante. — disse Caio, sentado à mesa, fazendo anotações em um caderno.
Amora passou a mão nos cabelos e disse:
— Bom... Eu achei que eu te devia uma satisfação porque você sempre foi muito legal comigo.
— É, sempre mesmo. — disse Giane, aproximando-se. — Ele até te levou flores no hospital, lembra?
Amora suspirou. Chegou à conclusão de que foi Giane quem contou tudo para o Caio.
— Então foi você que veio destilar seu veneno aqui, claro. — disse Amora.
Giane achava impressionante como Amora ainda se fazia de coitada. Ela não era a vítima. Amora prejudicou muita gente, fez muita gente sofrer.
— Não, a lacraia aqui é você, fica tranquila. — disse Giane.
— Vem cá, você tá achando o quê? — disse Caio, levantando-se da cadeira. Estava indignado, pois Amora prejudicou muita gente e ainda o fez de idiota. — Você acha que eu não ia ficar sabendo, Amora? Você prejudicou e enganou muita gente, garota. Devia ser atriz, sabia? Você leva jeito pra isso.
Amora abanou a cabeça e disse:
— Eu acho que eu não tô aqui pra...
Nesse momento, Sueli Pedrosa entrou na sala:
— Amorete, que surpresa!
— Sueli, o quê que você tá fazendo aqui? — perguntou Amora.
— Um especial sobre o herdeiro mais gato do Brasil. — disse Sueli Pedrosa, e dirigiu-se a Caio. — Mas a Camilinha não avisou que eu vinha, não, é?
— O Sueli, eu tô... Não tô podendo agora. — disse Caio. — Você pode passar outra hora, por favor?
— Amora, conta pra gente, por favor. — disse Sueli. — Você tá pronta pra assumir o comando de volta do Luxury? Conta pra família brasileira. É. Como é que tá sendo pra você ter perdido um filho? Você já ultrapassou o trauma?
— Olha só, Sueli, eu realmente... — disse Amora, fugindo do assunto.
Giane achou que Amora iria se fazer de coitada, como sempre fazia. Amora vivia posando de santa, heroína ou vítima para o Brasil inteiro. Só que desta vez, ela não iria deixar. Não deixaria Amora continuar mentindo, acusando Fabinho pela perda do bebê e ainda se dar bem com isso. As pessoas precisavam saber que Amora era uma cobra.
— Ela nunca esteve grávida. Conta pra eles, Amora. — disse Giane.
Caio achou que Giane iria fazer uma besteira. Sabia que Giane estava revoltada com Amora, mas achava que um barraco não seria bom para a imagem dela. Giane agora era uma pessoa pública, tinha uma imagem a zelar.
— Giane, espera aí. Eu acho que você não devia... — disse Caio.
— Não, não. Conta, Amora! — disse Giane, aproximando-se. — Se você não contar a verdade, eu mesma conto.
— Eu não tenho nada a declarar. — disse Amora para Sueli. — Apenas que isso podia ter acontecido com qualquer mulher. Eu pensei que eu tava grávida.
Nada no mundo faria Amora confessar seus crimes para a imprensa. Tudo o que ela não precisava era de mais humilhação, e não queria ser exposta dessa maneira. Não queria que o país inteiro soubesse o que ela foi capaz de fazer. Mesmo que ela tenha feito tudo por amor, ninguém compreenderia. Ela seria massacrada pela mídia. Para Amora, já bastava o julgamento das pessoas que eram próximas.
— Não é verdade. Você fingiu, é muito diferente. — disse Giane. Dirigiu-se à Sueli. — Já que ela não vai falar, eu vou contar todos os podres dessa aí.
Sueli Pedrosa dirigiu-se à câmera:
— Queridos telespectadores, estamos aqui com a modelo Giane de Souza, que vai confessar com exclusividade...
Caio não queria ver Giane envolvida em um escândalo e não deixou Sueli continuar:
— Nada disso, acabou essa palhaçada. — disse Caio, tapando a câmera.
— Ei! Olha aqui! — disse Sueli Pedrosa.
