Um amor improvável

33 Resultado do exame de DNA


No dia seguinte, Fabinho acordou cedo. Era o dia em que ele saberia o resultado do teste de DNA. Ele tinha certeza de que daria positivo. Ele, Plínio e Irene iriam ao laboratório pegar o resultado do exame. Porém, antes, Fabinho resolveu passar na Casa Verde.

Fabinho desprezava, tinha verdadeiro horror daquele lugar, daquelas pessoas, daquele mundo pequeno e mesquinho. Ele pretendia apagar para sempre tudo o que existia naquela rua. Para ele, a Casa Verde não era um lar, um lugar do qual ele pudesse se lembrar com carinho ou orgulho. A Casa Verde para ele seria sempre o cenário de um passado traumático, da miséria, da exclusão e da rejeição. Ele queria desesperadamente deletar.

O lugar lhe trazia péssimas lembranças. Não havia uma única lembrança boa que suavizasse. A criançada da rua e do lar o excluía das atividades, das brincadeiras. As crianças não o deixavam participar. Se às vezes o toleravam, era só porque Bento pedia. E ainda por cima o chamavam de Fraldinha. Ele odiava esse apelido. As crianças zombavam dele, riam dele sempre. E os adultos nada fizeram para mudar isso. Os adultos permitiam que ele fosse humilhado com apelidos e exclusão, e não intervinham, porque para eles o que a molecada fazia era coisa de criança ou uma reação justificada ao temperamento difícil ou ao comportamento problemático dele. Fabinho sentia que sempre foi chutado como cachorro, e não havia ninguém que o protegesse e o defendesse.

Fabinho reconhecia que não era uma criança fácil. Ele era visto como alguém antipático, insuportável, de difícil convivência. Ele não tinha o carisma, a doçura e o alto astral de Bento. Todos achavam que ele era invejoso, encrenqueiro, fofoqueiro, mentiroso. Ele vivia brigando com o Bento. As crianças podiam ter as razões delas para fazer o que faziam, mas isso não significava que ele tinha de aceitar, aguentar todas as humilhações calado. Ninguém no lugar dele iria se sentir bem. O problema era que como a molecada não achava ele um menino bacana, e como não gostavam dele, achavam que estava tudo bem zombar dele, humilhá-lo, excluí-lo.

Fabinho passou a infância inteira escutando que ele não prestava, que ele infernizava todo mundo, que ele só dava problema. As pessoas ali só sabiam reclamar dele, criticá-lo, apontar defeitos nele. Um vacilo dele, por menor que fosse, era para aquele pessoal a confirmação de que ele não valia nada. Ele não se lembrava de ter ouvido um único elogio dos adultos. As pessoas o comparavam constantemente a Bento. Bento era o queridinho de todos, o líder, sempre chamado nas brincadeiras das crianças. Era o favorito dos donos do lar. Bento era sempre admirado, elogiado pelos adultos. Ele, Fabinho, sempre rejeitado, o eterno excluído, e era sempre alvo de chacota. Ele era sempre a ovelha negra, o rebelde. Dele só falavam mal. E depois era fácil, muito fácil para aquela gentinha julgá-lo um mau-caráter, um ingrato por ele não ter aparecido mais lá, nem dado notícias. O que esperavam? Fabinho jamais seria grato por ser chutado como cachorro a vida inteira. Por ter sofrido as humilhações que sofreu. Jamais seria grato por ser apenas suportado. Para ele, aquela gente não existia.

Na visão de Fabinho, aquele povo negou a ele o afeto quando ele mais precisava. Agora, Fabinho não queria mais o afeto nem a aceitação daquele povo. O que ele queria era o amor da família biológica, que ele considerava superior. Contudo, nem o amor da família biológica ele conseguiu ter. Fabinho acreditava que o destino dele era ser rejeitado. Mas nada o deteria. Ele queria era odiar, se vingar, destruir a Casa Verde inteira.

Para Fabinho, agora era a hora da vingança. Fabinho mostraria a todos que venceu, estava por cima. Iria pisar naquela gente sem dó nem piedade, humilhá-los como ele havia sido humilhado. Eram um bando de favelados, de nível inferior ao dele. E como ele desprezava aquela gente! Aquele povo iria se arrepender de não o ter tratado melhor.

Fabinho pegou um táxi e foi até a Casa Verde. Chegando lá, desceu do táxi e cumprimentou todas as pessoas que estavam na rua colhendo flores.

— Tudo bem, querida? Bom dia. — disse Fabinho, e foi cumprimentando a todos. — Bom dia, bom dia. Que fofinho isso, né? Cachorrinho. Todo mundo acorda pra colher florzinha, que legal, tudo bem?

— O que você tá fazendo aqui, Fabinho? — perguntou Giane. — Tá querendo apanhar de novo, é?

Fabinho se ressentia de Giane, mais do que de qualquer outra pessoa ali, com exceção de Bento. Depois de Bento, ela era a pessoa que Fabinho mais desprezava, porque ele gostava dela, e ela o rejeitou. Ela foi a única criança a quem ele havia se apegado naquele lugar, mas o afeto que um dia sentiu por ela, que era o que ele tinha de mais verdadeiro, acabou se transformando em ódio, em rancor. Não foi à toa que ele tentou primeiro comprar a Acácia Amarela, antes de tentar comprar a rua.

A raiva que sentia dela aumentou com o tempo. Só o que Giane fazia era bater nele, provocá-lo, humilhá-lo. Se ele a tratava mal, era porque ela também o tratava mal. Ela o humilhou quando ambos eram crianças, causando um trauma profundo nele. Ela chutou a bola dele, e o carro passou por cima. Nada tirava da cabeça de Fabinho que ela fez de propósito, porque não gostava dele. Ela não ligou para o que ele sentiu, nem pediu desculpas e ainda o chamou de fresco. Ela tratou a tristeza dele por ter perdido a bola como bobagem, fraqueza, como se o sentimento dele não tivesse importância alguma e ele fosse inferior, menos homem por ter chorado. Ela não entendia que a bola era tudo o que ele tinha. Ou pensando melhor, ela sabia, mas destruiu a bola mesmo assim. No pensamento de Fabinho, se Giane gostasse dele e o enxergasse, não teria feito nada disso. Mas ela não deu importância ao ocorrido e nem demonstrou pesar por tê-lo magoado e destruído o único brinquedo dele.

