Um amor inesperado
23 Aniversário de Lucindo
À noite, quando estava em casa, Giane lembrou-se da proposta do tal de Caio. Resolveu pesquisar na internet, para ver se ele realmente era fotógrafo e cinegrafista, e não um malandro que vivia enganando as trou-xas. Por aí estava cheio de homens que se identificavam como caça talentos e enganavam mulheres com promessas de virarem modelos. Giane já ouvira histórias horríveis sobre isso. Se bem que achava que conhecia o Caio de algum lugar, porém não se lembrava de onde. Acabou procurando o nome dele na internet, e achou o site dele. Pelo visto, Caio estava falando a verdade. Silvério apareceu neste exato momento.
— E aí, filha, vamos no aniversário do Lucindo?
— Não sei, pai. Tô... Tô pensando ainda. — disse Giane.
— Filha, você trabalha tanto, meu amor. Hum. — disse Silvério, aproximando-se, colocando as mãos nos ombros dela, massageando-os e lhe dando um beijo. — Precisa se divertir de vez em quando. — deu uns tapinhas nos ombros dela e afastou-se. — Que tal botar uma roupa, e ficar bem bonita, hã?
Silvério estava saindo da sala, quando Giane chamou:
— Pai! Você... Você me acha... Bonita?
— Bonita? Não. — brincou Silvério, abanando a cabeça.
Giane riu. Silvério também.
— Eu te acho linda, meu amor. — disse Silvério. — E ficaria ainda mais, se você se arrumasse um pouquinho melhor.
Quando Silvério saiu, Giane ficou olhando o cartão que Caio havia entregado. Pensou em chamar Caio para a festa do Lucindo. Bento estaria na festa. Ele não faltava em nenhuma festa no Cantaí, ainda mais quando o aniversariante era um amigo dele. Bento e Lucindo eram muito amigos. Para Giane, não era uma má ideia tentar fazer ciúmes no Bento. Quem sabe assim ele a enxergasse, reparasse nela e largasse aquela cobra da Amora de uma vez por todas. Talvez ele até esquecesse da Malu também.
— Queria ver só a cara do Bento, se ele me visse com o Caio.
Giane acabou se arrumando para ir à festa de Lucindo com o pai. Ao saírem de casa, viram, à distância, Bento conversando com Plínio, que estava dentro de seu carro. Quando Plínio foi embora, Silvério chamou:
— Bento! Bento!
Bento aproximou-se. Silvério perguntou:
— Tá quase na hora do aniversário do Lucindo. Você vem?
— Mais tarde, tio Silvério! — disse Bento. — Eu ainda quero levar um papo com a Malu.
O rapaz sabia que Malu estava ali na rua, visitando Madá e Emília. Ele e Malu voltaram a se falar. Malu não estava mais magoada com ele.
Giane ficou com ciúmes.
— Ai, deixa ele, pai. Quando não é a cascavel, é a patricinha. — disse Giane, furiosa. — Que saco, esse cara!
— Peraí, Giane, peraí! — disse Bento. — Eu fiz alguma coisa?
Bento não entendia porque a amiga estava furiosa com ele.
— Você ainda pergunta, Bento? — perguntou Giane.
Giane achava que Bento era um idiota mesmo. Ele vivia atrás daquelas duas patricinhas, não ligava a mínima para ela, não lhe dava a mínima atenção, não percebia que ela gostava dele. Deixava todo o trabalho para ela, abandonava a loja para resolver os problemas da Amora e da Malu. E ainda perguntava se havia feito alguma coisa? Quando é que ele ia parar de bancar o herói e resolver os problemas de todo mundo? Giane estava ficando farta disso. Ela admirava o Bento justamente por ele estar sempre disposto a ajudar as pessoas. Mas no ponto de vista dela, Bento não percebia que estava sendo feito de otário pelas patricinhas. Bento dava a mão, elas queriam o braço. Giane acreditava que Amora e Malu estavam abusando da boa vontade de Bento.
— Por que você tá toda bravinha? — perguntou Bento.
— Bravinha, não! Brava! — disse Giane. — Respeito é bom e eu gosto!
Silvério e Giane foram para a festa de Lucindo, no Cantaí. Os vizinhos fizeram a decoração com o tema do Corinthians, que era o time do coração de Lucindo, e de Giane também. Até penduraram uma faixa com os di-zeres: “30 anos de treta!!! Feliz aniversário, seu maluco!!!”. Todos ficaram esperando pelo aniversariante, em silêncio, no escuro. Não demorou mui-to, Douglas veio anunciar:
— Ele tá vindo, ele tá vindo! Shiu!