— Você vai procurar outra... Outra carniça pra sobrevoar. — disse Caio.
— Eu estou fazendo meu trabalho, entendeu? — disse Sueli Pedrosa.
— E você se acalma, se controla, por favor. — disse Caio para Giane.
— Me controlar por quê? Você acha que ela não merece? — perguntou Giane, revoltada. Era só o que faltava, o Caio defender a víbora.
Na opinião de Giane, a Amora tinha de pagar pelo o que fez ao Bento, ao Fabinho, à Malu, ao Plínio, à Irene, a Gilson, Salma, e até mesmo a Glória e Wilson. Amora enganou e manipulou a vida de muita gente, e tudo para se dar bem. O Brasil precisava saber a pessoa sórdida que era Amora. Giane sabia estar humilhando Amora, mas não se importava. Amora fez muito mal à muita gente, aquela humilhação pública ainda era pouco para ela. Amora não adorava aparecer? Ela ajudaria Amora a ficar mais famosa.
— Ela merece tudo. Mas eu não vou deixar você se queimar no mercado por causa dela, Giane. — disse Caio.
— Que se dane. Que se dane mercado, que se dane mercado. Eu quero fazer justiça, dá licença. — disse Giane, revoltada.
Afinal, ela nunca ligou para a opinião pública e Caio devia estar cansado de saber disso. Claro que ela se importava com a opinião alheia, mas quando se tratava do trabalho dela como modelo. Afinal, o público tinha de gostar dos comerciais que ela fazia. Só assim para vender bem os produtos que ela representava. Mas quando se tratava da vida pessoal dela, ela não estava nem aí para o que o povo podia pensar. EG iane queria apenas fazer justiça, denunciar uma bandida que fez mal a muita gente que ela gostava. Se ela fosse malvista por isso, não estava nem aí. Ela não pretendia ser famosa para sempre mesmo. E sempre podia arrumar trabalho. Ela não era como Amora, que vivia em função da imagem, que se preocupava demais com o que os outros iam pensar sobre a vida íntima dela, e que fingia ser quem não era o tempo todo, para agradar ao público. Ela, Giane, não iria representar. Não iria viver em função do que os outros pensam. Não estava preocupada com o que o público iria pensar, porque havia coisa muito maior em jogo. E daí se o povo pensasse que ela era barraqueira? Ela era mesmo. Não estava a fim de fingir ser quem não era para agradar ao público. Ela era humana, de carne e osso.
Giane dirigiu-se à Sueli Pedrosa.
— Essa aí... — apontou para Amora. — Fez a presidente do fã-clube dela falsificar dois exames de DNA pra ferrar com a vida do Fabinho e obrigar o Bento a ser rico na marra, porque ela sabe que ele nunca ligou pra dinheiro.
Giane explicou como Socorro fez para trocar os exames de DNA.
— Mas então o Bento não é o verdadeiro filho do Plínio Campana? — perguntou Sueli Pedrosa.
— Não. O filho dele é mesmo o Fábio Queiroz. — disse Giane.
Charlene chegou neste momento, e ficou na porta da agência. Vanessa havia chamado, nervosa e preocupada com o barraco. Charlene disse:
— Mas o quê que é isso? Que zona é essa? Sueli Pedrosa.
— Não fui eu que troquei os exames, foi a Socorro. — disse Amora, nervosa.
— Não seja ridícula de querer botar a culpa na Socorro. Você foi a mandante, Amora. — disse Giane, revoltada. Dirigiu-se à Sueli. — Ela queria que o Bento pudesse bancar a vida de rainha que ela acha que merecia.
— Não fala isso. Eu amo o Bento. — disse Amora, chorando. Acreditava ter feito tudo por amor ao Bento. Não estava pensando apenas em si mesma, apesar de sempre colocar a si própria em primeiro lugar.
— É, mas ama mais a vida boa, né, Amora? Mas você se ferrou. — disse Giane, e dirigiu-se à Sueli. — O Bento nunca ligou pro dinheiro do Plínio, e antes que ela pudesse curtir, foi desmascarada. — dirigiu-se à Amora. — Perdeu, né, it girl?
