Um amor inesperado
15 Coisa mal-acabada
No dia seguinte, Lara ligou para Giane:
— Hi, little Darling! Sou eu, sua mais nova amiga de infância.
— Não vem com essa história de amiga não que eu sei muito bem qual seu interesse em mim. — disse Giane. Ela ouviu Lara avisar sobre o horário da entrevista com Sueli Pedrosa e balançou a cabeça, concordando. — Três horas tá firmeza. Vou ficar o dia inteiro em casa mesmo. Valeu, tchau.
Giane estava firme na decisão de não trabalhar mais com Bento. Falou com ele a respeito disso, mais cedo. Bento agora estava sempre querendo aparecer na mídia, sempre querendo impressionar Amora, saía com a Malu toda hora para provocar Amora, e Giane estava cansada desta situação.
Ultimamente, Bento estava deixando o trabalho de lado para correr atrás das patricinhas. Ficava horas, às vezes um dia inteiro sem aparecer na loja. Giane já estava se sentindo sobrecarregada, pois a maior parte do trabalho sobrava para ela. O pai a ajudava na loja, e também havia o Wesley, o funcionário da loja, o que minimizava o problema da sobrecarga de trabalho, mas não resolvia totalmente. Na opinião de Giane, a presença de Bento era necessária e era ele quem tinha de tocar o negócio ao lado dela. Afinal, a loja era de Bento, ele era o sócio dela. Silvério já havia se matado de trabalhar a vida inteira na rodoviária, e estava aposentado.
Giane questionava onde estava o profissionalismo de Bento. Para Giane, a prioridade de Bento devia ser a loja, a cooperativa e a comunidade, e não a Amora. Bento não parecia mais a mesma pessoa, e isso deixava Giane preocupada. Bento criticava constantemente a busca por fama e a superficialidade da mídia, mas estava usando esta mesma mídia para atingir Amora. Bento estava indo contra o que ele sempre defendia, e se transformando em alguém que ele sempre criticou.
No ponto de vista de Giane, não havia mais condições de continuar trabalhando com Bento. Ela nem queria ficar aparecendo na televisão. Bento havia dado a entrevista para o Luxury sem consultá-la, sem ao menos avisá-la. Ela não era funcionária de Bento, e sim sócia. A loja era dela também. Bento podia pelo menos ter falado com ela, avisado sobre a entrevista, perguntado se ela queria ser filmada, se ela estava ou não de acordo quanto a mídia mostrar a rotina de trabalho deles. Mas ele não o fez. E não o fez por um motivo óbvio: ele sabia que ela não concordaria.
Além do mais, estava na cara que Lara Keller estava interessada em entrevistar apenas o Bento. Ele era o famoso, o futuro genro do Plínio Campana. Para Giane, a sociedade estava acabada. Giane também havia informado o pai de sua decisão. Ela podia muito bem arrumar outro trabalho. Podia até demorar, mas um dia ela conseguiria outro trabalho, quem sabe mudaria de área. Giane não sabia ainda o que iria fazer, mas saberia se virar. Ela e o pai não passariam fome. O pai não ganhava muito com a aposentadoria, mas ele fazia parte da cooperativa e ganhava algum dinheiro a mais para complementar a renda.
— Como assim ficar o dia inteiro em casa? — estranhou Silvério, entrando na sala. — Não vai trabalhar, hoje, não é?
Giane sentou-se diante do computador.
— Esqueceu que eu não trabalho mais com aquele traíra? Chega.
Giane considerou uma traição o fato de Bento ficar o tempo todo aparecendo na mídia. Bento criticava veemente a mídia e o mundo da fama, e ao entrar nesse jogo para provocar Amora, ele estava indo contra seus princípios. Bento estava priorizando o mundo fútil das patricinhas em vez do trabalho sério na cooperativa e na loja. Para ela, Bento estava se perdendo. Bento sempre foi trabalhador e agora mal aparecia na loja.
Silvério sentou-se no sofá. A filha não podia estar falando sério.
— Traíra por quê? — disse Silvério, sem entender nada. — Só por causa da entrevista? Ô filha, você tem que pensar que isso é bom pra divulgar o negócio de vocês.