Ele nunca mais foi o mesmo depois daquele dia. Ficou doente. No ponto de visa de Fabinho, Giane nunca teve um pingo de afeto por ele. Só brincava com ele para posar de boazinha. Giane só queria saber do Bento. Ela sempre foi a sombra dele, vivia grudada nele como carrapato, defendia o Bento com unhas e dentes. Ela tratava Bento e ele de maneira diferente. Ela puxava o saco do Bento e tratava ele, Fabinho, como lixo. Ela sempre o humilhava para defender o queridinho dela. Por isso Fabinho não queria nem lembrar que ela existia. Ele não queria sentir atração por ela. O que ele queria era que ela pagasse pelo que fez a ele.

Aquela garota que estava ali não era Giane. Era Gianderson Silva. Para se proteger, Fabinho fingia que ela era outra pessoa. Fazia isso também porque tinha prazer em provocá-la, em irritá-la.

— Não, calma aí, Gianderson Silva. — disse Fabinho. — Eu vim fazer uma nova oferta. Que aliás, é pra todo mundo aqui. Tô querendo comprar a rua. Como é que faz? Pode falar o preço, que eu pago, pode falar, vai lá.

Giane riu. O moleque só podia estar louco. Não era possível.

— Como é que é? — disse Lili.

Para Fabinho, não existia nenhum Lili. Nunca pronunciava o nome de ninguém dali. Ou quase ninguém. Fabinho não se importava em ofender as pessoas. Ele foi muito ofendido na infância, e continuava sendo.

— É isso mesmo, tio Bibão. Quanto é que vale teu muquifo? — perguntou Fabinho.

— E pra que você quer comprar a rua inteira, seu metido? — perguntou Nestor.

Fabinho jamais diria o verdadeiro motivo. Ele não conseguia nem falar sobre o assunto. Além disso, ele não se permitia fraquejar.

— Sabe o que acontece, querido? — disse Fabinho. — Esse negócio de pracinha, casinha, acabou, gente! Agora é condomínio de luxo. Eu vou levantar aqui prédio, sauna, quadra de tênis...

— Vai pra tua casa e deixa a gente trabalhar. — disse Gilson. — Aqui ninguém vai vender nada.

— Aí que você se engana, tio Gilson. — disse Fabinho. — Os seus vizinhos de trás e do lado já fecharam negócio comigo. Então, vamos imaginar: isso aqui tudo em obra e a tua casa ilhada. E vai ter barulho, vai ter sujeira. Ó, vamos fazer o seguinte: promoção, promoção relâmpago, hein? O seguinte: fechou negócio comigo, ganha convite pra minha festa, e aí?

Fabinho faria de tudo, qualquer coisa para expulsar aquelas pessoas dali. Ele tinha ódio daquele pessoal. Por causa daquela gente, ele estava doente. Aquele pessoal simplesmente não existia para ele. Fabinho desejava que sumissem todos. Eles iriam pagar por anos de sofrimento naquele lugar horrível. Na visão de Fabinho, tudo o que aquela gente deu a ele a vida inteira foram críticas, menosprezo, rejeição e humilhações. Se aquelas pessoas esperavam por gratidão ou consideração, esperassem sentadas.

O que ele queria era que aquele pessoal sentisse na pele a rejeição que ele sentiu a vida toda. No ponto de vista de Fabinho, aquela gentinha tinha de agradecer, porque se fosse outro no lugar dele, por muito menos teria vindo armado para dar um tiro em todos ali. Ele não era assassino. Por isso não dava tiro. Nem era assim tão mau como pensavam. Só queria que aquelas pessoas fossem embora para sempre, sumissem. Fabinho estava disposto a oferecer uma fortuna a todos, mas que sumissem das vistas dele. Ele queria apagar qualquer lembrança do passado, sem deixar nenhum vestígio. Por isso ele iria demolir tudo para construir prédios de luxo.

Porém, por mais que tentasse, por mais dinheiro que Fabinho oferecesse, ninguém ali queria vender nada. Não adiantou oferecer nem mesmo um convite para sua festa, pois era óbvio que ninguém se interessava.

— Qual o teu problema, hein, Fabinho? — perguntou Bento. — Você não vai ganhar a sua herança hoje? Então pega essa grana e deixa a gente em paz!

Bento não conseguia entender por que Fabinho estava se comportando desta maneira. Sabia que Fabinho não gostava de ninguém dali, mas não imaginava que ele tivesse tanto ódio das pessoas. Mágoa por conta do abandono ele não tinha, do contrário, não teria ido atrás dos pais de sangue. Não iria se fazer de bonzinho para conquistar o pai.

Na opinião de Bento, não havia razão nem justificativa para Fabinho querer destruir as pessoas que o criaram e cuidaram dele. Ele passou a infância em um ambiente saudável, teve teto, comida, foi bem cuidado, bem tratado, e mais tarde foi adotado por uma família. Para Bento, Fabinho não tinha o direito de ser cruel com pessoas que ajudaram, que acolheram, fizeram o bem a ele. Era para Fabinho estar feliz. Ele encontrou os pais biológicos, iria ficar rico. Porém, Fabinho não estava fazendo nada de bom com isso. Fabinho queria porque queria comprar a rua, para mandar todo mundo ir embora dali. Bento não entendia por que Fabinho insistia em infernizar a vida de todo mundo. Por que não deixava as pessoas em paz? Será possível que ele não podia ver ninguém feliz?

— Ué, mas é exatamente isso que eu tô fazendo! — disse Fabinho. — Eu tô ajudando os meus pais de criação, os amigos, as pessoas que me viram crescer, né? Que ajudaram na minha infância toda.

— Que bom! E você vai fazer isso demolindo a casa que você foi criado pra construir um prédio? — disse Odila, furiosa, revoltada. — Maldita hora que eu trouxe você pra cá, sabia?

— Como assim? — perguntou Fabinho.

— É! É isso mesmo que você ouviu, moleque. — disse Odila. — Eu tirei você das mãos da tua mãe e trouxe você pra casa do tio Gilson.

