Um amor inesperado

32 Barraco na Acácia Amarela


No dia seguinte, Giane foi se encontrar com Caio em uma lanchonete. Caio sugeriu que ela fizesse um curso de inglês.

— Ah, pra quê inglês, Caio? Modelo nem fala, modelo só desfila. — disse Giane, rindo e mexendo no cabelo.

— E se você for modelar no exterior? Hein? Fazer carreira internacional? — perguntou Caio.

— Não pira, né, Caio, que carreira internacional? — disse Giane. — Eu só fiz aquela campanha lá porque o Érico deu uma força.

— Você conseguiu aquela campanha porque o cliente gostou de você, Giane.

Giane e Caio levantaram-se e se dirigiram à saída.

— Ah, tá bom! — disse Giane.

— E, ó, se prepara porque eu já larguei o teu portfólio aí na agência onde eu trabalhava. — disse Caio. — Não adianta ficar bravinha, não.

— Tô nem aí. Não vai dar em nada mesmo. — disse Giane.

— E se eu te conseguir outros trabalhos? Eu ganho um beijo?

— Como você não vai conseguir, então beleza. — disse Giane, dando uns tapinhas brincalhões no ombro dele.

— Eu vou cobrar, hein? — disse Caio.

Giane riu.

— Vem. — disse Caio, pegando no braço dela e entrelaçando-a ao dele. — Agora vai se matricular num curso de inglês, já.

Caio e Giane acabaram dando de cara com Nestor.

— Ô Giane, tudo bem? — disse Nestor. — Quer dizer que você não vai mesmo mais trabalhar com o Bento, Giane?

— A Giane vai virar modelo internacional, meu querido. — disse Caio.

— Opa, que beleza! — disse Nestor. — Pena só que o Bento vai perder uma sócia.

— É bom que ele sinta falta mesmo. — disse Giane.

Por insistência de Caio, Giane acabou se matriculando em um curso de inglês. É claro que avisou o pai antes. Quando voltou para casa, encon-trou Silvério e Salma conversando no sofá da sala. Giane teve a impressão de ter ouvido o nome do Bento.

— Oi, filha. — disse Silvério.

— E aí, pai? — disse Giane.

— E aí? Já se matriculou no inglês? — perguntou Silvério.

— Matriculei. Eu vou me arrumar que vou sair mais tarde com o Caio. — disse Giane.

— Ah, tá bom. — disse Silvério.

— Vocês estavam falando do Bento? — perguntou Giane.

— Não, nada importante. — disse Silvério.

Na verdade, estavam falando de Glória, que iria jantar na casa do Bento. Bento e Glória haviam ficado amigos. Glória já sabia que Bento era neto dela. Salma e Silvério haviam contado. Eles queriam contar toda a verdade ao Bento, porém, Glória tinha receio. Morria de medo de Bento ficar revoltado, magoado com ela. Mas Salma e Gilson achavam que Bento tinha o direito de saber quem eram seus pais, e Wilson também tinha o direito de saber que o filho estava vivo. Além do mais, Bento era feliz, não tinha mágoa por ter crescido no lar de adoção, e ia adorar saber que era sobrinho de Salma e Gilson. Silvério até tentou contar para Wilson, mas por conta da história de Charlene e Pedrinho, Wilson e Bento haviam brigado feio. Wilson não queria nem ouvir falar no Bento. Não deixou Silvério falar. Agora Salma e Silvério estavam pensando em uma maneira de fazer Glória contar a verdade ao Bento. Por enquanto, eles não diriam nada nem a Giane, nem à ninguém. Bento tinha de ser o primeiro a saber.

— Tá, tá bom. Valeu! — disse Giane, indo em direção ao seu quarto.

— Tchau! — disse Salma.

— Tchau! — disse Silvério.

Salma ficou morrendo de pena de Giane, e Silvério também. Giane havia deixado a Acácia Amarela, estava trabalhando como modelo, saindo

com Caio, estava tentando seguir em frente. Porém, estava na cara que a garota ainda não esqueceu o Bento. Ainda pensava muito nele.

— Ela tenta, tadinha, mas não consegue se desligar do Bento. — comentou Salma.