Giane não pensava assim. Não era no negócio deles que Bento pensava quando ia fazer pinta de galã para a imprensa. Era na Amora que ele pensava. Além disso, no ponto de vista de Giane, se Bento realmente se importasse com o negócio deles, não deixaria a loja de lado para correr atrás das patricinhas. Amora havia se tornado a prioridade na vida dele. Bento ultimamente não pensava em outra coisa que não em atingir Amora.
Silvério achava um absurdo Giane querer largar o trabalho e brigar com o Bento só porque ele havia dado uma entrevista para o Luxury. Na opinião de Silvério, não havia mal algum em dar entrevista.
— O único negócio que o Bento se importa é o amor dele por aquela biscateira. — disse Giane, enciumada. — Também, depois do que vai rolar hoje, ele nunca mais vai nem querer olhar na minha cara.
Afinal, ela iria contar para o Brasil inteiro que Amora e Bento haviam se beijado. Isso seria o maior escândalo, e Bento não iria gostar de se ver envolvido em uma baixaria dessas. Bento ficaria furioso, decepcionado com ela, mas iria acabar entendendo assim que a poeira abaixasse.
Silvério achou que a filha devia parar de falar bobagem. Não era verdade que Bento só se importava com Amora. Bento adorava seu trabalho, nada mais natural que quisesse divulgar o negócio. Além do mais, Silvério se perguntava o que Giane iria fazer.
— Peraí. — disse Silvério, levantando-se do sofá e aproximando-se da filha. — Que é que você está falando? O quê que você vai fazer?
Silvério não estava gostando nada disso e se perguntava o que a filha iria aprontar. Ele esperava que Giane não fizesse besteira.
— Um bem pra ele, pai. — disse Giane, levantando-se. — No início ele vai ficar com aquela noia, vai me escorraçar. Mas depois ele vai entender. Quem sabe um dia ele até me agradece. Vou comprar pão. Fui!
Giane saiu de casa. Na rua, ela viu que Bento estava em cima da van, arrumando as coisas. Giane passou pela van. Bento a chamou:
— E aí, Giane? Bora trabalhar?
Pelo visto, Bento não levara a sério o que ela havia dito.
— Que trabalhar, Bento? Você achou que eu estava brincando? Nossa sociedade a-ca-bou. — disse Giane, furiosa.
Bento desceu da van. Ele não podia acreditar que Giane realmente estivesse falando sério quando dissera que queria deixar a sociedade. Bento não imaginava que ela fosse ficar tão furiosa só por ele ter dado entrevista para o Luxury. Ele não a havia consultado, mas não era para tanto. Ele se perguntava se Giane não conseguia ver o lado bom da entrevista: o negócio deles seria divulgado e eles conseguiriam mais clientes. Se a preocupação dela era que ele mudasse, ela podia ficar tranquila, porque no que dependesse dele, a fama não mudaria em nada sua cabeça. Ele continuaria criticando o mundo das celebridades, como sempre fizera.
Ele apenas queria que Amora o visse ao lado de outra mulher e nos holofotes, para que ela sentisse o que ele sentia cada vez que a via ao lado de Maurício. O que Bento desejava era que Amora repensasse suas atitudes e suas prioridades, se valia a pena trocá-lo pelo dinheiro e status de Maurício, porque era evidente que Amora não era apaixonada por Maurício. Bento queria mostrar a Amora a superficialidade de suas escolhas e provar que ele podia ter tanto ou mais valor na mídia do que Maurício. Por isso ele foi ao aniversário de Camilinha Lancaster com Malu. Era uma tentativa desesperada de fazer Amora enxergar a verdade sobre si mesma e sobre suas escolhas, mesmo que isso envolvesse entrar em um mundo que ele desprezava.
Giane parou de andar e virou-se.
— Aliás, onde você passou a tarde toda ontem? — disse a garota, enciumada. — Foi correr atrás da Amorinha?
— O quê?! — disse Bento, perplexo.
— Pensando bem, pensando bem. — disse Giane, e levantou a mão. — Não fala não. Não quero saber não. Não tem nem por quê, né? A gente não é mais sócio, não é mais amigo, a gente não é mais por... coisa nenhuma.
— Que isso, Giane? Giane! Giane, espera! Ô! — disse Bento.
