Um amor improvável

52 Sabotagem no bufê


Fabinho continuou na rua. Não saiu do lugar. Não conseguia acreditar no que acabou de acontecer. Giane o beijou. Mas por que ela havia feito isso? Será que ela estava gostando dele? Ou pretendia apenas consolá-lo?

Margot passou por ali. Ficou aliviada ao encontrar o filho. Sabia que ele havia ficado chateado com ela, por ter desconfiado dele. Pensando bem, ela não devia desconfiar. O filho estava criando juízo. Além do mais, foi Fabinho quem criou o slogan. Ele jamais entregaria uma ideia dele para o Natan.

— Meu filho, tô te procurando. É claro que eu acredito em você. — disse Margot. — Que motivo você ia ter pra prejudicar a agência? Deixa, eu vou falar com a Salma...

Fabinho estava aéreo. Era bom saber que a mãe acreditava nele. Mas não conseguia falar, nem pensar em mais nada. Ainda sentia o sabor dos beijos de Giane. Não era hora para discutir esse assunto.

— Tá, a gente conversa depois, mãe. — disse Fabinho, afastando-se.

— Filho, onde é que você vai? — perguntou Margot, aflita.

O rapaz não deu ouvidos. Continuou andando, e parou na frente da casa de Giane. Não conseguia tirar o beijo da cabeça. Queria falar com ela, mas ao mesmo tempo, não sabia o que dizer. Então ficou andando em frente à casa dela, e encostou-se no muro.

Irene e Plínio haviam acabado de sair da casa de Bento, e viram Fabinho encostado no muro da casa de Giane.

— Plínio, o Fabinho que tá ali. Eu... Eu vou dar um beijo nele. — disse Irene.

— Irene, não! — disse Plínio, porém, ela não deu ouvidos.

Plínio ainda não conseguia entender o carinho que Irene tinha por Fabinho, nem por que insistia em tratá-lo como filho.

— Fabinho! — disse Irene, sorrindo, correndo em direção a ele.

Fabinho virou-se.

— Oi, Fabinho! Como você tá? — perguntou Irene.

— Eu... Eu tô bem. — disse Fabinho, ainda meio aéreo. — Eu perdi meu emprego hoje. Rolou uma espionagem lá na agência, estão achando que fui eu.

— Peraí, como assim? Me explica direito. Talvez, eu possa ajudar. — disse Irene.

Plínio se aproximou.

— Não, acho que você não pode me ajudar, não. Obrigado. Obrigado. — disse Fabinho, afastando-se.

— Não, peraí! Fabinho! — disse Irene. Porém, Fabinho não deu ouvidos. Deixou Irene morrendo de pena dele.

Foi direto para casa. Continuava chateado por ter sido demitido. Mas não era nisso que estava pensando ao chegar em casa. Não conseguiu pensar em mais nada, nem em ninguém, a não ser em Giane. Sozinho em casa, sentou-se no sofá e ficou horas lembrando do beijo.

No dia seguinte, a mãe contou que foi falar com Salma e Gilson. Argumentou com eles, fez de tudo para convencê-los da inocência de Fabinho. Mas Érico estava irredutível. Continuava achando que foi Fabinho que entregou a campanha para o concorrente. Mas Fabinho resolveu deixar para lá. Não tinha jeito mesmo. Não adiantava argumentar com Érico. O jeito era tentar procurar outro emprego, se é que conseguiria. Mas depois pensaria nisso. Saiu de casa para ir à padaria.

Porém, a primeira coisa que fez foi ir atrás de Giane. Precisava conversar com ela sobre o que havia acontecido na noite anterior. Certamente, ela estaria colhendo as flores, como sempre fazia todos os dias. Acabou encontrando-a na praça, e viu que ela estava discutindo com Caio.

— Algum problema aí, Giane? — perguntou Fabinho.

— Não, a gente tá conversando. Dá licença? — disse Giane.

— Quem vai dar licença pro casalzinho agora sou eu, então. — disse Caio, irritado, e apontou para Fabinho. — É bom você ficar com esse cafajeste aí, Giane! Quem sabe, assim, você aprende a dar valor a quem presta?

— Do que ele tá falando? — perguntou Fabinho, sem entender nada. O que Giane havia falando para o Caio, para deixá-lo tão irritado? Será que Caio estava sabendo do que aconteceu na noite anterior?