— E olha que esse Caio é um bom moço, hein? — disse Silvério. — Ele tá fazendo um bem danado pra ela. Tsc, tsc. Se pelo menos ele conseguisse desempacar essa mula teimosa, hum... Eu faria muito gosto.

No ponto de vista de Silvério, a filha precisava se libertar, depois de viver uma vida inteira em função de Bento. O problema era que ela não era apenas apaixonada, mas também era emocionalmente dependente do Bento. Além de ser insegura e ter baixa autoestima. Ele bem que notou que a filha ficava perdida quando estava longe do Bento. Giane se sentia mais segura quando estava com Bento. Agora, ela não sabia direito o que fazer. Silvério achava que a filha tinha de seguir em frente, viver a vida dela, conhecer outros rapazes e deixar de ser a sombra do Bento. Já havia passado da hora da filha desencanar e caminhar com as próprias pernas.

Giane se arrumou, caprichou no visual para ir à balada com Caio. Ela e Caio foram junto com Érico e com Maurício. Maurício agora estava trabalhando na Crash Mídia. Assim que chegaram, avistaram Karmita Lancaster.

— Ih, olha lá dona Karmita na pista, Érico. — disse Maurício. — Vamos lá falar com ela?

— Vamos lá, vamos lá, vamos lá. — concordou Érico, e ele e Maurício foram falar com Karmita.

Giane entrou logo atrás, junto com Caio, e observou tudo ao redor.

— Maneiro aqui. — ela comentou.

Ao dar de cara com Fabinho, Giane ficou nervosa. Seu bom humor foi embora imediatamente. Ela não suportava ficar no mesmo ambiente que Fabinho. Cada vez que se cruzavam, acabavam brigando, trocando farpas. Ele não fazia outra coisa que não tratá-la mal. Ele vivia chamando-a de moleque de rua, de marginal, de favelada. Ela estava ficando cansada de levar esculacho dele. Fabinho também parecia ter prazer em irritá-la.

Na última vez em que se viram, ele havia dito para ela mudar o visual. Giane estava morrendo de vergonha, pois Fabinho iria vê-la arrumada, produzida. Ela não queria que Fabinho pensasse que ela seguiu o conselho dele, e não queria ser vista nem avaliada por ele. Esperava que ele não viesse provocá-la, zombar dela, humilhá-la. Giane estava torcendo para que Fabinho ficasse quieto no canto dele e fizesse de conta que ela nem estava ali. Era impressionante como a presença dele a tirava do eixo, causava nela uma reação imediata, e ela acabava perdendo as estribeiras. Ele despertava seu lado mais agressivo e descontrolado.

— Ah, eu não tô acreditando que o Fraldinha tá aqui. — reclamou Giane.

Caio se lembrava de ter visto o rapaz uma vez, em um lounge, em que foi com a Camilinha. Ele achou o cara um babaca, exibido, pois ficou contando vantagens sobre ter um pai milionário. Estranhou a reação de Giane.

— Ué, o que foi, você conhece esse cara? — perguntou Caio.

Giane estava até mexendo no cabelo, de tão nervosa.

— Conheço, infelizmente, desde a infância. — disse a garota.

Fabinho se aproximou e olhou-a dos pés à cabeça.

— Ora, ora, se não é... — disse o rapaz, levando o indicador à boca. — Maria Machadão, tudo bem? — curvou os lábios num sorriso de deboche.

Giane deu uma risada sarcástica. Não estava disposta a aturar as ofensas e as provocações dele. Ela não fez nada para merecer isso. Até porque ela estava quieta, no canto dela. Ele que veio encher o saco.

— O quê que é, babaca? Vaza daqui! — disse a garota, furiosa.

— Hum! Tô vendo que tomou um banho de loja, né? — disse Fabinho, levantando a mão para tocar no brinco dela. Giane afastou o rosto imediatamente. Ela não queria que ele a tocasse. Tinha asco dele.

Ele continuava olhando-a de cima a baixo.

— Olha, vou te falar uma coisa. Não mudou nada, menina. Está exatamente o mesmo macho mal-acabado que você é. — disse Fabinho, rindo. — Não se fala em outra coisa.

Giane achou que Fabinho estava merecendo apanhar. Estava morrendo de raiva dele. Ele teria de respeitá-la, se não por bem, por mal.

— Ah, é? — disse Giane, rindo, irônica. — Vai ver o que o macho mal-acabado vai fazer com você, seu panaca!