Bento não conseguia compreender a razão por Giane estar tão furiosa com ele. Agora Giane não iria querer mais nem ser amiga dele? Tudo isso só por conta de uma entrevista para o Luxury? Cada vez ele entendia menos. Que ela não queria aparecer, ser famosa, ele respeitava. Mas ela estava sendo muito radical. No ponto de vista de Bento, Giane não precisava brigar com ele, nem querer sair da loja e da cooperativa. Ele precisava conversar com ela, descobrir o que estava acontecendo com ela.
Giane nem deu ouvidos e foi à padaria comprar pão. Quando voltou para casa, Bento insistiu para ela voltar a trabalhar com ele. Bento não aceitava o fim da sociedade.
— Vai, Giane, deixa de criancice! — disse Bento. — Vamos trabalhar!
Giane estava deitada no sofá, mexendo com o controle da televisão.
— Criancice, eu, né? Quem que apagou ontem, mamadão no sofá, com aquela fantasia ridícula? Fui eu, né?
Silvério entrou na sala.
— Como é que você... Peraí... Foi você que me botou na cama e tirou minha roupa depois que eu dormi? — perguntou Bento, surpreso.
Bento estranhou ter acordado em sua cama, sem a fantasia, apenas de cueca. Ele não se lembrava de ter tirado a fantasia. A última coisa de que se lembrava era de ter se atirado no sofá, completamente bêbado. Até questionou Jonas se o tinha deixado em casa. Afinal, Jonas e Érico tinham sido as últimas pessoas que ele vira na noite anterior. Jonas afirmou tê-lo deixado em frente à casa de Gilson, e negou ter tirado a fantasia dele. Bento concluiu que se não foi o Jonas, nem o Érico, só podia ter sido Giane, do contrário, ela não saberia que ele tinha apagado no sofá ainda fantasiado, e ele levantou a suspeita de que ela poderia ter entrado em sua casa durante a noite. Ela certamente o vira cambalear pela rua.
— Você fez isso, Giane? — perguntou Silvério.
Giane ficou envergonhada, pois falou sem pensar, deixando escapar sem querer que havia cuidado de Bento na noite anterior. Ela se fez de desentendida.
— Não! Nem sei do que ele está falando, pai. — disse Giane, e levantou-se. — Palhaçada!
— Eu não tô gostando nada nada do rumo torto que essa história está tomando. — disse Silvério.
Silvério não gostava nada da história de Giane ficar se enfiando na casa de Bento. Ele se questionava o que a garota tinha na cabeça.
— Você nunca explicou direito o quê que estava fazendo na casa do Bento quando pegou o Fabinho destruindo a estufa. — disse Silvério à filha. — E agora você entra lá de novo e tira a roupa do rapaz, com ele desacordado?
Giane ficou morrendo de vergonha. Bento disse:
— Peraí, seu Silvério, talvez eu tenha tirado...
Silvério nem deu atenção para o rapaz, e falou para a filha:
— Por que você não fala logo? Abre o jogo, conta logo pro Bento o que é que você sente.
— Contar o quê? Gente, eu não tô entendendo nada. — disse Bento.
Silvério não conseguia entender como Bento podia não ter percebido, como podia não enxergar o que era tão óbvio. Já que a filha não tinha coragem de dizer o que sentia, ele teria que fazer isso. Em seu pensamento, havia uma esperança de que ela e Bento se acertassem.
— Não tá entendendo? — disse Silvério a Bento. — É, só mesmo sendo muito cego pra não perceber que a Giane tá apaixonada por você.
Bento ficou perplexo. Giane sentiu-se constrangida. Ela não podia acreditar que o pai havia sido capaz de fazer uma coisa dessas, expor seus sentimentos na frente do Bento. Giane acreditava que se alguém tinha que falar, era ela. Ela teve vontade de abrir um buraco no chão e se enfiar.
— Isso é mentira! — gritou. — Isso é mentira!