— E eu lá sei? Mais um pirado na minha vida! — disse Giane, fugindo do assunto. — Agora, dá licença que eu tô trabalhando.

— Não, Giane. Eu só vou embora depois que a gente conversar sobre ontem.

— Não tem nada pra gente conversar. — disse Giane.

— Tem sim, Giane, você me beijou, você esqueceu?

— Larga do meu pé, que eu tô trabalhando. — disse Giane.

— Giane, eu só quero saber o porquê. Por quê que você me beijou?

— Porque eu fiquei com pena de você! Satisfeito?

Fabinho ficou magoado, ferido. Então ela o beijou por pena? Ele achou que ela podia estar gostando dele. Afinal, somente uma mulher apaixonada beijaria um homem daquela maneira. Mas pelo visto, ela não gostava dele do jeito que ele gostava dela. Tudo o que ela sentia por ele era pena. Nem conseguiu dizer nada. Afastou-se. Giane disse, atrás dele:

— Fabinho, peraí! Eu... Eu não queria... Droga!

Não deu ouvidos. Ficou andando pela rua, a caminho da padaria. Estava chateado com Giane, e também por ter sido demitido. Agora que estava sem emprego, tinha todo o tempo do mundo para pensar em como seria sua vida dali para a frente. Achava que dificilmente conseguiria um bom emprego, depois do que havia acontecido na Crash Mídia. Dificilmente alguém daria um voto de confiança a ele.

Passou na padaria, fez compras. Estava andando na praça, subindo as escadas, carregando duas sacolas, quando ouviu Érico atrás dele:

— Ô Fabinho, vem cá.

Fabinho olhou para trás, subiu alguns degraus e parou. Érico disse:

— Fala pra mim uma coisa: o quê que você fez com a Amora?

Do que o Érico estava falando? Ele, Fabinho, nem esteve com Amora, nem falou com ela. O Érico só podia estar ficando maluco.

— Nada, não fiz nada com a Amora. — disse Fabinho.

Érico não acreditou. Amora disse que Fabinho andou ameaçando-a. No ponto de vista de Érico, Amora não tinha por que inventar algo assim. Além do mais, Fabinho vivia azucrinando Bento e Amora, desde criança.

— Olha aqui, você para de mentir e me escuta. — disse Érico, apontando para ele. — Se você aprontar alguma coisa pra Amora, não vai ser o Bento que vai acertar as contas com você não, viu? Sou eu.

Fabinho logo imaginou que a Amora andou inventando histórias a respeito dele. Já estava colocando a vizinhança contra ele. Fabinho não conseguia entender por que Amora o perseguia. Ela já não se vingou? Ela não conseguiu tudo o que queria? Não se casou com o Bento, que ficou milionário? Então, por que ela não cuidava da própria vida e o deixava em paz? Ele, Fabinho, estava quieto, na dele. Era impressionante a vontade que Amora tinha de destruí-lo. E tudo por ele tê-la difamado. Nunca pensou que Amora pudesse ser tão rancorosa. À essa altura, ninguém se lembrava mais daqueles escândalos. E ela podia reconstruir a carreira, voltar para o Luxury na hora que quisesse. Não havia nenhum impedimento. Até porque ela continuava fazendo de tudo para limpar a imagem dela. Foi um dos motivos pelo qual ela fez aquele falso bazar. Ela foi até a Toca do Saci se oferecer como voluntária, e chamou a imprensa. O que ela queria era mostrar para o Brasil inteiro o quanto era boazinha e caridosa, e convencer Bento de que ela realmente mudou. Só que Malu sacou na hora quais eram as intenções de Amora. Por isso Malu quis obrigar Amora a vender todos os seus sapatos e doar a renda para a ONG. Amora foi obrigada a fazer o bazar, do contrário, Malu diria à imprensa que ela era uma oportunista. Só que o bazar era fake. Amora não vendeu um único sapato, e deu um cheque de três mil reais para Malu, para disfarçar.