Fabinho não sabia até então quem o havia deixado no lar do Gilson. Quando se encontrou com Irene naquele dia e ela lhe contou toda a história, ela acabou nem falando sobre a pessoa que o havia deixado no lar. Tudo o que ela disse foi que ela resolveu entregá-lo para adoção porque estava doente e que passou anos na ala psiquiátrica do HC. E ele também não fez perguntas sobre quem o tinha deixado no lar. Nem se lembrou de perguntar. Além disso, àquela altura, isso não tinha importância nenhuma para ele. Tudo o que ele sabia era que alguém o havia deixado na porta do lar do Gilson. Ele achava que era uma pessoa desconhecida, e nem seria preciso procurar a pessoa, pois já encontrara a mãe, que lhe contara tudo. Fabinho só se interessou em saber se Irene era realmente sua mãe, se ele era mesmo filho de Plínio. Agora, tudo mudou de figura. Ele ficou sabendo que não foi uma pessoa estranha quem o deixou no lar. Era uma pessoa conhecida, que esteve sempre por perto, que o viu crescer. Uma pessoa que sabia da história. Então foi Odila que o deixou no orfanato? Por que ela nunca disse nada? E por que ninguém lhe contou que foi Odila que o trouxe para o lar do Gilson? Mentiram, esconderam a verdade, deixaram-no pensar que foi uma pessoa estranha, provavelmente a mãe dele, quem o trouxe. Só mais tarde, bem mais tarde, ele soube que não foi a mãe, e sim outra pessoa quem o trouxe ao lar. Soube pela Irene, quando ligou para ela, para marcar um encontro. Bem que ele sempre sentiu como se estivessem escondendo alguma coisa dele. Nunca explicaram direito a história dele, de sua origem. Ele sempre achou a história muito mal contada. Fabinho achava muito difícil, se não impossível, que alguém tivesse o largado na porta do lar e ninguém tivesse visto.

— Você sabia quem era a minha mãe esse tempo inteiro e nunca falou nada? — perguntou Fabinho, furioso, revoltado, fora de si.

— É. Que pena que você ficou sabendo! — disse Odila. — Porque a Irene não merecia um filho tão ruim como você!

Nestor, que estava ao lado de Odila, balançou a cabeça, concordando. Odila pediu a todo mundo para não contar a Fabinho que foi ela que o trouxe ao lar do Gilson. Assim, ele não iria ficar atazanando-a com perguntas sobre a mãe, nem iria atrás de Irene para incomodá-la. Caso o garoto perguntasse, que lhe dissessem que foi uma pessoa desconhecida que o trouxe, mais nada. Que alguém, provavelmente a mãe dele, o deixou na porta do lar, e que ninguém viu quem era. E ela nunca disse nem para Fabinho, nem para ninguém, que a mãe dele era Irene Fiori. Irene pediu para não contar a ninguém, nem para o menino, então Odila não contou. Além disso, Odila quis poupar Irene. Porque Irene era doente, não tinha condições psicológicas de criar uma criança. Tanto que estava internada na ala psiquiátrica do Hospital das Clínicas, e quando recebeu alta, não deu mais notícias, nem mesmo para ela, Odila, e nem foi procurar o filho. Na opinião de Odila, uma criança como Fabinho só daria trabalho, problemas e desgosto, só faria Irene piorar. Irene também não tinha condições de sustentar o filho. Do contrário, já teria ido procurá-lo muito antes do garoto ter sido adotado. Do ponto de vista de Odila, se Irene quisesse procurar Fabinho, ou saber notícias do garoto, tudo bem. Mas Odila não diria nada a ele. E não disse. Não gostava dele. Não o deixaria atormentar a mãe verdadeira. Ela faria de tudo para ajudar Irene, mas não moveria uma palha para ajudar o canalha do Fabinho. Além disso, no raciocínio de Odila, Fabinho não prestava e se era para ele usar o dinheiro para infernizar as pessoas, destruir a vida de todo mundo, era melhor que não ficasse sabendo nunca quem eram seus pais. Ela não pretendia contar, porque temia a fúria do rapaz, ele iria se voltar contra ela. Só que estava tão revoltada que acabou soltando a informação sem querer.

Fabinho ficou revoltado. Ele foi o último a saber que foi Odila quem o trouxe para o lar do Gilson. Todo mundo ali sabia, e ninguém nunca falou nada para ele, em todos os anos em que ele viveu no lar. Tiveram chance de falar, e não falaram nada. Escolheram esconder dele. Disseram apenas que uma pessoa, provavelmente a mãe dele, o havia deixado na porta do lar do Gilson. Quando ele perguntou, lhe disseram que não sabiam quem o havia deixado. Que ninguém sabia quem era a mãe dele.

Ele concluiu que fizeram de propósito. Com certeza, a desgraçada da Odila havia pedido para ninguém contar a ele. E todo mundo ali compactuou com isso. Que ódio que ele tinha daquela gente! Odila simplesmente decidiu que ele não tinha o direito de saber sua origem, de procurar sua família. E por que? Porque a desgraçada não gostava dele, o julgava um mau-caráter e se achou no direito de poupar sua mãe Irene de ter um filho como ele. E isso quando ele era ainda uma criança, e ainda não havia cometido crime algum. Mas, no ponto de vista do Fabinho, não interessava se ele era mau-caráter. Bonzinho ou mauzinho, ele tinha o direito de saber sua origem, de ir atrás de seus pais, de saber quem era. E Odila, como todo mundo ali, lhe negou esse direito. Eram todos uns idiotas, na opinião de Fabinho. Não importava a opinião daquela gentinha a respeito dele, não tinham nada que ter omitido dele quem o havia trazido lá. Se não fosse por essa gentalha, ele teria procurado a mãe há muito tempo. Era para ele estar com sua família, levando a vida que merecia, a vida que teria sido dele se a vadia da Bárbara não tivesse armado para separar seus pais. E a desgraçada da Odila ainda disse que, por ela, ele não saberia de nada nunca. Ela nem pretendia contar, soltou a informação sem querer.