Deu um soco no rosto do rapaz. Dirigiu-se à Caio:

— Vambora, vambora que esse lugar tá muito mal frequentado.

— Quem tem que sair é ele, não a gente. — disse Caio, enfrentando-o. Quem o babaca pensava que era para tratar Giane desse jeito?

Caio tentou expulsar Fabinho, porém o rapaz o empurrou.

— Sai daqui, cara! Tá maluco? — disse Fabinho, furioso.

— O quê que é, meu irmão? — disse Caio.

Fabinho o empurrou novamente.

— O quê que é? — disse Caio.

Mel apareceu neste momento e viu a briga.

— Fá, o quê que é isso, o que tá acontecendo? — perguntou Mel.

— Não é nada, não, Mel, vambora. — disse Fabinho, indo embora, levando Mel pela mão. — Ah, seu palhaço!

— Vai te catar! — disse Caio.

— Vá se ferrar, babaca, imbecil, ah! — gritou Giane.

— Vai te catar! — disse Caio.

Os outros rapazes no bar ficaram rindo e olhando para Giane.

— O quê que é? — disse Giane, furiosa. — Bando de mauricinho ridículo, vocês querem apanhar também, cara? Vá pra pu...

— Calma, calma, calma! — disse Caio, tirando-a dali, de perto dos rapazes. Não iria adiantar nada ela brigar com eles. Só iria piorar as coisas.

Giane foi se acalmando. Até porque Fabinho foi embora e não estava mais por perto para importuná-la. Ela e Caio continuaram na festa, se divertindo à beça. Maurício e Érico ficaram conversando com Karmita Lancaster. Pelo visto, haviam fechado negócio, pois Maurício veio contar a novidade:

— Olha aí, Giane, tem mais uma campanha pintando, então você se prepara, tá?

— Tá falando sério? — perguntou Giane, feliz.

— Tô. — disse Maurício.

— Pô, valeu! — disse Giane, contente, batendo com a mão aberta, em seguida com a mão fechada na de Maurício.

— Ó lá, não tô dizendo que agora você vai deslanchar? — disse Caio. — Não esquece da nossa aposta. Se a campanha sair...

— Há... — disse Giane.

— Há! Hã!

— Não vem não. — disse Giane.

Caio não tinha que cobrar nada. Ela estava brincando quando prome-teu um beijo a ele. Não estava nem um pouco a fim de beijar Caio.

— Hã! — disse Caio.

— Só pago se for comercial de outra agência. — disse Giane.

— Ah, Giane... — disse Caio.

Caio queria que Giane lhe desse uma chance. Mas a garota era difícil. Passaram horas na festa, depois foram embora, quando já era tarde.

No dia seguinte, de manhã, Giane foi à praça fotografar uns garotos andando de skate. Ela estava no alto, nas escadas, observando os garotos lá embaixo, andando de skate na rampa. Vinny aproximou-se dela e perguntou:

— E aí? Virou fotógrafa?

— E aí, Vinny? Tô aqui treinando um pouco. — disse Giane. — E você? Veio levar uns tombos?

— Fazer o quê, né? — disse Vinny.

Vinny dirigiu-se a Pedrinho, que estava lá embaixo e também olhava os garotos andarem de skate. Vinny estava fazendo de tudo para se aproximar de Pedrinho, não apenas para ajudar seu pai, Wilson, mas porque em breve Pedrinho faria parte de sua família.

— E aí, Pedrinho? — disse Vinny, mostrando o skate para ele. — Quer aprender?

— Pô, cara, acho que não. — disse Pedrinho.

Um dos garotos, ao andar de skate na rampa, caiu. Pedrinho apontou:

— Senão vou acabar caindo que nem aquele cara ali.

— Bom. Mas é... — disse Vinny, descendo as escadas. — Caindo que se aprende. Você acha como que eu aprendi? — aproximou-se de Pedrinho. — Vem. Vem que eu te seguro para você não cair.

— Vai lá, moleque! — incentivou Giane. — Eu prometo que eu não fotografo se você levar um tombo.

Vinny e Pedrinho subiram na rampa. Vinny e outro rapaz seguravam Pedrinho enquanto o ensinavam como se andava no skate. Giane fotografava.