Amora quase se deu bem com o golpe. Havia voltado para o Luxury, e havia convencido Bento a comprar uma casa para ela. Iriam se mudar da Casa Verde. Mas antes que pudesse aproveitar, foi desmascarada. Todas as suas tramoias, todos os seus crimes foram descobertos.
— Se o negócio engrossar, me chama. — disse Charlene para Vanessa, antes de sair. Vanessa assentiu.
Mas Amora não deixaria Giane prejudicá-la ainda mais. Pensou logo em uma maneira de desacreditar Giane.
— Você é uma despeitada, uma invejosa que me persegue desde criança. — disse Amora, e dirigiu-se à câmera. — Ela fez de tudo pra tentar destruir o meu casamento, não é, Giane? Porque você sempre foi apaixonada pelo Bento, mas não conseguiu, né? Vocês não sabem o que eu passei, tendo essa aqui como vizinha. Se insinuando pro meu marido. Meu marido!
Do ponto de vista de Giane, era claro que Amora faria de tudo para livrar a cara dela. Amora estava era invertendo o jogo para desacreditá-la e ainda sair de vítima. Mas não adiantava. Ela, Giane, não era mais apaixonada pelo Bento. Amora que tentasse outro argumento. Era incrível a capacidade de Amora de distorcer as coisas ao seu favor. Ela, Giane, não ficava se insinuando e não tentou destruir o casamento de ninguém. A mau-caráter ali não era ela. O que ela fez foi tentar abrir os olhos de um amigo para ele enxergar a ordinária com quem se casou. Ela quis livrar um amigo de uma mulher que o fazia sofrer. Amora que sabotava o próprio casamento com mentiras e crimes. Ela não era invejosa, e não era verdade que ela perseguia Amora desde criança. Ela tinha ciúmes do Bento e não ia com a cara da Amora, mas não chegava a persegui-la. Nunca na vida ela perseguiu Amora. Amora que a tratava mal, porque era ingrata (se esquecia que ela havia dado os sapatos), se achava superior e a via como uma ameaça à sua imagem. Amora se fazia de santa para o Bento. Na frente do Bento, Amora se fazia de amiguinha dela, mas bastava ele virar as costas para Amora tratá-la mal, chamá-la de Maria Machadinha. Na opinião de Giane, santa Amora nunca foi e só foi piorando com o tempo. Ela, Giane, e Amora nunca foram amigas, nem na época do lar. Amora empinou o nariz ao ser adotada por uma atriz famosa, sempre se achou mais bonita do que ela, e sempre zombou dela, a humilhou, por ela ser diferente das outras meninas. Amora também não suportava a amizade, o carinho que ela e Bento tinham um pelo outro. Amora sempre quis o Bento só para ela. Até da Malu Amora falava mal, chamava Malu de sonsa.
— Deixa de ser ridícula! Eu tô muito feliz com o Fabinho. — disse Giane.
— Então você é a eleita do verdadeiro herdeiro de Plínio Campana? —perguntou Sueli Pedrosa, surpresa.
Giane não pretendia revelar para a mídia que estava com Fabinho. Até porque sua vida amorosa não era da conta de ninguém. Mas acabou falando. Do contrário, seria desacreditada e o público iria achar que ela estava mentindo, inventando, que era uma invejosa, despeitada e recalcada. Mas não, o público tinha de saber que Amora Campana era uma bandida. Ela podia não ligar para a opinião pública, mas também não estava disposta a deixar as pessoas pensarem que ela era uma coisa que não era: uma mentirosa. Não deixaria Amora destruir sua reputação e ainda se safar dessa.
— É como diz a tia Salma, né? “O homem põe e Deus dispõe”. — disse Giane. — A Amora ralou tanto pra fisgar a herança do Plínio, mas ela acabou voltando pro Fabinho. — olhou para a câmera. — Meu amor, meu noivo, com muito orgulho.
Ela já se considerava noiva de Fabinho. Ele ainda não a pediu oficialmente em casamento, mas já dissera que queria ficar com ela para sempre. No ponto de vista de Giane, isso já era um noivado.