Então ele ficou doente por culpa dela. Ficou anos naquele lugar horrível, com aquelas pessoas horrorosas, por culpa dela. Dela e de toda aquela gentalha. Odila nem deu a chance de ele ir atrás da mãe, do pai, de fugir daquele inferno. Ele teve de ser adotado por uma família para sair dali. Fabinho queria que Odila sumisse, desaparecesse da frente dele. Ele não suportava nem olhar para a cara dela. Se ela não sumisse, era capaz de fazer uma loucura.

— Você vai me pagar! Sua desgraçada! — disse Fabinho, e sem refletir, perdeu a cabeça e agarrou o pescoço dela, quase esganando-a. Surtou completamente, ficou louco de ódio, nem pensou nas consequências.

Todos ficaram estarrecidos. Não esperavam que Fabinho reagisse dessa maneira.

— Ei! Ei! Tire a mão dela, seu canalha! — gritou Bento, tratando de separar Fabinho de Odila, puxando-o. Para Bento, nada justificava agredir uma mulher. Odila podia ter errado, mas ela pensou no bem de Irene. Irene devia ter pedido para ela não contar nada para ninguém.

— Vai embora daqui! Vai, sai! — disse Gilson, expulsando-o.

— Vocês todos vão ficar sem casa! — esbravejou Fabinho. — Eu vou comprar isso tudo aqui! Vai todo mundo pra debaixo da ponte do Piqueri.

Fabinho chutou as flores que estavam em uma caixa, no chão. A vontade era de chutar todo mundo ali, mas não podia, então chutou as flores. No pensamento de Fabinho, aquela gente havia desgraçado com a sua vida. Ele iria mandar todo mundo embora, deletar todos eles de sua memória. Não queria nunca mais ver as fuças deles todos. Fabinho não suportava olhar para eles. Não importava o que ele tivesse de fazer, aquela gentinha iria pagar caro. Ele não teria pena, porque não tiveram pena dele. Jamais perdoaria aquela gente por ter escondido a verdade. Ele destruiria todos. Já não gostava daquele pessoal. Agora que soube que esconderam informações importantes de seu passado, seu ódio se intensificou. Por causa daquela gente, ele cresceu órfão, longe da família. Aquele povo tirou tudo dele: o amor de sua família, um lugar de pertencimento e a vida de luxo que era para ter sido dele.

— Babaca, você tá louco? Eu vou dar um chute no meio... — gritou Giane, correndo em direção a Fabinho, porém Silvério a segurou.

Não opinião de Giane, Fabinho tinha todo o direito de se revoltar, mas nada justificava agredir Odila, nem ameaçar todo mundo de despejo, até quem não tinha nada a ver com a história. O fato de ele ter ficado rico não dava a ele o direito de prejudicar a todos.

— Chora, pobrada, chora! Chora! — gritou Fabinho.

— Pai! — reclamou Giane, porém, Silvério continuava segurando-a.

— Chega! Chega! — disse Silvério.

— Vambora! Vambora! — disse Fabinho, entrando no táxi e indo embora.

Fabinho foi direto para o laboratório. Plínio e Irene o esperavam lá. Ao chegar, Fabinho estava colocando o crachá, quando Bárbara chegou. Bárbara já havia recebido alta da clínica onde esteve internada e voltou para casa. Ela estava falando ao telefone:

— Amora, eu tô chegando aqui no laboratório... Fabinho?

Fabinho surpreendeu-se. O que Bárbara veio fazer ali? Então ela saiu do manicômio onde esteve internada?

— Macaca velha? Que honra, tudo bem? — disse Fabinho, ajeitando o crachá na jaqueta. — Veio fazer o que, prestigiar a minha vitória?

Bárbara tirou o celular do ouvido, sem emitir um som.

— Fala, Bárbara, o quê que você está fazendo aqui? O quê que você veio aprontar? — perguntou Fabinho.

No ponto de vista de Fabinho, boa coisa Bárbara não veio fazer. Bárbara sabia que Amora havia mandado Socorro adulterar o exame.

Amora não tinha segredos para ela, sempre contava tudo. Porém, na hora em que ia trocar os cartões, Socorro se confundiu, porque Fabinho havia dado um chilique. Socorro não tinha certeza se havia mandado o cartão errado para a análise. Amora estava desesperada. Os planos dela estariam arruinados se o exame desse positivo. Amora até pediu para Socorro correr para o laboratório para tentar pegar o resultado do exame antes de todo mundo, e conforme for, sumir com o laudo. Bárbara foi até o laboratório para ajudar Socorro a sumir com o resultado do exame. Ela resolveu enrolar Fabinho, até dar tempo para Socorro sumir com o laudo.

— Eu vim te implorar! — disse Bárbara, dramática, agarrando o rapaz pela jaqueta. — Não nos faça mal!

— Para! O quê que é isso? Quem soltou essa bruxa? — gritou Fabinho. — Não tem um negócio pra louco, aqui?

— Não, não, não, não, não! É verdade! Clemência! — implorou Bárbara, sem soltá-lo. — Jura que agora que você vai herdar essa fortuna você não vai destruir nem a mim e nem à Amora?

— Que nojo! Sai, sai, sai! — disse Fabinho, empurrando-a. — Eu não tenho nada pra destruir! Você já está destruída! Você não tem nada que se... Você tem aquela casa, aquela mansão que muito me interessa, que eu vou morar.

— A casa é da Malu! — disse Bárbara. — O Plínio já até pôs no nome dela.

— Acontece, burralda, que tudo que é da Malu, agora metade é meu. — disse Fabinho. — O Plínio vai rever isso e você vai arrumar a tua mala. É isso.

Fabinho queria ver Bárbara na lama. No que dependesse dele, Bárbara seria expulsa da casa e não iria mais usufruir do dinheiro do pai dele. No ponto de vista de Fabinho, ele estava fazendo justiça. Bárbara havia enriquecido através de um golpe, em cima do sofrimento dele e de Irene.

— Não. — disse Bárbara, agarrando-o. — Eu não acredito que você vai ter coragem de me expulsar daquela casa! A casa onde eu sempre vivi, onde eu criei meus filhos.

— Tá bom, Bárbara. Aquela casa tem uma edícula legal, né? — disse Fabinho. — Você fica na edícula.