Giane correu para o quarto. Bento não acreditou nas palavras de Silvério. Silvério só podia estar viajando, imaginando coisas. No ponto de vista de Bento, ainda que Giane tivesse tirado a roupa dele, isso não queria dizer nada. Qualquer pessoa poderia ter tirado a roupa dele. Ele mesmo poderia ter tirado a roupa e não se lembrar disso, porque estava bêbado. Se foi Giane, ela quis apenas ajudá-lo, para que ele se sentisse mais confortável para dormir. Bento não via maldade ou segundas intenções nisso. Giane cuidava sempre dele, sempre o defendia e o protegia, mas ela o via como um irmão. Até porque ele e Giane foram criados como irmãos. Para Bento, se Silvério era seu pai de coração, Giane era como se fosse sua irmã. Salma até perguntara uma vez por que ele não namorava a Giane. Mas Bento não queria nem pensar nisso. No ponto de vista dele, seria quase um incesto. O que ele sentia por Giane era carinho. Bento nunca sentiu por ela nada parecido com o que sentia por Amora.
— Que é isso, tio Silvério? Eu sei que você sempre sonhou com a gente juntos, mas a Giane é como se fosse minha irmã!
— É. — disse Silvério. — Não é bem como irmã que ela gosta de você, né?
— Imagina, tio! A Giane é criançona! — disse Bento. — Ela nem pensa nessas coisas ainda. E outra, a gente é sócio. Vive junto pra cima e pra baixo. Você acha que se ela fosse apaixonada por mim, eu não ia perceber?
Bento achou que Silvério só podia mesmo estar imaginando coisas. Giane nunca nem jogou charme para ele, e Silvério vinha com essa conversa? Giane tinha carinho por ele, se preocupava com ele, mas era só. Além do mais, Bento acreditava que Giane não tinha vivência, não tinha nenhuma experiência em assuntos amorosos. No ponto de vista de Bento, ela não tinha como saber o que era amar alguém.
Para Silvério, o problema era que Bento enxergava Giane como uma irmã. Talvez por isso, Bento não quisesse enxergar que Giane gostava dele como homem. Bento via Giane como uma menina, uma moleca espoleta. Na verdade a diferença de idade entre Bento e Giane não era grande. Eles tinham a mesma idade, nasceram na mesma época. Giane já era nascida quando a mulher misteriosa entregou Bento nos braços de Silvério. Giane e Bento deviam ter dias de diferença, não se sabia ao certo, pois ninguém sabia o dia exato em que Bento nasceu, somente a data em que ele chegou ao lar. Mas Bento se sentia mais maduro que Giane, talvez por ser mais experiente e vivido, e se sentia responsável por ela também. Ele tratava Giane como uma irmã caçula, alguém a quem ele devia proteger e cuidar.
— Caso você não tenha percebido, a Giane cresceu! Mas eu errei mesmo. — disse Silvério, arrependido. — Eu não devia ter me metido nisso.
Eu pensei que talvez assim, vocês dois pudessem se acertar.
— Ô, tio Silvério — disse Bento, aproximando-se e colocando as mãos no ombro de Silvério. Deu uns tapinhas no ombro dele. — Olha só, um dia, a Giane vai achar um cara muito bacana, que goste dela.
Silvério abanou a cabeça. No pensamento dele, Giane só enxergava o Bento, não prestava atenção em outros rapazes. Como ela iria achar um cara bacana, desse jeito? Giane era uma mula teimosa, quando ela enfiava alguma coisa na cabeça, era difícil de tirar. Bento continuou:
— E eu, como irmão mais velho, vou estar de olho, entendeu? Só vai namorar o pretendente que eu aprovar. — deu um tapa no braço de Silvério. — Deixa eu ir lá falar com ela.
Bento foi até à porta do quarto de Giane, que permanecia fechada:
— Ô pentelha! Sai daí, vai, Giane!
Giane estava morrendo de vergonha e não queria olhar para o rapaz.
— Bento, vai embora! Não tô a fim de falar com ninguém! Que saco!
— Bom, melhor voltar outra hora. — disse Bento.
Bento deu uns tapinhas nas costas de Silvério.
— Fala pra essa jaguatirica que eu quero ela amanhã cedo, no batente comigo, tá? — disse Bento, e saiu fechando a porta.
Giane estava em sua cama, segurando sua bola, chorando. Silvério bateu na porta do quarto e em seguida abriu-a:
— Posso? — disse, entrando e fechando a porta atrás de si. Aproximou-se da filha. — Filha, desculpe. — sentou-se na beirada da cama. — Olha, eu só queria...