Douglas correu se esconder. Lucindo entrou, falando ao celular:
— Fala, tio. Não, eu tô chegando aqui, mas por que você quer que eu venha pra cá, mano?
Todos acenderam as luzes e começaram a gritar, sacudindo balões e pompons:
— Cidão, ê ô! Cidão, ê ô!
— Mano, vocês são um bando de louco, velho! — disse Lucindo. — Ó, eu sabia que ia ter alguma coisa, mas colocar o negócio do Corinthians, meu, nem que eu tivesse dois corações, tio! Meu Deus do céu!
— Ó, maluco, ouve isso aqui agora, ó. — disse Nestor, ligando o som.
O hino do Corinthians começou a tocar. Lucindo correu em direção a Nestor, que estava no palco:
— Seu Nestor, mano! — disse Lucindo, abraçando-o. — Até o senhor, mano!
Todos ali sabiam que Nestor era palmeirense.
— O pessoal sugeriu até sabe o quê? — disse Nestor. — Que a gente colocasse a camisa do time. Eu, como bom palmeirense, recusei!
Lucindo riu, contente, e desceu do palco.
— Mano, vocês são demais! Tá lindo demais isso daqui, velho!
— Mano, agora explica aí que treta foi aquela lá fora, com a louca da tua patroa? — perguntou Jonas.
Ainda há pouco, houve uma confusão entre a patroa de Lucindo, Damáris, Charlene e Wilson. Wilson acabou de se divorciar oficialmente de Damáris, e no mesmo dia, Damáris o viu com Charlene.
— Deixa quieto. A dona Damáris é meio zoada das ideias. — disse Lucindo. — Mas ó, a gente tá aqui pra curtir a festa, não é, não? — apontou para Giane. — E aliás, aposto que isso aí foi culpa sua, sua demônia!
Giane riu e bateu o balão nele.
— Que culpa minha? Foi coisa desse seu tio aí.
— Eu sei, eu sei! Vem aqui, mano. Deixa eu falar. — disse Lucindo, aproximando-se do tio e colocando as mãos sobre os ombros dele.
— Fala, fala. Fala tudo, fala. — disse Lili.
— Você é o campeão dos campeão, mano! — disse Lucindo.
— Ai, Lucindo, pelo amor da Santa! — disse Lili. — Não assassina os plurais!
— Deixa eu te falar. — disse Lucindo, colocando as mãos sobre os ombros do tio. — Tem três coisas nessa vida eu amo.
— Fala, fala. — disse Lili.
— A primeira é o timão... — disse Lucindo.
— Oi. — disse Lili.
— A Madonna... — disse Lucindo.
— Oi. E? — disse Lili.
— E o senhor. — disse Lucindo.
— Ah! — gritou Lili, emocionado, abraçando o sobrinho e lhe dando um beijo no rosto. — Ai, eu te amo tanto!
— Eu também. Valeu, tio. — disse Lucindo.
— Eu te amo muito. — disse Lili.
— Obrigado, viu? — disse Lucindo. — Aliás, falando em Madonna, cadê o Filipinho?
— Teu amigo foi dar uma de DJ numa festa lá no Rio de Janeiro. — disse Rosemere.
Todos se divertiram na festa do Lucindo. Giane até cantou no palco com os rapazes: Jonas, Lucindo e Douglas. Malu e Bento chegaram e ficaram assistindo. Caio também chegou logo depois. Giane o convidou.
Giane acabou passando a maior parte da festa com Caio.
— Você sabe cantar, é? — perguntou Caio.
— Não. Só quando eu tô com raiva. — disse Giane.
— Mas, Giane, você podia ganhar dinheiro com isso. Tô falando sério, cara! — disse Caio.
Na opinião dele, Giane tinha potencial para se tornar a maior estrela do país. Era só ela querer.
Giane achou graça.
— Você podia ser modelo, você podia ser cantora. — disse Caio.
Giane riu. Cantora, ela? Ela não levava o menor jeito. Era desafinada. Nem passava pela cabeça dela ser cantora, muito menos modelo. Caio só podia estar mesmo muito a fim dela para ficar dizendo essas coisas. Embora ela ainda não entendesse a cisma do Caio com ela.
— Para com isso! — disse a garota, sem jeito.
— E ainda por cima você tem um sorriso lindo, sabia? — disse Caio, segurando o queixo dela.
Caio e Giane continuaram conversando.
— Vamos dançar? — perguntou Caio.
— Que dançar! Eu não sei dançar, não! — disse Giane.
— Sabe sim! Vamos! — insistiu Caio, procurando arrastá-la.
— Que isso? — disse Giane.