Na visão de Fabinho, Bárbara que ficasse em um espaço minúsculo e deixasse a maior parte da casa para ele, Malu e os irmãos adotivos dela. Até porque ele tinha raiva de Bárbara e de Amora. Fabinho não tinha nada contra Luz, Kevin e Dorothy. No ponto de vista dele, os irmãos de Malu eram vítimas. Bárbara não os adotou por amor. Ela na verdade os usava para se autopromover, para posar de boazinha para a mídia.

— Na edícula?! — disse Bárbara.

— É, fica na edícula. — disse Fabinho. — E você vai ligar pra Amora agora e vai pedir pra ela tirar toda aquela sapatalhada do closet porque eu vou sair daqui e vou passar no shopping. E tudo que eu comprar, eu quero deixar lá, tá?

— Não, não, não, Fabinho! — disse Bárbara. — Você não pode fazer isso! Você, agora, faz parte da elite. Você tem responsabilidades sociais, morais. Você tem que fazer um bom uso da fortuna que você vai herdar. E você sabe que dinheiro não traz felicidade, não é?

Fabinho riu. Nunca pensou que ouviria Bárbara falar assim. Logo ela, que sempre fez tanta questão de luxo e conforto, e que abominava pobreza.

— É engraçado, sabia? Você falando isso. — disse Fabinho. — Eu estou vendo que vai ser legal, Bárbara. — passou a mão na bochecha dela. — Eu vou me divertir deixando você morar na minha casa. Tchau! Um futuro bem feliz tá me esperando ali. — apontou para o corredor. — Dá licença? — deu um beijo no rosto dela.

— Não, Fabinho! Espera! — disse Bárbara.

O rapaz não deu ouvidos. Foi direto para a recepção, onde estavam Plínio e Irene.

— Olha só quem está aí, papaizinho e mamãezinha! Que alegria ver vocês aqui! — disse Fabinho, abraçando Plínio, que estava com a cara amarrada.

— Filho, onde é que você estava, meu filho? — perguntou Irene.

Fabinho abraçou-a.

— Mãezinha, perdão. — disse Fabinho, irônico. — Daqui em diante, prometo ser o filho que você pediu a Deus. — riu. — Apesar de você ter me jogado na rua, né, que nem um vira-lata. Mas tudo bem, isso é passado. Ninguém liga.

Fabinho continuava revoltado com a história da Odila. Irene nunca contou a ele quem era a pessoa que o havia deixado no lar do Gilson. Ele não se interessou em saber quem era, não fez perguntas sobre a pessoa. Mas Irene podia ter falado. Além do mais, Irene não ligava a mínima para ele. Estava louca para vê-lo pelas costas.

Irene ficou triste. Por que o filho a estava agredindo daquela forma? Será que ele tinha raiva dela? Ele não percebia que ela o amava? Será que, agora que iria receber a fortuna, Fabinho decidiu mostrar o que realmente sentia?

— Nossa! Já estão todos aí. — disse Bárbara, chegando.

— Bárbara, o quê que você veio fazer aqui? — perguntou Irene.

Era óbvio que Bárbara não diria o verdadeiro motivo.

— Eu vim apelar pra consciência dessa criatura que você insiste em chamar de filho. — disse Bárbara. — Se é que ele tem alguma, né?

— Bom, já que o circo tá completo, vamos a grande revelação, né? — disse Fabinho. — Socorro, o envelope, por favor.

Socorro começou a procurar o exame entre vários envelopes. Porém, parecia que ela não estava conseguindo encontrar. Fabinho estava impaciente.

— Sabe o que eu estou achando? Que você tem problema. — disse Fabinho. — Você deve ter problema. Você está procurando isso aí há meia hora! Cadê o resultado? — berrou, batendo a mão no balcão. Ele não suportava olhar para a cara daquela desgraçada nem mais um minuto e estava louco para ver o resultado do exame.

— Era pra estar aqui! Mas a central deve ter mandado pra outro ende... Endereço. Às vezes, eles se enganam. — disse Socorro, nervosa.

Socorro fez de conta que não estava encontrando o envelope. Se o exame desse positivo, Fabinho herdaria a fortuna e infernizaria a vida de todo mundo. Ela estava na casa do Gilson quando Fabinho brigou com todo mundo da rua, gritou que iria comprar a rua inteira e mandar todos para debaixo da ponte. Ela sentia que sua vida dependia desse exame. Socorro não queria que Fabinho prejudicasse Amora e as pessoas que ela amava.

— Aí. Tá vendo a incompetência que eu falei semana... — disse Fabinho, furioso, batendo a mão no balcão.

Outra enfermeira resolveu intervir:

— Socorro, dá licença? Deixa eu te ajudar. Só um minutinho. Só um minutinho.

— É brincadeira, cara! — resmungou Fabinho.

— É Plínio Campana, não é isso? — perguntou a enfermeira, procurando entre os envelopes.

— É Plínio. É ele. — disse Fabinho, apontando para Plínio.

— É. É isso. — disse Plínio.

— Só um minutinho, por favor. — disse a enfermeira, folheando os envelopes até encontrar o exame no nome de Plínio. — Aqui. Não é esse?

— É. É que eu não vi. Estava colado num outro. — disse Socorro, pegando o envelope.

— Tá, tá, tá. — disse Fabinho, pegando o envelope das mãos dela.

— Desculpa, gente. — disse Socorro.

— Anta! Anta! Anta! — disse Fabinho.

Fabinho abriu o envelope e estava retirando o exame, quando Bárbara arrancou o envelope da mão dele. Ela não o deixaria ver o resultado, caso fosse positivo. No que dependesse dela, Fabinho não venceria.

— Me dá isso aqui! — disse Bárbara.

— Que isso, sua louca? Me devolve! Tá maluca? — gritou Fabinho, tentando tomar o envelope de Bárbara, porém Plínio o segurou.

— Você não é filho do Plínio. Você é filho do inferno! — gritou Bárbara.

Bárbara começou a amassar e a rasgar o envelope em vários pedaços. Estava morrendo de medo de o teste dar positivo.

— Não, dona Bárbara, por favor! — disse Socorro.

