Um amor improvável
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No dia seguinte, cedo, a caminho da agência, Fabinho foi abordado por um homem na rua.
— Você é o Fábio Queiroz? — perguntou o homem. — Sou eu, por quê? — perguntou Fabinho.
— Prazer, eu sou o Perácio. É que eu tenho razões pra acreditar que você é meu sobrinho. — disse Perácio.
Fabinho desconfiou na hora. Como assim, sobrinho? Quem era aquele homem, de onde veio e por que achava que era seu tio? O homem só podia estar doido, na certa estava confundindo-o com alguém. Além do mais, ele, Fabinho, não queria saber desta história, não queria saber de nada e não queria procurar família nenhuma. O passado estava morto e enterrado.
— Na boa, cara, de onde é que você tirou essa história maluca? — perguntou Fabinho. — Você viu minha foto no jornal e tá achando que é meu tio?
— Não. Se eu vim aqui, é porque eu tenho fortes indícios de que você pertence à minha família. — disse Perácio. — Aliás, é uma boa família.
O rapaz continuou desconfiado, na defensiva. Como assim, boa família? O que ele queria dizer com isso? Por que o cara achou necessário falar que a família era boa? Por que queria tanto que ele fizesse parte desta família? O cara parecia estar jogando a isca para ver se ele caía como pato. O que o homem estava sugerindo, que era uma família cheia da grana? Fabinho achava que isso só podia ser armação. Uma pessoa aparecer assim do nada, dizendo que ele pertencia a uma família rica. Aí tinha coisa. Logo imaginou que alguém pagou aquele homem para vir com papo furado para cima dele. Só podia ser alguém que sabia que ele estava na pior. Só podia ser coisa daquela víbora da Bárbara. Ela queria se vingar dele, com certeza. O homem tinha cara de golpista. Estava na cara que era armação.
— Não, cara, isso deve ser trote. O que é isso? É palhaçada da Bárbara? — perguntou Fabinho. — Ela sabe que eu tô na pior e te mandou aqui, é isso?
— Não, eu nem conheço essa pessoa. — disse Perácio. — E eu não sei...
— Olha, cara, na boa, você tá achando que eu sou otário, mas eu não sou otário. Se manda, valeu. — disse Fabinho.
Horas mais tarde, após o almoço, Fabinho despediu-se da mãe ao sair de casa:
— Tchau, mãe. Estou indo pra agência.
Estava saindo de casa, quando ouviu Rosemere chamá-lo:
— Fabinho!
Fabinho olhou para o lado. Rosemere aproximou-se.
— Você devia ouvir o Perácio, porque é um assunto do teu interesse.
— Que Perácio? Quem é o Perácio? Não sei quem é o Perácio. — disse Fabinho.
— O cara que te procurou querendo fazer um exame de DNA. — disse Rosemere.
Fabinho se lembrou. Era o cara que o abordou mais cedo. Não se lembrava do nome dele. Mas qual era o interesse da Rosemere nesta história?
— O que você tem a ver com isso? — perguntou Fabinho.
— É que ele é pai do meu filho. Isso quer dizer que eu...
Ele sabia que só podia ser armação de alguém. Se não era da Bárbara, era da Odila. Claro que Odila iria querer se vingar dele. Ele a ameaçou. Odila ainda tinha muita raiva dele, não conseguiu perdoá-lo pelo o que fez.
— Ah, não. Entendi, entendi. Você é irmã da Odila, né? — disse Fabinho.
Rosemere assentiu.
— Entendi. Ela tá querendo armar essa história toda por causa da... — fez um gesto. — Daquele dia que eu ameacei ela. Cara, vai pro inferno, na boa. — disse Fabinho, afastando-se.
— Que é isso? Um minuto, me espera, me escuta! — disse Rosemere.
— Vocês não estão percebendo que eu tô na minha, que eu tô quieto aqui, querendo recomeçar a minha vida? Me deixa em paz, por favor! — disse Fabinho, deixando Rosemere pasma.
Rosemere achava que o rapaz iria querer ouvir o que Perácio tinha a dizer. Afinal, Fabinho veio para São Paulo atrás de seus pais biológicos. O negócio de Fabinho sempre foi grana. Agora, Fabinho não quis saber de ir atrás desta história. Não quis nem saber quem eram seus pais, se eram ricos ou pobres. Rosemere chegou à conclusão de que Fabinho mudou. Ele não queria nem saber se era ou não um herdeiro rico.