Acabaram indo para a pista de dança. Giane acabou aceitando dançar com Caio só para fazer ciúmes em Bento. Ficou o tempo todo de olho em Bento e Malu. Nesse meio tempo, até mesmo a Mulher Mangaba apareceu na festa.
Quando percebeu que Bento e Malu estavam indo embora, Giane quis parar de dançar. Ela quis inventar qualquer desculpa para ir embora. Para ela, a festa já deu o que tinha que dar.
— Pronto. Pra mim dá deu. — disse Giane, e saiu andando.
— Já? Você tem programa melhor pra fazer? — perguntou Caio, atrás dela.
Caio queria passar o máximo de tempo possível com Giane. Queria conhecê-la melhor, saber mais sobre ela. Já havia dado para perceber que Giane era uma garota difícil. Mas Giane não queria saber de passar a noite com ele. Já deu para ver que Caio era grudento, e ela detestava homem grudento. O único homem que a interessava era Bento. O único objetivo dela era chamar a atenção de Bento, fazer ciúmes nele. Como Bento havia ido embora, Giane resolveu dispensar Caio.
— Tenho que dormir, que amanhã eu vou acordar cedo. — disse Giane.
Caio pegou na sua mão e arrastou-a em direção à pista de dança.
— Ah, então deixa pra dormir no outro dia! Vem!
Assistiram ao show da Mulher Mangaba, que estava lançando nova música. Ela também resolveu cantar uma versão em inglês da Solteirinha da Pompéia. Chamou o aniversariante ao palco para dançar com ela. Giane quis ir embora.
— Pra mim, já deu. Valeu. Estou indo. — disse a garota.
— Peraí, eu te acompanho. — disse Caio.
Caio queria descobrir onde ela morava.
— Não precisa, não. Eu moro aqui perto. — disse Giane.
— Mais um motivo pra eu ir com você. — insistiu Caio.
Caio acabou acompanhando-a até em casa.
— Então, é aqui que você mora? — perguntou o rapaz.
— Chegamos. Eu e o meu pai. — disse Giane, parando em frente à sua casa.
— Obrigado pela noite, viu? — disse Caio, e tentou beijá-la.
Giane o empurrou. Mas esse Caio era muito atrevido, na opinião dela.
— Ei! Ei! O que é isso? — disse Giane, abrindo o portão, entrando e fechando o portão em seguida. — Tá pensando que eu sou o quê?
— Você é uma gatinha linda, sabia? — disse Caio.
Caio ficou passado. Giane deu mole para ele na festa, agora o dispensava. Ele não estava entendendo nada.
— Vai te catar, moleque! Tá pensando que é só chegar e pegar, assim, né? Com essa sua conversinha mole? Não sou periguete, não!
Giane entrou em casa e sentou-se no sofá. Estava animada. A noite havia sido ótima. Ela se divertiu e ainda fez ciúmes no Bento. Bento não havia feito uma cara muito boa ao vê-la com Caio. Silvério, que havia ido para casa antes dela, apareceu na sala, sorrindo. Ficou feliz ao ver a filha tão animada.
— Opa! Fazia tempo que eu não te via, assim, tão animada, hein?
— É. Eu estou morta. Agora, um chuveiro e cama. — disse Giane.
Começou a tirar as botas, uma por uma. Silvério riu.
— O que foi, pai?
— Nada. — disse Silvério, abanando a cabeça. — Em outros tempos, você teria se jogado no sofá e jogado os sapatos pro alto.
— Pra você ver. — disse Giane, levantando-se. — Também sei ser mulherzinha.
— E eu não te conheço? — disse Silvério, aproximando-se da filha. — Você só criou esse jeito de moleque pra esconder dos outros a sua natureza feminina.
No ponto de vista de Silvério, Giane se vestia e se comportava como menino porque era uma maneira que ela encontrou de se proteger. O mundo nunca foi um lugar fácil para as mulheres viverem. Além do mais, Giane só andava entre os meninos. Gostava de jogar futebol com eles. Então, até pouco tempo atrás, ela fazia o máximo para evitar que algum garoto se engraçasse com ela, ou para que os homens vissem sua fragilidade. Além do mais, ela era tímida demais para mostrar aos homens o quanto podia ser amorosa. Ela era uma garota corajosa, batalhadora, determinada, que lutava pelo o que queria. Prova disso era que ela havia fundando junto com Bento a cooperativa de flores. Ela não tinha medo de defender suas ideias, e dizia o que pensava, sem medir as consequências. Não tinha filtro. Porém, era insegura quando se tratava das coisas do coração. Giane tinha vergonha de expressar seus sentimentos. Mas agora ela estava se preocupando mais com a aparência, e fazendo de tudo para ser notada pelos homens. Sobretudo pelo homem de quem ela gostava.