Horas mais tarde, logo depois do almoço, Giane decidiu passar na Acácia Amarela. Estava levando os papéis do fim da sociedade. Ela decidiu que estava mais do que na hora de encerrar a parceria com Bento e ir cuidar de sua vida. Quando ela entrou na loja, Bento estava de costas, cuidando de um arranjo de flores. Giane aproximou-se por trás e colocou a mão sobre o ombro dele. Bento virou-se.

Giane entregou os papéis nas mãos dele.

— Que é isso, Giane? — perguntou Bento, folheando os papéis.

— São os papéis do fim da nossa sociedade, Bento. — disse Giane. — É só você assinar.

No ponto de vista de Bento, Giane tinha todo o direito de tocar a vida dela. Mas ela não precisava sair da sociedade e da cooperativa. Na opinião dele, esta era uma decisão muito radical. Ele sabia que Giane tinha ficado magoada. Estava sem falar com ele há algum tempo. Giane não foi mais visitá-lo, desde a briga. Bento até entendia o lado dela. Era duro amar sem ser amado. Mas ele não queria que Giane se afastasse dele. Não queria perder a amizade dela. Giane era para ele mais do que uma amiga, era uma irmã. Ela era importante para ele, sempre seria.

— Eu não vou assinar essa porcaria. — disse Bento. — Eu não tô entendendo essa tua marra. Por que você tá querendo se livrar de mim desse jeito?

— Não é isso, Bento. — disse Giane. — É que agora eu... Tenho vida própria. Não preciso mais me ocupar da sua.

Para ela seria uma tortura trabalhar ao lado dele na loja, vendo-o sair com Malu, namorar com ela. Além do mais, Giane acreditava que o distanciamento faria bem para eles, principalmente para ela. Ela precisava se descobrir, saber como é levar uma vida independente dele. Giane sentia necessidade de aprender a viver sem Bento ao seu lado.

— Giane, ficar aí tirando foto. Você, que sempre falou da Amora, tá fazendo as mesmas coisas que ela. — disse Bento.

Na opinião de Bento, Giane estava sendo incoerente. Ela estava entrando para um mundo que ela dizia detestar, que sempre criticava.

Giane ficou furiosa. Ele não tinha nada que compará-la com Amora. No ponto de vista de Giane, Amora representava o que havia de pior no mundo da fama. Amora era uma cobra, que se achava uma grande estrela e sempre se fazia de santa para a imprensa e para o público. Ela, Giane, não era sonsa, não ficava se fazendo de boazinha. Não mentia, não dissimulava. Ao contrário da Amora, ela tinha escrúpulos. Ela pretendia agir de maneira completamente diferente, e não se deixaria corromper. Nem iria ficar deslumbrada com a fama. Não deixaria de ser ela mesma e não fingiria ser quem não era. E não havia nada demais em tirar foto para representar um produto. Ainda mais da You, que costumava fazer campanhas voltadas para a família. Não era crime nenhum, e ela não estava fazendo nada de errado. Era um trabalho como outro qualquer. Estrelar uma campanha publicitária era diferente de ganhar trinta mil reais só para aparecer em um evento, sorrir, fazer pose, tirar foto. Ele que não a comparasse com a víbora. Se Bento podia fazer campanha com a Malu para defender a Serra da Cantareira, ela também podia estrelar a campanha que quisesse.

— Bento, não me compara com aquela sonsa desgraçada. — disse Giane.

Bento continuava mexendo nos papéis. Tratou de guardá-los no envelope. Ele não pretendia assinar nada. Giane disse:

— Falando em sonsa, como é que vai o namoro com a Maluzinha? Sobreviveu ao acidente da Amora? Não, porque eu jurava que ela ia fazer aquela bela chantagem e você ia cair, né, feito o pato que sempre foi.

— Pois é aí que você se engana, Giane. — disse Bento. — Amora até desejou felicidade pra mim e pra Malu. Tá bom pra você?