— Até na clínica, esse monstro vai me atazanar! — gritou Bárbara. — Olha aqui, não é porque você vai ficar rico, que você vai acabar comigo! Eu vou acabar com você!

— Eu vou dar na sua cara, sua vaca! — gritou Fabinho, avançando na direção de Bárbara, porém, Plínio o segurava. — Olha o que ela tá fazendo!

— Chega! Chega, Fábio, chega! Chega! — disse Plínio. Bárbara não prestava, mas ele não deixaria Fabinho agredi-la. Fabinho tinha de se controlar.

— Socorro, tira essa mulher daqui, pelo amor de Deus! — gritou Irene.

— Dona Bárbara, vamos beber uma água! Vem! — disse Socorro, aproximando-se de Bárbara.

— Eu vou mesmo, mas antes eu vou fazer uma última coisa. — disse Bárbara, antes de esbofetear o rosto de Fabinho.

— Sua maluca! — gritou Fabinho, tentando ir atrás de Bárbara e Socorro, que saíram correndo. Porém, Plínio o segurou.

— Para com isso! Para com isso! Para! — gritou Plínio.

— Meu filho! — disse Irene, aproximando-se de Fabinho e abraçando-o. — Meu Deus do céu, mas e agora? Ela... Ela rasgou todo o resultado do exame!

— Não se preocupem, eu vou entrar em contato com a central e vou explicar o que aconteceu, tá bom? — disse a enfermeira.

— Por favor, faça isso com urgência. — pediu Plínio. — Vamos acabar logo com essa história.

— Só um minutinho, por favor. — disse a enfermeira.

Como havia prometido, a enfermeira ligou para a central, pedindo que mandasse uma cópia do resultado do exame. Porém, o exame estava demorando para chegar. Fabinho ficou esperando, sentado no sofá, sem paciência. Fabinho não via a hora de pegar o resultado e ir embora dali. Precisava ir à festa que organizou para comemorar o encontro com a família e se apresentar como membro da alta sociedade. Não podia se atrasar.

— Essa central vai mandar esse resultado como? De caravela? Tá demorando muito, né? — reclamou Fabinho. — Daqui a pouco, eu tenho que ir embora. Eu tenho que me produzir pra minha festa.

— Interessante você dar uma festa pra comemorar que é nosso filho e não ter a consideração de convidar os seus pais. — disse Plínio.

Para Plínio, o fato de Fabinho não convidar ele e Irene para a festa só podia significar uma coisa: o garoto não tinha afeto por seus pais.

Fabinho achava interessante Plínio ainda querer ser convidado para sua festa. Plínio e Irene queriam vê-lo pelas costas, estavam contando os minutos para ele pegar sua parte da herança e ir embora, desaparecer. Na opinião de Fabinho, Plínio não merecia consideração alguma, pois estava oferecendo uma fortuna para ele sumir. Fabinho não fazia mais nenhuma questão de conviver com Plínio, não queria mais nenhum contato com ele. Só queria o que era dele por direito. Assim que recebesse a herança, iria sumir da vida do Plínio e da vida de Irene também.

— Ah, é? Vocês iam, né? Até parece. — disse Fabinho. — Estão loucos pra me ver pelas costas e vão na minha festa?

— Que isso, Fabinho? Não fala assim. — disse Irene. — Você é meu filho, eu te amo!

Porém, Fabinho não acreditava que Irene gostava sinceramente dele. No caminho para o laboratório, ele ficou pensando em tudo o que havia acontecido em sua vida nos últimos tempos. Estava revoltado com a história de ser o último a saber que Odila o levou para o lar do Gilson. Não gostava de ser feito de idiota. Além do mais, pensando melhor, se Irene o amasse, não o teria abandonado naquele lugar horrível. Não o teria entregue nas mãos da bruxa da Odila, que o desprezava a ponto de esconder informações importantes sobre seu passado. Para Fabinho era óbvio que Odila não sentia a menor culpa em separá-lo da família.

No ponto de vista de Fabinho, Irene nunca se importou com ele de verdade, do contrário, já o teria procurado muito antes de ser adotado. Ela alegou que não o procurou porque não tinha muitos recursos, e tinha medo de ter uma recaída. Mas ainda assim, Fabinho pensava que Irene podia tê-lo procurado depois que recebeu alta. Mas não, ela o deixou nas mãos de Odila (que nunca falou nada para ele) e nunca mais voltou para buscá-lo. Se Irene tivesse voltado para buscá-lo, ele saberia que ela era sua mãe, e ele não dependeria de Odila para saber a verdade sobre sua origem, sua identidade. Ele não teria descoberto quem eram seus pais por acaso, por um golpe de sorte, ao olhar uma revista. Se dependesse de Odila, de Gilson, Salma e todo o povo da Casa Verde, ele não saberia nunca.

Para Fabinho era evidente que Irene só se importava consigo mesma, estava mergulhada na própria dor e o deixou sofrer naquele maldito lar. Irene não tinha noção do mal que fez a ele, abandonando-o naquele lugar. E ela foi deixá-lo logo nas mãos da Odila. Fabinho sabia das razões de Irene, que ela estava doente e tudo mais, mas no ponto de vista dele, não justificava ela nunca ter procurado o Plínio, falado nada para Plínio sobre ele. Plínio podia tê-lo tirado do lar. Ele queria ter sabido por Irene, ou por Plínio, não queria ter sabido por Odila, e da pior maneira possível.

Durante anos Fabinho sonhou em encontrar a mãe. Esperava que a mãe fosse voltar para buscá-lo, tirá-lo daquele inferno. Mas agora, caiu a ficha. Ela o abandonou nas mãos de Odila e nunca o procurou, nunca se preocupou em saber como ele estava. Ficava só olhando de longe, espiando-o brincar com as crianças, mas não procurou saber o que ele estava passando de verdade. Ficava espiando e não vinha falar com ele. Ela podia não ser rica, mas ao menos teriam um ao outro. Ou ela podia ter dado a chance de ele ser criado pelo pai.