Mas Fabinho ainda não entendia o porquê de tanto ódio. Só porque ele destruiu a imagem dela? Tudo bem, ele errou. Mas ainda assim, não entendia por que Amora ficava com esse rancor todo. O que ele destruiu foi uma imagem falsa. Se tratava de uma imagem que nem correspondia à realidade. Porque se Amora não era a vagabunda que traía o noivo com homens casados, também não era a Madre Tereza de Calcutá que ela tentava parecer ser. Amora adorava aparecer, se fazer de boazinha para a mídia, a boa samaritana que gostava de ajudar os outros. Ora se fazia de heroína, ora de vítima. Primeiro ela posou de heroína salvadora do Bento, agora estava se fazendo de coitada e colocando a vizinhança contra ele, Fabinho. Ela fazia de tudo para ser admirada pelas pessoas, ou para as pessoas ficarem com pena dela. Até porque ela aprendeu muito bem com a mamãezinha adotiva, que adorava posar de heroína salvadora de crianças carentes. Mas de santa, de boazinha, Amora não tinha nada. Era uma víbora. Só mesmo sendo muito otário para não enxergar. Mas se Amora queria ficar o tempo todo fingindo ser quem não era, mostrando para o mundo que tinha uma vida perfeita, a culpa não era dele.

Agora, até o Érico resolveu defender aquela cobra. Érico realmente enlouqueceu. Era de se esperar que Bento tomasse partido da Amora, mas o Érico? Érico não ia com a cara da Amora. Pelo visto, o Érico estava ficando cego pelo rancor. Érico achava que ele, Fabinho, havia entregado a campanha da Tratore para o concorrente, agora estava achando que ele havia feito alguma maldade com Amora e resolveu tomar as dores da víbora. Érico era um otário, caía facilmente na conversa da Amora.

Giane chegou neste momento e viu Érico e Fabinho discutindo.

— Érico. — disse Giane, e Érico, que estava de costas para ela, virou-se. — Você não vai ameaçar o Fabinho, muito menos por causa da Amora, cara. Senão, eu tô fora das campanhas da sua agência. Entendeu?

Fabinho ficou feliz. Não podia acreditar. Giane estava colocando o emprego dela em risco para defendê-lo. Aquele beijo não foi por pena. Ela gostava dele. Talvez fosse louca por ele como ele era por ela.

— Tudo bem, tudo bem. Você vai ficar defendendo o bandidinho aqui agora, é isso? — perguntou Érico, apontando para Fabinho.

— Bandida é a Amora, cara. Se você não tivesse tão doido da sua cabeça, você não tinha demitido o Fabinho nem tomado as dores daquela cobra.

— Então, tá. Fica dando mole pra esse marginal, pra ver o quê que vai te acontecer. — disse Érico.

— Érico, eu não sou um marginal e eu também não te traí. — defendeu-se Fabinho. — Você tem que ficar de olho na Júlia, porque ela tá saindo com o Edu. Antes de você ter me demitido, na noite anterior, eu vi os dois juntos.

No ponto de vista de Érico, era mais provável que tenha sido o Fabinho que entregou a campanha da Tratore para o Natan. Fabinho era um vigarista e certamente entregou a campanha em troca de alguma quantia em dinheiro. Júlia era uma tonta, mas não era pilantra. Não dava para achar que a Júlia entregou a campanha, só porque ela estava saindo com Edu. Fabinho não era de confiança e a palavra dele de nada valia.

— Você até pode enganar a Giane. Só que a mim, você não engana não, tá bom? — disse Érico, e subiu as escadas, passando por ele. — Tô de olho em você, hein, moleque?

Fabinho desistiu de argumentar, até porque era inútil. Ele não tentaria provar nada para o Érico. Até porque se ele tentasse, Érico iria achar que ele estava armando, forjando provas de inocência. Se Érico achava que ele era um bandido sem conserto, problema dele. Um dia a verdade iria aparecer. Se nem ele, que era esperto, conseguiu esconder nada por muito tempo, a Júlia, que era uma tonta, não conseguiria esconder a vida toda que foi ela quem entregou a campanha para a concorrência.

Assim que Érico foi embora, Fabinho aproximou-se de Giane.

— Valeu por ter me defendido. — disse Fabinho.

— O que é justo, é justo. — disse Giane.

— Ah, é? Pensei que você tivesse com pena de mim que nem no dia que você me beijou. — provocou Fabinho.

— Eu não tenho pena de você, não. Às vezes eu tenho é muita raiva. — disse Giane, irritada, subindo as escadas.

Fabinho sorriu. Ela estava a fim dele, sim. Só não queria admitir.