Giane riu. Mas o Bento era um otário mesmo. Será que ele não percebia que a Amora estava fingindo? Primeiro ela forjou o acidente para comovê-lo, fazê-lo se sentir culpado e estragar a noite dele e da Malu, depois ela se fez de boazinha, de generosa, desejou felicidades para o casal. Assim, Amora ia comendo pelas beiradas, tudo com muito jeitinho, para que ele acreditasse nas boas intenções dela. Para Giane era evidente que Amora iria fazer de tudo, jogar sujo para ter o Bento de volta. Amora não se conformava com o fim do namoro e não iria aceitar perder o Bento para Malu. Mas não tinha jeito mesmo, Bento sempre caía na conversa da Amora. Na opinião de Giane, o fato de Bento acreditar nas pessoas era sua maior virtude, mas ele era ingênuo demais e isso o tornava vulnerável e facilmente manipulável por pessoas como Amora.

— Ai, Bento, não acredito que você caiu nessa! Que Amora desejou felicidade. A Amora! — disse Giane.

Na opinião de Bento, Giane devia ser menos desconfiada e parar de implicar com Amora. Não dava para achar que Amora estava sempre com alguma má intenção. Além do mais, nada nem ninguém o separaria da Malu. Ele havia deixado bem claro para Amora, quando ela o pediu em casamento, que as coisas mudaram depois que eles terminaram.

Fabinho chegou na loja neste momento e ouviu parte da conversa.

— E aí, Dione? Falando na nossa cocotinha?

Giane não gostou nada de vê-lo ali. O que ele queria? Será que veio brigar, arrumar confusão, como tinha feito na balada? Fabinho vivia brigando com todo mundo, era impressionante. Ela nunca havia conhecido um sujeito mais infeliz. E por que Fabinho não a chamava pelo nome? Estava sempre chamando-a por uma série de apelidos vexatórios, isso quando não falava seu nome errado. Será que era uma forma de ele deixar bem claro que ela não era ninguém para ele? E se Fabinho não estava nem aí para ela, nem para o Bento, se ele só queria saber da galerinha rica, o que diabos ele estava fazendo ali? Por que não os deixava em paz? Para Giane era incrível como Fabinho só infernizava a vida de todos.

— O que você está fazendo aqui, Fabinho? — perguntou Bento.

— Eu vim dividir a minha alegria com os meus amigos de infância. — disse Fabinho. — Amanhã eu vou herdar a minha parte na fortuna dos Campana.

Bento e Giane sabiam que Fabinho fez um exame de DNA para confirmar que ele era filho do Plínio, e uma vez confirmada a paternidade, ele herdaria a parte que lhe cabia na fortuna do pai. Plínio resolveu adiantar a herança. O resultado do exame sairia no dia seguinte. Mas Giane e Bento não estavam nem aí se Fabinho iria ficar rico ou não.

— Nossa! Que maravilha! — disse Giane, irônica.

— É... — disse Bento, também irônico, balançando a cabeça positivamente.

— Pô, parabéns, cara! — ironizou Giane. — Agora, vaza.

Na opinião de Giane e de Bento, Fabinho era um babaca que se achava melhor que os outros só por ser filho do Plínio.

— Tá vendo? Por isso que isso aqui não vai pra frente. Aquilo que a gente conversa sempre, né, Bento? — disse Fabinho. — Não dá, isso é jeito de tratar cliente, minha querida?

No ponto de vista de Giane, Fabinho não tinha nada que reclamar do jeito que ela o tratava. Afinal, ele também não a tratava bem. Ela não se sentia na obrigação de ser educada com ele.

— Ô, ô garoto, fala logo! — disse Giane. — Fala! Qual é a tua? Qual é a tua, mané?

— Eu vim comprar a Acácia Amarela. — disse Fabinho. — A loja, a cooperativa, a plantação, tudo mais. Pode fazer o preço que eu pago.

Giane riu, sem conseguir acreditar, e olhou para Bento, também perplexo. Fabinho não podia estar falando sério.

Fabinho bateu palmas.

— Vamos, cambadinha, vamos que eu não tenho muito tempo não. Pode escolher, pode cobrar o quanto quiser, eu tô disposto a pagar o dobro, o triplo, tudo que vocês quiserem.

Bento e Giane não conseguiam acreditar que Fabinho queria mesmo comprar a loja por um valor muito maior do que valia. Bento perguntou:

— Ô Fabinho, por quê que você faria um negócio tão desvantajoso?

— Para ajudar um camarada, um amigo, um irmão que nasceu, se bo-bear, no mesmo dia que eu, que cresceu comigo. — disse Fabinho.