Quando a encontrou, Fabinho ficou feliz, porque sempre quis conhecê-la, saber de sua história, o que a levou a abandoná-lo. Não era apenas pela grana. Fabinho pensava que ele e Irene podiam ter uma chance de recomeçar tudo do zero. Ele esperava construir uma relação de afeto com a mãe. Estava disposto a perdoá-la, a não guardar mágoa. Tentou entendê-la. Tentou não ter raiva dela, vê-la como uma vítima e procurou culpar só a Bárbara. Afinal, ele queria ter de volta o que a vida lhe devia: a família biológica e a fortuna. Fabinho queria um lugar de pertencimento, uma família de verdade. Ele queria o amor da mãe, ficar rico e também esquecer que havia sido abandonado e fazer de conta que isso nunca aconteceu. Fabinho queria apagar, passar uma borracha no passado. Mas foi ilusão. Agora, ele se deu conta de que, pois mais que se esforçasse, não conseguia esquecer o passado, nem a mágoa e a revolta. Antes, Fabinho procurou passar por cima da mágoa porque para ele o que importava era ter a mãe de volta. Mas agora, acreditava que Irene não gostava dele. Na única vez em que ela foi visitá-lo, ela não escondeu que não gostava da companhia dele.

— Você me ama? — disse Fabinho, levantando-se do sofá. — Você me ama, mas me entrega pra primeira favelada que você vê, né? Pois é. Já tô sabendo que você me entregou pra Odila.

Irene chegou à conclusão de que Odila devia ter contado para Fabinho que foi ela quem o trouxe ao lar do Gilson. Se não foi Odila, outra pessoa devia ter contado. Mas Irene não estava entendendo a reação do garoto. Ela entendia que as pessoas haviam omitido dele que foi Odila quem o levou no lar do Gilson, mas ela se perguntava se ele precisava ficar tão revoltado. Será que estava furioso com ela? Ela não contou porque ele não perguntou. E se Odila não contou nada para ele antes, era porque ela, Irene, pediu. Irene se perguntou se ele estava revoltado por ter crescido longe da família, ou por causa da herança. Irene também não gostou de ver o filho chamar Odila de favelada. Era grata a ela. Odila a ajudou no momento em que ela mais precisava.

— A Odila é uma ótima pessoa. — defendeu Irene. — Foi ela que me internou no HC, depois que eu ti...

Fabinho ficou furioso. Só de ouvir Irene falar no nome de Odila, dava gatilho. Tudo o que se referia àquele lar, aquelas pessoas, desencadeava uma reação forte nele. Irene ainda por cima defendia aquela desgraçada, que escondeu dele aqueles anos todos quem era sua mãe? Além do mais, Fabinho não queria ouvir novamente aquela história triste que Irene contava. Não era hora para aquilo. Estava cansado de saber da história, e não gostava de drama. Além do mais, não era uma história agradável de se ouvir. Fabinho não gostava que Irene o lembrasse de como foi parar no lar. Era doloroso demais lembrar. Ele queria esquecer que viveu naquele lugar. E nada justificava todos terem escondido dele que foi Odila que o trouxe no lar. E o fato de Irene ter ficado doente não justificava ela tê-lo abandonado, não dando nem a chance de ele ser criado pelo pai.

— Ah, não! Pelo amor de Deus! — disse Fabinho. — Mais uma vez essa história de que você foi internada, milésima vez. Por favor, vamos melhorar esse astral aqui! Por favor, né, mãe?

Plínio ficou furioso. Será possível que o rapaz era tão insensível, que era incapaz de se comover com o sofrimento alheio, ainda mais da mãe dele? Custava ele se colocar um pouco no lugar dos outros?

— Você não tem educação, você não tem empatia, não tem respeito e não tem afeto por ninguém! — disse Plínio, furioso.

— A culpa é de quem? De um otário e de uma fraca, que caíram no golpe da canastrona da Bárbara. — disse Fabinho. — Quem pagou o pato nisso tudo fui eu. Mas tudo bem, a justiça vai ser feita agora.

Fabinho não conseguia entender como seus pais podiam ter sido tão burros, tão ingênuos, de cair no golpe da Bárbara, que nem era muito inteligente. E foi ele quem acabou sofrendo as consequências.

A enfermeira apareceu com o envelope contendo o resultado do exame.

— E aí? — perguntou Fabinho.

— Desculpem a demora. Aqui está. — disse a enfermeira, entregando o envelope para o rapaz.

— Finalmente. — disse Fabinho.

Fabinho abriu o envelope, porém demorou a tirar de dentro o papel do resultado do exame, fazendo suspense. Plínio estava impaciente.

— Vai! Pra que o suspense? Abre logo esse envelope! — disse Plínio.

O rapaz tirou o papel do envelope.

— Tá nervoso, né, pai? Coração. — disse Fabinho. Foi dando uma olhada no resultado o exame. — Plínio Campana, Fábio Queiroz...

Fabinho ficou em choque ao olhar o resultado. Não esperava por aquilo.

— O quê que foi, meu filho? Algum problema? — perguntou Irene.

O rapaz resolveu perguntar para a enfermeira o que significava aquilo. Não podia ser o que ele estava pensando. Não podia ser verdade.

— Eu não entendi. O que tá escrito aqui?

— Desculpe, mas o exame deu negativo. — disse a enfermeira.

— Como assim, negativo? — surpreendeu-se Irene. Ela não estava esperando por aquele resultado. Tinha certeza de que Fabinho era filho dela e de Plínio.

— Negativo. — disse a enfermeira.

— Dá licença. — disse Plínio, pegando o exame da mão de Fabinho. Ele e Irene deram uma olhada no exame. — É isso mesmo.

Fabinho ficou desesperado. Como podia ter dado negativo? Ele tinha certeza absoluta de que era filho do Plínio. Todas as evidências apontavam que ele era. Afinal, aquele anel havia sido deixado com ele. Tanto Plínio quanto Irene reconheceram o anel. Não era possível.

— Não! Tá errado! Claro que tá errado! — disse Fabinho. — Eu tenho o anel que minha mãe me deu! Sou filho deles!

— Quais são as chances de ter havido algum engano? — perguntou Irene.

— Praticamente nulas. Eu sinto muito. — disse a enfermeira.

Irene não conseguia acreditar. Não podia ser verdade. O exame só podia estar errado. Se Fabinho não era seu filho, quem era? Onde estava seu filho?