— Pai, você não podia ter feito isso! — interrompeu Giane. — Como que eu vou encarar o Bento agora, pai? Eu quero sumir! Obrigada, viu?
— Calma, filha. — disse Silvério. — Olha, eu sei que quando a gente se apaixona pela primeira vez, fica...
O pai acabou de tocar em um tema delicado para ela.
— Para de falar que eu tô apaixonada pelo Bento! — Giane explodiu. — Eu não tô apaixonada! Eu quero que o Bento se dane!
— Tá. Tudo bem, tudo bem. — disse Silvério. — Quando você se acalmar, a gente conversa de novo.
— Eu não quero conversar, eu não quero falar com ninguém! — disse Giane. — Aliás, se o Bento ou os jornalistas me procurarem, você pode dizer que eu morri! É isso que você vai dizer!
Giane não estava em condições de falar com ninguém. Ela desistiu da ideia de derrubar Amora, e chegou à conclusão de que não ia adiantar nada mesmo. Bento iria continuar correndo atrás de Amora feito um cachorrinho, não importava o que ela fizesse. Além do mais, Giane havia pensado melhor e não queria mais expor o Bento. Isso só ia fazer com que ele ficasse com raiva dela. Havia outras maneiras de tentar abrir os olhos dele, sem expor ninguém, muito menos ele.
— Por quê que um jornalista viria aqui, falar com você? — perguntou Silvério, sem entender nada.
— Não sei, não quero saber, tenho raiva de quem sabe! — disse Giane, sem paciência. — Agora, pai, dá licença, que eu preciso ficar sozinha.
— Tá. Tá bom, tá bom. — disse Silvério, olhando para a filha. Partia-lhe o coração ver a filha daquele jeito. Silvério retirou-se.
Giane passou horas no quarto, sem querer ver ninguém. Até que ouviu batidas na porta da sala. Silvério havia saído. Giane foi atender.
— Que saco! Quem é? Continuaram batendo na porta.
— Se for jornalista, eu já disse que eu não vou mais falar com ninguém!
Se fosse a Sueli Pedrosa, ela dispensaria. Giane surpreendeu-se ao abrir a porta e dar de cara com uma Amora bufando de raiva.
Amora ficou sabendo que Giane ia contar para a mídia que ela e Bento haviam se beijado. Socorro lhe havia contado. Socorro havia visto e ouvido a Lara e a Giane conversando na noite anterior. Mas Amora já havia dado um jeito de calar a boca da Lara, antes que ela chamasse a Sueli Pedrosa. Através da Socorro, que trabalhava em um laboratório, Amora conseguiu a cópia de um documento que comprovava que Lara fizera inseminação artificial. Manolinho, o filho da Lara, não era fruto de uma noite de amor. Ou seja, Manolo, um cantor famoso mundialmente, era mesmo gay e nunca encostara um dedo na Lara. Ele e Lara haviam feito um acordo para que ele mantivesse a fama de galã sedutor de mulheres. Amora chan-tageou Lara. Lara teve de ficar calada, do contrário, Amora ia espalhar por aí que ela havia feito inseminação artificial e o mundo todo saberia que Manolo era gay. Amora sabia estar jogando sujo, mas não se importava. Era assim que as coisas funcionavam no meio midiático. Amora acreditava que para lidar com gente como a Lara, era preciso descer ao nível dela. Era dessa forma que Amora procurava sobreviver, e nunca dava mole para um inimigo, mesmo que fosse insignificante como Giane, na opinião dela. E ela estava fazendo um esforço sobre-humano, pois não suportava nem olhar na cara da Giane. Amora só veio ali porque não havia saída.
— Não vai falar com a imprensa, mas vai falar comigo. — disse Amora.
Amora entrou e foi largando a bolsa em cima do sofá.
— O que é que você está fazendo aqui? — perguntou Giane.
No pensamento de Giane, como se não bastasse tudo o que havia acontecido, a cobra resolveu aparecer para encher a paciência dela.
— Então, você vasculha a minha intimidade, pra me difamar e eu não posso entrar na sua casa? — disse Amora. — Pois você vai me escutar.