— Desgraçada, ordinária! — disse Amora, furiosa, puxando o cabelo de Giane. Giane tirou a mão de Amora de seu cabelo e virou-se.
— Não toca em mim, que eu te quebro em duas. — Giane ameaçou.
— Mas então o Bento não é o verdadeiro filho do Plínio Campana? —
perguntou Sueli. Não conseguia acreditar, por isso repetiu a pergunta.
— Não. — disse Giane.
Giane continuou contando todos os podres de Amora. Contou sobre o incêndio na Toca do Saci:
— E não satisfeita em mandar botar fogo na Toca do Saci, depois do mutirão, ela ainda mandou pichar tudo. — disse Giane, apontando para Amora.
— Eu não tive nada a ver com as pichações na Toca do Saci. — disse Amora. Amora continuou protestando.
— Ela acabou com a vida da Malu. Ela acabou com a vida da Malu, a irmã adotiva dela. — disse Giane. — E renegou a Simone, a irmã de sangue.
Simone, que havia sido chamada por Vanessa, entrou na sala.
— Não. Não, não, não. — disse Simone. — Isso não é verdade, não. A minha irmã tá ajudando a cuidar de mim e dos meus... Dos meus filhos.
Vendo que Simone não estava se sentindo bem, Amora correu em direção a ela, preocupada:
— Simone. Meu Deus, está tudo bem? Você quer que eu te leve...
Charlene e Vanessa também haviam chegado e começaram a ajudar com Simone.
— Amora, conta pra gente. Esse teu lado bom samaritano é real ou é apenas um truque midiático? — perguntou Sueli Pedrosa.
— Sai. — disse Amora. Será que Sueli não via que a irmã dela estava passando mal? Será que nem nesse momento Sueli conseguia respeitar?
— Vaza daqui, Sueli. Chega. Chega! — disse Caio, furioso.
— Ó! Eu estou fazendo meu trabalho, hein? — disse Sueli.
— Olha só, olha só. A minha irmã é uma pessoa muito boa. — disse Simone, antes de desmaiar. Amora segurou-a, impedindo que caísse no chão. Charlene e Vanessa ajudaram a segurá-la.
— Simone! Viu o que vocês fizeram? — disse Amora, colocando a irmã sobre uma cadeira, com ajuda de Charlene e Vanessa.
— Isso não é teatro? — perguntou Sueli. Achou que Simone estava fingindo, que era tudo teatro para Amora posar de boazinha.
— A Simone tá com leucemia. — disse Charlene.
— Leucemia?! — disse Sueli, espantada.
— Vaza daqui, Sueli. Acabou! — disse Caio.
— Já não conseguiu sua matéria, seu abutre? Vaza daqui! — disse Amora.
— Leucemia, minha gente. — disse Sueli para a câmera. — Olha, meu povo, Amora Campana está realmente ajudando a irmã que está...
— Sai daqui! — gritou Amora.
— Chega! Acabou, acabou. — disse Caio, arrastando Sueli.
— O que houve com a liberdade de imprensa? — protestou Sueli.
Na opinião de Caio, Sueli já estava abusando da liberdade.
— Você vai sair por bem, ou vou ter que chamar a segurança? Sai daqui, sai daqui! Sai! Fora! — disse Caio, expulsando Sueli Pedrosa e o cameramen da agência, sob os protestos da Sueli, que reclamava a liberdade de imprensa.
Simone continuava desmaiada na cadeira. Amora, preocupada, disse:
— Ai meu Deus do céu, alguém já chamou uma ambulância?
Giane sentiu-se mal por causa da Simone. Quando resolveu desmascarar Amora publicamente, não mediu as consequências.
Acabaram levando Simone para o hospital. Ela teve de ser internada. Todos foram para o hospital: Giane, Caio, Amora, Charlene, até o Bento foi chamado.
— Eu sei que eu peguei pesado. — disse Giane para Caio. — Mas alguém tinha que ter coragem de tirar a banca daquela sacana, né?