Fabinho foi para a agência. Quando chegou, percebeu um clima tenso. Apenas Érico e Sílvia estavam, o restante da equipe havia saído.
— Então, você pensa duas vezes antes de falar, tá ok? — disse Sílvia.
— Oi. — disse Fabinho, acenando. — Tô interrompendo alguma coisa?
— Não! Eu já encerrei. — disse Sílvia, saindo.
— Não, Sílvia, peraí. Sílvia! Sílvia, vamos tomar um café. — disse Érico, largando os materiais na mesa, e dirigiu-se a Fabinho. — E aí, Fabinho? Sílvia! — correu atrás dela.
— Que fim de feira, hein? — disse Fabinho, para si mesmo.
Todo mundo na agência estava reclamando do Érico. Fabinho ficou sabendo que Maurício se afastou da Crash Mídia após se desentender com Érico. Nem a Sílvia estava aguentando o Érico, pelo visto.
Fabinho digitou o número de Giane no celular. Esperou ela atender.
— E aí, Giane, está aonde? Nossa, que programa de índio. — disse Fabinho, sentando-se na cadeira. — Cara, tô achando que estão armando pra mim, sabia? É. Hoje eu encontrei o cara que falou que tem razões pra acreditar que é o meu tio. Tá, te falo mais tarde, então. Valeu!
Trabalhou na agência até a hora de ir embora. Fabinho estava sabendo que Giane passou a tarde plantando e distribuindo mudas com Bento. Era o projeto Verdejando. À noite, Giane foi jantar na casa de Fabinho, que contou tudo o que havia acontecido. Contou que Perácio o abordou, dizendo ser seu tio, que pertencia a uma boa família. Depois Rosemere insistiu para ele falar com Perácio. Fabinho não quis. Achou que Rosemere estava armando para se vingar dele, por ter ameaçado Odila de morte.
— A Rosemere é gente boa, Fabinho. — defendeu Giane, levando os pratos para a mesa. — Ela nunca ia participar de alguma armação contra você. Se bem que aquele Perácio é pai do Filipinho, né? Ficou anos negando o menino. Uma vez, eu ouvi ela falando com a dona Odila, de alguma picaretagem desse cara.
Fabinho sabia que o tal do Perácio não era confiável. Farejava vigaristas de longe.
— Tá vendo? Esse cara é picareta. Isso é armação, com certeza. — disse Fabinho. — Se não é da Odila, é da Bárbara. De repente, até da Amora.
Fabinho não sabia se Bárbara ou Amora conheciam o tal do Perácio. Mas quem podia garantir que não conheciam? Perácio dissera que não conhecia Bárbara, mas ele podia estar mentindo. Fabinho achou melhor ficar com o pé atrás.
— Eu acho que você devia ouvir o que ele tem pra dizer, né? Você não tem vontade? — perguntou Giane.
— Pra quê? Pra minha vida voltar a ser aquele inferno de exame, briga, desconfiança? Não. — disse Fabinho. — E esse Perácio também, tem uma cara de pé-rapado, golpista.
— Eu acho que você devia se informar. Pelo o que eu sei... — disse Giane, continuando a arrumar a mesa.
Mas Fabinho não queria saber de ir atrás dos pais biológicos, fossem eles ricos ou pobres. Já fez isso uma vez, e não faria de novo. Arrependeu-se até o último fio de cabelo. Foi atrás do homem que achava que era seu pai, e foi rejeitado, tratado feito lixo. Ele sabia que não tinha sido honesto, mentiu, armou. Mas achou que precisava fingir ser um bom menino, fingir ser íntegro, porque só assim conquistaria o afeto de Plínio. Achou que se fosse honesto e transparente, não seria aceito, não seria bem recebido. Plínio não iria querer um marginal, um calhorda como filho. Mas nada do que fez adiantou. Plínio o desprezou do mesmo jeito, e ofereceu dinheiro para que sumisse. Nunca devia ter se aproximado de Plínio. Quem garantia que a família do Perácio não o trataria mal? Isso se fosse mesmo sua família, o que ele duvidava. Qual seria a reação desta família ao saber de seu histórico? Supondo que a família fosse boa, como Perácio dissera, que adiantaria? Jamais o aceitariam como era, com o seu passado, todos os seus erros, seus defeitos, sua ficha suja na polícia. Iriam desconfiar dele, rejeitá-lo. Sua vida viraria um inferno. E sem sombra de dúvida, iriam preferir como membro da família alguém bonzinho e íntegro, como o Bento. Toda e qualquer família, rica ou pobre, iria preferir alguém como Bento. E ele, Fabinho, não fingiria mais ser quem não era para agradar quem quer que fosse. Além disso, ele não acreditava que Perácio fosse de boa família. Perácio era um picareta. Não queria mais saber. Ele não precisava de outra família. Já tinha Margot. Era a única que o amava e o aceitava como era. Mesmo que ele tenha sido um péssimo filho, mesmo tendo falhado com ela, Margot o aceitava. Ela sim era sua mãe.