Amora estava disposta a fazer a “mocoronga” da Giane se arrepender de ter se metido onde não era chamada. Ela não deixaria nem Giane, nem ninguém acabar com sua imagem. Era seu ganha-pão. Ela passou anos construindo uma imagem de credibilidade, deu duro para chegar onde chegou, e não deixaria que nada nem ninguém a derrubasse. Ela sempre soube que Giane era apaixonada por Bento, desde a infância. Mas nunca tinha visto Giane como uma ameaça. Porém, agora Giane estava tentando derrubá-la, porque era dela que Bento gostava. Ela percebeu que Giane estava se mordendo de ciúmes, mas não achava que Giane a odiasse tanto a ponto de querer acabar com sua imagem. Giane tinha era despeito, porque Bento não a enxergava como mulher, nem nunca enxergaria. Na opinião de Amora, Giane também devia se morder de inveja dela. Giane não passava de uma reles florista pobre da zona norte de São Paulo, enquanto ela, Amora, era rica e famosa, uma mulher poderosa e influente.
No ponto de vista dela, se Giane era uma perdedora, não era culpa dela. Giane podia ter progredido, até porque teve todas as chances: ela tinha um pai, pôde estudar, mas preferiu continuar na ignorância e na mediocridade. Ao contrário dela, Amora, que não tinha nada, viveu na rua, na mais extrema miséria e ainda assim conseguiu chegar mais longe do que Giane. Ela sim era uma vencedora. Além do mais, Giane não era notada pelos homens. Ao contrário dela, Amora, que sempre fez sucesso com os rapazes. Amora pensava que não poderia ser diferente, pois ela era linda, sexy, estilosa, feminina, uma referência em moda para muitas garotas brasileiras. Ao contrário da Giane, que além de não ser atraente (na opinião dela), era desleixada, não sabia se vestir, não tinha modos, era mal educada, grossa, se vestia e se comportava como se fosse um garoto, falava errado, e ainda por cima falava palavrões. Mas Giane iria ver o que era bom para a tosse. Amora não iria deixar barato.
— Eu não vou escutar porcaria nenhuma! — disse Giane.
— Olha aqui, garota! — disse Amora, furiosa, apontando o dedo para ela. — Se você tem inveja de mim, o problema é seu! Mas você não tem o direito...
— De que? — perguntou Giane. — De contar pra todo mundo, quem é a verdadeira Amora Campana?
— E você sabe, por um acaso, quem é a verdadeira Amora Campana? — disse Amora. Agarrou-a pelos braços. — Você não sabe nada sobre mim! Mas agora, você vai saber!
Giane pensou que era só o que faltava, Amora resolveu ameaçá-la. Giane assustou-se:
— Me solta, sua patricinha, sua grã-fininha de mer...
— Tá assustada? Quer que eu te solte? Então não se mete nunca mais na minha vida! — disse Amora, soltando-a.
— Se você continuar se metendo na vida do Bento, eu vou me meter na sua, sim! — disse Giane.
— Garota, você não sabe com quem está lidando!
Amora se considerava uma sobrevivente, e era capaz de tudo para manter as aparências. O importante para ela era manter as aparências. Amora não queria ser exposta. Não desta maneira. Ela não queria estar envolvida em baixaria, escândalo e não queria magoar o Maurício publica-mente. Seria a pior maneira de terminar o noivado. Amora não deixaria ninguém contar para a mídia nenhum podre sobre ela. No ponto de vista de Amora, se ela traiu o noivo ou não, era problema dela. Se ela agiu errado ou não, ninguém tinha nada com isso e ninguém precisava saber. Ninguém tinha o direito de vasculhar sua intimidade para derrubá-la. Para Amora era evidente que Giane estava querendo derrubá-la por ciúmes do Bento. No entanto, Amora colocaria a invejosa, a despeitada da Giane no lugar dela. Amora pensava que Giane não tinha ideia das armas que ela seria capaz de usar para tirar alguém do seu caminho. Ela só não mataria, claro, seria demais. Mas usaria todas as armas que sabia. Amora não sentiria nenhuma culpa em acabar com a raça da Giane.
— Sei, com uma cobra! Que fica aí, posando de boazinha enquanto põe chifre no coitado... — disse Giane.