— Olha ela vindo aí. — disse Caio, ao ver Amora andando no corredor, caminhando em direção à recepção, onde se encontravam. Dirigiu-se à Amora. — E aí, como é que tá sua irmã?
— Foi só um susto. — disse Amora. — Mas ela tá muito fraquinha por causa da quimio.
— Olha, Amora, eu sinto muito pela sua irmã. Eu sabia que ela tava doente, mas eu não sabia que era tanto assim. — disse Giane.
— Sem hipocrisia, Giane. Sabe o quê que você provou hoje com essa sua vingança? Que você pode ser pior do que eu. — disse Amora. No ponto de vista dela, Giane não pensou na Simone, nem no André e na Mayara, ao contar as armações dela para a mídia. Agora sua irmã e seus sobrinhos iriam ficar expostos, tudo por culpa de Giane.
No ponto de vista de Giane, não era hipocrisia. Ela realmente se preocupava com o bem-estar de Simone, e não teve intenção de fazer nenhum mal a ela. Só queria fazer justiça pelas pessoas que Amora prejudicou. Era diferente da Amora, que fez o que fez com a intenção de prejudicar a Malu e o Fabinho, e ainda acabou atingindo o Bento e outras pessoas além dele. Ela, Giane, não era uma pessoa vingativa. Ela desmascarou Amora, mas não o fez por vingança, e sim por justiça. Amora não tinha o direito de posar de boazinha para a imprensa, depois do que fez. Giane disse:
— Nem Odete Roitman e Maria de Fátima juntas têm essa capacidade. Como você pode ter coragem de negar as pichações da Toca, Amora? Você perdeu. A casa caiu.
Amora abanou a cabeça, furiosa. Achou que Giane devia estar feliz por ver que ela estava na pior. Mas o que era da Giane, estava guardado.
— Tá feliz, né? Hoje você venceu. Mas eu não queria estar na sua pele quando eu me levantar. — disse Amora.
— Nossa, ainda tem coragem de me ameaçar. — disse Giane.
— É, Amora, pelo jeito você não vai mudar nunca mesmo. — disse Bento, que acabou de chegar e ouviu Amora ameaçar Giane. Estava decepcionado com Amora, por conta de tudo o que descobriu sobre ela. E o pior era que Amora não demonstrava nem um pingo de remorso ou arrependimento. Ela alegava ter feito tudo por amor a ele. Mas Bento acreditava que Amora não tinha que ter feito nada do que fez. No ponto de vista de Bento, Amora não precisava armar tanto, mentir, dissimular, cometer crimes para ficar com ele. Ela não tinha nada que tê-lo feito de idiota em todos aqueles meses. Não precisava ter sido assim. De repente, a mulher que ele amava se revelava uma completa desconhecida.
Amora não era nada daquilo que ele pensava. Era uma bandida. E era ainda pior que o Fabinho. Porque por pior que Fabinho fosse, pelo menos ele não manipulou a vida de todo mundo. Agora Bento sabia que Fabinho desistiu de atear fogo na Toca ao vê-lo desmaiado. Já Amora, ela chegou na Toca, o viu lá desmaiado e ainda assim riscou o fósforo, só para posar de heroína. Bento estava magoado. Amora ainda dizia que o amava. Mas era uma maneira muito estranha de amar. Ele até podia entender a vontade dela de impressioná-lo, ela querer que ele a admirasse. Mas nada justificava ela ter colocado a vida dele em risco. Nem mesmo para impressioná-lo. E estava na cara que ela não tinha ateado fogo na Toca só para posar de heroína. Ela também queria atingir a Malu, por tê-la obrigado a leiloar a coleção de sapatos. E queria se vingar do Fabinho também, pois Fabinho destruiu a imagem dela, fez com que ela perdesse trabalhos. Amora manipulou a vida de muita gente, inclusive a dele, Bento. Ela o fez pensar que Plínio e Irene eram seus pais, que a Malu era sua irmã.