— Esse exame deu errado, tem que fazer outro. — disse Fabinho, desesperado.

— Nós podemos refazer, mas a nossa taxa de erro é praticamente nula. — disse a enfermeira.

— Não é praticamente nula, não! — disse Fabinho. — Aquela idiota que trabalha aqui deve ter feito alguma besteira, com certeza!

— Não, não, não, não, Fábio. — defendeu-se Socorro, que estava por perto, havia ouvido a conversa e se aproximou. — Você assistiu a todas as etapas do processo. Assinou o lacre, o cartão.

— Não tem problema! Mas deu errado! — disse Fabinho. — Tá escrito aqui que eu não sou filho deles! É óbvio que eu sou filho deles!

Fabinho não conseguia acreditar. Não era possível que tenha havido um engano. Não era possível que ele tivesse perdido tempo indo a São Paulo, atrás desta história. Então tudo o que fez não havia dado em nada? Ele sonhou a vida inteira em encontrar os pais verdadeiros. Não podia ser. Justo quando ele tinha a mais absoluta certeza de que encontrou sua família, que teria a vida que merecia, o exame deu negativo. E ele continuava pobre. Não podia ser, a vida não era mesmo justa com ele. Até poucos minutos atrás, acreditava que Plínio e Irene eram seus pais e ele havia se sentido especial pela primeira vez na vida. Agora estava sozinho, sem família, sem dinheiro, nem nada. Ele voltou a se sentir inferior. Nunca mais teria a sensação de ser uma pessoa importante no mundo.

Plínio, por sua vez, estava aliviado em saber que aquele rapaz egoísta e sem escrúpulos não era seu filho. Ele não podia ser pai de um mau caráter.

— Não é, não! — disse Plínio, abanando a cabeça. — Não é, não. Eu sempre soube que você não era nada meu.

— Plínio! — disse Irene. Plínio não podia falar assim com o garoto.

— Mas e a joia, pai? Eu te mostrei a joia! — disse Fabinho.

— Eu confirmo que dei essa joia à Irene. — disse Plínio. — Agora, eu não sei como é que ela foi parar nas suas mãos. Irene, vamos embora.

— Não, não, não. — disse Irene. Ela não conseguia aceitar. Fabinho tinha o nome que ela pediu para darem a ele. Ele tinha o anel que ela havia deixado. Ele tinha características da família do pai dela. Como assim, Fabinho não era seu filho? Se Fabinho não era seu filho, onde estava seu filho? Onde estava o menino que ela entregou para Odila?

Fabinho estava desesperado. Perdeu sua família e também a fortuna. Ele se sentiu como se o mundo estivesse desabando sobre sua cabeça, como se novamente estivesse sendo abandonado.

— O quê que você tá pensando? O quê que você tá pensando? Você tá indo embora? Você vai me abandonar assim? — disse Fabinho. — Eu tenho direito ao meu dinheiro! Aquela parte é minha!

— Você não tem direito a coisa nenhuma! — disse Plínio, descontrolado. — Você não é nada meu!

Plínio estava possesso. Será que o rapaz só pensava em dinheiro? Plínio pensava que o garoto estava daquele jeito apenas por perder a fortuna. Não por causa da família.

— Plínio, pelo amor de Deus! — implorou Irene.

— Mãe, por favor, mãe, fala pra ele, mãe, fala pra ele que eu sou seu filho. — implorou Fabinho, desesperado, segurando o rosto de Irene com as mãos. — Você sabe muito bem, esse exame é falso. Por favor.

— Fabinho, isso não tem importância. — disse Irene, colocando as mãos ao redor do rosto dele. — Eu nunca vou desamparar você.

Ele não queria amparo. Não queria migalhas. Ele queria era voltar a ser rico. Ter boa vida. Precisava se vingar daquela gente que só o fez sofrer. Precisava também preencher o vazio que o consumia. Como fazer isso, sem dinheiro? Ele tinha um pavor imenso de pobreza, de ficar vulnerável. Ficar pobre para ele era o mesmo que voltar para a infância. Isso o aterrorizava. Não era possível que ele não tivesse sorte alguma na vida.

— Que desamparar? Que desamparar? Eu não quero amparo, eu quero dinheiro! — gritou Fabinho, desesperado. — Eu quero o meu dinheiro, com exame, sem exame, esse dinheiro é meu! — agarrou o casaco de Plínio. — Eu vou esperar, nem que tenha que esperar a tua morte!

Plínio perdeu a cabeça. Fabinho havia ultrapassado todos os limites. Estava na cara que o garoto não se importava com ele. Só com a fortuna. Fabinho desejou sua morte. Plínio acabou dando um soco no rosto do rapaz.

— Plínio, não! — disse Irene.

— Some daqui! Eu nunca mais quero ver tua cara! — gritou Plínio.

— Pai! — disse Fabinho, magoado, com os olhos úmidos.

— Não me chame de pai. Não me chame de pai. — gritou Plínio. — Eu fiquei muito aliviado de saber que você não é meu filho, tá?

— Plínio, pelo amor de Deus! Não fala isso! — pediu Irene. No ponto de vista dela, Fabinho era um garoto impulsivo e imaturo, não sabia o que estava dizendo. Plínio não precisava dizer uma coisa dessas.

Fabinho estava magoado. Estava sendo novamente rejeitado. Foi abandonado ao nascer, e quando achava que finalmente havia encontrado sua família de verdade, descobriu que foi tudo um engano. E as pessoas que ele achava que eram seus pais o rejeitaram, o descartaram como se ele nada fosse. Ele não conseguiu ter o amor, nem o dinheiro da família.

— Estão me jogando no lixo, de novo. — disse Fabinho. — Vocês vão se arrepender.

Fabinho foi embora do local. Irene ficou desesperada. O rapaz estava transtornado, e ela morria de medo de que ele fizesse alguma besteira.

— Não! Fabinho! Fabinho! Fabinho! — Irene gritou, e foi atrás dele.

— Irene! Irene! Ele não é mais problema nosso, Irene! — gritou Plínio, porém Irene não deu ouvidos.

Irene continuou atrás de Fabinho, porém, não conseguiu alcançá-lo.