Amora se questionou quem era Giane para julgá-la. Fora o Bento quem tinha ido atrás dela, ele que a beijou. Não havia santos nesta história. No ponto de vista de Amora, não adiantava Giane colocar Bento e Maurício como vítimas e ela como vilã. Amora se perguntou quem Giane pensava que era para lhe dar lições de moral. Só por ter tentado derrubá-la, Giane já havia mostrado que podia ser mesquinha. Giane quase a fez perder trabalhos. Será que Giane não pensou que Bento também seria atingido?
— Eu nunca traí meu noivo! — interrompeu Amora, furiosa. — E se você insistir em me caluniar, eu te esmago que nem uma barata!
— Cuidado! Você pode sujar o salto do seu sapato! — provocou Giane.
— Você esqueceu de onde eu vim? — perguntou Amora. — Eu fui criada na rua, e eu estou aqui. Eu sobrevivi a coisas que você não sabe, que você não consegue nem imaginar! Então, pra mim, não custa nada te esmagar! E se o meu salto ficar sujo, tanto faz, porque eu tenho centenas de sapatos!
Amora já passou por tanta coisa. Ela teve uma mãe alcoólatra, que pariu duas filhas sem saber quem era o pai. Foi deixada na rua com a irmã para pedir esmola. Passou fome, frio. Depois, a irmã a abandonou com uma mulher que a explorava de várias maneiras. Até abuso sexual ela sofreu. Amora já havia enfrentado gente da pior espécie. Ela não tinha medo de sujar os sapatos, e não custaria nada para ela acabar com Giane.
— Hum! — disse Giane.
Amora continuou ameaçando-a:
— Não se iluda pensando que eu sou apenas uma patricinha fútil e idiota, porque eu sou muito mais que isso e você devia saber! — disse Amora.
— O que eu sei é que você não presta! — disse Giane. — Nunca prestou, né, Mayara? Esse é o seu verdadeiro nome, né? Amora você inventou depois!
Amora não gostou. Giane não tinha nada que tê-la lembrado de seu verdadeiro nome. Mayara era aquela menina que vivia nas ruas, descalça. Mayara não existia mais. Ela não era Mayara. Era Amora Campana. Ela resolveu mudar de nome porque queria esquecer de tudo o que sofreu, tudo o que passou nas ruas, e queria também esquecer quem ela foi. Na época, ela havia decidido apagar da memória todas as lembranças ruins, inclusive da irmã, para não sofrer tanto. Quando ela e Bento plantaram a amoreira juntos, ela decidiu que se chamaria Amora quando fosse adotada, e passou a ser chamada assim mesmo antes da adoção. Ao ficar famosa, ela passou a adotar o sobrenome Campana.
— Eu aproveitei todas as oportunidades que eu tinha pra seguir em frente! — disse Amora, agarrando-a. — Ao contrário de você, que não passa de uma coitada, uma criatura mesquinha, invejosa! Se enxerga, garota! — largou-a. Grunhiu. — Você pensa que você vai conseguir me derrubar só porque você está apaixonadinha pelo Bento e não consegue acei-tar o fato dele querer ficar comigo!
— Não estou apaixonada pelo Bento! — disse Giane, furiosa, descontrolada.
— Está! Está e assuma! — disse Amora.
— Cala a boca! — disse Giane.
— Não é puxando meu tapete que você vai conseguir que o Bento olhe pra você! — disse Amora. — Porque nem ele, nem homem nenhum vai se interessar por essa coisa mal-acabada que você é! Essa criatura troncha, micha, sem sal, sem graça, sem charme que mais parece um machinho numa mulher!
Giane achou que aí já era demais. Amora a atacou justamente em seu ponto fraco. Era melhor que ela desse o fora, senão ia levar uma surra. No ponto de vista de Giane, era o que Amora estava merecendo.
— Sai da minha casa! — gritou Giane. — Eu vou acabar com você, garota!
— Ah, vamos ver quem vai acabar com quem! — gritou Amora, agredindo-a. As duas começaram a se engalfinhar.
— Eu vou pegar você. — disse Giane.
Bento entrou na casa e viu Amora e Giane brigando. Ele não podia acreditar. Como se não bastasse brigar com ele, Giane agora resolveu agredir Amora. Bento resolver intervir, antes que as duas se matassem.