Bento agora se deu conta de que passou a vida inteira vivendo uma fantasia, de que Amora voltaria a ser aquela menina doce e simples que ele conheceu na infância. Tudo o que ele queria era ter de volta aquela menina. Não a it-girl, e sim a garota simples, humilde, carinhosa e parceira que ele amou quando era garoto. Naquele tempo ela não era rica, nem famosa, nem ficava querendo aparecer o tempo todo na mídia. Mas foi tudo ilusão. A Amora que ele amou não existia, assim como o Bento que ela amava, o cara que iria dar uma vida de rainha para ela, não passava de uma fantasia da cabeça dela. O mais triste era que Amora fez coisas horríveis para forçá-lo a mudar de vida, tudo sem consultá-lo. Até porque se ele tivesse sido consultado, jamais concordaria com a maneira de Amora agir. Ela passou por cima de muita gente para alcançar seus objetivos.
No ponto de vista de Bento, Amora tinha o direito de querer se manter na mídia, continuar apresentando o Luxury e fazendo campanhas publicitárias. Mas ele também tinha o direito de não querer ser famoso, não querer aparecer e Amora não respeitava isso. Por isso ele deu chilique com a presença da imprensa no dia do casamento. Amora queria aparecer, ele não. E Amora ainda o enganou, disse que não chamou a imprensa e botou a culpa na Bárbara. Não cumpriu o combinado. Não que ele gostasse de bancar o chato. Mas ele não gostava quando Amora mentia para ele, detestava ser feito de idiota. Ele não queria virar um príncipe para Amora exibi-lo para a mídia, tampouco bancar todos os luxos ao qual ela estava acostumada. Ele não estava nem um pouco interessado em dinheiro, fama. Não queria ficar aparecendo na mídia só porque casou com Amora.
Amora não entendia que ele não queria fazer de sua vida um espetáculo, uma novela, onde as pessoas podiam acompanhar, consumir cada dia um capítulo novo do romance do casal top. Não queria que a mídia explorasse a relação deles. Não queria fazer campanhas publicitárias, embolsar cachê, tirar foto para capa de revista. Ele não queria, de jeito nenhum, ver sua vida transformada em mercadoria. Era isso que Amora fazia com Maurício e com ela mesma. Se Amora queria continuar a carreira de modelo e apresentadora, tudo bem. Até porque ele não a forçou a abrir mão da carreira, a decisão partiu dela. Mas ele não queria fazer campanhas publicitárias nem dar entrevistas. Não queria ser assunto de matéria de revista ou jornal. Bento queria era continuar sendo quem sempre foi e levar uma vida normal e discreta. A vida dele era uma coisa que dizia respeito a ele e a mais ninguém. E não queria mudar sua vida só porque ficou rico. Não queria deixar a Casa Verde, lugar ao qual pertencia e que era seu porto seguro, nem as pessoas que amava, como Salma, Gilson e a vizinhança. Podia até se mudar para uma casa maior, mas jamais iria para longe de sua família e seus amigos. Amora reclamava que ele não a aceitava como ela era, mas ela também não o aceitava como era nem o que ele tinha para oferecer. O casamento não tinha como dar certo mesmo.
Ele e Amora podiam ter se amado na infância, mas aquele amor já não existia mais. Eles mudaram e alguma coisa se quebrou, se perdeu. Ele e Amora não tinham nada a ver um com o outro. Eram diferentes demais, queriam coisas diferentes, não tinham nada em comum. A relação já começou errado, porque era baseada em mentiras, em crimes. Ele devia ter desistido de se casar com Amora quando Giane interrompeu a cerimônia, gritando que ele não podia se unir a uma ordinária. Mas ele se iludiu, achando que seu amor iria salvar Amora e a si mesmo. Que o amor deles iria superar todos os problemas, todos os obstáculos. Infelizmente, ele se enganou. Agora, chegou à conclusão de que a mulher certa para ele era Malu. Ele sempre gostou da Malu, a achava uma mulher incrível. Nunca esqueceu tudo o que houve entre eles. Ele e Malu estavam muito apaixonados quando descobriram que eram irmãos. Bento acreditava que Malu tinha tudo a ver com ele e que ainda tinham tudo para serem felizes juntos. Podiam retomar de onde pararam, construir uma relação saudável e cheia de amor. Porém, Malu disse que estava muito envolvida com Maurício e ele decidiu dar um tempo para ela pensar. Respeitaria a vontade dela. Ele tinha certeza de que Malu também não esqueceu o que viveram juntos.