— Não, Giane, na boa. Eu não quero saber o que você sabe. — disse Fabinho. — Essa é uma página que eu virei da minha vida. Eu não quero. Eu não quero saber quem me pôs no mundo e quem me abandonou. Não quero mesmo, sabe? Pra quê? Não vou atrás dessa história mais, não. Minha vida, agora, é o hoje, é o presente. É isso aqui que eu tenho. — apontou para Margot. — Margot é minha verdadeira mãe, pessoa que ficou do meu lado a vida inteira. Não quero voltar a viver no inferno, não. Dá pra entender?
No ponto de vista de Fabinho, ele havia entendido que não precisava ser um herdeiro rico, filho de alguém importante para ser valorizado. Margot o amava por quem ele era, com todos os seus defeitos e falhas. Não podia haver mãe melhor do que ela, e o pai adotivo, que era falecido, foi mais seu pai do que Plínio jamais foi, ou o seu genitor desconhecido. Ele aprendeu a duras penas que mãe é quem cria e dá amor. Ele não queria mais saber quem eram seus pais biológicos, pois já tinha Margot. Fabinho sentia que finalmente havia encontrado um lugar de pertencimento. Ele não precisava mais fazer parte de uma família importante para ser alguém. A essa altura, sobrenome não tinha mais a menor importância para ele. Margot passou a ser mais importante para ele do que a família de sangue.
Margot emocionou-se. Percebeu que o filho tinha carinho por ela. Nem pensava mais em procurar a família biológica, pois ela lhe bastava.
Giane emocionou-se. Balançou a cabeça afirmativamente.
— Dá. Dá pra entender. Bom... — disse Giane, batendo as mãos. — Página virada então, né?
Aproximou-se de Margot, que estava preparando uma torta.
— Hum! Essa torta tá com um cheiro bom! — disse Giane.
Semanas se passaram. Chegou o dia do casamento de Lara Keller e Franklin Cardoso, que era cliente da Crash Mídia. A cerimônia seria na Para Sempre. Érico foi ao casamento com Renata, e Tina também foi. Fabinho não foi. O casamento para ele seria um campo minado. A festa estaria cheia de fotógrafos, repórteres, celebridades. Sueli Pedrosa o filmou saindo da prisão uma vez. E se ela estivesse lá no casamento? Ele tinha medo de que se lembrassem de seu passado, de tudo o que aprontou. Além do mais, Bento, Amora e Maurício estariam lá. Nem pensar em ir na festa. Preferiu ficar em casa ajudando a mãe. Mais tarde iria para a Crash Mídia.
Andando na rua, ele acabou encontrando Giane, que falava ao celular:
— ... É claro que eu sei do Bento. Ele casou com uma patricete mentirosa e foi na casa da irmã dela ver se descobre mais algum podre. Capricha na janta, que hoje vai ter “D.R”.