À noite, Irene apareceu na casa de Margot, para ver Fabinho. Veio dar uma força para ele. Afinal, ele estava passando por um momento difícil. Acabou de perder o emprego. Não estava sendo nada fácil para ele.

— Como é que você tá, meu filho? — perguntou Irene.

— Sozinho. — disse Fabinho. Era como se sentia.

Margot não concordava. O filho precisava ver que não estava sozinho nunca.

— Você tem a mim e a Irene. A gente vai estar sempre do teu lado.

— E você tem a Giane, também. — disse Irene. — Foi ela que me ligou e pediu pra eu vir aqui te dar uma força.

— E por quê que ela não veio então? — perguntou Fabinho.

Não conseguia entender. Giane parecia estar evitando-o. Aliás, não parecia. Ela estava fugindo dele. Depois que se beijaram, toda vez que ele tentava se aproximar, ela fugia. Não olhava direito na cara dele nem queria papo. Ele não tinha feito nada de errado. Foi ela quem o beijou. Se Giane gostava dele, por que fugia? Ele nunca viu mulher mais complicada. Por mais que tentasse, nunca iria conseguir entender a cabeça de uma mulher.

— Porque as mulheres tímidas às vezes se expressam por vias um pouco tortuosas. — disse Irene. — Mas ela ter me ligado significa que ela se preocupa muito com você e que ela queria estar aqui.

— Por quê que ela não vem dizer isso na minha cara? — perguntou Fabinho.

Irene sorriu. Estava na cara que o garoto estava apaixonado. E ela tinha percebido que Giane também gostava dele. Era só ver o jeito como ela olhava para Fabinho, o quanto ela se preocupava e se importava com ele.

— Porque não é todo mundo que consegue ser explícito em relação ao que sente. Mesmo que o sentimento seja muito forte. — disse Irene, fazendo um carinho no cabelo dele.

No dia seguinte, Fabinho se levantou um pouco mais tarde. A mãe já havia saído. Fabinho ficou do lado de fora de sua casa, observando os vizinhos, que estavam colhendo as flores da rua, como sempre. Olhou para Giane, que estava fotografando tudo o que via, como de costume. Ela estava ao lado de Bento, Gilson e Salma. Ela também olhou para ele. Mas logo saiu. Fabinho imaginou que ela estava indo para a loja. Mais tarde, quando ele estava na praça, sentado nas escadas, Giane aproximou-se e sentou-se ao lado dele.

— Falei com o seu Leal da padaria e ele disse que quer te empregar.

Fabinho chegou à conclusão de que Giane realmente se importava com ele. Até arrumou um trabalho.

— Valeu por se importar comigo. — disse Fabinho.

— Só acho que o que estão fazendo com você é uma sacanagem.

— Oi, oi, gente! Posso ajudar em alguma coisa? — ouviram Nestor falar com Amora e Simone, que chegaram naquele momento.

Simone, a irmã de Amora, havia passado a noite no hospital. Toda a vizinhança ficou sabendo que Simone estava muito doente. Tinha leucemia. Amora passou a noite ao lado da irmã. Pelo visto, Simone já estava melhor.

Simone sumiu por algum tempo, mas agora estava morando na Casa Verde com os filhos. Ela se mudou para a casa de Madá e Emília. Simone e os filhos estavam morando com Tina. Madá e Emília agora viviam na mansão de Malu.

— Ai, obrigada. Eu agradeceria se o senhor me ajudasse com a minha irmã. — disse Amora. — Obrigada, seu Nestor. Deixa eu levar a sua bolsa. — pegou a bolsa de Simone e pendurou-a no braço.

Nestor e Amora ajudaram Simone a andar. Foram caminhando pela rua. Giane e Fabinho observaram. Fabinho perguntou:

— Você acha que esse lance da Amora com a irmã é verdade?

— Pode até ser. Mas é melhor continuar de olho. — disse Giane. — Com essa aí, é bom não descuidar.

Giane ainda estava de pé atrás com Amora. Não podia ser diferente, pois Amora já aprontou demais e até pouco tempo atrás, tratava mal a irmã.