— Giane! Giane! — disse Bento, separando-as. — Solta Amora, Giane!
Amora riu, satisfeita por Bento defendê-la. Giane ficou decepcionada, chateada por Bento ter tomado partido de Amora. Era a Amora quem a estava agredindo, ela estava só se defendendo.
— Solta a Amora? Você está louco? Essa garota veio aí me atacar!
— Vai dar uma de mulherzinha, agora? Que garota ridícula! — disse Amora, querendo avançar nela.
— Amora! — disse Bento, segurando-a.
Amora dirigiu-se a Giane:
— Você está avisada! — disse Amora. — Pensa bem no que eu te falei!
Amora pegou a bolsa e saiu. Bento resolveu ir atrás dela:
— Amora! — chamou. Ele precisava entender por que Amora estava agredindo e ameaçando Giane. Ele nunca viu Amora daquele jeito.
Giane ficou chateada. Amora a agredia, a ameaçava, e Bento ia atrás da entojada? Será que Bento não via que Amora não prestava? Quando é que Bento iria deixar de ser trouxa? Como podia ser burro desse jeito?
— Vai atrás dela, otário! — gritou Giane. — Desgraçada!
Giane ficou no quarto, chorando por causa de tudo o que havia acontecido. Lembrou da discussão com o pai de manhã, na frente do Bento, e da briga com Amora. Giane estava chateada, ferida. Amora era um monstro. Giane reconhecia que havia errado. Ela ia contar para o Brasil inteiro que Amora e Bento se beijaram, que Amora traiu o noivo. Mas Amora não precisava ser tão cruel com ela. Não precisava ameaçá-la e ofendê-la daquela maneira. No ponto de vista de Giane, não era assim que se tratava as pessoas. Na infância, Giane achava Amora uma sonsa. Mas pelo visto, Amora foi piorando com o tempo. Giane não entendia como Bento podia ser tão apaixonado por Amora, que só fazia mal a ele.
Bento ainda apareceu na frente de sua casa, chamando-a:
— Ô Giane! Vambora trabalhar!
Giane tapou o ouvido. Não quis nem saber. Ela não quis falar com Bento. Não queria nem olhar para a cara dele, depois de ele ter ido atrás de Amora. Silvério, que já tinha voltado para casa, foi falar com Bento.
— Você acredita que ela não saiu do quarto até agora?
— Saiu, sim, tio. Até bateu boca com a Amora já. — disse Bento.
— Como é que é? — perguntou Silvério, aproximando-se do portão, onde Bento estava. — A Amora veio aqui, discutir com ela?
— Besteira. A Giane andou falando mal da Amora, ela veio aqui tirar satisfações. — disse Bento. — Ô tio Silvério, eu vou lá falar com ela.
Bento já havia conversado com Amora, agora precisava falar com Giane. Ela devia ter ficado chateada por ele ter ido atrás da Amora, depois de Amora tê-la ofendido e agredido. Além disso, ele também precisava fazê-la desistir de deixar a sociedade. Ele não gostava de brigar com ela.
— Não, não adianta. Você conhece a peça. — disse Silvério, impedindo-o de entrar. — Dá um tempo. Daqui a pouco ela esfria a cabeça e aparece por aí.
Nesse momento, Bento e Silvério viram, perplexos, o carro do Érico passar em alta velocidade, sendo seguido pelo carro de Renata.
— Nossa, que isso? — disse Bento.
Todos na rua ficaram assistindo a briga de Érico e Renata.
Giane continuou no quarto. Ela queria ficar sozinha, não queria ver ninguém. Pelo visto, Sueli Pedrosa não vinha mais. Giane achou que provavelmente Amora devia ter dado um jeito de calar a boca da Lara, fazê-la desistir de chamar a Sueli. Giane só não imaginava que jeito era esse. Será que Amora descobrira algum podre da Lara e a chantageara? Será que Amora usava das mesmas armas que a Lara? Provavelmente sim, pois Amora não tinha escrúpulos. Do contrário, não a ameaçaria para que não contasse nada para a mídia. De qualquer forma, para Giane, isso não importava mais.
Fale com o autor