Então Bento foi à casa da irmã da Amora. Mas até aonde Fabinho sabia, a irmã da Amora, a tal da Simone, havia sumido. Nunca mais apareceu na Casa Verde com os filhos. Amora dissera que Simone havia arrancado uma fortuna dela e depois ido embora. Quando soube do sumiço de Simone, Fabinho estranhou, afinal, Simone veio do Chile atrás da irmã, para se entender com ela. Ela não se daria ao trabalho de vir de tão longe, se mudar para o Brasil, para depois sumir da vida da irmã. Ainda mais depois de ter feito as pazes com a irmã. E Simone não parecia ser uma vigarista. Pelo menos, não tinha jeito de pilantra. Além do mais, se Simone fosse uma golpista, ela iria querer mais e mais dinheiro, iria querer se valer do fato de ter uma irmã rica e famosa, levar vantagem. Não iria sumir assim, ainda mais sabendo que a irmã havia se casado com o herdeiro do Plínio Campana. Fabinho também achou estranho Amora ter perdoado a irmã tão rápido. Amora não era de perdoar com facilidade. Era rancorosa e vingativa. Se Amora se vingou dele, por tê-la de difamado, se o botou na cadeia e tacou fogo na Toca para incriminá-lo, o que ela não faria com a irmã, que a abandonou? Fabinho logo desconfiou de Amora.
No ponto de vista dele, o sumiço de Simone não foi bem explicado, a história estava muito mal contada. Amora até dizia estar sofrendo com o sumiço da irmã, por ter sido abandonada outra vez. Ou seja, estava na cara que Amora estava se fazendo de vítima para o Bento comer na mão dela. Pelo visto, o Bento havia acabado de descobrir mais uma mentira, mais uma armação da Amora. Amora certamente fingiu ter feito as pazes com a irmã, depois inventou uma história para explicar o sumiço de Simone. Tudo para o otário do Bento ficar com pena e não se separar dela. O casamento deles estava por um fio. Era óbvio que Amora exigiu que a irmã não botasse mais os pés na Casa Verde, devia ter feito ameaças, oferecido dinheiro. Mas isso não era problema dele, Fabinho. Tinha outras coisas em que pensar. Mas gostou de ver Giane aterrorizar Amora.
Giane desligou o celular e riu.
— O quê que você tá aprontando, hein, moleque? — perguntou Fabinho.
— Nada, só fiz uma patricinha tremer na base. — disse Giane.
Era disso que Fabinho gostava em Giane. Era a garota mais corajosa, mais incrível que ele conhecia. De boba não tinha nada.
— Quer bater uma bolinha comigo? — perguntou Fabinho, colocando o braço sobre os ombros dela.
Não que gostasse de bater bola, mas queria a companhia dela.
— Não, hoje eu não posso. — disse Giane. — Tenho que ir pra loja. Quer ir comigo?
Fabinho abanou a cabeça.
— O Bento vai demorar pra chegar. — disse Giane.
— Tá louco, se é pra trabalhar, eu prefiro ajudar a minha mãe. Ela tá fazendo docinho pro Cantaí agora. — disse Fabinho.
— Hum, ajudando a mamãe? — disse Giane, dando um tapinha no braço dele.
— É. — disse Fabinho, balançando a cabeça afirmativamente.
— Bom menino. — disse Giane.
— Melhor do que carregar caixa ali. — disse Fabinho, fazendo um movimento de carregar caixa. — Que nem peão. Pensa que eu não sei que você quer me explorar?
— Quero mesmo! — disse Giane.
— Marginal! — disse Fabinho.
Giane riu e foi direto para a loja. Fabinho foi ajudar a mãe. Uma hora, a mãe foi levar as queijadinhas para a casa de Gilson. Porém, Margot esqueceu uma forma. Então Fabinho foi até a casa de Gilson, atrás da mãe, levando a forma.
— Mãe, ficou...
Acabou se deparando com Plínio e Irene, que estavam na sala, tomando café com Gilson e Salma. Fabinho ficou constrangido. Não se sentia à vontade com Plínio.
— Oi, Fábio. — disse Plínio.
— Tudo bem? — disse Fabinho.
— Deixa eu levar isso. — disse Gilson, levantando-se da mesa e pegando a forma.
— Obrigado, tio Gilson. — disse Fabinho.
— Oi, Fabinho. — disse Irene, aproximando-se dele. — A Salma me disse que você tá trabalhando e também tá ajudando a Margot.
Irene estava feliz por saber que Fabinho estava criando juízo. Adorava Bento, era uma pessoa maravilhosa e tem sido um ótimo filho. Mas não deixou de sentir um carinho imenso por Fabinho. Amava-o como a um filho, mesmo com todos os defeitos e tudo o que ele aprontou, e queria o bem dele. Era bom saber que Fabinho estava tomando um novo rumo na vida. Para ela era uma notícia maravilhosa. Era o seu maior presente, além da gravidez. Para ela foi uma grande surpresa saber que estava grávida, afinal, ela não esperava mais engravidar. Era muito difícil uma mulher na idade dela engravidar naturalmente, sem tratamento algum. As chances eram mínimas. Mas ela e Plínio estavam felizes com o bebê. Ela estava com um mês e pouco de gestação.