Fabinho foi à padaria conversar com Leal. Giane foi para a loja. Na padaria, Fabinho acabou assistindo ao programa da Sueli Pedrosa. A festa de aniversário da Sandrona, que estava sendo realizada no bufê do Wilson Rabelo, havia terminado em tragédia. Houve um acidente com os brinquedos do bufê. Muita gente se machucou. Sandrona era uma ex-funcionária do parque que havia se tornado celebridade.

Ao sair da padaria, Fabinho viu Gilson, Salma e Amora conversando. Certamente, conversavam sobre o que acabou de ocorrer no bufê. Os sobrinhos de Amora estavam no meio da confusão. Logo Gilson e Salma se afastaram, deixando Amora sozinha. Fabinho notou que ela estava nervosa. Até fuçou no celular. Fabinho logo suspeitou de Amora. Ele achou estranho o que havia acontecido no bufê. Não foi apenas um brinquedo que quebrou, mas vários, e todos ao mesmo tempo. Certamente, alguém sabotou os brinquedos do bufê. Só podia ser isso. E o comportamento de Amora era muito suspeito.

Será que Amora pagou alguém para fazer o serviço? Fabinho sabia que Amora odiava Wilson. Bento e Wilson tinham uma rixa antiga. Viviam batendo de frente, desde quando Bento era pequeno. Quando Bento estava fazendo dez anos, Gilson resolveu levar todas as crianças do lar para o parque de diversões de Wilson, o Kim Park. Porém, o parque estava fechado para a comemoração do aniversário do filho de um político. E Wilson não quis misturar crianças carentes com as crianças ricas, filhas de políticos. Por isso não permitiu a entrada de Bento e outras crianças no lar. Expulsou todas aos berros. Tratou Gilson, Salma e toda a criançada com a maior grosseria, como se os órfãos fossem seres inferiores, marginais. Desde então, Bento e Wilson viviam brigando. Por isso Amora tinha muita raiva de Wilson. Além do mais, Wilson havia desmascarado Amora.

Amora havia realmente mandado a irmã e os sobrinhos sumirem da sua vida. Ofereceu dinheiro, e como Simone não aceitou, ela fez ameaças. Por isso Simone e as crianças não apareceram mais na Casa Verde. Amora inventou uma história para explicar o sumiço de Simone. Simone estava até trabalhando na Para Sempre. No dia do casamento de Franklin Cardoso e da Lara Keller, Amora mandou a irmã sumir da Para Sempre, para não cruzar com Bento. E foi Wilson quem contou para Bento que Simone estava trabalhando na Para Sempre e que Amora a botou para correr. Amora devia estar com muito ódio do Wilson. Era bem capaz de ter mandado sabotar o bufê para se vingar. Fabinho achava que Amora era capaz de tudo. Afinal, ela tacou fogo na Toca, colocou em risco a vida do Bento só para posar de heroína, bancar a boazinha. Ela não iria se importar de machucar crianças para prejudicar o Wilson, afinal, isso era fichinha para quem já colocou em risco a vida da pessoa que dizia amar.

Horas depois, Fabinho foi à Acácia Amarela. Viu que Giane estava tirando foto das flores que estavam expostas nas vitrines. Fez uma pose. Giane o fotografou. Achou graça.

— Não queria uma foto bonita? Conseguiu, aposto! — disse Fabinho, entrando na loja. — Vê se eu fiquei galã, aí. Eu sou galã, né? Sabe que eu sou galã!

— Palhaço! Conseguiu o emprego lá na padaria? — perguntou Giane. — Consegui, trabalho amanhã. — disse Fabinho.

Giane assentiu.

— Vem cá, aquela foto de eu jogando bola, cadê? Deixa eu ver. — disse Fabinho.

— Ah, já apaguei, pra que eu ia guardar aquilo? — disse Giane.

Fabinho não sabia mais o que fazer para acabar com o clima estranho. Sabia que ela havia ficado sem graça. Ele também ficou sem jeito, sem saber como agir, depois do beijo. Afinal, embora ele tenha saído com mulheres, e tenha tido até algum sucesso com elas em questões de pele, não tinha muita experiência quando se tratava de sentimentos. Com Giane era diferente, ele gostava dela de verdade. Mas não haviam feito nada demais. Nada do que devessem se envergonhar. Eles tinham se beijado, mas e daí? Não era coisa de outro mundo.

— Giane, vem cá. A gente vai ficar com esse clima idiota até quando, hein?