Silvério abraçou e deu um beijo na filha. Giane riu, Silvério também.
— Natureza feminina? Essa é ótima.
— Gostei de ver você dançando com aquele menino, viu?
Silvério achava que Giane devia seguir em frente e sair com outros rapazes, em vez de ficar sofrendo pelo Bento.
Giane deu uns tapinhas amigáveis no braço do pai.
— É, mas foi só uma noite. — disse Giane, afastando-se. — Porque não vai mais ter Caio, não. Ele tentou me beijar, e eu botei ele pra correr.
— Eu acho bom você se interessar por outros rapazes. — disse Silvério. — Porque o namoro do Bento e da Amora já está na internet.
Silvério foi se deitar, e Giane ficou pensativa. Então o público já estava sabendo do namoro do Bento e da Amora. Até onde Giane sabia, Amora não havia assumido namoro nenhum para a imprensa. Giane pensou que alguém tirou foto dos dois juntos e publicou na internet, em algum blog. Só podia ter sido o Fabinho. Giane lembrou-se de quando viu Fabinho espionando Bento e Amora, com o celular na mão, mais cedo. Foi ele, com certeza. Giane concluiu que foi por isso que ele tirou aquelas fotografias. Agora, o público devia estar achando que Amora ainda era noiva e que estava traindo o noivo com Bento. Também, quem mandou Amora esconder da imprensa que havia terminado o noivado. Ninguém mandou ela namorar Bento às escondidas. No ponto de vista de Giane, Amora que se virasse para limpar sua barra. Isso agora iria acabar dando em confusão.
Giane não gostou nada de saber que Bento havia sido exposto mais uma vez. Ela tentou expulsar Fabinho, mas não deu certo. Não conseguiu. Mas pensando bem, na visão dela, se havia algum lado bom nesta história, é que o namoro de Bento e Amora estava com os dias contados. O que importava para Amora era a imagem, a reputação de boa moça, enquanto Bento não estava nem aí para o que o público pensava. Amora e Bento iriam acabar brigando, se desentendendo. Giane achava que, se Bento e Amora brigassem, ela teria sua chance de conquistar o coração dele. Fabinho, sem querer e de um jeito torto, havia lhe feito um favor.
Ela foi tomar banho. Depois colocou o vestido preto, calçou sapato de salto e se maquiou, como sempre fazia antes de dormir. Já estava se acostumando a se ver arrumada. Ao contemplar sua imagem no espelho, teve uma ideia. Ir para a casa do Bento. Giane sabia que àquela hora ele já devia estar dormindo. Ela tinha o hábito de, às vezes, observá-lo dormir.
Ao sair na rua, Giane tomou todo o cuidado para não ser vista. Escondeu-se atrás do muro de sua casa, ao ver Érico passar em frente. Esperou Érico passar. Abriu o portão de sua casa com cuidado, para não fazer barulho. Até se escondeu atrás de um poste, para que nem Érico nem ninguém da rua a visse. Olhou para os lados. Deu mais alguns passos. Esperou Érico entrar na casa dele.
Assim que Érico entrou, Giane continuou andando. Tropeçou no salto, mas seguiu em frente e se enfiou no quintal do Bento. Pulou a janela, como sempre fazia. Ela foi até o quarto de Bento e viu que ele já estava dormindo. Andou devagar até a cama do rapaz, tomando cuidado para não fazer nenhum barulho. Ficou observando o amigo dormindo. Ela não tinha vergonha de sorrir embevecida, pois ninguém estava vendo. Aos olhos dela, Bento parecia um príncipe.
O celular do Bento, que estava no silencioso, começou a vibrar na mesa de cabeceira. Bento revirou-se na cama. Giane pegou o celular de Bento. Viu que era Amora quem estava ligando. Desligou o celular. Bento precisava descansar, não podia ser perturbado. Ela deixou o celular sobre a mesa de cabeceira. Sentou-se na beirada da cama. Bento estava de costas, dormindo profundamente. Giane não resistiu e deu um delicado beijo nos lábios do rapaz. O beijo durou alguns segundos. Giane levantou-se devagar, sorrindo, e saiu andando pé ante pé. Deu uma última olhada no rapaz, antes de ir embora. Tomou o cuidado para não fazer o menor ruído, ao sair pela mesma janela, por onde entrou. Voltou para casa feliz da vida, com o beijo que roubou dele. Foi direto para o seu quarto. Ainda podia sentir seus lábios nos dele. Passou a mão na boca. Jogou-se na cama, com um sorriso nos lábios. Passou os dedos no lábio inferior. Não conseguiu mais tirar o beijo da cabeça.
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