Fabinho fez que sim com a cabeça.
— Muito bom isso. — disse Irene.
— E eu fiquei sabendo que você tá grávida também. — disse Fabinho. — Parabéns, agora vocês vão conseguir aproveitar tudo que não aproveitaram com o primeiro filho, né? Legal.
— Que bom ouvir isso de você, meu filho. Que bom. — disse Irene, comovida, e abraçou o rapaz.
Plínio não se conformava em ver Irene insistir em tratar Fabinho como filho. Pelo visto, Irene não conseguia se desligar de Fabinho. Mesmo depois de tudo o que o garoto aprontou, Irene ainda tinha carinho por ele. Plínio ainda tinha um pé atrás com Fabinho. O rapaz aprontou mil e uma para sua família. Prejudicou o Bento, a Malu e até a Amora. Fez mal a muita gente. Podia até ser que Fabinho fosse inocente no caso do incêndio da Toca. Mas Plínio não conseguia confiar em Fabinho, de jeito nenhum. Já Irene defendia Fabinho com unhas e dentes, desde sempre. Mesmo depois de o exame ter dado negativo, mesmo sabendo que Fabinho não era filho dela, Irene continuava defendendo-o. Irene investia com facilidade contra Amora e poupava Fabinho. Irene acusava Amora de crimes, mesmo sem provas, e ficava do lado do Fabinho, mesmo quando todas as evidências apontavam que era ele o culpado. Ele, Plínio, e Irene viviam se desen-tendendo por causa de Fabinho. E o pior era que Irene, sem querer, acabava magoando Bento, ao defender tanto Fabinho. Plínio não gostava nada disso. Ele se preocupava com a fixação de Irene por Fabinho. Na opinião dele, Irene devia esquecer o garoto. Fabinho não era nada deles.
— Bom, tenho que ir. Tchau. — disse Fabinho.
Fabinho foi para a Crash Mídia, trabalhar nas novas campanhas. Algum tempo depois, Cléo apareceu na agência, perguntando pelo Érico.
— Olha, o Érico saiu com a Sílvia, mas por quê? — perguntou Júlia.
Érico havia saído mais cedo do casamento de Cardoso e avisou que sairia com Sílvia.
— Eu aproveitei que o Natan foi ao casamento do Cardoso e vim aqui chamar ele pra ir ao show da Jesuton comigo.
— Ah, mas eu acho que ele já tem companhia. — disse Júlia.
— Onde vai ser esse show da Jesuton? — perguntou Fabinho. Estava pensando em convidar Giane para ir ao show com ele.
— No Cantaí. Eu até já convidei a Karol pra ir comigo. — disse Vinny.
— E aí, Fabinho, como é que você tá? — perguntou Cléo. — Eu fiquei sabendo que você está superbem aqui.
Fabinho não tinha tempo para ficar de papo furado.
— Melhor impossível. — disse Fabinho. — Agora, fofoca com a tua amiga que eu tenho mais o que fazer.
Júlia riu.
— O que é isso, Júlia? Você disse que ele tinha mudado. — disse Cléo. — Resta saber onde, né?
— Mais ou menos. — disse Júlia.
À noite, Fabinho resolveu treinar um pouco de futebol. Foi a um terreno baldio, que era usado como campo de futebol quando ele e Giane eram crianças. O terreno ficava perto da casa de Giane, ao lado. Estava treinan-do uns chutes. Queria melhorar, quem sabe conseguia impressionar Giane. Acabou percebendo uns flashes. Olhou e viu que era Giane, com a máquina fotográfica, tirando foto. Ela só podia estar tirando sarro dele.
— O que você tá fazendo? Tá me zoando, garota?
— E precisa? — disse Giane, e tirou mais uma foto. — Você joga mal pra caramba. Que tal a gente fazer um vídeo? A gente podia mandar pra aquele quadro lá do Fantástico, aquele bola murcha. Podia ganhar uma grana, hein?
— É? Então, vem cá me ensinar. Vem cá me ensinar e para de tirar foto. — disse Fabinho, jogando a bola para ela.