— Quem manda você só me procurar quando eu tô ocupada? — disse Giane, continuando a fotografar as flores.

— Ah, valeu! É, quem vê pensa, né? — disse Fabinho. — Até parece que eu sou um mané que fico implorando a sua atenção. Nem parece que foi você que me beijou naquele dia.

— Eu? Você tá muito louco! Imagina que eu te beijei! — disse Giane.

Deu para ver que Giane estava morrendo de vergonha.

— Ah, então tá. Então, nós nos beijamos. — disse Fabinho. — Giane, mesmo assim, né, por favor. Esse clima não tem nada a ver. Foi só um...

— Fala! Só um beijo. Besta, banal, ridículo, eu também acho. — disse Giane. — Pra quê que a gente vai ficar falando disso, então?

Ele percebeu que Giane ficou chateada. E se ela ficou chateada, era porque gostava dele. O beijo significava muito para ela. Mas ele não pretendia dizer que o beijo foi algo banal. Apenas que não tinham feito nada de errado. Não precisavam ter vergonha nenhuma. No ponto de vista de Fabinho, não fazia sentido ficar naquele clima.

— Não, você tá distorcendo. Eu não falei isso. Para de ser difícil. — disse Fabinho.

— Foi você que disse, ué, que nunca se apaixonou. — disse Giane, e continuou a fotografar as flores.

Para Fabinho era difícil falar sobre seus sentimentos. Acostumou-se a negá-los. Por isso não disse a Giane que estava apaixonado por ela.

— É verdade. Eu nunca me apaixonei mesmo! — disse Fabinho. — Mas eu sinto sua falta!

Olhou para o lado e viu que ela estava sorrindo.

— Agora fala pra fora que eu não ouvi nada. — disse Giane.

— Eu falei, pivete, que sinto a sua falta. — disse Fabinho.

— Ah, é? — disse Giane, toda derretida, olhando para ele.

— É. — disse Fabinho.

— É a declaração mais grossa que eu já ouvi em toda a minha vida.

— E eu não deveria ter vindo aqui perder meu tempo com você.

— Ah, é, é?

— Tchau. — disse Fabinho, afastando-se.

— Peraí! Peraí! Deixa eu tirar uma foto sua no meio das flores.

— Que tirar foto minha com flor, tá maluca? Me respeita!

— Ué. É o contraste entre a delicadeza e a brutalidade, entendeu? — disse Giane, e Fabinho sorriu.

— É. — disse Fabinho, assentindo.

— Deixa eu ajeitar o seu cabelo. — disse Giane, e foi mexer no cabelo dele.

— Não, não, não, para, para, para, tá maluca? Sai. — disse Fabinho, tirando a mão dela. Giane gargalhou.

— Vai. — disse Giane, fotografando-o ao lado das flores. — Agora, eu tenho uma prova fotográfica de que você sabe sorrir. — aproximou-se e tropeçou.

— Ai. — mostrou a fotografia para ele. — Ah, moleque! Vai lá, vai lá!

Giane tirou outra foto dele ao lado das flores. Fabinho continuou na loja, ajudando-a, organizando os vasos de flores. Bento havia ido ao hospital e ainda não voltou. André, filho da Simone, havia machucado o pé. Ele havia ido ao aniversário da Sandrona, no bufê do Wilson, e se machucou ao brincar na piscina de bolinhas. Fabinho não queria confusão com Bento. Perguntou:

— Você tem certeza que o sócio fofolete não vai aparecer por aí não, né?

Giane não respondeu. Mesmo porque não era a primeira vez que Fabinho fazia essa pergunta, e ela garantiu que Bento não apareceria na loja. Não enquanto ele não tivesse certeza de que estava tudo bem com André.

— Você viu a Amora toda boazinha com a irmã? — perguntou Giane, enquanto fazia um arranjo de flores. — Isso é pra vizinhança comentar com o Bento e ela sair bem na foto.

— Ela vai acabar se estrepando por conta própria. — disse Fabinho.

— Sei lá... Tenho medo. Tenho medo dessa pilantra se dar bem pra sempre. — disse Giane.

Mas Fabinho achava que Amora não conseguiria esconder suas tramoias para sempre. Um dia, todos ficariam sabendo das armações dela. Amora podia até se achar muito esperta, mas não conseguiria se safar por muito tempo. Foi o que aconteceu com ele. Ele também se achava muito esperto e que ninguém descobriria suas armações. Mas ele acabou levando uma rasteira.