Ao mesmo tempo, ele se preocupava com Simone. Ele e Charlene haviam conversado com o médico. Simone passaria a fazer sessões mais agressivas de quimioterapia, e o médico já havia começado a busca por uma medula compatível. Simone precisaria fazer transplante. As chances de Amora ser a doadora eram pequenas. Qualquer parente podia ter apenas vinte e cinco por cento de chance de ser doador. Era mais provável que uma outra pessoa fosse mais compatível.
Mais tarde, do lado de fora do hospital, Bento conversou com Giane.
— Você não devia ter feito isso, Giane. — disse Bento, referindo-se ao escândalo na Para Sempre. Achava que Giane não devia se expor daquela maneira por causa da Amora.
— Ah, não tô nem aí. Ela mereceu. Agora todo mundo sabe a bisca que ela é. — disse Giane.
— Você tinha que armar aquele barraco no programa da Sueli Pedrosa? — perguntou Caio. Giane precisava ver que não valia a pena queimar a imagem por causa de uma víbora como Amora.
— Você sabe que isso pode prejudicar a tua carreira de modelo, não é? — perguntou Charlene.
— Ah, quer saber? Tô nem aí. Meu negócio agora é fotografia. — disse Giane.
— Mas não fecha as portas. Porque se a imagem de justiceira pegar, vai aparecer um monte de trabalho para você fazer. — disse Caio.
— Bento. — disse Amora, aproximando-se.
— Hum, lá vem a chantagem emocional falar aí. — disse Giane.
— O quê você quer, hein, Amora? — perguntou Bento.
— Será que você pode pegar o André e a Mayara na Toca do Saci e ficar com eles essa noite? Eu preciso ficar do lado da Simone. — disse Amora.
Bento assentiu.
— Claro. — disse Bento.
— Obrigada. — disse Amora.
Tábata apareceu e Amora afastou-se do grupo. Bento percebeu que Amora se afastou ao ver Tábata. Tábata cumprimentou-os:
— Oi, pessoal.
Tábata assistiu ao programa da Sueli Pedrosa e achou um absurdo Amora ter negado os seus crimes. Amora iria ter que assumir tudo o que fez, ou ela iria a público contar todos os detalhes sobre a farsa do bazar de sapatos e quanto Amora pagou para picharem a Toca do Saci. Tábata resolveu tomar jeito e não mais fazer serviço sujo em troca de dinheiro.
— Bom, gente, vocês vão comigo pra Para Sempre? — perguntou Charlene.
— Eu vou com o Caio. Bento, quer carona? — perguntou Giane, olhando para o amigo. Bento não podia ir na moto com ela e Caio, mas ele podia aproveitar a carona da Charlene, que estava de carro e podia deixá-lo na Acácia Amarela. Era caminho.
— Não. Obrigado, Giane. Eu tô com a van aí fora. — disse Bento.
— Tá bom. — disse Giane.
Quando estava prestes a ir embora com Caio, Giane viu que Bento desistiu de ir embora. Ele até abriu a porta da van, porém, fechou-a em seguida e entrou novamente no hospital. Estava pensativo. Giane resolveu ficar. Com certeza, Bento foi atrás de Amora e Tábata, para ver se descobria mais alguma coisa. Giane decidiu mostrar a Bento as fotos do acidente de Amora, que estavam salvas em seu celular. Caio foi embora, e Giane ficou no hospital, do lado de fora, esperando Bento. Algum tempo depois, Giane viu Bento sair e entrar na van. Resolveu se aproximar.
— Você tá mal, né? — perguntou Giane.
— Tá difícil, viu, Giane? — disse Bento.