Giane deixou a câmera em cima do muro e mostrou a ele como se fazia. Realmente, Fabinho tinha de reconhecer que não levava o menor jeito. Não sabia nem como chutar a bola, nem conseguia roubar a bola da garota. Ficaram batendo bola, divertindo-se juntos.
Bento estava passando por perto e viu Giane e Fabinho divertindo-se juntos. Não gostou nada. Ele não confiava em Fabinho. Tentou alertar Giane, mas foi em vão. Mas se Fabinho e Giane estavam se divertindo, ele é que não iria interromper. Estava cansado. Foi embora para casa. Não teve um bom dia. Descobriu que Amora havia mentido para ele, mais uma vez. Ela não fez as pazes com a irmã, e ainda tinha mandado a irmã e os sobrinhos sumirem, para ele ficar com pena dela e não se separar. Bento estava decepcionado com Amora, e queria ter uma conversa bem séria com ela. Simone havia implorado para ele compreender e perdoar Amora, para ele não virar as costas para ela. Mas Bento havia decidido se divorciar. Fabinho correu em direção a Giane, escorregou e acabou caindo em cima da garota. Claro que fez de propósito. Era um pretexto para agarrá-la, tocá-la. Era bom estar assim, tão perto dela, e ele queria ver como o corpo dela reagia ao toque dele. Podia sentir o cheiro, o hálito dela, que para ele era inebriante. Aquela boca maravilhosa estava tão próxima. Ele sentiu o coração bater mais forte. Mais uma vez, sentiu vontade de tocar aqueles lábios com os seus. Ela parecia querer que ele a beijasse. Estava prestes a beijá-la, porém, Giane o empurrou. Levantou-se.
— Sai! Vamos botar esse pé numa forma. — disse a garota.
Fabinho levantou-se. Sem que a garota percebesse, pois estava de costas para ele, ele a olhou de baixo para cima. Ela era linda, maravilhosa e ele a queria mais do que tudo. Giane virou-se.
— Vamos lá. Gol a gol, quem perder paga um sorvete.
Jogaram mais um pouco. Depois ficaram andando pela rua. Giane continuava fotografando tudo o que via. Foram à praça, e viram Érico e Renata se beijando, se agarrando.
— Olha só! O Érico e a Renata se agarrando! — disse Giane, e tirou logo uma foto dos dois.
Fabinho ficou sabendo que Érico namorou Verônica, a mãe do Mau-rício. Ele a havia conhecido no Cantaí, só que como Palmira Valente, uma cantora misteriosa. Quando vinha se apresentar no Cantaí, Verônica se disfarçava. Quando Érico descobriu que Palmira era na verdade Verônica, ficou decepcionado, por ter sido feito de idiota. Só que ele acabou compreendendo as razões de Verônica e os dois acabaram se acertando. Porém, o relacionamento não deu certo e terminaram, antes de Érico sofrer o acidente. Agora, Érico e Renata voltaram. Renata havia sido namorada de Érico desde a adolescência, ficaram noivos e quase se casaram. Só que romperam às vésperas do casamento, pois Érico descobriu que Renata o traiu com o primo dele, Tito. Agora, voltaram a se relacionar. Só que não se tratava de um compromisso, um relacionamento sério. Realmente, Érico vinha agindo de maneira diferente. Antes de sofrer o acidente, Érico era do tipo romântico, homem de uma mulher só, sonhava em formar uma família. Namorou a Renata por anos, era fiel a ela, quase casou com ela. Não era de passar o rodo. Érico havia virado outra pessoa.
Fabinho jogou a bola no braço de Giane, de brincadeira.
— Ô menina! — brincou Fabinho, e Giane deu um tapa nele. — Quem gosta de chantagear os outros sou eu, não é você, não.
— Não gosto de chantagear, eu gosto de fotografar! — disse Giane, tirando mais uma foto da Renata e do Érico.
— Pelo jeito você gosta mais de fotografar do que posar, né? — Posar é chato. — disse Giane.
— Por quê que você não investe nisso, então? — perguntou Fabinho. — Faz um curso de fotografia. Não sei. Você vai se divertir, você vai ganhar dinheiro. Porque ficar plantando flor com o Bento a vida inteira não dá, né?