— A Amora é muito confiante, né? Que nem eu já fui um dia. — disse Fabinho. — E se tem uma coisa que eu aprendi, é que gente assim acaba tomando uma rasteira da vida.

Mais tarde, ao andar pela rua, Fabinho viu Amora falar ao celular. Resolveu se aproximar, sem que ela percebesse. Ouviu ela dizer:

— Eu não sei como aconteceu! Eu também não sei! Deve ter sido outra pessoa.

Amora olhou para trás e ao vê-lo, deixou cair o celular.

— Ai, que susto, seu desgraçado! — disse Amora, juntando o celular do chão e dando um tapa nele.

— Meu Deus, o que te deixou tão apavorada assim? — perguntou Fabinho, cinicamente. — Ah, já sei, deve ser um certo bufê.

— Você tá louco? Eu quero é distância daquele lugar furreca!

— Será, Amora? Será que você não resolveu sabotar o bufê do cara pra se vingar do que ele fez com você, do que ele fez com o maridão, né? Eu conheço você. É vingativa. Eu já sofri na pele. Wilson Rabelo que se cuide, Amora Campana tá na área. — disse Fabinho, debochado.

— Cala a boca, seu marginal! — disse Amora. — E olha só, se você inventar mais alguma mentira ao meu respeito e espalhar por aí, eu não vou ser boazinha como eu fui da outra vez, não. Eu vou acabar com a sua vida!

— Eu acredito. Eu sei. Amora Campana não perdoa, Amora Campana mata.

— Você tá avisado, Fabinho. Se você me encontrar na rua, eu acho melhor você mudar de calçada. — disse Amora.

— Por quê? Sou tão bonitinho. Você não acha, não? Tem gente que gosta.

A Giane, por exemplo, gostava. Assim pensou Fabinho.

— Ridículo! Imbecil! — xingou Amora, e foi embora.

À noite, quando Fabinho voltou para casa, a mãe estava preparando o jantar.

— Filho, eu tô tirando o jantar mais cedo, como você pediu. — disse Margot.

— Tá bom, mãe. Obrigado. — disse Fabinho. — Tem que dormir cedo porque seu Leal pediu pra eu chegar 4 horas da manhã na padaria. — encostou-se na parede, perto do balcão da cozinha. — Vida de peão, dona Margot.

— O Érico vai reconhecer a injustiça que ele cometeu e vai te chamar pra trabalhar na agência, de novo. — disse Margot.

Em outros tempos, Fabinho se vingaria do Érico por tê-lo demitido. Só que agora achava que não valia a pena. Não queria mais problemas. Já chegava os que tinha. Além do mais, estava fazendo de tudo para mudar, para melhorar. E não podia culpar o Érico por desconfiar dele. Seu histórico não ajudava. Ele havia aprontado demais. As pessoas ainda estavam de pé atrás com ele. Agora percebia que foi injusto com Érico no passado, quando fez a cabeça de Natan para demiti-lo. Achava que estava pagando pelo que fez. Tudo bem, acabou sendo para o bem. Afinal, Érico acabou montando a própria agência em sociedade com Sílvia. Mas Fabinho agora se dava conta de que não precisava ter feito a cabeça de Natan para demitir o Érico. E tudo para se vingar, porque Érico tomou partido de Bento, e tentar impressionar um homem que o tratou feito lixo.

— Tudo bem, já passou. Vou tomar banho. — disse Fabinho.

— Ó, ó, a Giane deixou uma lembrança pra você. — disse Margot, entregando um cartão a ele.

— Lembrança? — disse Fabinho, olhando para a figura no cartão. Era uma foto de pães. Ele virou o cartão e viu que Giane havia escrito um recado.

— “Boa sorte amanhã!” — Fabinho leu, e sorriu.

Mais tarde, Fabinho estava na sala, com a televisão ligada no futebol. Já havia tomado banho e jantado. Mas não estava prestando a menor atenção ao jogo. A cabeça estava distante dali. Só conseguia pensar em Giane. Estava lembrando de todos os momentos ao lado dela. De quando eram crianças e brincavam juntos. Ela sempre zombou da sua falta de jeito para jogar bola. Lembrou-se também de quando, já adultos, jogaram bola naquele mesmo local onde se beijaram. De quando escorregou e caiu em cima dela. Lembrou-se da noite em que ficaram olhando a lua. Ela perguntou se ele nunca se apaixonou por ninguém. Até sugeriu que ele pedisse um amor à lua.