Giane e Bento riram. Estava na cara que Fabinho não estava querendo ajudar, ser bonzinho, generoso. Fabinho não passava de um garoto mimado, esnobe, egocêntrico, mau-caráter. Um babaca, infantil. Com certeza, veio ali para dar uma esnobada, humilhar, esfregar na cara deles a fortuna que herdaria. Giane só podia lamentar. Fabinho estava tendo uma chance e não estava sabendo o que fazer com ela. Só sabia mesmo pisar nas pessoas. Pelo visto, ele deixou o dinheiro subir à cabeça.

— Tá legal, Fabinho, a gente... — disse Bento, irônico. — Já entendi, você veio aqui pra esnobar, não é? A gente tá na pior, a gente tá mal pra caramba, não é, Giane? A gente não vai nem dormir essa noite.

— Nossa! Ó, ó! — disse Giane, levantando o cotovelo. — Mordendo o cotovelo de tanta inveja!

— Não, vocês não estão entendendo, dois idiotas, o negócio é seguinte: eu quero comprar essa loja. Pode fazer o preço. — insistiu Fabinho.

— Ô Fabinho, você não tem noção de nada mesmo, né? — disse Bento. — Me explica, como é que se pode comprar uma cooperativa?

No ponto de vista de Bento, Fabinho não tinha a menor ideia de como funcionava o sistema de cooperativa. Ele e Giane não eram os únicos donos. A cooperativa era de propriedade coletiva.

— Com dinheiro? Já ouviu falar em dinheiro? — disse Fabinho.

Bento riu.

— Dinheiro, você não tem, você não tem dinheiro. — esbravejou Fabinho.

Giane achou infantil a atitude de Fabinho, com aquele papo de "eu tenho, você não tem". O fato de ele herdar uma fortuna não fazia dele superior a ninguém. O valor de um ser humano não estava na conta bancária, e a verdadeira riqueza era o caráter. Giane nunca entendeu por que Fabinho tinha tanta necessidade de se sentir melhor que o Bento.

— Ô Fabinho, é melhor você ir embora daqui enquanto a gente tá com inveja, porque você tá começando a dar pena. — disse Bento.

— Por favor! Por favor! — disse Giane.

Ela se perguntou por que Fabinho não ia embora. Ela não conseguia entender a insistência dele em comprar a loja. Será que até a loja Fabinho estava querendo tomar do Bento? Quando é que Fabinho iria parar de sentir inveja do Bento? Na opinião de Giane, ele não precisava disso. Ela ouviu dizer que ele estava se saindo muito bem na publicidade. Foi Sílvia quem lhe dissera. E Sílvia, por sua vez, ficou sabendo disso por Natan, dono da Class Mídia. Sílvia não trabalhava mais para o Natan, mas ainda falava com ele. No ponto de vista de Giane, não havia necessidade de Fabinho pisar no Bento e nela. Precisava ser tão cruel?

— Tá certo, tá certo. — disse Fabinho. — Ainda bem que você abriu os meus olhos porque vou gastar meu dinheiro nesta loja podre? Bando aqui... — apontou com as mãos para os vasos de flores. — Que bando de flor murcha, ó... — derrubou um vaso. — Flor murcha! — derrubou outro vaso. — Flor murcha!

Giane ficou chocada com o comportamento de Fabinho. O que ele tinha na cabeça? O que ele pretendia, quebrar a loja inteira? Por que ele estava

fazendo isso? Qual era o problema dele, afinal? Fabinho tinha tanto ódio assim dela e do Bento? O que Fabinho pretendia, comprar a loja para expulsá-los dali? Por quê? Ela sabia que Fabinho não ia com a cara deles, mas não imaginava, não tinha noção de que o rapaz tivesse tanto ódio.

Era mais do que ódio. Ela sentia que havia alguma coisa errada com Fabinho. Não sabia bem o que era, mas estava com uma sensação ruim. Ele não parecia nada bem. Era impressão ou ele estava maluco? Ela ficou chocada com a violência, com o desequilíbrio do rapaz. Fabinho nem parecia gente. Parecia um animal, querendo destruir tudo o que via.

— Você tá maluco, cara? Tá louco? — disse Giane, chocada.