Para Fabinho, o negócio de flores era coisa do Bento. Giane trabalhava com Bento porque vivia à sombra dele. Vivia a vida dele. Giane tinha mais era que investir em algo que lhe desse prazer. Tinha de ter uma profissão, uma carreira, algo que fosse só dela e fosse lucrativo. Se ela continuasse na Acácia Amarela, não conseguiria grande coisa. Bento não investia um centavo na empresa. Não ampliava a loja, não contratava mais funcio-nários, nada. Além do mais, já estava na hora de Giane seguir seu próprio caminho. Já que ela não gostava muito de ser modelo, podia ser fotógrafa.
— O quê que você sabe do nosso negócio? — perguntou Giane.
— Eu sei que o Bento tá milionário e não investe um centavo nessa empresa, não viaja, não conhece o mundo, fica enfurnado dentro dessa garagem. — disse Fabinho. — É um otário, né?
Na opinião de Fabinho, Bento recusava a herança por puro orgulho besta, por não querer nada de mão beijada, apenas por ser filho do Plínio. Para Bento, o que valia era a grana que ganhava com o seu trabalho. Só que Fabinho não se importava com a origem da grana, se era de mão beijada ou não. Se a vida tivesse lhe dado o privilégio de ser filho de pai rico, iria aproveitar. Só que desta vez faria bom uso do dinheiro. Não iria perder seu tempo perseguindo Amora e Bárbara, ou quem quer que fosse. Aquelas duas víboras que se ferrassem sozinhas. Não se vingaria de mais ninguém. Não que tenha virado santo. Mas não gastaria mais seu tempo com picuinha, intriga, mentiras, armação, nada. Ele não daria mais golpes.
— Se você fosse o filho do Plínio, você ia aprontar, hein? — disse Giane.
— Você tá louca! Se eu fosse filho do Plínio, eu ia estar abrindo minha própria agência agora, porque nisso eu sou bom, querida. — disse Fabinho.
— Outro dia você estava falando de comprar a rua, agora é agência. — disse Giane. — O quê que mais você ia fazer de bom?
— Eu ia investir na minha carreira de jogador de futebol. É. — brincou Fabinho.
Giane riu, divertida.
— Tira a foto aí, vê se parece que eu sei jogar, vai. — disse Fabinho, tentando fazer umas embaixadinhas. — Aproveita que o modelo é top.
— O modelo é podre de metido. Isso sim! — disse Giane, fotografando-o.
Ela tirou várias fotos do rapaz, enquanto ele fazia embaixadinhas com a bola. Fabinho até conseguiu controlar a bola por algum tempo, usando os joelhos, porém, logo deixou a bola cair.
— Mas é muito ruim mesmo, hein? — disse Giane, fotografando.
Fabinho pegou a bola.
— Vamos lá. — disse Giane, voltando a fotografá-lo.
Margot apareceu neste momento.
— Giane, hoje, você janta lá em casa. Vou chamar teu pai.
Deu uma olhada em Fabinho e Giane e viu que eles estavam imundos.
— Credo, que sujeira, vocês parecem crianças! — disse Margot, rindo.
— Esse marginal aí que me jogou no chão umas 20 vezes. — disse Fa-
binho.
Giane riu.
— Ele que me derrubou! Era só o que faltava! — disse Giane, des-cendo a rua.
— Vem cá, você quer ir no show da Jesuton comigo? — perguntou Fa-binho.
Giane olhou rapidamente para trás e disse:
— Pode ser.
— Tchau. — disse Fabinho, indo para casa. Precisava tomar um banho.
Silvério subiu a rua neste momento.
— Gostoso ver esses dois se entendendo tão bem, né? — disse Margot, referindo-se a Fabinho e Giane. Torcia para que namorassem.
— É. — disse Silvério, sorrindo. — É sempre bom quando as pessoas se entendem, né?
— Eu tô preparando uma quiche. — disse Margot. — Aparece mais tarde com a Giane.
— Ah, vou sim. — disse Silvério.
— Então, tá. — disse Margot, afastando-se. Deu uma última olhada para Silvério, antes de ir embora.
Mais tarde, Silvério e Giane vieram jantar. Quando estavam no meio da sobremesa, Caio ligou para Giane.
— Ai, meu Deus, fica tranquilo, tá? — disse Giane, ao celular. — Eu tô indo praí. Tá bom. Tchau.