Fabinho resolveu ir até a casa de Giane. Precisava vê-la, dizer o que sentia. Abriu a porta da casa dela, sem bater.

— Amanhã tem estúdio, hein! Não esquece! — disse Caio.

— Tá bom. Até amanhã. — disse Giane.

Caio olhou torto para Fabinho, antes de ir embora. Fabinho fechou a porta. Não gostou nada de ver Caio ali. Aquele otário estava sempre atrás da Giane.

— Você fica aí fazendo doce, mas depois você vai pro estúdio do riquinho, né? Pra pagar de modelete. — disse Fabinho.

— Fabinho, se você veio encher o saco, então, você dá meia-volta e vai embora, por favor. — disse Giane, irritada.

— Você não tá nem aí pra esse cara, né? — perguntou Fabinho. Afinal, Caio podia até querer voltar com ela, mas ela só o dispensava.

— Nem pra ele e nem pra ninguém. Agora, dá licença? Dá licença? Vai, vai, vai, vai! — disse Giane, expulsando-o. Porém, Fabinho não foi embora.

Fabinho não acreditou no que ela disse. Não era verdade que ela não estava nem aí para ninguém. Ela estava era negando o que sentia por ele. E estava na hora de ela parar de fugir, de negar o sentimento. Não adiantaria ela enxotá-lo.

— Giane, por quê que você me beijou? — perguntou Fabinho.

Giane suspirou.

— De novo essa história, Fabinho? Olha só, você é o último cara do mundo por quem eu me interessaria. — disse Giane.

Era mentira. Quem muito desdenha, quer comprar, e disso ele sabia por experiência própria. Ele também sabia que Giane gostava dele. Do contrário, não teria se atirado nos braços dele, tascado aquele beijão nele. Não teria mandado aquele cartão desejando boa sorte. Por que ela não assumia? Já que ela não assumia, ele também não diria nada e faria de conta que não ligava a mínima para ela.

— Ah, é? Você também é a última mulher do mundo por quem eu me interessaria. — disse Fabinho. Queria só ver a reação dela.

— Ah, é? — disse Giane. Deu para ver que ela não gostou de ouvir.

— É.É. — disse Fabinho, chegando junto dela e agarrando-a pela cintura. — Mas você sabe... — inclinou-se e a beijou com paixão. Não resistiu.

A princípio, Giane se entregou ao beijo, porém, logo o empurrou.

— Para, Fabinho! Você tá louco? — disse a garota, passando as mãos no cabelo.

— Não tô louco. Você me beijou daquela vez, quem te beijou agora, fui eu. — disse Fabinho, tentando agarrá-la.

— Para! Você tá me zoando? — disse Giane, afastando-se. — O quê que você quer, hein?

— Não tá claro o que eu quero? Não tá? — disse Fabinho, agarrando-a, puxando-a para si. — Eu quero você! — distribuiu beijos pelo queixo e pelo pescoço dela. Pela reação do corpo dela, estava na cara que ela também o queria. Dava para sentir isso. Só que ela estava resistindo bravamente.

— Para! Para, Fabinho! Vai embora! Vem! — disse Giane, puxando-o pela mão e arrastando-o.

— Não vou embora! Não vou embora! — disse Fabinho.

— Vai embora! — disse Giane.

— Então vem comigo! — disse Fabinho.

— Vai embora! — insistia Giane.

— Então vem comigo! — disse Fabinho, agarrando-a.

— Não! Vai embora! Por favor! — disse Giane, rindo, enquanto ele a empurrava contra a estante.

Fabinho beijou-a no rosto. Giane o empurrou.

— Vai! Vai! Vai embora! — disse Giane, gargalhando, abrindo a porta e empurrando-o.

O rapaz não foi embora de imediato. Ficou plantado na frente da porta, sem conseguir tirar o sorriso do rosto. Até deu uma olhada na janelinha da porta, antes de resolver ir embora. Continuava sorrindo. Ela já sabia o que ele sentia. Agora, a decisão estava nas mãos dela.