— Tô maluco o quê? Tô maluco o quê? Já pensou em vender flor de plástico? — zombou Fabinho, e cantarolou, fazendo um gesto de quem tocava violão. — “As flores de plástico não morrem”. Eu vou comprar isso aqui.

— Não vai comprar nada, dá o fora daqui, Fabinho. — disse Bento, expulsando-o. Sua paciência havia se esgotado. Fabinho já estava passando dos limites. Fabinho tinha de entender que ele não queria vender a loja, e ponto final.

— Eu vou comprar sim porque dinheiro compra tudo, meu querido. — gritou Fabinho, batendo as mãos. — Quando... Quando eu comprar essa loja, essa loja aqui vai faturar dez vezes.

Para Giane era incrível como Fabinho queria tirar tudo do Bento. Em vez de tentar construir alguma coisa, conquistar as coisas para si, Fabinho só queria destruir. Era só nisso que ele pensava. Ele mentia, fazia intrigas, sabotagens porque não queria que Bento tivesse nada: nem amigos, nem namorada, nem a Acácia Amarela. Fabinho estava sempre de olho no que era do Bento. Fabinho sempre tentava destruir Bento, e ela o odiava profundamente por isso. Bento podia não a querer como mulher, mas ele continuava sendo seu amigo, uma das pessoas que ela mais amava na vida. A Acácia Amarela era sagrada para Bento, era a vida dele.

— Cara! — disse Giane, furiosa, partindo para cima de Fabinho e empurrando-o para fora. — Já deu, já deu! Chega! Vai embora!

Ela não queria saber de confusão na loja. Fabinho tinha de parar. Ela não iria deixar ele quebrar tudo na loja. Ele tinha de dar o fora. Ela estava com ódio de Fabinho, pois ela e Bento lutaram muito, deram um duro danado para construir aquela loja e Fabinho estava tentando destruir tudo.

— Tá me empurrando? — disse Fabinho, possesso.

— Tô.

— Tá me empurrando, macho da loja? — disse Fabinho.

— Tô.

— Me tira uma dúvida: por quê que toda sapatão tem cara de mocréia, hein?

Giane deu um soco no rosto dele. Ele não tinha o direito de insultá-la.

— Esse é pelo sapatão. — disse Giane, e deu uma joelhada nas partes íntimas dele, fazendo-o gritar. — E esse é pelo mocréia.

Bento estava satisfeito. Giane sabia se defender muito bem, e não levava desaforo para casa. Levantou Fabinho pelo colarinho e arrastou-o até a saída:

— Não cansa de apanhar de mulher não, Fraldinha? Dá o fora daqui senão é de homem que você vai tomar uma surra. — disse Bento. Se Fabinho achava que ele era menos homem que Giane, estava redondamente enganado. Ele era muito mais homem que o babaca do Fabinho, porque ele sabia respeitar as mulheres. Fabinho era muito escroto.

— Eu vou fechar essa loja! — ameaçou Fabinho, aos berros.

— E não volta, hein? Senão apanha mais, palhaço! — gritou Giane. Ela achava Fabinho um panaca, ele tinha que engolir toda sua empáfia.

Fabinho chutou uma das flores que estavam na frente da loja, antes de ir embora. Andava curvado, cheio de dor. Giane e Bento riram. Bento bateu com a mão aberta na de Giane.

— Mandou muito bem. Botamos o cara pra fora. — disse Giane, abraçando-o.

— É um mané. — disse Bento, gargalhando.

Bento estava feliz ao constatar que ele e Giane continuavam sendo parceiros. Continuariam amigos, unidos como sempre foram. Nada no mundo mudaria isso.

Giane ficou com vergonha por estar abraçando o amigo e afastou-se.

— Desculpa.

— Que desculpa? Que desculpa, Giane, desculpa por quê? — disse Bento. — A gente é um time, você não tá vendo? Tudo bem, se você não quiser mais ficar na loja e seguir sua carreira de modelo, mas a gente não precisa deixar de ser amigo. A gente saiu do mesmo lugar, cara, entende isso? E olha. — pegou os papéis de cima do balcão, onde tinha deixado. — Toma, esse papel, leva, eu não vou assinar nada, essa loja é sua por direito, você não vai se livrar dessa tão fácil. — deu um beijo no rosto dela e um abraço.