Giane desligou o celular e falou para Silvério:
— Pai, o pai do Caio morreu!
— Ih! — disse Silvério.
— Vamos lá dar uma força? Você vai comigo? — perguntou Giane.
— Claro. — disse Silvério.
Fabinho não gostou nada. Caio tinha de ligar naquela hora, interromper a sobremesa com uma notícia daquelas? Só para fazer Giane e Silvério irem embora mais cedo?
— Calma, gente. Vocês nem tomaram cafezinho ainda. Calma aí. — disse Fabinho.
— É porque ele não está segurando a barra. — disse Giane, levan-tando-se da mesa. — Ele perdeu a mãe cedo, o pai era um tosco. Ele tinha uma relação péssima. Tudo errado. Obrigada, viu, dona Margot?
Fabinho não estava conseguindo ser solidário com Caio neste momen-to. Caio não se dava bem com o pai, tinha raiva do pai, não queria nem saber do dinheiro do velho, agora iria chorar as pitangas e ainda chamar Giane para consolá-lo? No ponto de vista de Fabinho, isso soava meio hipócrita.
— Imagina. Nessas horas que a gente tem que prestar solidariedade. — disse Margot, indo abrir a porta para Silvério e Giane. — Vão com Deus! Vão com Deus!
— Tchau! Tchau, Fabinho! — disse Giane, saindo.
— Tchau, dona Margot! — disse Silvério, apertando a mão de Margot. — Estava tudo muito gostoso, viu? É... Vou fazer que nem cachorro magro, mas é que... O Caio éum bom menino. A gente vai dar uma força. — soltou a mão dela. — Fabinho, tchau! — acenou, e foi embora.
— Vão com Deus. — disse Margot.
Fabinho abanou a cabeça e resmungou:
— Esse Caio é um otário, cara. Eu não tô acreditando nisso. O cara não falava com o pai, aí o pai morre e vai ficar fazendo drama? Isso é um...
Margot estranhou a reação do filho. Será que ele estava com ciúmes?
— Será que... — disse Margot, e fez uma careta.
— O que foi? Que cara é essa? — perguntou Fabinho.
— Será que você não tá com ciúmes de uma certa garota?
— Que certa garota? Esse marginal... Você está louca? — perguntou Fabinho, levantando-se da mesa. — Você tá achando que eu tô a fim da Giane? Você tá muito louca!
Fabinho jamais falaria sobre seus sentimentos nem com a mãe, nem com ninguém. Morria de vergonha. Estava louco de ciúmes, mas não admitiria para ninguém.
Para Margot, o rapaz só estava negando o óbvio. Fazia algum tempo que ela havia percebido o interesse do filho na garota. Ele estava apai-xonado. Mas Fabinho sempre teve dificuldade de falar sobre seus senti-mentos. Fabinho sempre foi muito fechado, muito reservado. Nunca foi de contar as coisas para ela. Fabinho não tinha o costume de se abrir.
— Você não sai de perto dela. — disse Margot.
— Ela que não sai da minha cola. Tá louca? — disse Fabinho.
— E por que você ficou tão bravo porque ela foi embora? — perguntou Margot.
— Ah, você não consegue entender? É óbvio pra mim. Porque você passou a tarde inteira fazendo esse pudim maravilhoso e eles saem assim, de uma hora pra outra? — disse Fabinho, e Margot achou graça. — O que é isso? E não vem ficar falando isso não... — balançou o dedo indicador. — Que eu sei muito bem — balançou os braços, como se estivesse batendo asas — que quem está arrastando asinha pra não sei... É, o seu Silvério. — apontou para a vizinhança. — Pensa que eu... Aqui, ó, ó! — apontou para os olhos.
Margot riu. De bobo, o filho não tinha nada. O rapaz já percebeu um clima rolando entre ela e Silvério. E por que ela iria negar? Não estava fazendo nada de errado, e estava sozinha há tanto tempo, desde quando o marido morreu. Por muito tempo, viveu em função do filho. Agora, que o filho estava criando juízo, por que não pensar mais em si mesma?
— Mais um motivo! Fica tudo em família, né? — disse Margot.
— É, é. Eu não saio por aí pegando qualquer uma só porque eu tô na pior, não. — disse Fabinho, e Margot riu. — Tô de olho em você, hein, dona Margot?
— Tá. — disse Margot, rindo.
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