Bento resolveu voltar porque notou o clima tenso entre Amora e Tábata. Ele agora sabia que Tábata foi cúmplice de Amora na história do falso aborto. Malu contou para ele. Era óbvio que Tábata tinha ido ao hospital atrás de Amora. Ele quis ver se descobria mais alguma coisa. Ele ouviu uma discussão de Amora com Tábata, e descobriu que Amora mandou pichar a Toca do Saci. Amora pagou Tábata para fazer o serviço sujo. Até então, ele só sabia do falso bazar, da troca dos exames, do incêndio na Toca e da falsa gravidez. Então era verdade tudo o que Madá, Malu e Giane disseram. Amora realmente mandou pichar a Toca para ameaçar Madá. Amora ainda tentou transferir a culpa para Tábata, acusou Tábata de induzi-la. Tábata disse que foi Amora quem a procurou duas vezes, no caso do bazar fake e da pichação, e que tinha tudo registrado para provar. Bento ficou muito decepcionado. Quando ele pensava que a lista de maldades de Amora já tinha se esgotado, descobria mais uma. Ele pediu para Amora se desculpar com Malu e indenizar o prejuízo que causou na Toca do Saci. Até porque não seria simples denunciá-la pelo incêndio da Toca, ainda mais depois de tanto tempo. Não houve flagrante. Ele não a viu atear fogo na Toca. Estava desmaiado, e quando acordou, já haviam apagado o incêndio. A confissão de Amora não seria suficiente para condená-la. Seria preciso outras provas, e não havia mais prova alguma. Além do mais, ele não iria fazer nada em consideração à Simone e às crianças. Então, na opinião dele, Amora devia ao menos pagar o prejuízo. Amora disse que não dava, pois estava sem emprego, Simone estava em tratamento e ainda tinha as crianças. Bento insistiu para ela pelo menos pedir desculpas.
E o pior era que Amora não se arrependia de nada do que fez. Ainda tentava se justificar. Ela disse que fez tudo por amor e que para tê-lo faria tudo novamente. Que tudo o que fez de bom e ruim acabou sendo para o bem, pois seria uma catástrofe se Fabinho botasse a mão na herança há alguns meses atrás. Se ele estava regenerado, bonzinho, era graças à ela. Em nenhum momento ela lamentou ter feito mal às pessoas. Só se arrependia de ter deixado rastro e ter sido pega, e achava que o amor que sentia por ele justificava tudo o que fez. Só que ele não queria esse amor egoísta e doentio, que só lhe fazia mal. Ele esteve com Simone, que implorou para ele perdoar e dar mais uma chance para Amora. Só que ele havia dado todas as chances. A história dele com Amora acabou. Amora magoou, feriu, destruiu muitas pessoas, inclusive a ele.
— Mas vai passar. Uma hora vai passar, Bento. — disse Giane. — Uma hora você vai voltar a ser aquele cara alto astral que você é. Vou te mostrar uma coisa.
Giane abriu a porta da van e sentou-se no banco do carona, ao lado de Bento. Em seguida, fechou a porta. Mostrou o celular para ele.
— Que isso? — perguntou Bento.
— São as fotos do acidente. — disse Giane, mostrando as fotos para ele. Bento começou a olhar atentamente as fotos. — O atropelamento da Amora. Não teve atropelamento, Bento. Ela fingiu pra te sensibilizar. Pra ferrar com o seu programa naquela noite. Você ia ficar com a Malu, né?
Mais uma vez, Bento se deu conta de que Amora já tinha tudo planejado. Amora sabia que ele e Malu pretendiam passar a noite juntos, e resolveu estragar tudo. Porque ela mandara Socorro trocar os exames, e sabia que o exame dele daria positivo. Ele e Malu se tornariam irmãos. E ele achava que Amora havia se jogado na frente do carro por ter ficado arrasada ao vê-lo com Malu. Era tudo fingimento. Amora o fez de idiota.
— O que mais falta eu descobrir, hein, Giane? — perguntou Bento.
— Quanto mais você fuçar, mais sujeira você vai encontrar. — disse Giane, passando a mão no ombro dele. Agora ele sabia a cobra que Amora era.
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